assim a gente vai ficando melhor

eu sempre digo, a gente faz terapia toma remédio cuida da saúde faz exercícios bebe água come legumes tempera bem a salada e come fruta pra acordar sem querer morrer na segunda-feira não porque o trabalho é ruim o trabalho não tem culpa de nada o trabalho é só o trabalho eu quando era mais nova sempre sonhei em trabalhar escrevendo e hoje meu trabalho é basicamente contar histórias então sim estou bem no meu trabalho o problema não é esse o problema é a segunda-feira é o pesar da semana é o primeiro dia que pode mudar o resto da sua vida é como se todos os dias precisássemos fazer algo revolucionário que possa gerar uma mudança no mundo dar um 360 em como as pessoas fazem as coisas fazer as pessoas olharem pra mesma coisa do mesmo jeito criar quem sabe até mesmo fã de banco é tanta tanta coisa pra pensar pra fazer será que a gente tem mesmo que mudar o mundo? às vezes dá vontade de não mudar coisa nenhuma só pra conseguir sobreviver às segundas-feiras daí, quem sabe, numa segunda-feira levantar antes do despertador e passar um café melhorzinho talvez colocar uma roupa bonitinha quiçá aumentar o volume do fone no máximo e ouvir os 3:53 minutos de tá escrito do grupo relevação ao vivo pra começar o dia com essa energia ERGA essa cabeça METE o pé E VAI NA FÉ manda essa tristeza EMBORA você ouviu? e assim a gente vive mais uma segunda-feira é assim que a gente passa pelo domingo é assim que a gente atravessa dezembro e renova as energias pra em janeiro começar a fazer as coisas com mais paixão voltar a pegar peso na academia aprender a correr do jeito certo fazer yoga antes de dormir criar um novo começo por dia criar um novo dia a cada dia não se permitir fazer as mesmas coisas não se permitir não fazer as coisas que mais fazem você feliz se permitir se permitir todas as coisas que só podem acontecer num domingo todas as coisas que só podem acontecer em dezembro se permitir fazer todas as coisas que fazem a gente viver 

tu tá sentindo saudade demais das coisas

essa semana minha amiga disse que eu tava sentindo saudade demais das coisas. e é claro que eu tô, mesmo. já passamos de 480 dias em casa. isso basicamente quer dizer 480 dias sem ver boa parte das pessoas que eu mais amo, inclusive essa amiga. só por aí já dá pra sofrer de saudade por uma vida. daí 480 dias sem beber uma cerveja sentindo o sol na cara. sem ir do paraíso à consolação depois do trabalho. sem parar no masp pra fumar um cigarro. sem ficar numa festa até o dia clarear. sem fazer amigos pra sempre na fila do banheiro. sem ir pra um encontro de gente de óculos falando sobre livros. sem ler minha poesia em público. sem tomar café fofocando no meio do expediente. sem correr no horário do almoço e voltar agitada pro escritório. sem precisar sair correndo pra pegar o ônibus. sem me atolar no último vagão do trem. sem ouvir podcast do tamanduateí à vila madalena. sem sair às 6 e voltar às 23h. sem ter a minha sala lotada de gente. é muito tempo sem muita coisa. é muita coisa pra sentir saudade. essa semana eu tô mesmo sentindo saudade de tudo que faz a vida ficar boa. mas a gente vai se virando. entre um botecall e um surto por áudio no whatsapp. uma hora essa loucura vai passar. tem que passar. tem que passar.

e com esse orgulho eu faço o quê?

engraçado que ano passado eu tava cheia de vontade de falar do orgulho, de amor, de ser sapatão em todas as escalas de cor. esse ano só tenho raiva. porque os números não mudam. porque o brasil continua sendo o país que mais mata os lgbtqia+. porque a gente continua tendo que fazer a phyna pra continuar empregado. porque nosso grito ainda é mimimi. porque nossas famílias ainda não são vistas como famílias. porque nossa vida ainda não tem valor. porque nossa luta não tem fim. e é exaustivo. repetitivo. punitivo. sobram dúvidas. eu demorei pra entender minha sexualidade. anos e anos achando que admirava aquelas mulheres. daí entendi e me pergunto: agora faz o quê? é só cortar o cabelo? qual o manual pra ser sapatão tardia? e todo mundo que eu já tinha dito que era hétero? preciso voltar e avisar cada um? ou deixa que digam, que pensem, que falem? deixo isso pra lá? e com o resto, faço o quê? faço o que com esse nó no peito a cada notícia, que agora fala dos meus? faço o que com esse medo de ser a próxima? faço o quê?

em tempos normais

em tempos normais eu teria sentado hoje, lá pelas sete da manhã, no fundo de um ônibus e teria escrito, entre uma curva e uma lombada, um texto sobre como é importante a gente ter coragem de ser. eu teria falado dos amores que já vivi, teria falado do amor que vivo, teria falado do amor que descobri ser capaz de sentir todos os dias. eu teria falado sobre como a nossa força inspira, como a gente tem que ser forte por quem não tem direito de ser forte, como sou privilegiada por ter familiares que me respeitam, como sou sortuda por ter amigos que caminham de mãos dadas comigo. eu teria dito muitas coisas. mas aqui dentro do peito e do lado de fora de casa o mundo segue acabando. e a gente sendo engolido. pelo medo. pela inércia forçada. pelos ataques que a gente nem vê mais de onde vêm. que a gente nem quer saber. hoje eu achei que queria esquecer que o mundo acha que eu não deveria estar aqui. mas a verdade é que quero lembrar. pra lembrar que eu tenho toda essa força. de ser apesar de não ser bem-vinda. de me mostrar apesar de ter quem não queira ver. de seguir sendo. tentando. lutando. todo dia. apesar de. apesar de. apesar de.

[dia 17 de maio é o dia internacional contra a lgbtfobia]

conta mais

sobre mim fica sempre difícil contar alguma coisa. primeiro porque eu não sei muita coisa, segundo porque eu mudo de ideia muito rápido. deve ser por isso que eu crio personagens: adoro justificar que, no final do dia e de todas as contas – e eu com certeza farei todas -, eu adoro justificar que eu só tava daquele jeito porque andei escrevendo sobre alguém e esse alguém fazia coisas que. quase nunca ando escrevendo. ando tendo tido, na verdade, lapsos de escrita em momentos em que estou parada, quase imóvel. mas já andei escrevendo. eu sou a pessoa que, sobre mim, já foi fácil dizer. mas agora anda difícil, porque, veja, eu faço um milhão de coisas. mais do que todas, escrever. e mesmo assim tenho escrito pouco. o que isso diz sobre mim? que tenho feito, veja só você, muito, muito pouco. mas já fiz muito, um dia. já fiz planos histórias aulas seminários zines livros que nunca terminei desenhos e já fiz amor, muito amor. já participei de momentos para os quais fui convidada e já me convidei para participar de momentos para os quais as pessoas jamais me convidariam. eu sou a pessoa para quem todo mundo vai voltar para contar uma história triste. eu já fui a pessoa para quem todo mundo volta com lágrimas nos olhos e sou a dona da casa de quem ninguém sai sem um sorriso no rosto. sobre mim fica difícil contar alguma coisa, porque eu passei a vida inteira colecionando resquícios alheios em mim e a minha pele é um emaranhado de tudo o que eu juntei. hoje, eu até gosto de olhar. sobre mim eu posso sempre dizer que amei. amei e amo profundamente os que me rodeiam e o café que faço religiosamente todas as manhãs. sobre mim posso dizer que as palavras que escrevo carregam a verdade que foi ou a verdade que será em algum ponto da vida. sobre mim posso dizer que vou ler todas as letras que forem possíveis, das bulas às odisseias desvairadas e despropositais de quem quer que seja. eu tenho uma certa tara pela má literatura. um tesão pelo desgaste literário que nunca soube explicar. um amor louco por pessoas reais que escrevem histórias surrealmente boas sobre personagens que pareciam ser só mais um qualquer. o meu maior sonho da vida é escrever uma dessas histórias e isso é tudo o que eu tenho tentado fazer desde que nasci. eu viro sempre um pouquinho de cada personagem que escrevo. deve ser por isso que sobre mim fica sempre difícil contar alguma coisa.

faz tempo que não consigo escrever

faz tempo que não consigo escrever e toda vez que não consigo escrever me forço a encarar uma página em branco como quem repete a fórmula que já deu certo. era comum, antes, eu sentar e começar a escrever palavras aleatórias que, em algum momento, se tornavam amigas, aliadas, poéticas. hoje não funciona: a página em branco não encontra a poesia nem quando tem hora marcada. tento, portanto, novos caminhos; e escrevo nos cantos de folhas quaisquer, faço rimas agudas, invoco beleza na tez do capital. quase rasgo. mas escrever, mesmo, não escrevo. as palavras ficam juntas pelo hábito. quem procura sentido só me encontra tentando.

de difícil já basta a vida

não é não ter estresse, tá ligado, é uma brisa de saber deixá-lo ir quando preciso for. e sem muito melindre: precisa? tem jeito? dá pra resolver? se é tudo não, então: não. manda embora. ergue essa cabeça, mete o pé, a coisa toda. entrei numas de que ia ser feliz a qualquer custo e, puta que pariu, que coisa difícil que tem sido, sabe? é um monte de soco na cara que a gente toma de amigo próximo, rola uma vontade atrás da outra de desistir, as vontades todas andando em linha reta, mas no início da fila tem eu e eu ju-ro que tô tentando não ser tão estressada e aí eu tô fazendo o que dá, sabe? tô fazendo como dá, tô botando aí mais vontades na fila, dando mais razões pra que eu mesma não entre em parafuso e morra sozinha com as minhas loucuras. eu tô tentando, eu juro que tô, porque disseram que dava pra viver com o estresse se a gente conseguisse equilibrar os pratinhos
da vida nos dedos e eu tô tentando, mas não tem nada mais difícil do que equilibrar coisas e eu sou sinceramente viciada em desistir e não dou a mínima pra esse papo furado de resiliência e insistir pra conquistar. eu gosto de coisa fácil, de difícil já basta a vida. e olha que dela eu não desisto.

um grito preso atrás do ouvido

o centro das atenções o tempo todo. você entra em um lugar e sente que tá todo mundo preocupado com você. com sua roupa, seu cabelo, seu peso, sua voz. parece que todo mundo sabe onde dá. e aí você tenta ser discreto. pensar mais baixo. cobre demais o corpo. pra ver se esconde a vergonha. fala demais e faz escândalo. pra ver se aparece mais do que um grito que nasceu preso atrás do ouvido.

todo mundo faz alguma coisa. tem gente que se omite e tem gente que imita gente e faz teatro. tem gente que faz festa. tem gente que dança pra ver se o balanço arranca isso daqui. todo mundo faz alguma coisa. tá todo mundo sempre fazendo alguma coisa pra ver se esse nó na garganta tem jeito de virar laço.