um texto de quem viveu 2017

sentei pra escrever esse texto umas quinze vezes. nunca pareço encontrar as palavras certas: logo eu, que falo tanto, escrevo o tempo todo e sempre tenho um pitaco pra dar. acontece que esse ano foi muito doido. eu comecei de cabelo comprido a viver 2017 e fui cortando. lugares, ocupações, hobbies, julgamentos, pessoas, palavras, medos, hábitos. fui cortando e sobrou só o necessário: quando vejo foto da mesma data do ano passado, não me reconheço. o óculos era outro, o cabelo muito longo, o sorriso menos largo do que deveria. e sempre fui de sorrir largo. mas tem excesso que a gente precisa cortar pra aumentar. tem excesso de medo, de mania – tem excesso de falta de coragem que faz a gente parar por tanto tempo. a gente só percebe que estagnou quando anda de novo.

no último ano, perdi a vontade de fazer cena. perdi a coragem de não me ouvir – que tarefa desafiadora essa de ignorar alguém que nunca te abandona. perdi o medo de perder: elizabeth bishop já tinha avisado que a arte de perder não é nenhum mistério. eu que nunca quis ouvir. perdi o medo e tatuei um monte de coisa que eu amo ver no meu corpo. tudo de uma vez. ouvi que era doida um milhão de vezes. sou. mudei o óculos e o ponto de vista: parei de usar remendos pra enxergar a realidade que tava na minha frente, sabe? aprendi a enxergar as coisas de forma crua e transparente, porque é mais fácil ser feliz quando a gente não se perde nas ilusões que cria porque quer. e cria porque quer ser mais feliz. é quase irônico.

foi nesse ano que eu entendi que cometo erros mil, mas que eles são parte do processo. que tem gente que usa a gente de apoio e que tudo bem, porque a gente faz isso com os outros sem notar, também. aprendi que a vida da gente é mais que a falsa estabilidade de saber pra onde ir amanhã de manhã. fui pra tantos lugares novos amanhã de manhã. falei sim pra umas coisas que até hoje não acredito. conheci gente da melhor qualidade. dancei até o chão, gargalhei altíssimo. atrapalhei várias reuniões, levei tantas outras nas costas. conquistei: clientes, pessoas, amores, inimizades. a gente conquista um monte de coisa sem perceber. tão bom sentir que a gente consegue conquistar gente boa. gente que fala da gente sorrindo, depois.

que delícia conquistar gente que imprime na gente uma vontade de quero mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer ir embora – que delícia ir embora de onde a gente não quer ficar. que delícia ficar onde a gente quer ficar.

fui embora mais cedo de shows, fiquei até a balada acender as luzes. abracei pessoas que me inspiram. ouvi artistas incríveis de pertinho. senti o que é viver a arte à flor da pele. criei tanta coisa boa. criei tanta coisa ruim. cantei e gritei a noite inteira e depois emendei num almoço de família. miei o rolê e dormi até mais tarde. me dei o dia de folga. trabalhei domingos inteiros. pedi o isqueiro emprestado, emprestei isqueiros mil. perdi isqueiros. perdi a hora, a paciência, a noção, a caneta azul, o tine, o rumo e a vontade.

a arte de perder não é nenhum mistério. um ano de perdas e ganhos. perder e ganhar são exercícios de vida. vivi. vivemos. que fique perto quem está disposto. paz e bem à quem não estiver. paz e bem à vida. e um brinde à nós, que somos ótimos. sempre ótimos. e seguimos. sobrevivemos.

graças a deus.

causa mortis

você entra no elevador e tem certeza que todas as mortes do século passado foram ocasionadas pelas pessoas que fumavam em elevadores. o ícone universal que proíbe sigaros em locais fechados, alocado bem na altura dos olhos dos viajantes daquela peça de metal, indica que querem que menos pessoas morram neste século que agora estamos. aí você sai do elevador e acende seu próprio sigaro sem jogar fumaça em ninguém pra morrer sozinho, se for o caso. anda pelas calçadas desniveladas e pensa que algumas das mortes deste século nada têm a ver com os sigaros e sim com tropeços de senhoras de setenta e tantos andando por lugares que seus andadores emperram e seus queixos, já frágeis, dão beijos de amor louco numa pedra fora de lugar in this sidewalk, baby. sidewalk esta preenchida por mulheres e homens carregando seus bebês protegidos do sol com uma manta quente que vai matá-los de hipertermia num futuro próximo. e aí você pensa que as mortes do próximo século serão majoritariamente de bebês protegidos do sol com mantas quentes por mães e pais que tentam evitar e causam. entra pra tomar um café no primeiro estabelecimento que vê e gasta quase vintchy reais num café com pão, entende que, na verdade, os sigaros mataram pouco e as mantas só fazem suar: o que vai matar a próxima geração são os preços exorbitantes dos cafés com pão. aí você anda mais, passa por umas bibocas esquisitas com a sensação de que está no lugar errado, chega no lugar certo, pega o ônibus pra casa e sobe as escadas, porque sua casa não tem elevador e os sigaros poderiam ser acesos sem causar uma ação genocida. entra no chuveiro, toma um banho frio. percebe que nada mata, a gente só morre. a vida acaba mesmo. que loucura. não pode acabar hoje, nem amanhã. você percebe que antes de acabar tem tanta coisa pra fazer. tanta coisa pra confabular sobre a morte. tanta coisa pra confabular sobre a vida, a maior e melhor fábula de todas. e senta. num lugar aberto, pra não matar ninguém. acende um sigaro. viva, enfim. vivíssima. 

tomar cerveja em são paulo e outros caminhos sem volta

eu nunca perco uma oportunidade de tomar cerveja na rua em são paulo. geralmente, me deparo com situações maravilhosas que fazem valer a pena quaisquer cochilos dados no metrô na volta pra casa. já conheci gente incrível em fumódromos diversos. já acabei em lugares diferentes com pessoas que eu jamais imaginei conhecer. já respirei o ar podre do baixo augusta (alguém ainda fala isso?) e o ar tarifado da oscar freire na mesma noite. já me meti a ficar zanzando pelo centro de são paulo pra ver “onde isso dá”. lugar nenhum, se querem saber. na roosevelt, geralmente. se bem ou mal acompanhada, deixo no ar. era de se esperar.

andar por são paulo é uma aventura doida. quem se atreve a sair do trecho baladas-na-augusta-ou-vila-madalena-ou-pinheiros consegue encontrar de tudo. sobretudo, gente. num mesmo final de semana, encontrei andando sem pressa por essa cidade um casal de amigos, uma menina que conheci em 2008 (quando ainda fazíamos fakes no orkut e vivíamos vidas baseadas em ações precedidas por um asterisco), um cara ótimo que eu não via há algum tempo e uma amiga que fazia um ano que não aparecia nem numa janela do whatsapp. fui da zona norte à sul, passei pelo centro e me enfiei na zona oeste em alguma parte do final de semana que, se você me perguntar agora, não vou saber te dizer qual.

tem que ter muita coragem pra viver em são paulo: é tanta coisa pra explorar que você sempre vai acabar encontrando alguém. ou alguma coisa. ou alguém meio coisa. ou uma coisa meio gente, que vai te fazer pensar em algo e te dar um estalo e você vai ter a epifania necessária pra fazer o dia inteiro diferente. e aí você vai pra um lugar que nunca imaginou, numa travessa de uma avenida que nem sabia que existia (mas tem doze bares, um copo sujo e duas baladas) e encontrar um cara que você não vê desde o casamento de 2014. nessa altura, já se divorciou e casou com outra. ou outro.

caminhar por esse buraco te leva a encontrar amores mil e perdê-los todos por entre os dedos, sem dar tempo nem de segurá-los. cê sente tanto gosto que já nem sabe mais o seu. e depois decora tanto o seu que não consegue mais se afeiçoar por gosto nenhum. cê conhece tanta gente nova que sente que tava perdendo tempo de vida e aprende a sorrir pra todo mundo que aparece, porque provavelmente o novo vem acompanhado de uma ótima história. quem vive por aqui aprende a ouvir histórias como ninguém e a construir as suas próprias usando mão-de-obra independente.

se um dia você acabar na zona norte, depois de uma festa que acontecia na zona oeste, pra onde você foi depois de um esquenta na zona sul, pare num boteco qualquer e peça uma cerveja. conhecer são paulo é tão longe de conhecer os lugares-de-sempre que posso te dizer que o maior ponto turístico é o metrô, que te leva pra todo canto. a cidade inteira é uma coisa louca, as regras não existem e não tem ninguém capaz de sair imune a esse caos. ainda mais se for são paulo de verdade, com copo sujo, um certo grau de dificuldade de acesso e um monte de moradores bairristas que nunca vão aprender a deixar a esquerda livre.

mas aí, cantam

os bons dias passavam tão longe
que eu já nem reconhecia mais o caminho
quando chegavam
batendo à porta,
pedindo licença,
passando pela sala,
correndo direto pro quarto
sem nem limpar os pés

eu não reconhecia mais
a sensação de ter paz
de não querer voltar atrás
de poder tomar um vinho
de me banhar com carinho
porque você vivia a me tratar
como se eu não merecesse nada mais
como se você não fosse capaz
de respeitar meu coração
que nunca te disse não
que te segurou a mão
o braço
as pernas
os joelhos, feridos
a cabeça
cheia
lotada dessas coisas
que eu nem tinha que lidar

meus amigos
meu terapeuta
dois bêbados num balcão de bar
e um amigo que fiz fumando fugida de você na praça
me disseram
quatro vezes cada um
que eu havia me metido numa cilada
que amor daquele jeito não servia pra nada
que era só um ponto final atrás do outro
uma coletânea infinda de reticências
que nunca tinham
verdadeiramente
mais
nada
a
dizer

eu sabia que não
que não podia aceitar
que eu não podia ser a única a me entregar
que do outro lado precisava ter alguém
que fosse
pelo menos
o mínimo, não pedi um cento,
mas pudera ao menos um vintém
que me servisse pra dormir bem
que prestasse atenção
e não repetisse perguntas
que ouvisse meu som
e não me cansasse com suas dúvidas

mas me acostumo com paixões bandidas
porque elas me destroçam
cansam minha mente
bagunçam meu peito
me fazem gozar da cortina pra dentro
e me fazem gritar da janela pra fora
me estilhaçam a vida
e me destroem inteira

depois que me quebram,
escrevem uma canção,
pegam o violão
e aí, cantam
distraídos
sem muita afinação
mas de forma branda,
quase com o coração
e eu me remonto toda
ao som daquela voz
que já disse tudo que não podia dizer
que gritou o que eu nunca mereci ouvir
que protagonizou meus pesadelos
me fez sangrar por entre os dedos
mas quando estão no tom
remontam meus estilhaços
e me aprisionam em seus compassos
dos quais eu
tentei me desvincular
mas
hoje
sei até recitar

eu nunca

você sempre, eu nunca. quem vira o copo? uma vida baseada em amores rasos que vão embora rápido numa peripécia infinda de tentar envolver qualquer coisa que não tenha nem solução, nem objetivo, nem questionamento, nem consequência pro caso de vir a acabar. a gente se envolve nas coisas pra quê, se nem objetivo têm? pra onde elas vão, afinal?

você sempre vai, eu nunca fico. a gente acaba no mesmo lugar, mas, o copo, quem vira?

eu viro a casaca, jogo no mundo, quero que o mundo se acabe em fel pra eu poder adoçar. você assiste o espetáculo e aplaude no final. se bato o pé no chão e jogo o braço pro céu, você segura minha mão e me beija pra me calar a boca. não dá pra te enfiar em música nenhuma, porque você canta todas e tudo te encaixa bem. eu sou uma coletânea riscada das canções do cazuza que ninguém nunca ouviu. exagerado é pouco e o amor que ele inventa não chega nem perto do amor que a gente criou. e que criação, ein?

moldamos a mão cada uma das curvas de uma estrada de barro, horrível de andar apé, pior ainda pra pneus de má qualidade como os do seu carro – que vive quebrado enfurnado em alguma oficina meia-boca que nunca vai resolver problema nenhum. e a gente anda mesmo assim. você, sem reclamar. eu, listando todos os contras. o único pró é que você tá junto. pra você, a paisagem vale o perrengue. esse copo, mais ainda, por deus, quem será que toma.

você sempre, eu nunca. eu nunca topo nada pré-agendado, detesto essa parada de ir sempre no mesmo lugar e caminho pela vida descobrindo pra onde tô indo a cada passo que dou. você sempre sabe pra onde vai, senta na mesma mesa do mesmo bar, pede a mesma cerveja pro mesmo garçom que já decorou seu gosto, seu rosto e seu cartão. você tava no de sempre, eu tava no de nunca. por acaso, dividimos o balcão. duas pingas, puras, sem limão.

você sempre, eu nunca.

quem vira?

diário de escrita: quando a inspiração não vem

eu nunca fui de textos longos, história compridas e coisas que durem. enjoo de tudo, o tempo passa mais rápido na minha cabeça e em um mês já vivi duas vidas. minhas relações não duram e eu sempre peço demissão antes da hora. escrever um romance tem sido um desafio diário.

eu ainda não enjoei da preta, mas tenho muito medo de quando isso acontecer. acho que o medo tem me paralisado. me inscrevi no nanowrimo e consegui desenvolver dois capítulos que gostei – todo o resto foi pro lixo e pro limbo da criptografia que o windows deve fazer com as nossas palavras tecladas que desperdiçamos apertando o delete.

na última semana comecei a ler um livro chamado “pornopopéia”, um neologismo escolhido pelo autor pra nomear uma história muito louca. o cara é muito fodido na vida (porque quer), toma decisões péssimas (conscientemente) e, se não fosse tão improdutivo, poderia ser o chnaski.

pelo menos o alterego de charles bukowski escrevia sobre suas imbecilidades. o zeca só cheira, bebe, fuma e come quem não devia.

sempre me disseram que eu procuro problema e não posso discordar. foi nessa história de um cara todo cagado e cheio de coisas que me deixam puta que encontrei um gás pra voltar a escrever. fazia tempo que não sentava na frente do computador e escrevia tanto, sobretudo na voz da preta.

o ricardo me inspira mais. tá aí uma novidade sobre esse livro: ele tem duas vozes. e isso foi outra decisão minha pra tentar contornar minha compulsão por novidades. é mais fácil escrever pelo ricardo, mas dele eu já enjoei faz tempo.

a preta é diferente de mim em muitos aspectos, exige muita pesquisa e preciso me esforçar pra não julgá-la, enquanto ser humano, e conseguir escrever sob a ótica de quem faria o que ela faz. eu não faria.

sair de si pra criar um personagem cujas escolhas não te apetecem é um desafio enorme. escrever em duas vozes, maior ainda.

esse livro me traz alguns medos:

  1. acabar tendo uma história com dois personagens mal construídos porque enjoei de ambos e não consegui estruturar nada;
  2. largar mão de tudo, deletar o arquivo e só escrever um conto com uma história que poderia ser um romance;
  3. não conseguir desenvolver tudo da forma como eu quero;
  4. criar um personagem tão pau no cu que nem com reza braba, pesquisa e más influências vou ser capaz de sustentar.

escrever é uma delícia. dá um medo…

o que me conforta é que, pelo menos, do medo eu não enjoo.

biografia

 

bem,

me pediram uma biografia
explicitar como é que eu ia
ajudar como eu podia
a entender que que tem
na cabeça dessa guria
que ora tá bem
ora, quem diria!
um furacão que ninguém imaginaria
ver bradando aos sete mares
as dores, os erros, os pesares
pintados à mão numa parede branca
um furacão que se personificou
pra vomitar seus defeitos
e organiza-los
entendê-los
encará-los
escrachá-los
um a um
mostrar pro mundo que é sempre tudo
que 8 ou 80 é pouco
que só adianta alguma coisa se tatuar pelo corpo as fraquezas
pra todo mundo ver
que que se foda quem quiser perder seu tempo
falando coisas como “você não vai acreditar!
ela dormiu numa mesa de bilhar,
fumou quatro maços de cigarro antes do dia começar,
trepou com aquela mulher,
e depois cantou uma canção
enquanto fazia cafuné
no rapaz que a interessou!”
vão falar que o decote é profundo demais
que ninguém deveria usar essas palavras antes das dez
que tem crianças aqui
que ela faz poesia porca
que não encanta ninguém, só choca
que arte quem faz são os grandes pintores que usavam azul pra esconder sua dor
e enquanto falam
e falarão
falarão
falarão
eu vou continuar caminhando por aí
com decotes até o umbigo
fumando todos os cigarros que minha vontade permitir
trepando com as mulheres homens and all the freaks in the middle que me fizerem qualquer coisa sentir
e se por acaso eu parar num bar
desses de esquina qualquer
com um cachorro na porta
e dois bêbados num balcão
e um deles me disser
que ouviu falar de mim
vou sentar ao lado deles
encher meu copo de cerveja
e perguntar
“o que dizem agora por aí?”
e deixar que os porcos
loucos
sujos
sem futuro
contem as histórias
que os limpos
sãos
críticos e estáveis
gastaram seu tempo
inventando sobre alguém
que respeita suas vontades
e escreve foda-se com seus defeitos
escrachados numa parede branca
une tudo
molda
e transforma num poema
que um dia eles vão querer citar.