por aí

já é meio manjada essa coisa de querer escrever e não saber o que daí se enfiar numas de chamar de fluxo de consciência o monte de tralha que assola a cabeça de qualquer panaca que se mete a escrever qualquer coisa. porque escrever é uma merda: você enfia o dedo na garganta e ninguém tá nem ai pro que vai sair, mas você sai mendigando atenção dos outros para olharem os restos de você que saíram à força d’um lugar que ninguém queria visitar. e aí começa a falar de coisas babacas e banais como a caixa de papelão cheia de roupas amassadas que fica do lado da cama da garota que te faz agir como uma completa idiota também. começa a escrever sem muito filtro sobre como é um inferno trabalhar tanto e como ninguém aguenta mais a sensação de que a vida não passa. ninguém é muita gente, quem não aguenta é você mesma. e aí pensa que essas reclamações talvez sejam masculinas demais e que a coisa desgraçada de beber demais, fumar demais e quase vomitar com o cheiro de cigarro nos próprios dedos é coisa de escritor fudido. mas aí lembra que você é uma escritora fudida, mesmo, e não tem muito como fugir. já é meio manjada a coisa do escritor fudido, mas, veja só, tão feminista que sou enfiei a porra da igualdade na pior parte possível. e agora sou uma escritora fudida tal qual tantos escritores fudidos que frequentam, sozinhos, bares sujos e pagam pouco por muito álcool pra ver se estabiliza alguma coisa de uma cabeça que nunca pára quieta se não estiver completamente tonta por causa do álcool. bebe demais, fala demais, alto demais. nada de poético ou de bonito em ser fudida. mas, escrevendo babaquices esses dias eu descobri, olha só, nunca quis ser diferente. então foda-se.

armários

eu nem queria sair do armário e me socaram pra fora porque começaram a falar que deus não era legal, porque, olha, veja bem: gente legal não é homofóbica nem segregacionista nem te julga porque você transa antes de assinar meia dúzia de papéis – na real, mesmo, se você for ler a bíblia vai entender que deus era legal sim porque quer que a gente seja feliz de verdade e não faz o menor sentido botar numa necessidade fisiológica o peso da fogueira do inferno, mas, tá, seguimos: me socaram pra fora do armário porque eu não suportaria nem a pau viver dentro daquele lugar escuro e sem cor, daí, bem, foi isso, saí do armário da religião pela porta da frente e, ao invés de viver livre leve solta, soquei todos os meus amigos gays dentro do armário da minha vida e fingi para papai e mamãe que não eram gays coisa nenhuma eram só duas amigas, só dois amigos, ele tava abraçando de pertinho porque é bem carinhoso mesmo, eu juro, não precisa nem questionar duas vezes, mas aí elas se beijaram lá e minha mãe viu umas mensagens e ok, é gay, que que tem, deixa serem felizes, eu não tenho nada a ver com isso: até ter e nossa, como eu tenho a ver com isso e o que é isso que eu estou sentindo?, se ela é uma mulher eu não deveria estar me sentindo assim, tinha que ser diferente, tinha que ser um sentimento de admiração e amizade, mas eu queria mesmo era beijá-la até o dia virar noite e continuar beijando depois que a lua aparecesse pra dar seu brilho pro céu e aí isso pra mim era ser feliz de verdade, porque ela me fazia feliz de verdade, então eu preciso fingir que não e, olha lá, me instalei dentro do armário de novo, mas cansei, não tenho mais idade pra mentir, e saí do armário pela décima sétima vez e caminhei pra fora com o peso do mundo nas costas e agora eu to andando por aí avisando pra todo mundo que perguntar que o beijo que eu quero de manhã vem de outra mulher e ela é a pessoa mais linda do mundo e a porta do armário não cabe mais no meu quarto e na verdade o que eu sinto por ela também é bem maior que aquele espaço e eu explodo o tempo todo porque sinto que se eu me apaixonar só mais um pouquinho por ela meu coração vai triplicar de tamanho e vou precisar de um corpo novo pra colocá-lo: o nando reis fala que tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém e, hoje, fora do armário, talvez eu tenha entendido tudo e queira muito não explodir e só tornar esse amor real e entregá-lo às mãos que seguram as minhas pela rua, em público, sem madeira nenhuma em volta até porque marrom é uma cor morta e ela é a pessoa que mais gosta de cores que eu conheço – espero que tenha sido por isso que ela tenha escolhido ficar comigo: eu gosto das cores todas e meus amigos dizem que eu sou uma das pessoas mais coloridas que eles conhecem e eu quero dar pra ela razão pra enxergar todas as cores que existem nesse mundo.