como diria Sérgio Vaz

a gente sabe muito bem como funciona. escolhe fingir que não, mas não dá pra fugir: a vida só é o que é. não tem grandes emoções, nem um grande apelo no final: é 1 mais 1 que soma 2 e nenhuma boa fé vai fazer dar 11. aliás, Sérgio Vaz diria: viver é foda. o resto é poesia.

até essa frase que, sem querer, rimou. é só coincidência. não existe uma motivação externa ou qualquer intenção da escritora, que bate nas teclas com um pouco mais de força que o necessário, de fazer soar melhor. a vida não é feita pra soar bem, a vida não é feita pra ter flores nas pedras. adélia odeia olhar pra pedra e ver pedra. adélia, minha querida: é uma pedra. qualquer outra coisa é sorte. coincidência positiva. às vezes, aparece uma flor. às vezes, elas nascem. é a natureza. há quem admire, há quem ignore, há quem escolha poetizar. verbalizo, sempre.

a vida como verbo de ação é o meu ponto de partida. o problema, veja só, é que a gente raramente chega em algum lugar. qualquer que seja. em geral, a gente não sai de onde tá. sobe de cargo, muda de emprego, vai pra mais longe, assiste um show, ouve um som, pinta, escreve, transa, canta, bebe mais que deveria, fuma mais do que deveria, se enfia em buracos que não deveria. e a vida te mantém sempre lá: aqui, a priori. intacta. estática. empática, por escolha, quem quiser. escolhas, coincidências, reticências. a vivência é só o impacto do tanto faz nas ações de quem sempre faz. o resto é poesia. tem que fazer. alguma coisa. qualquer coisa. ou não fazer. mas lidar, sempre lidar. com a vida sendo o que é – e só o que é. o que você está fazendo?

doze de junho

doze de junho é dia dos namorados e eu queria te desejar uma vida feliz. queria te dizer que faz algum tempo que a gente escolheu estar junto e que, mesmo que a gente não tenha dado nome, sonho com seu sorriso quando consigo dormir em paz. e, nos meus sonhos mais assustadores, quando alguém vem me salvar é sempre você. quando ninguém me salva, é em você que eu penso pra me acalmar quando acordo. e aí eu tô salva.

queria te dizer que desde que te conheci a vida tem sido mais fácil. nem um pouco por causa da vida. totalmente por causa do jeito que você sorri pra mim de manhã. do tamanho do seu cabelo. do formato da sua boca. do gosto do seu beijo. do cheiro do seu pescoço. do beijo que você me dá na nuca. do abraço que é só seu. do que transborda do meu peito quando você chega. e do tanto que eu gosto de te ver chegar.

doze de junho é dia dos namorados e eu queria que você soubesse que a sociedade só criou essa data pra vender mais coisas, mas tem tantos corações espalhados pela cidade que me parece um bom momento pra te dizer que cada um deles me lembra de você. que você criou, ou melhor, nutriu dentro de mim uma coisa tão linda que me dá vontade de cantar. estar com você me faz querer olhar de novo pra vida com um pouco mais de gosto. me dá sempre a sensação de que dá pra ser melhor: eu, as coisas, o mundo. dá mais cor pro cinza que eu vejo todo dia, mais motivação pras noites que eu preciso enfrentar madrugada adentro pra dar conta da vida que, bem, como eu já disse, nunca foi fácil por si só.

é doze de junho e, eu sei, tem muita coisa envolvida, vai além de só você e eu – mas, às vezes, eu acho que nem precisava ir, não. podia ser dez de junho e doze de junho pra gente, sabe? a gente se virou até aqui. e eu queria continuar me virando com você daqui pra frente. e mais e mais pra frente. e se você deixar, eu vou continuar aqui. tentando pisar menos na bola. tentando endireitar meu jeito torto. tentando te fazer dar uma risadinha, pelo menos. te escrevendo poemas. falando de você. decorando o  caminho que suas pintas fazem pelo corpo.

é doze de junho e, eu sei, eu sou cafona. tô aqui inventando mais uma desculpa pra falar de amor.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje. não é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. é uma parada: é mais ou menos como se a cidade inteira – ou a avenida paulista – parassem pra celebrar o orgulho lgbt no mesmo canto durante algumas horas. é a única data do ano que as pessoas não tacam coisas em pessoas no metrô por causa de arco-íris ou do seu tipo de amor. é basicamente o livre direito de circulação de pessoas lgbtq pra cidade. é mais ou menos assim: para aí, a parada é nossa. a cidade inteira, hoje, é nossa.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia. e é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. essa parada é ótima: a gente tá aparecendo. saindo do armário, sabe? pouco a pouco, porque ainda dá medo. é osso de aguentar gente falando na sua orelha, eu admito. é osso de aguentar parente falando que você nunca foi assim, por que agora é?!, como se fosse uma escolha de roupa nova do dia. é osso de aguentar ouvir que é amigo de quem a gente ama do fundo do peito. é osso de aguentar ouvir que a gente é bicho, é verme, é sujeira, é promíscuo. a gente não é nada disso, não, cara. a gente é gente boa demais.
a gente quer dar risada da vida e faz isso todo dia, quando dá. quando não tem um da gente morrendo, tomando lampadada, sendo sequestrado, sendo injustiçado no trabalho, sendo nivelado por baixo porque não deixa seu amor pra lá. a gente dá risada da vida quando consegue andar de mão dada sem ter que ouvir que é bonito demais para. a homofobia é uma merda, puta que pariu, que grandessíssima merda. mas tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje, tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia e, com sorte, vai ter uma parada gay acontecendo dentro de todo mundo um dia pra todo mundo entender que essa parada de ser gay não tem que fazer ninguém parar, não.
aliás, a parada é movimento, dança, é gente que se mexe, gente que quer fazer a roda girar, fazer a vida acontecer sem tanto drama, sem tanta trama, sem precisar criar esquema pra gente poder ser. a gente não quer ser gay – a gente nasceu gostando de gente e tá vivendo aí fazendo o que o peito diz que faz bem. tá bom ou quer mais? vou te contar: vai acontecer uma parada muito gay nos próximos dias quando eu encontrar a mulher que eu descobri que eu amo. e ela é linda, viu? muito, muito, muito linda. e a parada gay que acontece entre a gente tem tanto movimento que me leva mais pra frente do que eu jamais acreditei que pudesse ir. e acontece todo dia.
é uma coisa louca. dá até vontade de cantar daniela: a cor dessa cidade sou eu. quando eu tô com ela, o canto dessa cidade é todo nosso. eu quero movimentar essa parada pra gente poder ser movimento pra todo canto. essa parada que é um negócio tipo treco tipo bagulho tipo trem. tipo tudo isso. juntinho. igual a gente. que gosta de ser junto. juntinho.