por querer sem precisar

quando você não é rico, toda oportunidade de compra é uma conquista inenarrável. até pra comer hambúrguer. eu lembro que, dado momento da minha infância, tive uma vontade daquelas sobrenaturais de comer um hambúrguer do mcdonald’s. aquele que não, não é gostoso, mas carrega consigo algum status social. o sabor fica por conta do sorriso por trás do mclanche feliz, parece. eu é que não queria ficar sem. tive muita, muita vontade. e nenhum dinheiro pra comprar. a essa altura do campeonato, meus pais já viviam os dias cinzas em sua plenitude e eu podia, no máximo, numa boa semana, contar com um hambúrguer industrializado, comprado por unidade na geladeira de congelados do mercado, que seria colocado num pão francês dormido. pronto. fecha, joga um pouco de molho de tomate que já tava rendendo com água e come. hoje em dia, eu posso comer hambúrgueres. artesanais, temperados, com molhos, sabores, maioneses, acompanhamentos. peço com fritas, com onion rings, peço mais do que preciso comer, peço mais vezes do que seria saudável. e não consigo deixar pra lá: veja, se deu vontade, como vou abrir mão? sabendo que passei tanto tempo querendo sem poder ter? jamais. se quero, como. não passo fome, não passo vontade.
mas toda vez que abro o aplicativo e peço um hambúrguer desses que custam mais do que uma refeição deveria custar, eu respiro fundo e agradeço internamente à giovanna do passado que, veja só você, trabalhou tanto, se engasgou de tanto engolir tanto sapo, escutou tanto “não”, fez tanta coisa que me trouxe, eu, a giovanna do presente, até aqui, e agora eu posso pedir hambúrguer quando quero. eu conquisto um monte de coisa idiota com o maior sorriso do mundo na cara. eu conquisto hambúrguer e pizza e cerveja gostosa e hoje eu posso comprar um óculos novo sem planejamento e sem precisar deixar a dispensa vazia por isso. eu posso trocar de óculos porque quero e não porque preciso e é mágico poder enxergar a diferença clara entre quem faz por querer e quem faz por precisar. pobre só faz o que precisa.
a gente aprende que trabalhar é um fado do qual não dá pra fugir e passa a vida inteira fugindo de onde o trabalho pode levar a gente.
se com o seu trabalho dá pra ir viajar pro sul do país pra curtir uma praia, você foge disso e deixa o dinheiro guardado porque vai que. se com o seu trabalho você pode ir pra uma pousada bonitinha no final de semana, você foge disso também e guarda mais dinheiro porque vai que. a gente aprende que trabalho é necessário, que tem que economizar, que não pode extravasar, que felicidade de pobre dura pouco.
dura nada. pode durar um monte. você só precisa lembrar dos hambúrgueres que você não podia comer – e hoje pode.
e a partir daí, ir conquistando seu espaço, sua voz, seu hambúrguer de hoje. seja ele um pão com carne de segunda, seja ele um hambúrguer vegano artesanal com molho chimichurri. que você possa conquistar porque quer. que seja possível abstrair um pouquinho do preço das coisas. que a sua vida não seja sempre baseada no quanto custa. que um dia você possa olhar pro mcdonald’s e pensar: eu posso, mas eu não quero. porque melhor do que poder comprar porque quer é deixar de comprar pela mesma razão. talvez abrir mão por escolha própria seja a maior conquista possível pra quem passou a vida inteira correndo atrás de tentar poder. mal sabia eu: o poder já era meu. sempre foi.

Autor: giovanna marques

percebo as coisas com atraso e escrevo tudo pontualmente.

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