fora de casa

eu fiquei pensando que durante muito tempo minha única alegria era aquele matinho que tinha do lado de fora da casa da minha mãe. eu lembro de ficar olhando muito pra baixo e depois cada vez menos pra baixo, mas sempre olhando, percebendo ele crescer e notando como as coisas crescem e lembro de pensar que as coisas mudam mesmo quando a gente não fica olhando sempre, mas eu olhava. eu lembro que olhava de manhã e a noite já tava escuro demais pra olhar e tava sempre, sempre um pouquinho diferente. eu lembro de pensar que as coisas mudam mesmo quando a gente não olha e lembro que eu ficava torcendo sempre em silêncio meio assim escondido meio assim com vergonha mas sempre torcia pra que um dia quando eu chegasse em casa já de noite eu encontrasse minha mãe completamente mudada e diferente e eu pudesse olhar pra cima, pra eu poder ter uma alegria, pra eu poder olhar pra alguma coisa que crescesse e ficasse melhor e não ficasse do lado de fora da casa.

chá de boldo pra perdoar deus

depois de uma semana boa demais pra ser verdade pra minha cabeça e pras minhas dores e pras coisas que eu sei que vivem em mim, gastrite. fazia tempo. que as coisas não ficavam bem. que a gastrite não me abraçava tão forte. tomei chá de boldo. foi quase como o conto. perdoar deus. parar de inventá-lo. deixá-lo existir. perdoar a vida. parar de inventá-la, jamais. deixá-la existir, sempre. não por vontade. por necessidade. preciso dela pra novas invenções. pra mais chá de boldo. ele sempre volta. nunca inventei.