um trabalho que não gosto

não gostar do próprio trabalho é um privilégio de muitos. amar o que você faz não é sinônimo de não trabalhar um dia sequer, como dizem por aí. a frase correta deveria ser: “encontre um trabalho que você ama e não fique sem trabalhar um dia sequer”. um burnout aos 22 e três pedidos de demissões depois, preciso dizer que, hoje, sou privilegiada: eu tenho um trabalho que não gosto.

apesar de já ter amado meus colegas de trabalho, de já ter dividido a conta da cerveja com quem me pagava o salário, de já ter chorado bêbada no colo de quem podia me demitir, de já ter ganhado prêmios renomados, de já ter vivido muitos sorrisos em um escritório que eu amava, nada se compara ao prazer de não gostar do próprio trabalho.

o prazer inenarrável de não precisar se apegar aos detalhes, porque aquilo simplesmente não importa. a deliciosa sensação de poder sair no horário sem culpa, porque tudo aquilo o que se refere ao trabalho que você não gosta se torna desnecessário. a maravilha, o prazer, o deleite de se entregar às garras de uma última cerveja tarde demais em dia útil, porque o dia seguinte pela manhã, no trabalho que você não gosta, não importa tanto assim.

existem coisas para as quais ninguém te prepara e, vou dizer, essa é uma delas: ter o trabalho que você não gosta é uma oportunidade de construir pontes sem um cnpj envolvido. poder descobrir o lado bom das pessoas sem se preocupar com o que elas trabalham – afinal, quem tem um trabalho que não gosta, não quer falar dele pra ninguém.

eu, pelo menos, sei que não quero.

quando me perguntam como vai o trabalho, sempre digo: “ah, você sabe como é, né?” e deixo a vida ir acontecendo nas perguntas que se sucedem. quase sempre o assunto é cortado, quase sempre alguém pede pra passar o açúcar, quase sempre a conversa morre.

ninguém quer saber de você que tem um trabalho que você não gosta, todo mundo quer saber daquele cara que enche o peito pra dizer que às 05 da manhã já está lendo e respondendo e-mails. da mulher em uma saia lápis se orgulha das 14h consecutivas que trabalhou ontem. porque estar de corpo, alma e coração é definitivo para o futuro da empresa e que, ah!, ela se orgulha de precisar ir embora do happy hour pra trabalhar porque é assim: quando a gente ama o que faz, não se importa de fazer sacrifícios.

deus me livre.

vou até tomar mais uma cerveja pra garantir que amanhã eu chego atrasada.

 

Autor: giovanna marques

percebo as coisas com atraso e escrevo tudo pontualmente.

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