alma sebosa

mas, porra, é claro que tem uma razão pra eu não ter respondido suas mensagens, por ter silenciado suas postagens no facebook, por não ter dado like no seu parabéns na minha linha do tempo. aliás, eu nem entendo pra quê você ainda tenta falar comigo, sendo que na nossa última conversa eu deixei muito, muito, muito claro que eu não tava nem um pouco afim de manter relações com você. e já faz anos. eu deixei claro que diferença política não é igual time de futebol que a gente ignora e faz piada. e olha que eu já não gosto de me relacionar com gente que não reza pro cássio antes de dormir. a questão aqui, bem, é que diferença política mata gente, diferença política empobrece a alma. a sua é pobre e podre. e você ainda tem coragem de falar de deus. acontece que você me lembra um monte de coisa que eu não suporto. a ideia de você me dá nojo. você me lembra de tudo o que é pequeno, de tudo o que é arrogante, de tudo o que é feio, de tudo que não cresce, não muda e não evolui. você me lembra do que me angustia o peito e me lembra das pessoas que nunca lembram de ninguém porque estão preocupadas com coisas que não têm a menor importância. você é a soma de todas essas pequenezas e, nem assim, consegue crescer. continua sendo pequeno. minúsculo. pensa pequeno, vive pequeno, se limita no que escuta e não explora o que a vida pode ser. é disso que o johnny hooker fala quando canta alma sebosa. e tô pra te dizer que eu fiquei melhor sem você, não apenas sobrevivi. dá até dó. gente pequena não cabe no meu espaço. de você, e esse povo que vem no pacote com você, eu tô bem tranquila. nem passa amanhã.

o processo de todas as coisas

eu sou ruim com o processo de todas as coisas. meu maior pesadelo é a vida acontecer sem chegar a lugar algum.

isso me parece um jeito de explicar, por exemplo, minha fixação pela morte ou minha obsessão pela primeira frase de livros. elvira vigna, com muita sabedoria, começa seu “deixei ele lá e vim” com toda a força do mundo: “meire está ali, de pé na minha frente. sua cara é a única coisa que muda num mundo em que nada muda há muito tempo.”

Deixei ele lá e vim

esse trecho sempre fez todo o sentido do mundo pra mim. menos agora. agora, o mundo inteiro tá mudando o tempo todo. todo dia. de ontem pra hoje já mudou tanto que eu já nem sei mais se eu, se fosse elvira, reconheceria a mudança no rosto de meire.

as coisas estão mudando, a rotina está mudando, a casa já mudou. aqui, na nossa casa, a gente mudou a mesa de lugar. com isso, tudo tem outra cara. a tomada de sempre não tem utilidade. o lugar pra colocar as chaves não é mais o mesmo. e, no mais, o nosso corpo já é outro. a minha mente mudou. e, bom, vai continuar mudando. o tempo todo, todo dia.

e desse processo não dá pra fugir. dá pra tolerar. dá pra tentar levar de outro jeito. dá pra tentar levar com outra cara. dá pra tentar fazer as coisas serem mais leves. dá pra tentar fazer curso, aula online, especialização, yoga, jump, alongamento, ver live. dá pra tentar aflorar a espiritualidade, dá pra jogar tudo pro alto. dá pra fazer tudo, só não dá pra fugir.

e eu, logo eu, que sou ruim com o processo de todas as coisas, decidi nem tentar. decidi permitir esse processo acontecer. com os dias bons, quando eu acredito que vamos todos passar por isso da melhor forma possível, danço na sala de casa, dou um beijo bem gostoso na minha namorada antes de levantar e faço o café dançando. e, também, respeitando os dias ruins, quando não consigo fazer as letras da tela do computador terem sentido, o corpo não aguenta levantar da cama e o café fica fraco.

faz parte do processo. eu precisei aprender. e, se tiver sorte, quem sabe não aprendo a lidar com os outros tantos quando a gente conseguir descobrir onde tudo isso vai dar. porque, por mais irônico que seja, a gente não tem como sair imune dessa. ainda bem.

o ar condicionado e o meu perfil do twitter

estranhamente, acho que esse texto precisa de uma introdução. eu trabalhava em uma empresa onde, vira e mexe, o ar condicionado quebrava. o ar condicionado também não tinha um controle central e, por isso, era mexido todo dia pelas pessoas que, como em todo lugar, brigavam entre si pela temperatura ideal. isso é comum. a questão é que, nesse dia em que esse texto foi escrito, eu perdi o acesso à minha conta do twitter. fiquei inativa por pelo menos catorze meses. a conta já tinha muitos anos de vida, foi criada antes dos meus 13 anos (a razão pela qual eu fui banida durante uma varredura e pente fino do twitter para confirmar a idade dos usuários) e eu tinha muita coisa guardada lá. na época, eu usava a rede social do jeito certo e vivia twittando sobre toda e qualquer coisa. no primeiro dia, tive a ideia de escrever tudo no mesmo texto, como num fluxo de consciência, o que eu postaria no twitter em situações normais. nunca tinha lido, desde que escrevi. gosto do resultado e resolvi dividir. pronto. agora vai.

“o ar condicionado da sala de reunião quebrou e tá muito quente aqui. eu comi muito, muito mais do que deveria. sabe o executivo do boteco da esquina? comi inteiro com duas porções de feijão, uma eu roubei do meu amigo que pediu uma carne de panela e achou que não combinava – eu acho que combina. feijão sempre combina com arroz e outros molhos. até com estrogonofe. desculpa, sociedade. voltei do almoço com tanta comida no estômago que não consegui acender um cigarro na volta pro escritório. cheguei querendo fumar um cigarro. tá muito quente aqui. será que, se eu acender um cigarro aqui, vai pegar fogo em tudo? espero que não. afudê é do caralho. ficou tudo do caralho. depois de tanto tempo de trabalho, muito, muito trabalho, deu tudo certo. afudê. quando respondem kkk pra não bater em você: acho engraçado. kkk. o bruno bandido escreve risadas do mesmo jeito desde 2009. sei disso porque tava lendo os textos dele de 2009. hah. ele ri assim. três letrinhas. acho quase escroto. kkk. alguém conserta o ar condicionado, pelo amor de deus? a vida é uma merda e de vez em quando, quando você vai atravessar a rua, o sinal abre. hoje é dia do escritor e eu terminei de ler o livro do vitor. o martins. tá calor. queria fumar um cigarro. eu gosto do meu isqueiro novo. meu nariz tá muito entupido. esse tempo tá uma merda, tô doente de novo. consertaram o ar condicionado. tô apaixonada de novo pela jade baraldo. queria estar assim com a menina que eu gosto. não apaixonada. apaixonada eu tô.”