PCP #01 – eu gosto de mulher

PCP. Plano de Contingência de Pandemia. Este relato é, e não há a menor intenção de ser algo além disso, uma cápsula do tempo aberta. Como não é possível prever ou gerenciar os acontecimentos dos próximos dias, semanas, quiçá meses, torcemos para que não anos; como não é possível prever ou gerenciar, vou registrar. 

Coisas impossíveis e improváveis acontecem em pandemias. Você também não deve saber disso – a não ser que você seja a Rainha Elizabeth e, nesse caso, should I be writing with an accent? Penso com certa frequência se, em algum momento, alguém imaginou que estaríamos em 2020, trancados dentro de casa, sofrendo de calor em apartamentos sem varanda, falando por videoconferência uns com os outros e evitando, a qualquer custo, todo e qualquer momento de reflexão, tentando não surtar. 

A parte do isolamento e superocupação para evitar a reflexão é até comum, eu sei, mas o isolamento obrigatório e a superocupação com LIVES, dificilmente. Eu não tenho nada contra as lives. Acho ótimas. Assisti Zeca, Manu Gavassi, Marília Mendonça, Ana Carolina e gritei muito por dentro. Mas a gente precisava mesmo de tantas? Fica difícil pensar. Inclusive no que diz respeito aos horários. 

Os horários são cruciais para o desempenho da live. A live da Manu, às 19h, aconteceu em um bom horário, porque cabia ali embaixo da última reunião. Começou junto da primeira cerveja. Quando a live acabou, eu ainda tinha alguma dignidade. A da Ana Carolina, mi-nha-mi-ga, complicou. Sexta-feira, 21h. A chance da cerveja já ter batido é gigantesca. O expediente acaba às 19h, a primeira cerveja vem uma hora antes. Porque é sexta. E o vírus quer matar todo mundo e eu não vou morrer sem tomar essa cervejinha.

Fui lá, abri uma cerveja, comecei um esquenta alto astral, cantando que se não for por mulher não saio nem do lugar. Continuo trabalhando, fechando os últimos detalhes para começar a próxima semana bem. Mulher de corpo inteiro, não fosse por mulher eu não era roqueiro. Eu não sou, você é? A Ana Carolina não. Grito MULHER PRA PRESIDENTE! Listo todos os detalhes pra ter o final de semana tranquilo. EU-GOS-TO-É-DE-MU-LHER! Abri a segunda cerveja ainda na primeira música. Bom, assim não vou precisar pensar em mais nada. Já anotei que preciso revisar calendário, lista de tarefas, bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Mulher eu já provei. Eu sei que é bom demais, o resto eu não sei. 

Nesse ritmo, quando terminei de dar check em todas as caixinhas do organizador, já estava com as duas pernas em cima da cadeira, abraçando os joelhos e cantando que EU SUBO BEM ALTO PRA GRITAR QUE É AMOR e endossando o trocadilho mais sem-vergonha da música brasileira: e eu vou de escada pra e-le-var a dor. 

Às 21h eu tava bêbada. Dançava com os braços erguidos, andando com a cadeira de rodinhas pela sala. Na TV, um vídeo da Ana Carolina com Angela Ro Ro num improvável clima sensual ao cantarem que gostam de homens e de mulheres – e você, o que prefere? Eu dispenso homens de sobretudo e gosto das mulheres, melhor sem sutiã. Levanto. Danço. Rodopiando, segurando a quarta lata de cerveja. Ana Carolina entra ao vivo. Quando começa a live, já estou completamente entregue à inevitável nostalgia que aparece no primeiro acorde de qualquer música do disco Ana Rita Joana Iracema e Carolina.

Chorei? Chorei. Estou sofrendo, realmente, em minha vida? Não estou sofrendo. Não deveria estar. Pensei: deve ter algo a ver com os astros. Fui buscar. Pois bem: vênus. Retrógrado. Em gêmeos. Honestamente, nem sabia que os planetas ficavam retrógrados EM SIGNOS, mas veja só: ficam. Em Gêmeos. O que significa, em resumo, que o passado vai voltar pra te fazer ver se gosta do caminho que sua vida tomou. Até dia 6 de agosto, diz aqui. A resposta é que eu gosto, SIM, porque PLANEJEI CADA PASSO. Então, imediatamente abro minha agenda. Até dia 10 de junho preciso pensar no que dizer caso eu seja agraciada com o retorno de alguma das pessoas com quem me relacionei. Coloco dois lembretes: dia 10 penso e escrevo, no dia seguinte reviso. Dia 12 tudo estará pronto e, se a solidão pandêmica causar algum lapso de carência no dia dos namorados, estarei preparada. 

Com isso, somado ao meu contato que sempre adianta a data das lives de Marília Mendonça, fico sempre afrente das possíveis discussões. Mal assisti a última, tamanha a comoção de uma ex que insistiu que havia se apaixonado pelo o que havia inventado de mim e, por isso, estava ali de corpo e alma para me conhecer de verdade. Como se eu quisesse. Previsível. Mal precisei ajustar o texto que tinha planejado.

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Esse é o primeiro texto da série Plano de Contingência de Pandemia. 🙂

Autor: giovanna marques

percebo as coisas com atraso e escrevo tudo pontualmente.

2 comentários em “PCP #01 – eu gosto de mulher”

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