pcp #07 – como nossos pais

Decidi que preciso ser mais inteligente. Pensei nisso porque, veja só, tinha uma louça gigantesca em cima da pia e eu sequer sabia por onde começar. Como uma pessoa sozinha consegue fazer tanta louça? O detergente daquele plástico que fica em cima da pia tinha acabado. Buscar mais detergente parecia um bom jeito de começar. O único, na verdade.

Fui na lavanderia, descobri que a embalagem que eu estava pegando era a última e, antes de voltar pra cozinha, adicionei “comprar detergente #Rappi” ao Todoist. Voltei pra pia e comecei a organizar os pratos antes de lavá-los. Comecei a pensar, muito, sobre os pratos. Em um dado momento, precisei decidir se a louça ficaria mais compacta ou se eu optaria por não deixar a gordura de algumas coisas tocar em todas as coisas, espalhando em diversos grupos pela pia, fogão e bancada. Pensei muito. Mais do que seria necessário, porque, afinal, é só uma louça. Uma grande louça, mas apenas uma louça. Fiz muito esforço mental. E percebi que precisava dar um jeito disso ser mais leve e natural, porque eu nunca fui bonita e sempre quis ser inteligente então se não conseguisse decidir algo tão simples sobre a louça, nunca ia conseguir ser inteligente. E, francamente, que pessoa inteligente gasta tanto tempo pensando na louça acumulada na pia ao invés de simplesmente lavá-la?

Pessoas inteligentes, invariavelmente, sabem o que fazer. Pessoas produtivas, e essas palavras são do David Allen, deveriam ter suas mentes claras como água. A tradução para o português é meio borocoxô, mas a ideia é ótima. Me lembra, inclusive, de um conto do David Foster Wallace em que ele nos lembra que, às vezes, estamos imersos nas coisas e esquecemos que estamos imersos nas coisas. O conto narra a história de dois peixinhos que estão nadando juntos e dão de cara com um peixe mais velho, que cordialmente os pergunta como está a água (igual quando nós, humanos, nos encontramos no elevador com alguém e perguntamos como está o clima lá fora). A questão no conto é que os peixinhos sequer sabem o que é a água, apesar de viverem nela. O ponto é mais ou menos esse: ter a mente clara como água é lembrar: onde estamos, quem somos, para que serve o que estamos fazendo, com o que estamos nos relacionando, o que queremos manter em evidência. Dá até pra resumir: ter a mente clara como água é ser capaz lembrar. 

Um bom tempo atrás, como uma epifania, entendi que, assim como a de Belchior e Elis, minha dor é perceber. Sem o resto da frase. Perceber, nunca conseguir ignorar, sempre me atentar, sempre me manter alerta. É cansativo perceber. Desde que percebi, sigo tentando diminuir essa dor, transformá-la em recurso, qualquer coisa assim. É até meio coach. Fazer com que a dor tenha algum sentido, que seja um insumo, que leve pra algum lugar.

Sempre sofro por pouco, porque percebo muito o tempo inteiro. Hoje, em específico, percebi que fazia mais sentido compactar todas as coisas da pia para que ocupassem menos espaço. Mas demorou tanto, tanto, tanto. Às vezes, a gente só precisa perceber que, a longo prazo, pouco importa a escolha. Às vezes, a gente só precisa perceber que, a longo prazo, a gente só precisa lavar a porra da louça. Às vezes, meio que foda-se o que a gente percebe. E, quando a gente percebe que foda-se, dói ainda mais. Viu? A dor é perceber.

< anterior | sobre o pcp | playlist com todas as músicas citadas no pcp | próximo >

Autor: giovanna marques

percebo as coisas com atraso e escrevo tudo pontualmente.

3 comentários em “pcp #07 – como nossos pais”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s