pcp #08 – entra no clima

Sempre me falam que o excesso de organização é danoso, porque nos coloca numa parada de tentar controlar tudo e isso é sofrido é ruim etc. Acho balela, escuto atentamente e ignoro solenemente. Sempre. Foda-se o que falam. Controlar tudo é uma delícia. A organização me dá uma paz de espírito que mais nada, no mundo, nunca, jamais, em nenhum momento, chegou a dar: a tranquilidade de saber que as coisas têm jeito.

O GTD, método de organização que eu sigo, diz que a gente precisa capturar as informações que a gente recebe na hora que a gente recebe. Isso ajuda muito no dia a dia, pra evitar de deixar as coisas passarem batido. Olha só como é importante: o método de organização que eu sigo me ajuda a não deixar a vida passar batida. Putz, tô até arrepiada. E ainda nem cheguei onde eu queria chegar. 

Dia desses, no meio da fissura de fazer almoço com um call marcado pra daqui 45 minutos e um documento pra revisar antes do fim do dia, derrubei uma caixa inteira de palitos de dentes em cima da pia, que tava suja com sangue da carne que eu estava cortando para cozinhar para o almoço. Eu quase me desesperei. Quase. Mas, por hábito, parei e pensei: “o que eu preciso fazer para resolver isso?”. Não era uma opção surtar. Juntei todos os palitos e joguei fora. Lavei as mãos. Adicionei ao Todoist: “comprar palitos de dente #Rappi”. E voltei a fazer a carne. 

Gente, vocês ENTENDERAM? Eu facilmente teria surtado. Profundamente. Mas aí eu fiz o que precisava fazer pra resolver. Porque é assim que as pessoas que se organizam funcionam. Elas pensam nos próximos passos. Elas pensam na vida pra depois de só agora. É um planejamento pra evitar mais problemas. É um planejamento pra gente saber que a vida tem jeito.

É engraçado, quase engraçado, eu sei, mas veja só: quando eu comecei a me organizar, tinha problemas bem sérios, que me tiravam o sono. Umas dívidas homéricas feitas pelo excesso de uso do cartão de crédito e por tentar parecer estar em uma classe social e ter um status que eu nunca tive – e provavelmente não terei. Não terei porque não quero e hoje sei que não quero, mas não sabia. Precisei me organizar pra descobrir. E, quando comecei a me organizar, encontrei alguns impasses. O maior de todos encontrei no espelho: chorei muitas vezes no fim do dia por não dar conta da infinita lista ideal de coisas que queria fazer em cada dia. 

Tive dificuldade em aceitar que eu não era capaz de fazer tudo aquilo que estava me propondo a fazer. Porque, sim, é uma delícia preencher os quadradinhos dos apps de produtividade e ficar pintando a folha do bullet journal pra fazer o planejamento ficar lindo. E, cara, não tem nada mais prazeroso no mundo, nem uma foda muito bem dada, do que terminar o dia riscando todos os itens de uma longa lista de tarefas. Mas isso não é a vida real. A vida real tem empecilhos, imprevistos e repriorizações, o tempo todo. A vida real não se ajusta a 3 projetos que exigem trabalho concentrado no mesmo dia. A vida real, ainda mais em quarentena, ainda mais trancada em casa, ainda mais com recursos limitados, não aceita exaustão mental como regra. A gente surta.

Meus amigos, Arlindo já cantou que esse jeito de quem tá sofrendo tá destoando do nosso astral e a gente assim fica feia, a gente assim fica mal. A organização foi o que me permitiu ser mais feliz. Ter mais visão do que eu priorizo, do que eu quero fazer. Mesmo que isso signifique criar uma tarefa enquanto escrevo esse texto pra lembrar que preciso checar onde está a minha encomenda. Porque se eu abro a tela do Todoist e adiciono essa tarefa, eu não preciso pensar nisso. Eu sei que não preciso pensar nisso. E aí eu posso pensar em coisas muito mais legais.

Consigo lembrar que a semana que vem vai ser difícil, mas já está tudo organizado e vai até dar tempo de trocar uma horinha de ideia com as minhas amigas pelo Hangouts. Vai dar tempo de ajudar a colega de trabalho com um projeto que parece legal. E, quem sabe, vou ver um ou dois filmes que estão na infinda lista de coisas que quero assistir, que me indicam. Quando a gente organiza o necessário, a gente abre espaço pro eventual e a vida é feita do que é eventual. A organização planeja pra que a gente possa viver fora dos planos. Tem coisa melhor? Arlindo tinha mesmo razão: a vida é sofrida, mas ainda é boa. A gente se planeja pra não se perder no sofrimento. É difícil, mas se organizar direitinho…

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Autor: giovanna marques

percebo as coisas com atraso e escrevo tudo pontualmente.

3 comentários em “pcp #08 – entra no clima”

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