pcp #09 – malemolência

Coloquei a máscara pra buscar as encomendas na portaria e, assim que pisei pra fora do apartamento, minha cara começou a coçar. Inteira. Todos os poros do meu rosto estavam coçando. Eu queria enfiar o dedo no olho e esfregar até ficar vermelho e lacrimejar. Meu nariz coçava tanto que parecia que tinha uma pena dentro dele, dançando ao som de Malemolência, da Céu, bem slooowwww dowwwwnnnnn… 

PUTA QUE PARIU. Eu achei que ia morrer. Achei mesmo. Fiquei fazendo careta com o nariz encostando na boca e quase alcançando as bochechas de tanto torcer. QUEM DEIXOU COÇAR ASSIM?, eu cantei pensando na pena que dançava Malemolência, literalmente, embaixo do meu nariz. Literalmente metaforicamente. Eu tava implorando pra porra da pena parar de dançar a porra da roda da malemolência.

Céu, te amo, mas não tava dando. Cheguei no portão. O entregador claramente confuso com as minhas feições tortas. Avisei “tá coçando, tá foda”. Ele tirou a máscara pra me responder que coçava mesmo aí ele fazia assim, oh, e usou a própria máscara pra coçar o nariz. Fiquei pensando se ele estava muito certo ou muito errado. Tava coçando demais pra chegar a qualquer conclusão, mas, depois de tê-lo visto tirando a máscara pra me responder, pensei que talvez ele não fosse a pessoa mais indicada para me dar recomendações de segurança.

Segui forte. Piscando os olhos com força para ignorar a coceira e torcendo o nariz no ritmo da música que tocava em looping na minha cabeça. Uma versão específica, ao vivo, com nuances e dançando com outras músicas. A pena hipotética dançava no meu rosto inteiro, agora, e senti minha orelha coçar. Fechei o portão com o pé e me senti livre para voltar a fazer caretas nada sutis, agora já de costas para o entregador e meio-que-correndo de volta pro meu apartamento. Aqui não tem elevador e eu moro no quarto andar. Subi as escadas com os olhos arregalados, uma vez que apertá-los estava sendo muito pouco efetivo.

Os olhos arregalados não resolveram muita coisa. Terceiro andar. Paro na escada, fecho os olhos e respiro fundo. Me concentro. Falta só mais um. Seguro as sacolas, dou uma longa inspirada e subo de uma vez só. E a pena na roda da malemolência na minha cara. Coça muito a narina direita, especificamente. Cada vez mais acreditando que algum resíduo do tecido da máscara certamente caiu, de fato, no meu nariz e está, de fato, ouvindo a música Malemolência que está tocando na minha cabeça e está, DE FATO, dançando. Não tinha mais nenhuma explicação pra tanta coceira. 

Coloco a chave no buraco da fechadura com a maior calma do mundo, pra ser certeiro. Devagar e sempre. Deixo as compras na porta, entro em casa, lavo as mãos, pego papel e álcool gel, higienizo a maçaneta e a chave. Coloco as compras na pia. Ainda de máscara, ignorando a coceira. Eu sou metódica. Sofro, mas não perco a ordem. Fui no banheiro, tirei a máscara, joguei no balde de roupa suja, lavei o rosto. Peço desculpas aos possíveis leitores (tem alguém aí?) um pouco mais… sensíveis. Mas eu enfiei o dedo no nariz com a força da vida. Por todas as vezes que minha mãe me mandou tirar o dedo do nariz. Por todas as vezes que eu não pude enfiar o dedo no nariz em público. Por todas as vezes que eu desci pra buscar o delivery e fiquei com muita coceira e precisei fazer caras e bocas pra conseguir minimamente me manter sã com TANTA COCEIRA. Enfiei o dedo no nariz. O dedo indicador, quase inteiro. Nem sabia que cabia tanta coisa dentro do nariz. Foi um alívio gigantesco. Orgásmico. Homérico. 

Achei justo colocar Malemolência pra tocar enquanto eu lavava as compras. Minimamente justo que, depois de sofrer tanto por ter outras coisas dançando dentro de mim, eu mesma dance. Meu nariz voltou a coçar, mesmo sem máscara. Dei uma gritadinha enquanto guardava as coisas geladas na geladeira. Decidi dançar. Voltei a fazer as caretas para aliviar o incômodo no nariz e nos olhos. Aos poucos, fui sentindo como se meu corpo inteiro estivesse se revirando para dançar comigo. As entranhas todas acompanhando o ritmo da música. Não pude evitar, tirou meu ar. Fiquei sem chão. Fazer o que? É a roda da malemolência.

Foi a primeira vez em muito tempo que dancei.

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Autor: giovanna marques

percebo as coisas com atraso e escrevo tudo pontualmente.

6 comentários em “pcp #09 – malemolência”

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