barulho

o barulho da obra

do lado da minha casa

estraga meu dia

e todo o resto da vida

porque barulho é um negócio que fica

não passa rápido

não passa batido

não passa

fica

fica

fica

tec

tec

tec

sem pacificar

guerra pura

das orelhas que não querem ouvir

da cabeça que não quer assimilar

do barulho que ninguém quer escutar

mas escuta

repete

faz

insiste

barulho é insistente

esse barulho é resistente

penso muito sobre os barulhos que ficam na cabeça da gente

penso muito

imagina o barulho dentro de quem se escuta de repente

quase fico feliz pois

pelo menos com barulho

fora

não vai dar pra ouvir

(dentro)

quando ainda se faziam

citar outra pessoa era uma coisa muito feita quando ainda se faziam blogs. era legal: a gente ia lá, chamava alguém pra escrever alguma coisa, conhecia novas vozes. se via em outros formatos. era divertido, plural, mostrava muito da gente. a gente parou. porque agora não se fazem mais blogs. mas hoje é dia do escritor, e eu pensei, não faz sentido não citar alguém, não faz sentido não citar caio. precisava citar caio que escrevia crônicas em jornais desde que a vida lhe foi dada como sua e, em 1986, narrou o que nós todos precisamos ler em 2020. é assim que se faz literatura, eu sempre penso, ou pelo menos era assim que se fazia literatura quando ainda se faziam escritores.

“Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto – olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. (…) Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.”

(Caio Fernando de Abreu, n’O Estado de S. Paulo, 24/09/86)

quando matar a gente finge que não morreu

parece que alguém decidiu que de repente a gente nem fala mais naquilo, então. e quem sabe se a gente ficar assim, meio que fingindo que não existe, não decide ir embora? aí a gente vai voltando, a gente vai procurando, a gente vai esquecendo. aí a gente resolve alguns problemas numa ignorada só. parece bom. rimou, até, não rimou? configura rima? não precisa responder. então fica assim. nem um pio. quando aparecer a gente finge que não viu. quando bater a gente finge que não sentiu. quando matar a gente finge que não morreu. e tenta ir fingindo. ficando. quem sobrar. quem ficar. quem conseguir. quem conseguir fingir tá feito. quem conseguir falar, tá certo. quem conseguir ouvir, tá vivo.

(dentro)

eu andava pela rua ignorando a mim mesma
encontrando poemas mentais
no vão das calçadas 

mas o caminho era curto
eu nunca tinha tempo de decorar
e deixava o poema lá

no dia seguinte
quando passava pelo mesmo vão
o poema estava lá 

(pelado, cruzado, roubado)

eu procurava novos espaços no chão
onde as palavras certas estariam escondidas

quem foi que mexeu nas palavras que deixei aqui?,
e sussurrava pra não esquecer a ordem:

“eu nunca sigo pelo caminho
que sei que você pode passar
mas você sempre passa pelo caminho
que eu sigo sem pensar”

faz tempo que não acho as palavras
faz tempo que não procuro caminhos

faz tempo que não passo no vão
faz tempo que não ando na rua

nunca mais encontro poema
nunca mais encontro ninguém

mas assim como antes
não me procuro

tenho medo de me achar

(pelada, cruzada, roubada)

história pra contar

quase que passou uma semana inteira sem que eu publicasse algo e seria péssimo porque eu escrevi, literalmente, na bio do meu twitter que tem texto novo no site toda semana. não é como se alguém realmente estivesse vindo aqui a cada sete dias pra checar e me bonificar – ou cobrar -, mas eu adoraria conseguir publicar pelo menos uma vez por semana alguma coisa que eu escrevi. é muito doido porque eu realmente escrevi bastante essa semana. entreguei alguns projetos e precisei reescrever vários conteúdos para o trabalho então sim escrevi bastante mas o meu arquivo do livro, por exemplo, não foi lá muito frequentado, eu na verdade escrevi cenas isoladas e tomei algumas decisões em relação ao final da história (que é exatamente a parte que estou construindo agora), mas é definitivamente assustador estar terminando de escrever um livro porque eu fico com a sensação que se esse livro for bom eu nunca mais vou conseguir escrever outro como esse e se ele livro for ruim eu nunca mais vou conseguir escrever qualquer coisa. e aí eu também começo a me perguntar quem é que vai definir se é boa ou ruim a história que eu estou tentando contar há tantos anos?, porque faz pelo menos cinco desde que escrevi uma cena da Rita pela primeira vez e a história já foi pra vários outros caminhos e agora temos duas personagens fortes e fodas com alegrias e verdades absolutas e traumas e vazios e danças descontroladas e pequenas grandes coisas pra contar e eu sempre me pergunto como será que alguém, seja ele quem for, vai definir se é boa ou ruim essa história que há anos vem me fazendo descobrir que dentro de mim existem pequenas grandes coisas pra contar? quase passei uma semana inteira sem publicar nada, mas aí me deu um medo de acharem que eu não tenho nada pra contar e resolvi dizer que eu venho há anos descobrindo que tenho sim.