dançar como se não fosse ter semana

a segunda ainda não é verdade. oito e quarenta e seis. café tomado. fritei um ovo. dois. tomei mais café. olhei a casa ao meu redor, resquícios do final de semana por toda parte: latas de cerveja vazias, a camisa do corinthians jogada no chão do banheiro, o teclado do computador sujo de cinzas, a mesa suja de cinzas, o chão sujo de cinzas, a pele suja de cinzas. não limpo nada. por um minuto, e um minuto apenas, deixo tudo como está e aproveito que a semana ainda não começou. aproveito que o final de semana se prolonga. tomo mais café.

antes de perder a cabeça, antes das pernas começarem a tremer, antes de esquecer que dá sim pra fazer, antes de alguém te convencer que não sabe o que tá fazendo, antes que as coisas saiam dos trilhos e esmaguem os planos, antes que a realidade bata, antes que a semana comece, dança.

E eu que nem sou mais menino de andar perdido por aí
Mas gosto de perder a linha
Quando você olha
De mansinho, e pede pra eu continuar

Preciso que a terra gire logo
Pra eu poder dançar
Puxar a tua mão
E te levar pra rua

Preciso da tua voz ressoando no ar
Cantando qualquer coisa
Eu não vou me importar
Apenas acompanho os teus mistérios

00:12

eu tenho uma facilidade assustadora de entrar em piras existenciais por QUALQUER RAZÃO. dia desses me peguei pensando no tanto que as nossas relações humanas são baseadas em troca de energia, experiência e referência porque coloquei alguns legumes diferentes na mesma água e as cores se misturaram e eu pensei olha exatamente igual a gente!!!! o que não necessariamente faz muito sentido. mas aí foi massa porque ontem eu tava esquentando a janta no microondas (o famoso restodontê) e aí eu decidi que merecia um pãozinho pra acompanhar e coloquei o pão na sanduicheira e tirei a comida do microondas e enquanto o pão virava torrada eu comecei a ficar impaciente e andar de um lado pro outro da casa e querer tirar o pão aí quando ele minimamente pegou o formato da sanduicheira, tirei. tava meio molenga, mas ia dar pra comer, eu pensei, e deixei o pão ali, em cima da bancada e encostei na cumbuca com a comida. fria. coloquei mais um minuto e meio no microondas e pensei: porra se eu não fosse tão agoniada o pão teria ficado melhor, mais crocante e ficaria pronto junto com a comida. tentei ser prática e só compliquei. aí eu ali, naquele momento, encarando o visor do microondas, decidi que precisava aprender a deixar o tempo das coisas ser o tempo das coisas e entrei numas de mudar de postura (sabe quando você arruma a coluna antes de entrar no call pra parecer mais sério?) e aceitar o processo das coisas e tudo isso. mas toda essa indagação todo esse questionamento aconteceu em um minuto e dezoito segundos e quando eu já tava de saco cheio de respeitar o processo de todas as coisas, ainda faltavam doze longos segundos. de processo. da janta. e o pãozinho ali, molenga e quase gelado. o que me fez refletir sobre outra coisa: será que nossas relações humanas não são, na verdade, como o calor dos alimentos, que, quanto mais a gente pensa a respeito, menos sobra pra sentir?

all in

não entendo nem faço médias, não tenho intenção de balancear. vou com quem se joga de cabeça, chega por inteiro e vai embora sem que um osso sequer sobreviva para contar a história. e conto eu mesma, portanto, todas as histórias que vejo ouço faço. com os cacos todos desencontrados pelo globo. chego a pensar que com tantos resquícios talvez a vida ganhe mais espaço. que coragem. deveria ser crime. o otimismo. o brilho no olhar. a vontade de enxergar. deveria ser crime encher o coração de ânimo. deveria ser crime deixar a gente ser feliz. deveria ser crime a gente querer estar onde está. porque não dura. acaba cedo, antes do que deveria, quando tava bom demais pra ser verdade. nunca é bom demais pra ser verdade. nem começa. tudo é demais. pra ser verdade, pra ser mentira, pra ser qualquer coisa. equilíbrio não é demais, é o que precisa. não é crime, não anima, não faz ninguém feliz. o meio do caminho é um desperdício. se cabe um conselho de quem sempre sobra: se escorrer, lamba.