Talvez eu só fume por causa do verbo

Talvez eu só fume por causa do verbo. Agir sempre foi meu impulso número um. Em qualquer coisa. O impulso de fazer coisas acontecerem, de deixar algo cair, de abaixar pra pegar num pulo, de suspirar sem dar tempo de espirar. Talvez eu só fume pelo prazer de colocar o cigarro na boca e apertar duas ou três vezes esse isqueiro que tá sempre acabando mesmo quando eu acabo de comprar. 

Uma vez, bem antes da Preta, saí com uma menina que devia ter 1,65 e fumava um cigarro atrás do outro. Quando você fuma, existe um momento que o seu corpo sabe que o maço que tá no bolso contém algo que o seu corpo quer e a sua mão vai diretamente pro lado de trás da calça e pega um cigarro já meio amassado e coloca na boca. Tudo isso acontece muito rápido. Quando você está com alguém que fuma, o momento acaba quase sincronizado: se não, você mesmo faz com que isso aconteça só para que se torne.

A sincronia dos cigarros acesos ao mesmo tempo traz muitas coisas. Um sorriso depois do primeiro trago é quase sempre o mais bonito de todos. O primeiro trago tem um gosto diferente: você coloca o cigarro nos lábios, acende, traga e respira fundo para jogar a fumaça pra fora. 

Existem dois tipos de fumantes: os que jogam a fumaça pra fora rapidamente, abaixam o braço e puxam as mangas pra cima. Os que jogam a fumaça pra fora demoradamente, falam com os dentes quase cerrados para que resquícios escapem com certa demora e depois inclinam a cabeça pra cima pra jogar tudo que resta pra fora de uma vez só.

Eu sou do primeiro tipo.

Talvez eu realmente só fume por causa do verbo. Fumar. Tragar. Trazer. Algo. Trazer a sensação que passa pela garganta, o impulso que a nicotina coloca no corpo, a certeza de que bem não faz, mas mal todo o resto também causa.

Quando eu saí com essa menina que fumava um cigarro atrás do outro, passávamos horas aproveitando a companhia uma da outra na cumplicidade de quem sabe que, quando o assunto ficar desconfortável, existe sempre uma razão superior para calar a boca. Ela era perita em calar a boca, acender um cigarro e dar o sorriso bonito logo em seguida. Os dentes dela eram meio tortinhos de quem não usou aparelho na infância, mas funcionavam bem com os lábios cheios que, naquela época, enjoei de tanto beijar. 

Beijar também é um verbo que eu adoro e beijar quando se sabe que o outro também quer te beijar aos vinte e poucos é a melhor das sensações dos vinte e poucos. 

Eu já não a amo mais. Naquele tempo, tinha certeza que ela era o grande amor da minha vida, acendendo um cigarro atrás do outro e me ajudando a decorar sua forma de dar o primeiro trago. Foi esse o tempo em que insisti em enrolar nos dedos o cabelo alisado quando ela estava de costas para mim na cama e de beijar seu ombro antes de levantar para acender outro cigarro na janela. Ela mesma acendia na cama, quase deitada, olhando pra mim. Não sei se a visão era boa, mas, em todos esses anos, sempre que penso em amor penso na forma como ela me olhava acender o cigarro na janela.


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