pcp #10 – down em mim

O John Lennon vivia num mundo paralelo onde tudo é lindo e every day in every way it’s getting better and better. Por aqui, 40 anos depois dele ter morrido com 40 anos, everyday é tempo demais. Em 2020 faz mais sentido citar Cazuza, que faz 30 anos que morreu aos 32. Ele tinha alguma familiaridade com a tristeza, um ar meio underground. Combinava com a dor. Eu sou metódica e me desentendo com a melancolina. Sofrer não cabe na agenda. E ficar triste CAGA meus planos. 

Dia desses, o mundo pesou demais. Não consegui fazer absolutamente nada durante três dias inteiros. Nada. O tanto que demorei na revisão semanal pra reagendar tudo não tá nem escrito. O Todoist tá até zonzo. Porque, assim, né, estamos no meio de uma pandemia. Caótica. O governo está abrindo as portas, antes do vírus ter sido contido, para que as pessoas voltem às ruas. Tem baile rolando. Só tá em casa quem sabe de cabeça o café preferido da Starbucks. O resto do mundo tá vivendo. Ou melhor, morrendo. Então, sim, eu fiquei desolada e completamente paralisada pelo caos. 

É inevitável que o mal estar causado pelo mundo tire a gente do eixo, mas quem planeja cada passo sofre ainda mais quando a vida decide que não se importa com o que você tinha intenção de fazer. Nesse dia que acordei triste, muito triste, inconsolável, chorei em todas as trocas sociais que fiz. Participei das reuniões sem ligar a câmera e deixei o microfone no mudo para chorar e soluçar em paz. Me arrastei pelos dias com a sensação de que o mundo era demais pra mim. Foram três, consecutivos. Sem conseguir fazer, efetivamente, nada. De corpo presente, sentindo que não daria conta de mais um minuto. E dando conta de mais muitos minutos. A vida foi acontecendo e eu não tomei as rédeas de nada. A vida foi acontecendo e eu não fiz planos. Deixei acontecer.

É uma loucura pensar no poder de um dia ruim. Eu estava sem energia alguma no corpo. Absolutamente fraca, limitada. Não conseguia pensar. Focada na dor que passeava pelo meu corpo sem pressa pra ir embora. E o trabalho nem me permitiu beber até esquecer. O banheiro é a igreja de todos os bêbados e eu sequer pude rezar. Os dias seguiram, sozinhos, sem minha intromissão. Não fiz o que estava planejado. Ninguém morreu. Não dei satisfação. 

Ninguém perguntou.

Hoje acordei menos triste. O peso do mundo ainda está nas minhas costas, mas consegui cumprir algumas tarefas simples. Enviei arquivos, fiz umas duas ou três telas bonitas no ppt, revisei informações, liberei materiais pra produção. Fiz o que dava. E percebi que é perfeitamente possível deixar as coisas pra depois, se for preciso. Eu fiquei três dias sem cumprir nenhuma tarefa e ninguém morreu. Life is what happens to you while you’re busy making other plans. Tudo sobreviveu sem mim enquanto eu tentava sobreviver em mim. Não decidi, ainda, se é assustador ou um alívio. E quando perguntarem o que houve, vou dizer que era instabilidade na Net, acredita? Malditos. Outra vez vou me esquecer pois nestas horas pega mal sofrer. Pensei em escrever um texto para me justificar. Mas já faz uma semana. Ninguém perguntou. Vou aproveitar o silêncio.

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Esse é o último texto da série Plano de Contingência de Pandemia. 🙂

escrever não é um dom

antes dessa loucura toda começar, eu acordava antes de ir pro trabalho pra escrever. ainda acordo. escrevo durante horas consecutivas, até a dor no pulso me impedir de continuar. escrevo dezenas de páginas e apago tudo para recomeçar. sem titubear. escrevo com os livros ao lado, escrevo lendo, escrevo pensando. escrevo no canto do papel, escrevo onde, como, quando preciso – nunca quando dá. quando dá, não consigo. nem quero. escrevo porque preciso. escrevo amo escrever, escrevo porque as palavras escritas dão significado às coisas que nem sempre podem ser descritas; escrevo porque a letra tem vida e é só no que tem vida que a vida acontece. escrevo porque eu tenho vida. é trabalho duro: escrevo pela insistência. mergulhar em um texto, reler, deletar, reescrever. reescrever um texto pronto, reler centenas de páginas centenas de vezes. dia desses transformei três capítulos numa frase: “a gente começou no bar”. nada mais precisava ser dito. ouvi de outro autor que não se deve jamais dizer em 50 poemas o que pode se dizer em 25. a parte mais difícil é dizer em 25. dá vontade de dizer em 70. escrever todo mundo escreve. difícil é ser lida. não porque não leem. mas justamente porque leem. porque é preciso que leiam. e é preciso que entendam, absorvam, se apoderem das palavras quase como se fosse impossível de se desvincular. escrever não é um dom. a vida é. colocá-la em palavras é a minha escolha.

pra sempre meu, caio f.

querido caio,

te escrevo porque hoje nasceu o sol. também escrevo porque você me ensinou a me ouvir. esse é o tipo de coisa que a gente fala pra um terapeuta, não pra alguém com quem a gente nunca conversou. mas você também me ensinou que as coisas funcionam pra cada um como as coisas funcionam pra cada um e aí já não tem muito o que fazer. então tô aqui pra te dizer isso. tô aqui pra te dizer, também, que se tivesse te conhecido acho que teria te achado um chato. isso porque li os livros de quase todos os seus amigos e sempre que, em cartas, falam sobre você, dizem que você era um mala e acredito. você parece ter sido chatíssimo, até por isso gosto tanto de você. você é real, como eu, que não tenho nada de gente boa, não faço a fina, nem tento. mas você é real, que conquista quem conquista pela realidade do ser e não tem vergonha nenhuma disso. acho que a coisa mais importante que você me ensinou, eu fico aqui pensando, é que a gente precisa sempre escrever sobre as coisas que matam o peito da gente. doa a quem doer. você me ensinou a colocar magia nas coisas. porque a gente, que é de verdade, não tem vergonha nem medo de falar as coisas como as coisas são e as coisas são, sim, mágicas, porque com o tempo e com a vida a gente vai descobrindo que a vida pode ser qualquer coisa que a gente queira. isso é pura magia. acho tosco quem diz que a tecnologia é indistinguível da magia. tecnologia é truque. o que tem de mágico na vida é tudo aquilo que a gente faz só com a gente. a magia é essencialmente humana. pensar, escutar, criar, imaginar, dançar, trepar, beijar, abraçar, refletir, mudar. a gente não precisa de mais nada pra fazer nenhuma dessas coisas e sem todas essas coisas a gente não tem nada pra ser. já pensou, que loucura, não ter a oportunidade de ser alguma coisa? ainda bem que li você, assim sei que a gente sempre é alguma coisa. só tem que descobrir. geralmente, só precisa aceitar. e quando a gente aceita quem a gente é, ninguém pode impedir a gente de nada. não tem nada mais poderoso do que o autoconhecimento. já ouvi dizer que é sempre uma má notícia e não discordo, mas é indiscutivelmente poderoso. mas eu tô escrevendo tudo isso porque tem uma coisa que eu preciso te falar. esse falatório todo é pra te falar essa única coisa, na verdade. você disse uma vez que sempre quis alguém que te amasse por alguma coisa que você escreveu. sempre achei lindo. mesmo. eu cresci pensando do mesmo jeito, por sua causa. eu cresci achando que queria ter alguém que me amasse pelas palavras, pelo meu estilo repetido, pelas minhas caixas sempre baixas, pela minha mania de criar personagens contraditórios que cutucam as pessoas porque elas mesmas são contraditórias mas não gostam de se reconhecer dessa forma (vê só como é importante a gente se aceitar como a gente é?). parecia ideal ser amado por algo que escrevi, se o que escrevo é tão real e tão vívido e tão representativo de quem eu sou. mas não é assim que funciona. porque quando alguém escreve como eu, caio, quando alguém aprende com você que a gente precisa ser verdadeiro e coloca o bom e o péssimo pra fora; quando alguém vive das palavras que cria; quando alguém se alimenta do mundo pra vomitar poesia… quem se encanta não desperta magia. quem se encanta tem problema, tem excesso, tem ausência. olha eu aqui, depois de tanto me encantar com você. mas eu não estou aqui para preencher ausências. eu estou aqui pra compartilhar completude. todo o resto não me interessa. e eu precisava te dizer isso, especificamente isso, caio, porque eu aprendi tanto com você que sinto que você sofreu muito por ter buscado um amor que te amasse por algo que você escreveu. e talvez, se dessa vez você tiver a oportunidade, busque um amor que te ame pelo que você não escreve. me disseram que saiu nos búzios que você está voltando para consertar situações inacabadas da sua existência terrena. achei uma loucura, mas não pude deixar de te dar só esse conselho porque sei que você só voltaria à vida por amor: procure alguém que te ame pelo chato que você é, por ser o amigo que pega no pé, pelo seu jeito de se arrastar pela vida, que te ame até pela dor que você sente lá no fundo do peito e não passou com yoga, natação, meditação. você vai tentar tudo isso dessa vez de novo? se sim, recomendo procurar alguém que te encontre tomando um chá verde no fim da aula de yoga. ou alguém que tenha esquecido os chinelos no vestiário da natação. se você quiser ser feliz, procure por alguma coisa assim. normal. de praxe. alguém que não saiba, logo de cara, que você escreve. alguém que não tenha contato com as suas palavras. procure, nessa nova vida, alguém que te ame por algo que você nunca escreveria. esse é o amor que vai salvar a sua vida. os outros amores vão te destruir. o lado bom é que a destruição criou ótimas histórias e o ruim é que a gente ainda não sabe o que um coração calmo é capaz de fazer. eu escrevi essa carta depois de uma noite deliciosa com o meu amor, calmo, que não tem a menor intenção de me amar por essas palavras, mas que insiste em me amar porque eu nunca esqueço de tirar o lixo. parece chato, eu sei, mas a felicidade é sempre meio chata, mesmo. e, bom, você está voltando em uma era em que nada é muito doce. nem uma vez, nem sete. tem que ter muita chatice e mornidão pra pacificar um coração cheio de magia como o seu. como o meu, por assimilação. espero que essa carta te encontre a tempo. boa sorte. estamos em 2020 e, por aqui, o mundo já acabou faz tempo.

pra sempre tua,

giovanna

Esse texto foi escrito como exercício da Oficina Criativa da Clara Averbuck de 2020. 🙂

pcp #09 – malemolência

Coloquei a máscara pra buscar as encomendas na portaria e, assim que pisei pra fora do apartamento, minha cara começou a coçar. Inteira. Todos os poros do meu rosto estavam coçando. Eu queria enfiar o dedo no olho e esfregar até ficar vermelho e lacrimejar. Meu nariz coçava tanto que parecia que tinha uma pena dentro dele, dançando ao som de Malemolência, da Céu, bem slooowwww dowwwwnnnnn… 

PUTA QUE PARIU. Eu achei que ia morrer. Achei mesmo. Fiquei fazendo careta com o nariz encostando na boca e quase alcançando as bochechas de tanto torcer. QUEM DEIXOU COÇAR ASSIM?, eu cantei pensando na pena que dançava Malemolência, literalmente, embaixo do meu nariz. Literalmente metaforicamente. Eu tava implorando pra porra da pena parar de dançar a porra da roda da malemolência.

Céu, te amo, mas não tava dando. Cheguei no portão. O entregador claramente confuso com as minhas feições tortas. Avisei “tá coçando, tá foda”. Ele tirou a máscara pra me responder que coçava mesmo aí ele fazia assim, oh, e usou a própria máscara pra coçar o nariz. Fiquei pensando se ele estava muito certo ou muito errado. Tava coçando demais pra chegar a qualquer conclusão, mas, depois de tê-lo visto tirando a máscara pra me responder, pensei que talvez ele não fosse a pessoa mais indicada para me dar recomendações de segurança.

Segui forte. Piscando os olhos com força para ignorar a coceira e torcendo o nariz no ritmo da música que tocava em looping na minha cabeça. Uma versão específica, ao vivo, com nuances e dançando com outras músicas. A pena hipotética dançava no meu rosto inteiro, agora, e senti minha orelha coçar. Fechei o portão com o pé e me senti livre para voltar a fazer caretas nada sutis, agora já de costas para o entregador e meio-que-correndo de volta pro meu apartamento. Aqui não tem elevador e eu moro no quarto andar. Subi as escadas com os olhos arregalados, uma vez que apertá-los estava sendo muito pouco efetivo.

Os olhos arregalados não resolveram muita coisa. Terceiro andar. Paro na escada, fecho os olhos e respiro fundo. Me concentro. Falta só mais um. Seguro as sacolas, dou uma longa inspirada e subo de uma vez só. E a pena na roda da malemolência na minha cara. Coça muito a narina direita, especificamente. Cada vez mais acreditando que algum resíduo do tecido da máscara certamente caiu, de fato, no meu nariz e está, de fato, ouvindo a música Malemolência que está tocando na minha cabeça e está, DE FATO, dançando. Não tinha mais nenhuma explicação pra tanta coceira. 

Coloco a chave no buraco da fechadura com a maior calma do mundo, pra ser certeiro. Devagar e sempre. Deixo as compras na porta, entro em casa, lavo as mãos, pego papel e álcool gel, higienizo a maçaneta e a chave. Coloco as compras na pia. Ainda de máscara, ignorando a coceira. Eu sou metódica. Sofro, mas não perco a ordem. Fui no banheiro, tirei a máscara, joguei no balde de roupa suja, lavei o rosto. Peço desculpas aos possíveis leitores (tem alguém aí?) um pouco mais… sensíveis. Mas eu enfiei o dedo no nariz com a força da vida. Por todas as vezes que minha mãe me mandou tirar o dedo do nariz. Por todas as vezes que eu não pude enfiar o dedo no nariz em público. Por todas as vezes que eu desci pra buscar o delivery e fiquei com muita coceira e precisei fazer caras e bocas pra conseguir minimamente me manter sã com TANTA COCEIRA. Enfiei o dedo no nariz. O dedo indicador, quase inteiro. Nem sabia que cabia tanta coisa dentro do nariz. Foi um alívio gigantesco. Orgásmico. Homérico. 

Achei justo colocar Malemolência pra tocar enquanto eu lavava as compras. Minimamente justo que, depois de sofrer tanto por ter outras coisas dançando dentro de mim, eu mesma dance. Meu nariz voltou a coçar, mesmo sem máscara. Dei uma gritadinha enquanto guardava as coisas geladas na geladeira. Decidi dançar. Voltei a fazer as caretas para aliviar o incômodo no nariz e nos olhos. Aos poucos, fui sentindo como se meu corpo inteiro estivesse se revirando para dançar comigo. As entranhas todas acompanhando o ritmo da música. Não pude evitar, tirou meu ar. Fiquei sem chão. Fazer o que? É a roda da malemolência.

Foi a primeira vez em muito tempo que dancei.

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pcp #08 – entra no clima

Sempre me falam que o excesso de organização é danoso, porque nos coloca numa parada de tentar controlar tudo e isso é sofrido é ruim etc. Acho balela, escuto atentamente e ignoro solenemente. Sempre. Foda-se o que falam. Controlar tudo é uma delícia. A organização me dá uma paz de espírito que mais nada, no mundo, nunca, jamais, em nenhum momento, chegou a dar: a tranquilidade de saber que as coisas têm jeito.

O GTD, método de organização que eu sigo, diz que a gente precisa capturar as informações que a gente recebe na hora que a gente recebe. Isso ajuda muito no dia a dia, pra evitar de deixar as coisas passarem batido. Olha só como é importante: o método de organização que eu sigo me ajuda a não deixar a vida passar batida. Putz, tô até arrepiada. E ainda nem cheguei onde eu queria chegar. 

Dia desses, no meio da fissura de fazer almoço com um call marcado pra daqui 45 minutos e um documento pra revisar antes do fim do dia, derrubei uma caixa inteira de palitos de dentes em cima da pia, que tava suja com sangue da carne que eu estava cortando para cozinhar para o almoço. Eu quase me desesperei. Quase. Mas, por hábito, parei e pensei: “o que eu preciso fazer para resolver isso?”. Não era uma opção surtar. Juntei todos os palitos e joguei fora. Lavei as mãos. Adicionei ao Todoist: “comprar palitos de dente #Rappi”. E voltei a fazer a carne. 

Gente, vocês ENTENDERAM? Eu facilmente teria surtado. Profundamente. Mas aí eu fiz o que precisava fazer pra resolver. Porque é assim que as pessoas que se organizam funcionam. Elas pensam nos próximos passos. Elas pensam na vida pra depois de só agora. É um planejamento pra evitar mais problemas. É um planejamento pra gente saber que a vida tem jeito.

É engraçado, quase engraçado, eu sei, mas veja só: quando eu comecei a me organizar, tinha problemas bem sérios, que me tiravam o sono. Umas dívidas homéricas feitas pelo excesso de uso do cartão de crédito e por tentar parecer estar em uma classe social e ter um status que eu nunca tive – e provavelmente não terei. Não terei porque não quero e hoje sei que não quero, mas não sabia. Precisei me organizar pra descobrir. E, quando comecei a me organizar, encontrei alguns impasses. O maior de todos encontrei no espelho: chorei muitas vezes no fim do dia por não dar conta da infinita lista ideal de coisas que queria fazer em cada dia. 

Tive dificuldade em aceitar que eu não era capaz de fazer tudo aquilo que estava me propondo a fazer. Porque, sim, é uma delícia preencher os quadradinhos dos apps de produtividade e ficar pintando a folha do bullet journal pra fazer o planejamento ficar lindo. E, cara, não tem nada mais prazeroso no mundo, nem uma foda muito bem dada, do que terminar o dia riscando todos os itens de uma longa lista de tarefas. Mas isso não é a vida real. A vida real tem empecilhos, imprevistos e repriorizações, o tempo todo. A vida real não se ajusta a 3 projetos que exigem trabalho concentrado no mesmo dia. A vida real, ainda mais em quarentena, ainda mais trancada em casa, ainda mais com recursos limitados, não aceita exaustão mental como regra. A gente surta.

Meus amigos, Arlindo já cantou que esse jeito de quem tá sofrendo tá destoando do nosso astral e a gente assim fica feia, a gente assim fica mal. A organização foi o que me permitiu ser mais feliz. Ter mais visão do que eu priorizo, do que eu quero fazer. Mesmo que isso signifique criar uma tarefa enquanto escrevo esse texto pra lembrar que preciso checar onde está a minha encomenda. Porque se eu abro a tela do Todoist e adiciono essa tarefa, eu não preciso pensar nisso. Eu sei que não preciso pensar nisso. E aí eu posso pensar em coisas muito mais legais.

Consigo lembrar que a semana que vem vai ser difícil, mas já está tudo organizado e vai até dar tempo de trocar uma horinha de ideia com as minhas amigas pelo Hangouts. Vai dar tempo de ajudar a colega de trabalho com um projeto que parece legal. E, quem sabe, vou ver um ou dois filmes que estão na infinda lista de coisas que quero assistir, que me indicam. Quando a gente organiza o necessário, a gente abre espaço pro eventual e a vida é feita do que é eventual. A organização planeja pra que a gente possa viver fora dos planos. Tem coisa melhor? Arlindo tinha mesmo razão: a vida é sofrida, mas ainda é boa. A gente se planeja pra não se perder no sofrimento. É difícil, mas se organizar direitinho…

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pcp #07 – como nossos pais

Decidi que preciso ser mais inteligente. Pensei nisso porque, veja só, tinha uma louça gigantesca em cima da pia e eu sequer sabia por onde começar. Como uma pessoa sozinha consegue fazer tanta louça? O detergente daquele plástico que fica em cima da pia tinha acabado. Buscar mais detergente parecia um bom jeito de começar. O único, na verdade.

Fui na lavanderia, descobri que a embalagem que eu estava pegando era a última e, antes de voltar pra cozinha, adicionei “comprar detergente #Rappi” ao Todoist. Voltei pra pia e comecei a organizar os pratos antes de lavá-los. Comecei a pensar, muito, sobre os pratos. Em um dado momento, precisei decidir se a louça ficaria mais compacta ou se eu optaria por não deixar a gordura de algumas coisas tocar em todas as coisas, espalhando em diversos grupos pela pia, fogão e bancada. Pensei muito. Mais do que seria necessário, porque, afinal, é só uma louça. Uma grande louça, mas apenas uma louça. Fiz muito esforço mental. E percebi que precisava dar um jeito disso ser mais leve e natural, porque eu nunca fui bonita e sempre quis ser inteligente então se não conseguisse decidir algo tão simples sobre a louça, nunca ia conseguir ser inteligente. E, francamente, que pessoa inteligente gasta tanto tempo pensando na louça acumulada na pia ao invés de simplesmente lavá-la?

Pessoas inteligentes, invariavelmente, sabem o que fazer. Pessoas produtivas, e essas palavras são do David Allen, deveriam ter suas mentes claras como água. A tradução para o português é meio borocoxô, mas a ideia é ótima. Me lembra, inclusive, de um conto do David Foster Wallace em que ele nos lembra que, às vezes, estamos imersos nas coisas e esquecemos que estamos imersos nas coisas. O conto narra a história de dois peixinhos que estão nadando juntos e dão de cara com um peixe mais velho, que cordialmente os pergunta como está a água (igual quando nós, humanos, nos encontramos no elevador com alguém e perguntamos como está o clima lá fora). A questão no conto é que os peixinhos sequer sabem o que é a água, apesar de viverem nela. O ponto é mais ou menos esse: ter a mente clara como água é lembrar: onde estamos, quem somos, para que serve o que estamos fazendo, com o que estamos nos relacionando, o que queremos manter em evidência. Dá até pra resumir: ter a mente clara como água é ser capaz lembrar. 

Um bom tempo atrás, como uma epifania, entendi que, assim como a de Belchior e Elis, minha dor é perceber. Sem o resto da frase. Perceber, nunca conseguir ignorar, sempre me atentar, sempre me manter alerta. É cansativo perceber. Desde que percebi, sigo tentando diminuir essa dor, transformá-la em recurso, qualquer coisa assim. É até meio coach. Fazer com que a dor tenha algum sentido, que seja um insumo, que leve pra algum lugar.

Sempre sofro por pouco, porque percebo muito o tempo inteiro. Hoje, em específico, percebi que fazia mais sentido compactar todas as coisas da pia para que ocupassem menos espaço. Mas demorou tanto, tanto, tanto. Às vezes, a gente só precisa perceber que, a longo prazo, pouco importa a escolha. Às vezes, a gente só precisa perceber que, a longo prazo, a gente só precisa lavar a porra da louça. Às vezes, meio que foda-se o que a gente percebe. E, quando a gente percebe que foda-se, dói ainda mais. Viu? A dor é perceber.

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PCP #06 – cajuína

Não tenho muita familiaridade com nada que dura. Sempre gostei de haikai. Minha música preferida tem seis linhas. É o suficiente. Caetano, às vezes, esquece, mas eu nunca. Existirmos, a quê será que se destina? Aliás, não tenho mesmo familiaridade alguma com coisas que duram: tenho um sério problema de permanência. Já tentei fazer uns cursos, já tentei fazer meditação, yoga, ayurveda, TODAS essas coisas. Não cheguei até o fim do curso e desisti da meditação antes do fim do primeiro minuto. Juro. Não dá. Sequer consigo ler livros longos. Desisto antes de ficar bom, que nem na vida. Desistiria até de Cajuína, cristalina em Teresina se não fosse tão boa logo de cara. 

Mas isso não foi do nada, eu sempre gostei de desistir. Quando decidi que ia parar de sofrer pra abrir mão, fiz um plano. Na minha aba de projetos pessoais, comecei a pensar em tudo o que precisaria fazer para diminuir meus sofrimentos cotidianos. Basicamente, precisava entender como sair de perto do que não tinha nada a ver comigo. E, é claro, fazer isso sem lidar com TANTO DESGASTE – se é que isso é POSSÍVEL. 

Fiz projetos para ir aprendendo a me desvincular: me afastando de pessoas, saindo de empregos, quebrando rotinas, abrindo mão de dinheiro pra poder ter um pouco de paz. Ignorei muita coisa, muita gente e muita merda. Desistir é uma delícia, mas eu não diria que sempre foi natural.

Agora, me seguro muito para não desistir de todas as coisas. Porque é tão fácil aceitar. Aceitar é dádiva de vida. Você não reclama, não se desgasta, não alimenta expectativas. Segue em frente. Aceitar é o caminho para a felicidade e, por isso, sou completamente viciada em desistir. Não dá pra se sentir pressionado pelo que não te importa. Pouco importa, na verdade, o que é ser feliz. Aceito a facilidade. Apenas a matéria vida era tão fina, diria Caetano. Da vida não dá pra desistir, nem quero. Todo o resto, sim. Carregar menos pra sofrer menos. 

E, francamente, eu preciso perguntar, se não for pra abrirmos mão do que dói, se não for pra nos afastarmos de quem nos machuca, se não for pra escolhermos estar perto de quem nos faz feliz, se não for pra nos sentirmos inexplicavelmente bem… Existirmos, a quê será que se destina? Se não for para que façamos todas essas coisas, suspeito que nossas vidas não precisem, então, durar muito mais do que uma música como Cajuína.

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a pé com uma mulher feia

é fácil ser um homem feio. é parecido com metade da população masculina do mundo então você sai de casa para trabalhar sabendo que pelo menos ½ dos homens com quem você se encontrar hoje vão gostar de você. os homens são metade do mundo e você já sabe que vai se dar bem com metade de metade do mundo. ¼ de aprovação é mais do que o bolsonaro tem. não parece problema pra ele. 

eu tenho ¾ de rejeição. eu sou um homem feio preso no corpo de uma mulher feia. o que é duplamente horroroso. horroroso porque essa é a palavra que melhor descreve a sensação permanente de ausência com a qual eu convivo. posso tentar explicar pra você, como se eu tentasse explicar para uma criança: desde que nasci, sinto que deveria ser de outra forma. em todo santo segundo percebo que algo não está como deveria: se não é da mente é do olhar do mundo inteiro pra dentro de mim. não esqueço, por um segundo sequer, do quanto gostaria de poder ser visto como homem, de ser colocado nas rodas como homem, de ser relacionado ao homem que sinto que sou. ninguém entende quem eu sou ou o que eu digo.

se eu fosse feio, então passaria desapercebido, mas sou feia, então reparam em mim a todo tempo. até o pouco feminino desperta o olhar. eu nunca vou conseguir perdoar deus. permitir que seus servos construam moral em cima de gênero é uma loucura sem tamanho. nem sentido faz. mas vai tentar dizer, você, visto como mulher feia, que mulheres e homens têm os mesmos direitos. a ignorância é percebida em todos os seus estados, da grosseria à mais pura burrice, como é o caso. 

mulher feia não tem direito aos seus direitos, mulher feia não trepa no copacabana palace, mulher feia não ganha desconto nem fura fila. mulher feia espera sua vez, pega o caminho mais longo, trepa em motel da rede bali. ninguém gosta dos motéis da rede bali, só levam lá aquelas pessoas com quem não se orgulham de trepar. a maioria fecha até o teto solar do carro, pra não correr o risco de ser visto por alguém. assim, se encontram conhecidos, sabem que estão igualmente humilhados acompanhados por mulheres feias. ninguém pode julgar.

eu, por mais que seja visto como mulher, sei que sou feio porque desejo as mulheres feias. talvez porque vivo no corpo da mulher feia que é rejeitada por ¾ da população mundial. talvez porque nós, vistos e vistas pela sociedade como mulheres feias, temos tempo para o processo de construção do que prevemos como nosso futuro melhor. o futuro melhor da pessoa que é vista como mulher feia é, quem sabe, encontrar outra mulher feia com quem se deitar. e, entre a permanente sensação de ausência do meu corpo e a inédita sensação de ser desejada do outro corpo ao lado do meu, fazemos o que ¾ do mundo nunca arriscaria fazer antes de engolir uma garrafa inteira de gim: reservar uma pernoite e chegar a pé num motel da maldita rede bali para que todos vejam o belíssimo casal de mulheres feias que seríamos se eu não fosse um homem feio.

não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas

não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas. hoje, por exemplo, esse dia frio, esse tempo esquisito, esse sol que não serve pra nada, esse café que gela tão rápido, esse pé que não esquenta nem com meia. qual a chance de aceitar uma panqueca de banana? nenhuma, cara, não combina, não tem nada a ver. banana tem hora. banana cai bem num dia ensolarado, numa ressaca filha da puta, num prato com mais sorvete que banana. aí sim. agora, panqueca? só porque a banana tá ficando preta por fora? sai pra lá. faz outra coisa. bota pra congelar, tem receita de sorvete feito só com banana. deixa no freezer até o verão voltar. agora não. agora a gente toma sopa no pão, se joga nos cobertores e se veste mal. banana não combina com frio. se combinasse, ia ter camisa de manga comprida com estampa de banana. não tem. tem shortinho, tem camisa da riachuelo que já vem com a manga dobrada da fábrica. mas blusa de frio não. porque não orna. banana não orna.

PCP #05 – como você

Fiz um milhão de coisas e ainda nem deu duas da tarde! HOJE EU TÔ BEM. Acordei assim… pro-du-ti-va! Adiantei tanto check que o Todoist ficou com vontade de me dar feliz ano novo! Que dia. Quase, por um segundo, dá pra esquecer a LOUCURA que nos assola nesse país. Ainda bem que existe a arte, eu sempre penso, ainda BEM que existe esse monte de gente genial fazendo coisa linda a partir de tanta coisa merda. Que bom.

Eu poderia citar uma lista de artistas que têm me acompanhado nesses dias dentro do mesmo espaço solitário. Seria longa. Fico contente em poder dizer, no entanto, que quem mais me dá fé na vida são aqueles com quem convivo, aqueles com quem meus dias mais envoltos na rotina se dividem. Afinal, sendo quem sou, não me surpreende que não precise sequer sair de meu grupo para encontrar alguém que consiga conectar os conceitos de ostracismo e cancelamentos.

A banda do cara gente boa do trabalho é o som que bota qualquer um pra se mexer, a composição de um amigo na voz de um país inteiro, o lançamento de uma professora para o resto do mundo. É uma satisfação gigantesca ver que nós, seres humanos, seres falhos, idiotas, errados, propositalmente incorretos, vingativos, vulneráveis, NÓS podemos ser melhores.

Nós, que somos completamente normais, que pagamos nossas contas ou não, que temos paz ou não, que temos vontade de fuder hoje ou não, que temos um espaço no coração ou não, que temos vontade de seguir em frente. Todos nós. Todos nós podemos ser melhores. Todos nós podemos fazer o mundo melhor. Todos nós podemos colocar alguém pra dançar. Todos nós podemos inspirar alguém. Todos nós temos um pedaço de arte possível dentro da gente. Que loucura. Que delícia. Que bom estar vivo. Que bom dançar aqui, onde o quintal é brasileiro.

Botei até na lista, pra amanhã: dançar na sala (eu moro em apartamento, a gente se vira como dá).

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