história pra contar

quase que passou uma semana inteira sem que eu publicasse algo e seria péssimo porque eu escrevi, literalmente, na bio do meu twitter que tem texto novo no site toda semana. não é como se alguém realmente estivesse vindo aqui a cada sete dias pra checar e me bonificar – ou cobrar -, mas eu adoraria conseguir publicar pelo menos uma vez por semana alguma coisa que eu escrevi. é muito doido porque eu realmente escrevi bastante essa semana. entreguei alguns projetos e precisei reescrever vários conteúdos para o trabalho então sim escrevi bastante mas o meu arquivo do livro, por exemplo, não foi lá muito frequentado, eu na verdade escrevi cenas isoladas e tomei algumas decisões em relação ao final da história (que é exatamente a parte que estou construindo agora), mas é definitivamente assustador estar terminando de escrever um livro porque eu fico com a sensação que se esse livro for bom eu nunca mais vou conseguir escrever outro como esse e se ele livro for ruim eu nunca mais vou conseguir escrever qualquer coisa. e aí eu também começo a me perguntar quem é que vai definir se é boa ou ruim a história que eu estou tentando contar há tantos anos?, porque faz pelo menos cinco desde que escrevi uma cena da Rita pela primeira vez e a história já foi pra vários outros caminhos e agora temos duas personagens fortes e fodas com alegrias e verdades absolutas e traumas e vazios e danças descontroladas e pequenas grandes coisas pra contar e eu sempre me pergunto como será que alguém, seja ele quem for, vai definir se é boa ou ruim essa história que há anos vem me fazendo descobrir que dentro de mim existem pequenas grandes coisas pra contar? quase passei uma semana inteira sem publicar nada, mas aí me deu um medo de acharem que eu não tenho nada pra contar e resolvi dizer que eu venho há anos descobrindo que tenho sim.

diário de escrita: quando a inspiração não vem

eu nunca fui de textos longos, história compridas e coisas que durem. enjoo de tudo, o tempo passa mais rápido na minha cabeça e em um mês já vivi duas vidas. minhas relações não duram e eu sempre peço demissão antes da hora. escrever um romance tem sido um desafio diário.

eu ainda não enjoei da preta, mas tenho muito medo de quando isso acontecer. acho que o medo tem me paralisado. me inscrevi no nanowrimo e consegui desenvolver dois capítulos que gostei – todo o resto foi pro lixo e pro limbo da criptografia que o windows deve fazer com as nossas palavras tecladas que desperdiçamos apertando o delete.

na última semana comecei a ler um livro chamado “pornopopéia”, um neologismo escolhido pelo autor pra nomear uma história muito louca. o cara é muito fodido na vida (porque quer), toma decisões péssimas (conscientemente) e, se não fosse tão improdutivo, poderia ser o chnaski.

pelo menos o alterego de charles bukowski escrevia sobre suas imbecilidades. o zeca só cheira, bebe, fuma e come quem não devia.

sempre me disseram que eu procuro problema e não posso discordar. foi nessa história de um cara todo cagado e cheio de coisas que me deixam puta que encontrei um gás pra voltar a escrever. fazia tempo que não sentava na frente do computador e escrevia tanto, sobretudo na voz da preta.

o ricardo me inspira mais. tá aí uma novidade sobre esse livro: ele tem duas vozes. e isso foi outra decisão minha pra tentar contornar minha compulsão por novidades. é mais fácil escrever pelo ricardo, mas dele eu já enjoei faz tempo.

a preta é diferente de mim em muitos aspectos, exige muita pesquisa e preciso me esforçar pra não julgá-la, enquanto ser humano, e conseguir escrever sob a ótica de quem faria o que ela faz. eu não faria.

sair de si pra criar um personagem cujas escolhas não te apetecem é um desafio enorme. escrever em duas vozes, maior ainda.

esse livro me traz alguns medos:

  1. acabar tendo uma história com dois personagens mal construídos porque enjoei de ambos e não consegui estruturar nada;
  2. largar mão de tudo, deletar o arquivo e só escrever um conto com uma história que poderia ser um romance;
  3. não conseguir desenvolver tudo da forma como eu quero;
  4. criar um personagem tão pau no cu que nem com reza braba, pesquisa e más influências vou ser capaz de sustentar.

escrever é uma delícia. dá um medo…

o que me conforta é que, pelo menos, do medo eu não enjoo.

diário de escrita: escrever um livro é um processo para aprender a dizer “sim”

eu comecei a escrever muito nova, já falei isso milhares de vezes. não canso de repetir: tudo de mais importante na minha vida foi documentado. é bizarro pensar, mas não consigo recordar de um momento sequer que tenha sido, de fato, relevante e não tenha se tornado, pelo menos, uma entrada no meu diário.

o que ninguém (ou quase ninguém) sabe é que eu também escrevo sobre a vida dos outros. não no uol.com, menos ainda no hugogloss.com. a real é que eu escrevo sobre a vida de gente que só vive dentro da minha cabeça e, agora, no meu evernote. há uns cinco anos comecei a escrever uma história ficcional que pendia pro suspense, envolvia policiais, processos químicos, transformações e seres completamente amórficos e totalmente temperamentais. era tudo muito distante da minha realidade e parecia um livro escrito por uma menina do ensino médio — e era. minha professora de biologia (atual amiga que recebe áudio meu levemente alcoolizada), Carla, lia tudo na época e dizia adorar, apesar de nada me tirar da cabeça que isso só acontecia porque ela gostava muito de mim e não queria me ver triste.

com o tempo, fui aprimorando. conheci personagens novos que moravam em outros lugares da minha cabeça, fui andando por dentro de mim numa esperança irremediável de encontrar a história de quem eu tanto tentava contar sem nunca conseguir. juro que não tô sendo abstrata: toda vez que sentava pra escrever, sentia pairar sob a minha mente o sentimento de “isso é bom, mas ainda não é isso”.

tenho inúmeros personagens. a Lúcia é metódica, o Carlos é o gente-boa-bobão, a Manuelle sempre faz alguma cagada e tem uma que não tem nome, mas é uma personagem tão inteligente que me obriga a estudar antes de escrever. eu crio personagens, histórias e realidades diferentes das minhas. criei contos inúmeros. escrevi livros curtos (existe um termo pra isso como existe “curta-metragem” pra filmes?) e nada nunca saiu muito do papel. como disse, eu até gostava do que tava sendo escrito, mas não conseguia considerar suficiente.

até a Preta aparecer. e agora ela apareceu.

e eu queria contar que a história dela é a mais legal que eu já escrevi. considerei absurdamente suficiente, porque no momento que comecei a delinear as primeiras cenas, alguma coisa na minha cabeça disse: “agora sim”.