pcp #10 – down em mim

O John Lennon vivia num mundo paralelo onde tudo é lindo e every day in every way it’s getting better and better. Por aqui, 40 anos depois dele ter morrido com 40 anos, everyday é tempo demais. Em 2020 faz mais sentido citar Cazuza, que faz 30 anos que morreu aos 32. Ele tinha alguma familiaridade com a tristeza, um ar meio underground. Combinava com a dor. Eu sou metódica e me desentendo com a melancolina. Sofrer não cabe na agenda. E ficar triste CAGA meus planos. 

Dia desses, o mundo pesou demais. Não consegui fazer absolutamente nada durante três dias inteiros. Nada. O tanto que demorei na revisão semanal pra reagendar tudo não tá nem escrito. O Todoist tá até zonzo. Porque, assim, né, estamos no meio de uma pandemia. Caótica. O governo está abrindo as portas, antes do vírus ter sido contido, para que as pessoas voltem às ruas. Tem baile rolando. Só tá em casa quem sabe de cabeça o café preferido da Starbucks. O resto do mundo tá vivendo. Ou melhor, morrendo. Então, sim, eu fiquei desolada e completamente paralisada pelo caos. 

É inevitável que o mal estar causado pelo mundo tire a gente do eixo, mas quem planeja cada passo sofre ainda mais quando a vida decide que não se importa com o que você tinha intenção de fazer. Nesse dia que acordei triste, muito triste, inconsolável, chorei em todas as trocas sociais que fiz. Participei das reuniões sem ligar a câmera e deixei o microfone no mudo para chorar e soluçar em paz. Me arrastei pelos dias com a sensação de que o mundo era demais pra mim. Foram três, consecutivos. Sem conseguir fazer, efetivamente, nada. De corpo presente, sentindo que não daria conta de mais um minuto. E dando conta de mais muitos minutos. A vida foi acontecendo e eu não tomei as rédeas de nada. A vida foi acontecendo e eu não fiz planos. Deixei acontecer.

É uma loucura pensar no poder de um dia ruim. Eu estava sem energia alguma no corpo. Absolutamente fraca, limitada. Não conseguia pensar. Focada na dor que passeava pelo meu corpo sem pressa pra ir embora. E o trabalho nem me permitiu beber até esquecer. O banheiro é a igreja de todos os bêbados e eu sequer pude rezar. Os dias seguiram, sozinhos, sem minha intromissão. Não fiz o que estava planejado. Ninguém morreu. Não dei satisfação. 

Ninguém perguntou.

Hoje acordei menos triste. O peso do mundo ainda está nas minhas costas, mas consegui cumprir algumas tarefas simples. Enviei arquivos, fiz umas duas ou três telas bonitas no ppt, revisei informações, liberei materiais pra produção. Fiz o que dava. E percebi que é perfeitamente possível deixar as coisas pra depois, se for preciso. Eu fiquei três dias sem cumprir nenhuma tarefa e ninguém morreu. Life is what happens to you while you’re busy making other plans. Tudo sobreviveu sem mim enquanto eu tentava sobreviver em mim. Não decidi, ainda, se é assustador ou um alívio. E quando perguntarem o que houve, vou dizer que era instabilidade na Net, acredita? Malditos. Outra vez vou me esquecer pois nestas horas pega mal sofrer. Pensei em escrever um texto para me justificar. Mas já faz uma semana. Ninguém perguntou. Vou aproveitar o silêncio.

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Esse é o último texto da série Plano de Contingência de Pandemia. 🙂

pcp #09 – malemolência

Coloquei a máscara pra buscar as encomendas na portaria e, assim que pisei pra fora do apartamento, minha cara começou a coçar. Inteira. Todos os poros do meu rosto estavam coçando. Eu queria enfiar o dedo no olho e esfregar até ficar vermelho e lacrimejar. Meu nariz coçava tanto que parecia que tinha uma pena dentro dele, dançando ao som de Malemolência, da Céu, bem slooowwww dowwwwnnnnn… 

PUTA QUE PARIU. Eu achei que ia morrer. Achei mesmo. Fiquei fazendo careta com o nariz encostando na boca e quase alcançando as bochechas de tanto torcer. QUEM DEIXOU COÇAR ASSIM?, eu cantei pensando na pena que dançava Malemolência, literalmente, embaixo do meu nariz. Literalmente metaforicamente. Eu tava implorando pra porra da pena parar de dançar a porra da roda da malemolência.

Céu, te amo, mas não tava dando. Cheguei no portão. O entregador claramente confuso com as minhas feições tortas. Avisei “tá coçando, tá foda”. Ele tirou a máscara pra me responder que coçava mesmo aí ele fazia assim, oh, e usou a própria máscara pra coçar o nariz. Fiquei pensando se ele estava muito certo ou muito errado. Tava coçando demais pra chegar a qualquer conclusão, mas, depois de tê-lo visto tirando a máscara pra me responder, pensei que talvez ele não fosse a pessoa mais indicada para me dar recomendações de segurança.

Segui forte. Piscando os olhos com força para ignorar a coceira e torcendo o nariz no ritmo da música que tocava em looping na minha cabeça. Uma versão específica, ao vivo, com nuances e dançando com outras músicas. A pena hipotética dançava no meu rosto inteiro, agora, e senti minha orelha coçar. Fechei o portão com o pé e me senti livre para voltar a fazer caretas nada sutis, agora já de costas para o entregador e meio-que-correndo de volta pro meu apartamento. Aqui não tem elevador e eu moro no quarto andar. Subi as escadas com os olhos arregalados, uma vez que apertá-los estava sendo muito pouco efetivo.

Os olhos arregalados não resolveram muita coisa. Terceiro andar. Paro na escada, fecho os olhos e respiro fundo. Me concentro. Falta só mais um. Seguro as sacolas, dou uma longa inspirada e subo de uma vez só. E a pena na roda da malemolência na minha cara. Coça muito a narina direita, especificamente. Cada vez mais acreditando que algum resíduo do tecido da máscara certamente caiu, de fato, no meu nariz e está, de fato, ouvindo a música Malemolência que está tocando na minha cabeça e está, DE FATO, dançando. Não tinha mais nenhuma explicação pra tanta coceira. 

Coloco a chave no buraco da fechadura com a maior calma do mundo, pra ser certeiro. Devagar e sempre. Deixo as compras na porta, entro em casa, lavo as mãos, pego papel e álcool gel, higienizo a maçaneta e a chave. Coloco as compras na pia. Ainda de máscara, ignorando a coceira. Eu sou metódica. Sofro, mas não perco a ordem. Fui no banheiro, tirei a máscara, joguei no balde de roupa suja, lavei o rosto. Peço desculpas aos possíveis leitores (tem alguém aí?) um pouco mais… sensíveis. Mas eu enfiei o dedo no nariz com a força da vida. Por todas as vezes que minha mãe me mandou tirar o dedo do nariz. Por todas as vezes que eu não pude enfiar o dedo no nariz em público. Por todas as vezes que eu desci pra buscar o delivery e fiquei com muita coceira e precisei fazer caras e bocas pra conseguir minimamente me manter sã com TANTA COCEIRA. Enfiei o dedo no nariz. O dedo indicador, quase inteiro. Nem sabia que cabia tanta coisa dentro do nariz. Foi um alívio gigantesco. Orgásmico. Homérico. 

Achei justo colocar Malemolência pra tocar enquanto eu lavava as compras. Minimamente justo que, depois de sofrer tanto por ter outras coisas dançando dentro de mim, eu mesma dance. Meu nariz voltou a coçar, mesmo sem máscara. Dei uma gritadinha enquanto guardava as coisas geladas na geladeira. Decidi dançar. Voltei a fazer as caretas para aliviar o incômodo no nariz e nos olhos. Aos poucos, fui sentindo como se meu corpo inteiro estivesse se revirando para dançar comigo. As entranhas todas acompanhando o ritmo da música. Não pude evitar, tirou meu ar. Fiquei sem chão. Fazer o que? É a roda da malemolência.

Foi a primeira vez em muito tempo que dancei.

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pcp #08 – entra no clima

Sempre me falam que o excesso de organização é danoso, porque nos coloca numa parada de tentar controlar tudo e isso é sofrido é ruim etc. Acho balela, escuto atentamente e ignoro solenemente. Sempre. Foda-se o que falam. Controlar tudo é uma delícia. A organização me dá uma paz de espírito que mais nada, no mundo, nunca, jamais, em nenhum momento, chegou a dar: a tranquilidade de saber que as coisas têm jeito.

O GTD, método de organização que eu sigo, diz que a gente precisa capturar as informações que a gente recebe na hora que a gente recebe. Isso ajuda muito no dia a dia, pra evitar de deixar as coisas passarem batido. Olha só como é importante: o método de organização que eu sigo me ajuda a não deixar a vida passar batida. Putz, tô até arrepiada. E ainda nem cheguei onde eu queria chegar. 

Dia desses, no meio da fissura de fazer almoço com um call marcado pra daqui 45 minutos e um documento pra revisar antes do fim do dia, derrubei uma caixa inteira de palitos de dentes em cima da pia, que tava suja com sangue da carne que eu estava cortando para cozinhar para o almoço. Eu quase me desesperei. Quase. Mas, por hábito, parei e pensei: “o que eu preciso fazer para resolver isso?”. Não era uma opção surtar. Juntei todos os palitos e joguei fora. Lavei as mãos. Adicionei ao Todoist: “comprar palitos de dente #Rappi”. E voltei a fazer a carne. 

Gente, vocês ENTENDERAM? Eu facilmente teria surtado. Profundamente. Mas aí eu fiz o que precisava fazer pra resolver. Porque é assim que as pessoas que se organizam funcionam. Elas pensam nos próximos passos. Elas pensam na vida pra depois de só agora. É um planejamento pra evitar mais problemas. É um planejamento pra gente saber que a vida tem jeito.

É engraçado, quase engraçado, eu sei, mas veja só: quando eu comecei a me organizar, tinha problemas bem sérios, que me tiravam o sono. Umas dívidas homéricas feitas pelo excesso de uso do cartão de crédito e por tentar parecer estar em uma classe social e ter um status que eu nunca tive – e provavelmente não terei. Não terei porque não quero e hoje sei que não quero, mas não sabia. Precisei me organizar pra descobrir. E, quando comecei a me organizar, encontrei alguns impasses. O maior de todos encontrei no espelho: chorei muitas vezes no fim do dia por não dar conta da infinita lista ideal de coisas que queria fazer em cada dia. 

Tive dificuldade em aceitar que eu não era capaz de fazer tudo aquilo que estava me propondo a fazer. Porque, sim, é uma delícia preencher os quadradinhos dos apps de produtividade e ficar pintando a folha do bullet journal pra fazer o planejamento ficar lindo. E, cara, não tem nada mais prazeroso no mundo, nem uma foda muito bem dada, do que terminar o dia riscando todos os itens de uma longa lista de tarefas. Mas isso não é a vida real. A vida real tem empecilhos, imprevistos e repriorizações, o tempo todo. A vida real não se ajusta a 3 projetos que exigem trabalho concentrado no mesmo dia. A vida real, ainda mais em quarentena, ainda mais trancada em casa, ainda mais com recursos limitados, não aceita exaustão mental como regra. A gente surta.

Meus amigos, Arlindo já cantou que esse jeito de quem tá sofrendo tá destoando do nosso astral e a gente assim fica feia, a gente assim fica mal. A organização foi o que me permitiu ser mais feliz. Ter mais visão do que eu priorizo, do que eu quero fazer. Mesmo que isso signifique criar uma tarefa enquanto escrevo esse texto pra lembrar que preciso checar onde está a minha encomenda. Porque se eu abro a tela do Todoist e adiciono essa tarefa, eu não preciso pensar nisso. Eu sei que não preciso pensar nisso. E aí eu posso pensar em coisas muito mais legais.

Consigo lembrar que a semana que vem vai ser difícil, mas já está tudo organizado e vai até dar tempo de trocar uma horinha de ideia com as minhas amigas pelo Hangouts. Vai dar tempo de ajudar a colega de trabalho com um projeto que parece legal. E, quem sabe, vou ver um ou dois filmes que estão na infinda lista de coisas que quero assistir, que me indicam. Quando a gente organiza o necessário, a gente abre espaço pro eventual e a vida é feita do que é eventual. A organização planeja pra que a gente possa viver fora dos planos. Tem coisa melhor? Arlindo tinha mesmo razão: a vida é sofrida, mas ainda é boa. A gente se planeja pra não se perder no sofrimento. É difícil, mas se organizar direitinho…

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pcp #07 – como nossos pais

Decidi que preciso ser mais inteligente. Pensei nisso porque, veja só, tinha uma louça gigantesca em cima da pia e eu sequer sabia por onde começar. Como uma pessoa sozinha consegue fazer tanta louça? O detergente daquele plástico que fica em cima da pia tinha acabado. Buscar mais detergente parecia um bom jeito de começar. O único, na verdade.

Fui na lavanderia, descobri que a embalagem que eu estava pegando era a última e, antes de voltar pra cozinha, adicionei “comprar detergente #Rappi” ao Todoist. Voltei pra pia e comecei a organizar os pratos antes de lavá-los. Comecei a pensar, muito, sobre os pratos. Em um dado momento, precisei decidir se a louça ficaria mais compacta ou se eu optaria por não deixar a gordura de algumas coisas tocar em todas as coisas, espalhando em diversos grupos pela pia, fogão e bancada. Pensei muito. Mais do que seria necessário, porque, afinal, é só uma louça. Uma grande louça, mas apenas uma louça. Fiz muito esforço mental. E percebi que precisava dar um jeito disso ser mais leve e natural, porque eu nunca fui bonita e sempre quis ser inteligente então se não conseguisse decidir algo tão simples sobre a louça, nunca ia conseguir ser inteligente. E, francamente, que pessoa inteligente gasta tanto tempo pensando na louça acumulada na pia ao invés de simplesmente lavá-la?

Pessoas inteligentes, invariavelmente, sabem o que fazer. Pessoas produtivas, e essas palavras são do David Allen, deveriam ter suas mentes claras como água. A tradução para o português é meio borocoxô, mas a ideia é ótima. Me lembra, inclusive, de um conto do David Foster Wallace em que ele nos lembra que, às vezes, estamos imersos nas coisas e esquecemos que estamos imersos nas coisas. O conto narra a história de dois peixinhos que estão nadando juntos e dão de cara com um peixe mais velho, que cordialmente os pergunta como está a água (igual quando nós, humanos, nos encontramos no elevador com alguém e perguntamos como está o clima lá fora). A questão no conto é que os peixinhos sequer sabem o que é a água, apesar de viverem nela. O ponto é mais ou menos esse: ter a mente clara como água é lembrar: onde estamos, quem somos, para que serve o que estamos fazendo, com o que estamos nos relacionando, o que queremos manter em evidência. Dá até pra resumir: ter a mente clara como água é ser capaz lembrar. 

Um bom tempo atrás, como uma epifania, entendi que, assim como a de Belchior e Elis, minha dor é perceber. Sem o resto da frase. Perceber, nunca conseguir ignorar, sempre me atentar, sempre me manter alerta. É cansativo perceber. Desde que percebi, sigo tentando diminuir essa dor, transformá-la em recurso, qualquer coisa assim. É até meio coach. Fazer com que a dor tenha algum sentido, que seja um insumo, que leve pra algum lugar.

Sempre sofro por pouco, porque percebo muito o tempo inteiro. Hoje, em específico, percebi que fazia mais sentido compactar todas as coisas da pia para que ocupassem menos espaço. Mas demorou tanto, tanto, tanto. Às vezes, a gente só precisa perceber que, a longo prazo, pouco importa a escolha. Às vezes, a gente só precisa perceber que, a longo prazo, a gente só precisa lavar a porra da louça. Às vezes, meio que foda-se o que a gente percebe. E, quando a gente percebe que foda-se, dói ainda mais. Viu? A dor é perceber.

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PCP #06 – cajuína

Não tenho muita familiaridade com nada que dura. Sempre gostei de haikai. Minha música preferida tem seis linhas. É o suficiente. Caetano, às vezes, esquece, mas eu nunca. Existirmos, a quê será que se destina? Aliás, não tenho mesmo familiaridade alguma com coisas que duram: tenho um sério problema de permanência. Já tentei fazer uns cursos, já tentei fazer meditação, yoga, ayurveda, TODAS essas coisas. Não cheguei até o fim do curso e desisti da meditação antes do fim do primeiro minuto. Juro. Não dá. Sequer consigo ler livros longos. Desisto antes de ficar bom, que nem na vida. Desistiria até de Cajuína, cristalina em Teresina se não fosse tão boa logo de cara. 

Mas isso não foi do nada, eu sempre gostei de desistir. Quando decidi que ia parar de sofrer pra abrir mão, fiz um plano. Na minha aba de projetos pessoais, comecei a pensar em tudo o que precisaria fazer para diminuir meus sofrimentos cotidianos. Basicamente, precisava entender como sair de perto do que não tinha nada a ver comigo. E, é claro, fazer isso sem lidar com TANTO DESGASTE – se é que isso é POSSÍVEL. 

Fiz projetos para ir aprendendo a me desvincular: me afastando de pessoas, saindo de empregos, quebrando rotinas, abrindo mão de dinheiro pra poder ter um pouco de paz. Ignorei muita coisa, muita gente e muita merda. Desistir é uma delícia, mas eu não diria que sempre foi natural.

Agora, me seguro muito para não desistir de todas as coisas. Porque é tão fácil aceitar. Aceitar é dádiva de vida. Você não reclama, não se desgasta, não alimenta expectativas. Segue em frente. Aceitar é o caminho para a felicidade e, por isso, sou completamente viciada em desistir. Não dá pra se sentir pressionado pelo que não te importa. Pouco importa, na verdade, o que é ser feliz. Aceito a facilidade. Apenas a matéria vida era tão fina, diria Caetano. Da vida não dá pra desistir, nem quero. Todo o resto, sim. Carregar menos pra sofrer menos. 

E, francamente, eu preciso perguntar, se não for pra abrirmos mão do que dói, se não for pra nos afastarmos de quem nos machuca, se não for pra escolhermos estar perto de quem nos faz feliz, se não for pra nos sentirmos inexplicavelmente bem… Existirmos, a quê será que se destina? Se não for para que façamos todas essas coisas, suspeito que nossas vidas não precisem, então, durar muito mais do que uma música como Cajuína.

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PCP #05 – como você

Fiz um milhão de coisas e ainda nem deu duas da tarde! HOJE EU TÔ BEM. Acordei assim… pro-du-ti-va! Adiantei tanto check que o Todoist ficou com vontade de me dar feliz ano novo! Que dia. Quase, por um segundo, dá pra esquecer a LOUCURA que nos assola nesse país. Ainda bem que existe a arte, eu sempre penso, ainda BEM que existe esse monte de gente genial fazendo coisa linda a partir de tanta coisa merda. Que bom.

Eu poderia citar uma lista de artistas que têm me acompanhado nesses dias dentro do mesmo espaço solitário. Seria longa. Fico contente em poder dizer, no entanto, que quem mais me dá fé na vida são aqueles com quem convivo, aqueles com quem meus dias mais envoltos na rotina se dividem. Afinal, sendo quem sou, não me surpreende que não precise sequer sair de meu grupo para encontrar alguém que consiga conectar os conceitos de ostracismo e cancelamentos.

A banda do cara gente boa do trabalho é o som que bota qualquer um pra se mexer, a composição de um amigo na voz de um país inteiro, o lançamento de uma professora para o resto do mundo. É uma satisfação gigantesca ver que nós, seres humanos, seres falhos, idiotas, errados, propositalmente incorretos, vingativos, vulneráveis, NÓS podemos ser melhores.

Nós, que somos completamente normais, que pagamos nossas contas ou não, que temos paz ou não, que temos vontade de fuder hoje ou não, que temos um espaço no coração ou não, que temos vontade de seguir em frente. Todos nós. Todos nós podemos ser melhores. Todos nós podemos fazer o mundo melhor. Todos nós podemos colocar alguém pra dançar. Todos nós podemos inspirar alguém. Todos nós temos um pedaço de arte possível dentro da gente. Que loucura. Que delícia. Que bom estar vivo. Que bom dançar aqui, onde o quintal é brasileiro.

Botei até na lista, pra amanhã: dançar na sala (eu moro em apartamento, a gente se vira como dá).

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PCP #04 – apesar de você

Antes de qualquer coisa, vamos tirar esse elefante da sala. Não fiz exercícios no feriado. Simplesmente não deu. Tô cansada. Essa semana tá tão arrastada que parece música de Chico. Um laraiá lararaiá que nunca chega lá. Ainda não deu tempo de fazer tudo o que eu precisava ter feito até hoje. ÓBVIO. O recurso de reagendar o prazo das tarefas tem sido muito utilizado. Não porque eu não estou dando conta, mas porque as instabilidades no mundo lá fora fazem as prioridades mudarem o tempo INTEIRO. O que era pra depois vira urgente e, o que era urgente, se mantém sendo igualmente urgente. O dia, invariavelmente, continua tendo a mesma quantidade de horas, o que é SUBSTANCIALMENTE prejudicial para planejamentos. 

Como eu disse, tô cansada. Tá foda. E nem tem live que vá dar conta disso, estou inconsolável. Ontem teve, no PopLoad TV, Manu com a Letrux, uma dupla capaz de criar uma grande rede de tensão sexual virtual entre sapatonas. Imagine só a quantidade de mensagens pra ex. É de parar o coração. E o meu segue aqui, batendo, imbatível. Inabalável. Nada me tira da mente o que preciso fazer, no que preciso pensar, no que poderia estar pensando. EU PODERIA ESTAR PENSANDO, não estou, não consigo. Mas tinha tanta coisa que eu também queria estar fazendo. 

Mas é aquilo: cansada, a gente não consegue fazer muita coisa. Então aceito, vou lá, abro uma cervejinha e vou pensar nos próximos dias. Tenho três projetos simultâneos acontecendo e preciso organizá-los para que todas as entregas estejas boas e consistentes NO DIA ESTIPULADO. Várias informações para analisar, organizar e planejar. A primeira cerveja acabou. A caixa de entrada ainda tinha várias informações para serem processadas. 

Levantei, peguei uma lata, voltei pra cá, comecei a escrever esse texto. Porque, cara, tem uma pandemia global acontecendo lá fora e aqui dentro ESTAMOS TENTANDO MANTER OS PLANOS. Estamos TENTANDO organizar medidas para NÃO MORRER. Não temos sido muito bem sucedidos, eu tô pra dizer. A dança das cadeiras do poder tá ficando sem opções de participantes. Dá medo. E eu aqui, acumulando louça. Com dor na coluna, por causa da cadeira. Irritada, profundamente irritada, com o delay no mundo. 

Estamos todos em pausa. Quase como se estivéssemos tentando seguir, cada um com seu plano, e fomos colocados, por força maior, todos na mesma estrada. Que vai nos levar, sem muita delicadeza, a um espaço de futuro nunca antes habitado. Vamos chegar em um espaço de futuro onde a humanidade vai precisar aceitar que somos todos feitos da mesma coisa. Vamos chegar em um lugar onde precisaremos admitir que não é possível viver da forma como vivíamos antes disso tudo começar. Ele deve existir em algum lugar, esse futuro, e eu me pergunto se a gente VAI DAR CONTA.

Tantos planos frustrados. Chega a doer. E a gente aqui, sabe? A gente aqui, tentando preencher os dias. Com quadradinhos. Com checklists. Com videoconferências longas demais e ninguém NUNCA desliga o CACETE do microfone. Cara, se teu microfone é uma merda, você precisa desligá-lo. Estamos TODOS passando por um momento MUITO DIFÍCIL para o barulho do ruído do seu microfone ficar em cima da voz de alguém que está tentando facilitar o nosso trabalho. Hoje não tem alegria. Deixo pra amanhã. Porque apesar de mim e de você, amanhã há de ser outro dia.

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PCP #03 – como dois e dois

E AGORA AINDA É FERIADO NESTA MERDA. Mas vá pra puta que pariu que NADA pode seguir o planejado nessa vida. Nada. Absolutamente nada. Veja: essa semana JÁ ESTAVA caótica. Já NÃO HAVIA esperança alguma de dar conta de todas as tarefas. A gente sabe, a gente se engana. Tá no Todoist só pra frustração de sexta-feira mostrar que a gente ainda está vivo. Caetano até tentou cantar pra mim: Tudo vai mal, tudo… Tudo mudou não me iludo e, contudo, a mesma porta sem trinco, o mesmo teto…  Mas, Caê, quando é a mesma porta e o mesmo teto, a gente deveria saber o que esperar. 

MAS NÃO. É AÍ QUE TÁ. A gente nunca sabe. Foi preciso decretar FERIADO. Porque as pessoas NÃO TÊM NOÇÃO. As pessoas não conseguem entender que É POSSÍVEL QUE FALIDOS SE RECUPEREM, mas os falecidos SÃO PERMANENTES. Eu sei e ENTENDO que o seu negócio é pequeno e vai ser foda manter o rolê acontecendo, EU SEI, mas as pessoas PRECISAM ESTAR VIVAS para que isso aconteça. Se todo mundo morrer não vai ter ninguém pra comprar o que você tem para vender. A conta é simples. Como dois e dois são CINCO.

Porque, ignorando ESSE DETALHE FÚNEBRE, as coisas estão FORA DE CONTROLE. As entregas de sexta-feira, ficam pra quando? E as de segunda? E pior: as de quarta? As de quinta? Acho nobre a atitude da prefeitura e do estado de São Paulo de recorrer a medidas extremas para tentar diminuir a quantidade de casos diários. Está preocupante. Muito preocupante. Não estou reclamando. Estou perguntando. O que eu FAÇO com essas coisas? Ou melhor: QUANDO eu faço essas coisas? Porque trabalhar no feriado não é uma opção. Tenho trabalhado em todas as outras ocasiões. Mal tenho conseguido tomar banho. 

É fácil ficar sem tomar banho quando você está dentro de casa o tempo todo. Você acorda um dia, toma um banho, faz um café, vive sua vida, trabalha, reclama do chefe, abre uma cerveja, assiste uma live, arruma a coluna, abre um canal do YouTube com exercícios físicos em blocos de 15 minutos, muda de aba pra postar alguma coisa no Twitter, se perde em um vídeo engraçado de uma criança branca fazendo coisas que crianças brancas fazem, retwitta algo falando mal do Bolsonaro, estica o corpo mais uma vez, lembra que deixou a aba de exercícios físicos aberta, assiste ao vídeo tomando cerveja sentada, junta as latas na mesma sacola, deita na cama mexendo no celular e adormece. No dia seguinte, o despertador toca e você vê que alguém te mandou uma mensagem e que nada está como deveria estar. Você pula da cama pra cadeira sem tirar nem a remela do canto do olho e, quando percebe, o dia já passou, você já abriu outro vídeo de exercícios físicos no Youtube e está falando mal do Bolsonaro no Twitter. Você cochila com a remela de ontem nos olhos. E acorda completando umas 45 horas sem banho. E passa um café antes de encarar o chuveiro, sem culpa. 

Não que isso tenha acontecido comigo. Hoje, não, pelo menos. Até porque hoje é feriado. E eu não faço a menor ideia do que vou fazer com tantos blocos em branco. Talvez eu realmente consiga fazer os exercícios hoje? Talvez. Vou colocar na lista de tarefas: fazer o treino de 15′ daquele vídeo. O objetivo é suar, liberar os hormônios que deixam a gente feliz. Essas coisas. Vou tentar. Vou conseguir. Hoje, eu posso. Eu consigo. O próprio Obama encarnado em meu corpo: Yes, we can. Yes, we can! E, amanhã, yes, we did! 

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PCP #02 – bicampeões da fé

Uma coisa importante que todos devem saber sobre mim é que eu sou corinthiana. Isso quer dizer que, religiosamente, rezo todas as noites ao Pai Cássio que está nos céus. Imunizado seja vosso gol. Ontem teve reprise do jogo que trouxe pra Itaquera o segundo troféu do Mundial de Clubes. O ano era 2012, Corinthians x Chelsea no Japão. Nosso time tinha um Guerrero. Ralf também tava em campo, o que deve explicar a devoção de alguns corinthianos por esse jogador, que mais parece um cone, mas segue em campo.

Assim que terminei de assistir o jogo, em puro êxtase, adicionei, em caixa alta, à minha lista de tarefas: VESTIR A CAMISA DO TIMÃO! Agendado pra hoje, às 8h15, hora que estou saindo do banho. Visto a camisa do Timão. Encontro uma playlist incrível de músicas sobre o Corinthians e dou play pra tocar enquanto tomo meu café. Descubro que o Paulo Novaes também canta sua alma alvinegra. Tem que saber respeitar que a gente pôde chegar. Eu sou Corinthians, e grito, EU SOU BICAMPEÃO! A música é mela cueca, mas cheia de verdades. 

Eu adoro de música mela cueca. E, por mela cueca, entenda que falo de músicas de diversos gêneros: MPB, folk, voz e violão, funk melódico… E eu nem sei o que é funk melódico. Mas não tem nome de coisa que dá pra dançar com a mão pra fora da janela do carro? Queria colocar a mão pra fora da janela do carro. Pois no Corinthians é assim: quando parece que é o fim, a gente mostra o que é ser campeão! 

Abro o organizador no meu computador e começo: revisar o calendário, olhar a lista de tarefas, checar o bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Quando é o próximo jogo? Nova tarefa: procurar quando teremos reprises de clássicos. Talvez tenha no Globoplay, ou no Premiere. Meu cunhado me passou a senha, anotei no arquivo de senhas dos outros, dentro da pasta de Senhas e Códigos de Acesso. Tem que ter fé que vai virar, aquela bola vai entrar e a Fiel vai explodir de emoção. Um arrepio me passou pela espinha só de lembrar o grito uníssono da torcida cantando que é sangue no olho, é tapa na oreia, é o jogo da vida E O CORINTHIANS NÃO É BRINCADEIRA!!!!!!! Adicionei outra tarefa: fazer uma lista de jogos disponíveis no Premiere que quero assistir. Em seguida, outra: planejar quando assistir cada jogo. 

Entrei em reunião cantarolando um salve o Corinthians, camisa do Corinthians e uma xícara do Corinthians cheia de café – poderia ser cerveja, mas seria socialmente inaceitável. 

–  Camisa bonita. – me disse algum outro corinthiano, cujo vídeo ainda não tinha sido carregado. Não reconheci a voz. As iniciais eram AM. Poderia ser o André ou o Ângelo.
– Tô com saudade até de sofrer. Rezo pro Cássio toda noite.
– Amém, irmã. – pela resposta, era o André.
– Assistiu o jogo ontem? – tava doida pra comentar, pensei em sugerir um poropopó virtual.
– Não. Tenho dois filhos. Assisti Mundo Bita.
– Todo mundo assiste esse negócio?
– Todo mundo de 0 a 7 anos, sim.
– Idade mental conta?

Silêncio.

– Vai Corinthians, então – eu tentei.
– Mas eu lembro, como se tivesse visto ontem, daquele gol do Guerrero no auge da esperança…
– Dá até palpitação, né?
– Uma vontade de gritar…

Era a hora. Eu abri a boca pra gritar o poropopó. Alguém, que não estava feliz com o diálogo, cortou:

– E aí, pessoal, todo mundo já entrou? Podemos falar da pauta?

Mandei um chat privado pro AM:

– Ele deve ser palmeirense.
– Flamenguista.
– Dor recente. Normal.

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PCP #01 – eu gosto de mulher

PCP. Plano de Contingência de Pandemia. Este relato é, e não há a menor intenção de ser algo além disso, uma cápsula do tempo aberta. Como não é possível prever ou gerenciar os acontecimentos dos próximos dias, semanas, quiçá meses, torcemos para que não anos; como não é possível prever ou gerenciar, vou registrar. 

Coisas impossíveis e improváveis acontecem em pandemias. Você também não deve saber disso – a não ser que você seja a Rainha Elizabeth e, nesse caso, should I be writing with an accent? Penso com certa frequência se, em algum momento, alguém imaginou que estaríamos em 2020, trancados dentro de casa, sofrendo de calor em apartamentos sem varanda, falando por videoconferência uns com os outros e evitando, a qualquer custo, todo e qualquer momento de reflexão, tentando não surtar. 

A parte do isolamento e superocupação para evitar a reflexão é até comum, eu sei, mas o isolamento obrigatório e a superocupação com LIVES, dificilmente. Eu não tenho nada contra as lives. Acho ótimas. Assisti Zeca, Manu Gavassi, Marília Mendonça, Ana Carolina e gritei muito por dentro. Mas a gente precisava mesmo de tantas? Fica difícil pensar. Inclusive no que diz respeito aos horários. 

Os horários são cruciais para o desempenho da live. A live da Manu, às 19h, aconteceu em um bom horário, porque cabia ali embaixo da última reunião. Começou junto da primeira cerveja. Quando a live acabou, eu ainda tinha alguma dignidade. A da Ana Carolina, mi-nha-mi-ga, complicou. Sexta-feira, 21h. A chance da cerveja já ter batido é gigantesca. O expediente acaba às 19h, a primeira cerveja vem uma hora antes. Porque é sexta. E o vírus quer matar todo mundo e eu não vou morrer sem tomar essa cervejinha.

Fui lá, abri uma cerveja, comecei um esquenta alto astral, cantando que se não for por mulher não saio nem do lugar. Continuo trabalhando, fechando os últimos detalhes para começar a próxima semana bem. Mulher de corpo inteiro, não fosse por mulher eu não era roqueiro. Eu não sou, você é? A Ana Carolina não. Grito MULHER PRA PRESIDENTE! Listo todos os detalhes pra ter o final de semana tranquilo. EU-GOS-TO-É-DE-MU-LHER! Abri a segunda cerveja ainda na primeira música. Bom, assim não vou precisar pensar em mais nada. Já anotei que preciso revisar calendário, lista de tarefas, bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Mulher eu já provei. Eu sei que é bom demais, o resto eu não sei. 

Nesse ritmo, quando terminei de dar check em todas as caixinhas do organizador, já estava com as duas pernas em cima da cadeira, abraçando os joelhos e cantando que EU SUBO BEM ALTO PRA GRITAR QUE É AMOR e endossando o trocadilho mais sem-vergonha da música brasileira: e eu vou de escada pra e-le-var a dor. 

Às 21h eu tava bêbada. Dançava com os braços erguidos, andando com a cadeira de rodinhas pela sala. Na TV, um vídeo da Ana Carolina com Angela Ro Ro num improvável clima sensual ao cantarem que gostam de homens e de mulheres – e você, o que prefere? Eu dispenso homens de sobretudo e gosto das mulheres, melhor sem sutiã. Levanto. Danço. Rodopiando, segurando a quarta lata de cerveja. Ana Carolina entra ao vivo. Quando começa a live, já estou completamente entregue à inevitável nostalgia que aparece no primeiro acorde de qualquer música do disco Ana Rita Joana Iracema e Carolina.

Chorei? Chorei. Estou sofrendo, realmente, em minha vida? Não estou sofrendo. Não deveria estar. Pensei: deve ter algo a ver com os astros. Fui buscar. Pois bem: vênus. Retrógrado. Em gêmeos. Honestamente, nem sabia que os planetas ficavam retrógrados EM SIGNOS, mas veja só: ficam. Em Gêmeos. O que significa, em resumo, que o passado vai voltar pra te fazer ver se gosta do caminho que sua vida tomou. Até dia 6 de agosto, diz aqui. A resposta é que eu gosto, SIM, porque PLANEJEI CADA PASSO. Então, imediatamente abro minha agenda. Até dia 10 de junho preciso pensar no que dizer caso eu seja agraciada com o retorno de alguma das pessoas com quem me relacionei. Coloco dois lembretes: dia 10 penso e escrevo, no dia seguinte reviso. Dia 12 tudo estará pronto e, se a solidão pandêmica causar algum lapso de carência no dia dos namorados, estarei preparada. 

Com isso, somado ao meu contato que sempre adianta a data das lives de Marília Mendonça, fico sempre afrente das possíveis discussões. Mal assisti a última, tamanha a comoção de uma ex que insistiu que havia se apaixonado pelo o que havia inventado de mim e, por isso, estava ali de corpo e alma para me conhecer de verdade. Como se eu quisesse. Previsível. Mal precisei ajustar o texto que tinha planejado.

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Esse é o primeiro texto da série Plano de Contingência de Pandemia. 🙂