barulho

o barulho da obra

do lado da minha casa

estraga meu dia

e todo o resto da vida

porque barulho é um negócio que fica

não passa rápido

não passa batido

não passa

fica

fica

fica

tec

tec

tec

sem pacificar

guerra pura

das orelhas que não querem ouvir

da cabeça que não quer assimilar

do barulho que ninguém quer escutar

mas escuta

repete

faz

insiste

barulho é insistente

esse barulho é resistente

penso muito sobre os barulhos que ficam na cabeça da gente

penso muito

imagina o barulho dentro de quem se escuta de repente

quase fico feliz pois

pelo menos com barulho

fora

não vai dar pra ouvir

(dentro)

(dentro)

eu andava pela rua ignorando a mim mesma
encontrando poemas mentais
no vão das calçadas 

mas o caminho era curto
eu nunca tinha tempo de decorar
e deixava o poema lá

no dia seguinte
quando passava pelo mesmo vão
o poema estava lá 

(pelado, cruzado, roubado)

eu procurava novos espaços no chão
onde as palavras certas estariam escondidas

quem foi que mexeu nas palavras que deixei aqui?,
e sussurrava pra não esquecer a ordem:

“eu nunca sigo pelo caminho
que sei que você pode passar
mas você sempre passa pelo caminho
que eu sigo sem pensar”

faz tempo que não acho as palavras
faz tempo que não procuro caminhos

faz tempo que não passo no vão
faz tempo que não ando na rua

nunca mais encontro poema
nunca mais encontro ninguém

mas assim como antes
não me procuro

tenho medo de me achar

(pelada, cruzada, roubada)

o poema do futuro por extenso

o futuro sempre é
reescrito por extenso

penso no
futuro
extensivamente
intensificado por mentes
dispostas
esperançosas
criativas
expandidas
pela avalanche
de conteúdo consumido
em completo isolamento

penso
no futuro
extensivamente
intensificado por mentes
exaustas
desgostosas
comprimidas
pela avalanche
de conteúdo consumido
em completo isolamento

talvez seja impossível
diferenciar o que foi feito por quem

talvez seja inviável
tentar

talvez
estejamos todos sujeitos
a respirar os resquícios da
individualidade alheia libertada
em completo isolamento

talvez
enxerguemos
a olho nu
o que há de cru
em todas as pessoas:
medo de morrer
e medo de sobreviver

talvez seja impossível
diferenciar o que foi feito por quem

talvez seja inútil
tentar

poema escrito para o edital de emergência do itaú cultural

 

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
que passou por mim no metrô
quem me fez o pescoço virar quando na praia eu vi passar
que me tirou o sono depois d’uma madrugada sem fim

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
que me deu a paz num café sem açúcar
me deixou fora do eixo num só beijo
que me cantou canções de paixão sem que eu pudesse ouvir

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
e pra esse amor que eu não consigo dar
pra esse sentimento que eu não consigo deixar
acontecer
crescer
ou, talvez, rebobinar

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
e dou amor pros peitos cheios de amor
e dou amor pras vidas cheias de vida
e dou amor pras vidas que não me querem, amor
dou amor pra quem não devia
enlaço mãos que não podia
divido copos em demasia
e pros amores que se entregam a mim
fica tão pouco
que peço perdão, porque
eu nem sei se tenho peito pra tanto amor,
amor

mas aí, cantam

os bons dias passavam tão longe
que eu já nem reconhecia mais o caminho
quando chegavam
batendo à porta,
pedindo licença,
passando pela sala,
correndo direto pro quarto
sem nem limpar os pés

eu não reconhecia mais
a sensação de ter paz
de não querer voltar atrás
de poder tomar um vinho
de me banhar com carinho
porque você vivia a me tratar
como se eu não merecesse nada mais
como se você não fosse capaz
de respeitar meu coração
que nunca te disse não
que te segurou a mão
o braço
as pernas
os joelhos, feridos
a cabeça
cheia
lotada dessas coisas
que eu nem tinha que lidar

meus amigos
meu terapeuta
dois bêbados num balcão de bar
e um amigo que fiz fumando fugida de você na praça
me disseram
quatro vezes cada um
que eu havia me metido numa cilada
que amor daquele jeito não servia pra nada
que era só um ponto final atrás do outro
uma coletânea infinda de reticências
que nunca tinham
verdadeiramente
mais
nada
a
dizer

eu sabia que não
que não podia aceitar
que eu não podia ser a única a me entregar
que do outro lado precisava ter alguém
que fosse
pelo menos
o mínimo, não pedi um cento,
mas pudera ao menos um vintém
que me servisse pra dormir bem
que prestasse atenção
e não repetisse perguntas
que ouvisse meu som
e não me cansasse com suas dúvidas

mas me acostumo com paixões bandidas
porque elas me destroçam
cansam minha mente
bagunçam meu peito
me fazem gozar da cortina pra dentro
e me fazem gritar da janela pra fora
me estilhaçam a vida
e me destroem inteira

depois que me quebram,
escrevem uma canção,
pegam o violão
e aí, cantam
distraídos
sem muita afinação
mas de forma branda,
quase com o coração
e eu me remonto toda
ao som daquela voz
que já disse tudo que não podia dizer
que gritou o que eu nunca mereci ouvir
que protagonizou meus pesadelos
me fez sangrar por entre os dedos
mas quando estão no tom
remontam meus estilhaços
e me aprisionam em seus compassos
dos quais eu
tentei me desvincular
mas
hoje
sei até recitar

biografia

 

bem,

me pediram uma biografia
explicitar como é que eu ia
ajudar como eu podia
a entender que que tem
na cabeça dessa guria
que ora tá bem
ora, quem diria!
um furacão que ninguém imaginaria
ver bradando aos sete mares
as dores, os erros, os pesares
pintados à mão numa parede branca
um furacão que se personificou
pra vomitar seus defeitos
e organiza-los
entendê-los
encará-los
escrachá-los
um a um
mostrar pro mundo que é sempre tudo
que 8 ou 80 é pouco
que só adianta alguma coisa se tatuar pelo corpo as fraquezas
pra todo mundo ver
que que se foda quem quiser perder seu tempo
falando coisas como “você não vai acreditar!
ela dormiu numa mesa de bilhar,
fumou quatro maços de cigarro antes do dia começar,
trepou com aquela mulher,
e depois cantou uma canção
enquanto fazia cafuné
no rapaz que a interessou!”
vão falar que o decote é profundo demais
que ninguém deveria usar essas palavras antes das dez
que tem crianças aqui
que ela faz poesia porca
que não encanta ninguém, só choca
que arte quem faz são os grandes pintores que usavam azul pra esconder sua dor
e enquanto falam
e falarão
falarão
falarão
eu vou continuar caminhando por aí
com decotes até o umbigo
fumando todos os cigarros que minha vontade permitir
trepando com as mulheres homens and all the freaks in the middle que me fizerem qualquer coisa sentir
e se por acaso eu parar num bar
desses de esquina qualquer
com um cachorro na porta
e dois bêbados num balcão
e um deles me disser
que ouviu falar de mim
vou sentar ao lado deles
encher meu copo de cerveja
e perguntar
“o que dizem agora por aí?”
e deixar que os porcos
loucos
sujos
sem futuro
contem as histórias
que os limpos
sãos
críticos e estáveis
gastaram seu tempo
inventando sobre alguém
que respeita suas vontades
e escreve foda-se com seus defeitos
escrachados numa parede branca
une tudo
molda
e transforma num poema
que um dia eles vão querer citar.

tá todo mundo meio perdido

tá todo mundo meio perdido também
nas próprias preocupações
nas próprias desilusões
na própria falta de vontade de fazer qualquer coisa com a cabeça fora do travesseiro
na própria descrença
e na própria fé

tá todo mundo meio perdido
que nem você
como eu
igualzinho seu amigo que ontem não aguentou
e desistiu
e ao invés de colocar a mão na consciência
colocou o dedo no gatilho
e atirou

tá todo mundo meio perdido também
e eu nem sei mais quem vem
pra essa vida de tentar resolver as próprias alucinações
com café meio fraco e pouco doce
cerveja barata
abraço frouxo
sorriso amarelo
e uma série de metades
que não somam um inteiro
capaz de se encontrar

tá todo mundo meio perdido também
e se eu puder te dar uma dica
se encontrar não é impossível
mas o único que conseguiu
enfiou uma bala na própria cabeça
por não saber mais como se perder

 

sol em escorpião

algo me diz que eu deveria entender os porquês todos
e enumerá-los
que quando o negócio pega fogo
a gente tem que saber
que se tem que ter de novo,
se é pra repetir,
se é pra comer com dez talheres,
tem que entender.

mas não entendo não.

não entendi
desde o primeiro momento.
não entendi como você conseguiu
me comer com os olhos d’um jeito
que até lilly braun duvidaria.

nem consegui sacar
o que tava acontecendo pro corpo todo estremecer num ritmo só.

nem entendi,
nem tentei
o que era que tava acontecendo
com os pelos do meu corpo
que arrepiaram-se todos de uma só vez
e uniram-se os braços,
coxas
e costas
num açoite só de você.

não entendi o que a sua boca fez.

não entendi o poder da língua,
por mais que eu
tantas,
tanto,
tontas.

não entendi o que aconteceu
com o tempo
que não deixou a vontade passar
e com a energia eletrizante
que ainda caminha pelos meus poros
só de imaginar não entender nada disso de novo.

não entendi nada da primeira vez,
entendi menos coisas ainda da segunda
e cada vez que o seu corpo encosta no meu,
por descuido
vontade
apego
hábito
intenção,
me desentendo.

entendo menos você.

entendo menos vontade.

entendo menos.

entendi menos.

não me esforcei.

entreguei. deixei.

preciso ir, mas não quero

o problema é que a distância até a porta
é muito maior que a da tua boca até minha nuca

e essa nuca implora
cê olha e ela nem tem hora
pra arrepiar
e influente que é
envia pro corpo inteiro
o sinal que ir não é ligeiro
e que é melhor aceitar

e quando a boca chega perto
não tem nem que encostar

a mente diz que vai dar merda
que contato sai caro
que se tu não parar, eu paro
mas na real procuro fresta
nas tuas desculpas esfarrapadas
pra rir bem na cara
de quem sabe que é gente enrolada
complicada
que discurso não serve pra nada
que não adianta chamar de amor
meu bem, só se for
mas se chama pelo nome
fica mais difícil de esquecer

é que é gostoso demais
te observar me observar
te decorar pelos cantos do corpo
te levar pra cama de novo
falar que é a última vez
antes da próxima
só pra fechar

mas quando a boca chega perto
não tem nem que encostar
e já quero ficar

e como eu sei que tu não presta
e tu sabe que não vai ter essa
de contar historinha
pra convencer só por mais meia horinha
eu invisto uma hora cheia
ocupo a cama inteira
beijo tua boca logo
me encaixo no teu corpo todo
e deixo o dia continuar

o problema é que a distância até a porta
é muito maior que a da tua boca até minha nuca
e, na nuca, não precisa nem encostar
e aí nem a hora se apressa a passar