o cheiro do seu cabelo

eu lembro do cheiro do seu cabelo
eu lembro que você tinha pelos do bigode que saiam na bochecha e quase chegavam nas olheiras
eu lembro da textura da pele do seu braço
eu lembro da grossura do seu pulso
e lembro de querer segurar sua mão

eu lembro de fazer cafuné na sua cabeça e sentir o cheiro do seu cabelo vindo em direção às minhas narinas como quem dança num ritmo muito particular, você não entenderia
eu lembro de dançar com você num ritmo muito particular
eu lembro de cantar aquelas mesmas músicas que o renato russo desacreditaria que alguém teria tanta paciência pra cantar tontamente tantas vezes tanto tempo depois
eu lembro de sentir o cheiro do seu cabelo na minha mão e de querer segurar a sua

e quando oro a deus e falo de você
eu peço que minha mente se acalme
que a saudade diminua
que a dor vá embora
que os dias passem mais rápido
que setembro dure só o tempo que deve durar
mas, sobretudo, oro pra que a fabricante desse creme pra pentear nunca mude a formulação da linha pra cachos
porque eu passei a consumir esse leave-in
que é feito de compostos químicos nocivos e falsos resquícios de babosa e outras coisas mais
que funciona pra todos os cabelos
que não funciona direito pro meu
que é um amontoado de izinas e iteos que eu nunca vou entender,
mas vou continuar usando
porque é o cheiro que eu decorei na memória junto com o toque do seu abraço,
e que pelo menos vende em pote
e posso me dar ao luxo de lembrar
que apesar do tempo não me poupar de passar
eu ainda lembro como é sentir o cheiro do seu cabelo
e de querer segurar sua mão.

fome

há algo incrivelmente belo
em deixar o caos se apossar
do espaço vazio na cama fria
com cheiro e cara de que ali é habitat
também tem que eu sempre soube
onde isso ia dar
e que o quente do edredom
não ia ser suficiente pro gelo da sua pele
que parecia combinar tão bem
com o jeito do seu coração
de me tratar tão mal
e ficar sendo sempre igual
achando que sentimento é prato de comida
que não se nega pra ninguém
quando na verdade
é melhor deixar faminto
do que mal sentimentado
bem, eu não quero colecionar receitas
de como se curar um desamor
se toda vez você promete que não volta mais
e eu preciso sempre preparar o peito
já que o espaço vazio da cama
é o caos
com a fôrma perfeita
pra te acolher
depois te deixar partir
e porque tem beleza
eu nunca ocupo o espaço
e deixo sempre a porta aberta
só pelo prazer
de te ver chegar de novo

o último a sentir apague as luzes

estou entregue à minha própria
falta de sorte
ou alguma sorte de azar
que canta o sorriso
que você não deu
o copo
que você não bateu
com o meu
pra brindar
à festa que você não esteve
à companhia que você não foi
à música que você não cantou
ao lábio que você não beijou
ao corpo que você não puxou
para perto do seu
que,
quando perto do meu,
suspiros causou
e fez tremer
gemer
morrer
de prazer
te conhecer.

quando sair,
apague as luzes.

pra são paulo – II

são paulo

são paulo não perdoa
nem no clima
nem no cheiro
nem quem chega
muito menos quem vai

são paulo não te entende
não compreende
que a cabeça não tem espaço
pro caos de cada pedaço
dessa cidade que vive em erupção

são paulo é o traço
do ilustrador icônico
que faz o mundo em preto e branco
mas vê cor nas nuances cinzas

quem vive são paulo
vive com gente
que corre sem ter pressa
se atrasa sem hora marcada
e fica pra dançar na sala da casa bagunçada

são paulo é cidade de quem marcha roboticamente
por um caminho que não tem volta
de transformar sua mente
num antro de ciclos sem término
nem resolução
nem equilíbrio
muito menos paz

é são paulo a cidade dos olhos de deus
com gente de todo tipo
que se olha profundamente
como quem entende
que não dá pra ser são paulo
e, ao mesmo tempo,
continuar sendo gente

não existe poesia no fazer poético

eu queria escrever um poema
e fui atrás de inspiração
fiz abstinências
e abusei dos excessos
enchi a cara
arranjei briga
trepei
depois fiz celibato
absorvi tudo o que pude
e ouvi canções
pra descobrir no fim do dia
que fazer poesia
não tem fórmula
e o poema não vem
quando se senta para escrever
mas quando você senta pra cagar
entra no chuveiro pra se lavar
ou pega uma chuva indo rezar

a poesia tem endereço
e ele é onde você está

pra são paulo – I

talheres

são paulo uma vez me disse
numa manhã dessas quaisquer
quando se acorda no horário,
toma café sem pressa,
se lembra do que precisava se lembrar,
pega o ônibus com o motorista certo,
consegue um apoio para as lombadas
e chega-se no metrô ainda em tempo,
numa dessas manhãs,
são paulo disse que iria me engolir.

de primeira, não entendi.

segui o rumo,
entrei no vagão que me deixa mais perto das escadas,
andei pelos corredores,
peguei os atalhos diários,
subi as escadarias
e desci as mesmas escadarias
no caminho de volta pra casa
depois de deixar escorrer as horas
por entre meus dedos
enquanto, a cada minuto que passava,
eu sentia na flor da pele
o garfo e a faca
na mão da cidade
que pelo menos teve a decência de alertar
o que iria fazer comigo.

o que levo de você

cigarrette
o gosto do beijo,

o cheiro da pele

de cigarro, cansaço e paz.

o quente do abraço,

do aperto da mão,

do esquentar da orelha,

do carinho na volta do dedão.

a dança,

o canto,

nossa música,

nossos sonhos:

eu achei que ia longe com você,

achei que era você,

achei que continuaria sendo

e te amo como se fosse,

te amo como se fosse pra ser,

te amo como se você fosse pra mim.