faz tempo que não consigo escrever

faz tempo que não consigo escrever e toda vez que não consigo escrever me forço a encarar uma página em branco como quem repete a fórmula que já deu certo. era comum, antes, eu sentar e começar a escrever palavras aleatórias que, em algum momento, se tornavam amigas, aliadas, poéticas. hoje não funciona: a página em branco não encontra a poesia nem quando tem hora marcada. tento, portanto, novos caminhos; e escrevo nos cantos de folhas quaisquer, faço rimas agudas, invoco beleza na tez do capital. quase rasgo. mas escrever, mesmo, não escrevo. as palavras ficam juntas pelo hábito. quem procura sentido só me encontra tentando.

de difícil já basta a vida

não é não ter estresse, tá ligado, é uma brisa de saber deixá-lo ir quando preciso for. e sem muito melindre: precisa? tem jeito? dá pra resolver? se é tudo não, então: não. manda embora. ergue essa cabeça, mete o pé, a coisa toda. entrei numas de que ia ser feliz a qualquer custo e, puta que pariu, que coisa difícil que tem sido, sabe? é um monte de soco na cara que a gente toma de amigo próximo, rola uma vontade atrás da outra de desistir, as vontades todas andando em linha reta, mas no início da fila tem eu e eu ju-ro que tô tentando não ser tão estressada e aí eu tô fazendo o que dá, sabe? tô fazendo como dá, tô botando aí mais vontades na fila, dando mais razões pra que eu mesma não entre em parafuso e morra sozinha com as minhas loucuras. eu tô tentando, eu juro que tô, porque disseram que dava pra viver com o estresse se a gente conseguisse equilibrar os pratinhos
da vida nos dedos e eu tô tentando, mas não tem nada mais difícil do que equilibrar coisas e eu sou sinceramente viciada em desistir e não dou a mínima pra esse papo furado de resiliência e insistir pra conquistar. eu gosto de coisa fácil, de difícil já basta a vida. e olha que dela eu não desisto.

quem é Miguel?

fui mexer numas caixas cheias de coisas velhas que poderiam estar no lixo e lembrei porque não estavam e é difícil jogar fora tudo que trouxe a gente até aqui – e é ainda mais difícil quando nosso passado parece novidade. olha ali, olha lá, olha o jeito que falei desse cara, ele era um babaca, ele tava me traindo, eu não escrevi aqui mas eu beijei ela nesse dia, a gente é amiga hoje mas eu era apaixonada por ela, eu beijei ele nesse dia e minha
amiga levou ele pra casa, acho que isso é o verdadeiro significado de comunismo, acho que nesse dia me deram droga, eu tava chapada quando escrevi isso?, eu não lembro quem é Miguel, acho que meu professor do cursinho queria me comer, eu fui muito mal nessa prova, eu não lembrava que tinha me apaixonado por ele, eu não sabia mas ele me odiava, eu nem sabia mas lendo aqui eu vi que eu podia ser tão feliz um dia, sentindo aqui eu acho que esse dia não é hoje.

não tem beleza

a destruição não é bonita. foi isso que eu quis responder. não tem nada de bonito em querer morrer, nem em ser drogado punk rockeiro. nada bonito em querer ser amórfico inescrupuloso imprudente estridente não tem nada bonito em não ser comprometido nada bonito em largar tudo por aí não tem nada bonito em sentir dor não tem nada bonito na dor, eu quis dizer. não tem nada bonito na dor. tem coisa bonita no mundo e na vida e em tudoo que a vida pode te trazer. tem beleza no passar dos dias tem beleza no sorriso das pessoas tem beleza no que ajuda no que muda no que brilha. tem beleza em tudo que te faz fazer algo com beleza tem beleza no sexo tem beleza no beijo tem beleza na risada tem beleza na piada. não tem nada bonito na dor, eu quis responder. não tem nada bom em
odiar a própria vida e nada bom em se submeter a ser ruim consigo mesmo – isso devia ser crime, eu queria ter respondido. devia ser crime.

me deixa pra lá

eu tenho pra mim que tem coisa que não dá pra deixar pra lá. tem coisa que a gente tem que gritar. falar que não dá, mostrar que assim não pode. bancar a voz. subir no palanque. dar a cara à tapa. afundar o tapa. concordo. assino embaixo. vamo. mas aí tenho pra mim que tem coisa que não. tem coisa que putz. tem coisa que sabe? tem coisa que a gente deixa. tem gente que a gente deixa. pra ficar mais leve a luta toda. pra ficar mais fácil de sair correndo. que é uma delícia, aliás. deixar pra trás pra correr em frente. eu tenho pra mim que tem coisa que não dá pra deixar pra lá. mas tem coisa que se a gente não deixar, tem gente que se a gente não deixar, deixa a gente tudo louco.

cabelo que cresce, vida que segue

abri minha pasta de textos e percebi que, entre um personagem fictício e meia dúzia ideias que tive antes de dormir, vários escritos foram intitulados de amanhã-alguma-coisa ou só “amanhã” (e nesse caso já são três). é uma loucura que eu queira tanto falar sobre o que ainda não veio. nesse período de isolamento meu cabelo cresceu muito: antes do fatídico dia 13 de março não dava pra prender e agora tá tão grande que não tem condição de deixar solto. e foi tanta coisa que cresceu e eu nem imaginei prever. o espaço da casa, o tamanho da intimidade, as rédeas dos limites de todas as coisas. e a importância dos amanhãs. todo dia acordo esperando que o próximo amanhã traga alguma boa notícia que tire esse gosto de capitalismo da boca – que pare de deixar a gente com essa cara de quem não tem pra onde ir, não tem o que fazer e não sabe parar de sofrer. mas precisa trabalhar. mas precisa das segundas. e sonha com as segundas todos os domingos. em todas as minhas previsões não imaginei um cabelo tão gigante, passando do ombro, ocupando o vídeo inteiro. não imaginei tantos vídeos. não imaginei ter que me encarar tanto de frente. ter que dizer ei, você não tá me deixando falar, você precisa me deixar falar. nunca imaginei precisar perguntar vocês não estão me ouvindo ou estão me ignorando de propósito? eu fico olhando pra isso tudo de cabelo que não existia na minha silhueta há tantos anos – e que eu jurei que nunca mais deixaria tão longo – e só consigo pensar que eu tenho uma ânsia pelo que não consigo controlar pra dar o mínimo de sensação de fluidez, de impulso do inesperado. de vida. sem remuneração, sem propósito. imagine o horror: um cabelo que cresce sem intenção é a representação inédita do que é feito sem porquê. que desespero. o grilo tava certo mêmo na sua serenata existencialista: “às vezes a vida dá dessas… mas qual é a pressa, meu amô?” eu não sei. nem sei pra quê tanta ânsia de amanhã. queria poder dizer que deu de pressa. acho que nunca vou conseguir. mas pelo menos hoje é domingo. pelo menos por hoje já deu.

dançar como se não fosse ter semana

a segunda ainda não é verdade. oito e quarenta e seis. café tomado. fritei um ovo. dois. tomei mais café. olhei a casa ao meu redor, resquícios do final de semana por toda parte: latas de cerveja vazias, a camisa do corinthians jogada no chão do banheiro, o teclado do computador sujo de cinzas, a mesa suja de cinzas, o chão sujo de cinzas, a pele suja de cinzas. não limpo nada. por um minuto, e um minuto apenas, deixo tudo como está e aproveito que a semana ainda não começou. aproveito que o final de semana se prolonga. tomo mais café.

antes de perder a cabeça, antes das pernas começarem a tremer, antes de esquecer que dá sim pra fazer, antes de alguém te convencer que não sabe o que tá fazendo, antes que as coisas saiam dos trilhos e esmaguem os planos, antes que a realidade bata, antes que a semana comece, dança.

E eu que nem sou mais menino de andar perdido por aí
Mas gosto de perder a linha
Quando você olha
De mansinho, e pede pra eu continuar

Preciso que a terra gire logo
Pra eu poder dançar
Puxar a tua mão
E te levar pra rua

Preciso da tua voz ressoando no ar
Cantando qualquer coisa
Eu não vou me importar
Apenas acompanho os teus mistérios

00:12

eu tenho uma facilidade assustadora de entrar em piras existenciais por QUALQUER RAZÃO. dia desses me peguei pensando no tanto que as nossas relações humanas são baseadas em troca de energia, experiência e referência porque coloquei alguns legumes diferentes na mesma água e as cores se misturaram e eu pensei olha exatamente igual a gente!!!! o que não necessariamente faz muito sentido. mas aí foi massa porque ontem eu tava esquentando a janta no microondas (o famoso restodontê) e aí eu decidi que merecia um pãozinho pra acompanhar e coloquei o pão na sanduicheira e tirei a comida do microondas e enquanto o pão virava torrada eu comecei a ficar impaciente e andar de um lado pro outro da casa e querer tirar o pão aí quando ele minimamente pegou o formato da sanduicheira, tirei. tava meio molenga, mas ia dar pra comer, eu pensei, e deixei o pão ali, em cima da bancada e encostei na cumbuca com a comida. fria. coloquei mais um minuto e meio no microondas e pensei: porra se eu não fosse tão agoniada o pão teria ficado melhor, mais crocante e ficaria pronto junto com a comida. tentei ser prática e só compliquei. aí eu ali, naquele momento, encarando o visor do microondas, decidi que precisava aprender a deixar o tempo das coisas ser o tempo das coisas e entrei numas de mudar de postura (sabe quando você arruma a coluna antes de entrar no call pra parecer mais sério?) e aceitar o processo das coisas e tudo isso. mas toda essa indagação todo esse questionamento aconteceu em um minuto e dezoito segundos e quando eu já tava de saco cheio de respeitar o processo de todas as coisas, ainda faltavam doze longos segundos. de processo. da janta. e o pãozinho ali, molenga e quase gelado. o que me fez refletir sobre outra coisa: será que nossas relações humanas não são, na verdade, como o calor dos alimentos, que, quanto mais a gente pensa a respeito, menos sobra pra sentir?

all in

não entendo nem faço médias, não tenho intenção de balancear. vou com quem se joga de cabeça, chega por inteiro e vai embora sem que um osso sequer sobreviva para contar a história. e conto eu mesma, portanto, todas as histórias que vejo ouço faço. com os cacos todos desencontrados pelo globo. chego a pensar que com tantos resquícios talvez a vida ganhe mais espaço. que coragem. deveria ser crime. o otimismo. o brilho no olhar. a vontade de enxergar. deveria ser crime encher o coração de ânimo. deveria ser crime deixar a gente ser feliz. deveria ser crime a gente querer estar onde está. porque não dura. acaba cedo, antes do que deveria, quando tava bom demais pra ser verdade. nunca é bom demais pra ser verdade. nem começa. tudo é demais. pra ser verdade, pra ser mentira, pra ser qualquer coisa. equilíbrio não é demais, é o que precisa. não é crime, não anima, não faz ninguém feliz. o meio do caminho é um desperdício. se cabe um conselho de quem sempre sobra: se escorrer, lamba.

quando ainda se faziam

citar outra pessoa era uma coisa muito feita quando ainda se faziam blogs. era legal: a gente ia lá, chamava alguém pra escrever alguma coisa, conhecia novas vozes. se via em outros formatos. era divertido, plural, mostrava muito da gente. a gente parou. porque agora não se fazem mais blogs. mas hoje é dia do escritor, e eu pensei, não faz sentido não citar alguém, não faz sentido não citar caio. precisava citar caio que escrevia crônicas em jornais desde que a vida lhe foi dada como sua e, em 1986, narrou o que nós todos precisamos ler em 2020. é assim que se faz literatura, eu sempre penso, ou pelo menos era assim que se fazia literatura quando ainda se faziam escritores.

“Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto – olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. (…) Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.”

(Caio Fernando de Abreu, n’O Estado de S. Paulo, 24/09/86)