cabelo que cresce, vida que segue

abri minha pasta de textos e percebi que, entre um personagem fictício e meia dúzia ideias que tive antes de dormir, vários escritos foram intitulados de amanhã-alguma-coisa ou só “amanhã” (e nesse caso já são três). é uma loucura que eu queira tanto falar sobre o que ainda não veio. nesse período de isolamento meu cabelo cresceu muito: antes do fatídico dia 13 de março não dava pra prender e agora tá tão grande que não tem condição de deixar solto. e foi tanta coisa que cresceu e eu nem imaginei prever. o espaço da casa, o tamanho da intimidade, as rédeas dos limites de todas as coisas. e a importância dos amanhãs. todo dia acordo esperando que o próximo amanhã traga alguma boa notícia que tire esse gosto de capitalismo da boca – que pare de deixar a gente com essa cara de quem não tem pra onde ir, não tem o que fazer e não sabe parar de sofrer. mas precisa trabalhar. mas precisa das segundas. e sonha com as segundas todos os domingos. em todas as minhas previsões não imaginei um cabelo tão gigante, passando do ombro, ocupando o vídeo inteiro. não imaginei tantos vídeos. não imaginei ter que me encarar tanto de frente. ter que dizer ei, você não tá me deixando falar, você precisa me deixar falar. nunca imaginei precisar perguntar vocês não estão me ouvindo ou estão me ignorando de propósito? eu fico olhando pra isso tudo de cabelo que não existia na minha silhueta há tantos anos – e que eu jurei que nunca mais deixaria tão longo – e só consigo pensar que eu tenho uma ânsia pelo que não consigo controlar pra dar o mínimo de sensação de fluidez, de impulso do inesperado. de vida. sem remuneração, sem propósito. imagine o horror: um cabelo que cresce sem intenção é a representação inédita do que é feito sem porquê. que desespero. o grilo tava certo mêmo na sua serenata existencialista: “às vezes a vida dá dessas… mas qual é a pressa, meu amô?” eu não sei. nem sei pra quê tanta ânsia de amanhã. queria poder dizer que deu de pressa. acho que nunca vou conseguir. mas pelo menos hoje é domingo. pelo menos por hoje já deu.

dançar como se não fosse ter semana

a segunda ainda não é verdade. oito e quarenta e seis. café tomado. fritei um ovo. dois. tomei mais café. olhei a casa ao meu redor, resquícios do final de semana por toda parte: latas de cerveja vazias, a camisa do corinthians jogada no chão do banheiro, o teclado do computador sujo de cinzas, a mesa suja de cinzas, o chão sujo de cinzas, a pele suja de cinzas. não limpo nada. por um minuto, e um minuto apenas, deixo tudo como está e aproveito que a semana ainda não começou. aproveito que o final de semana se prolonga. tomo mais café.

antes de perder a cabeça, antes das pernas começarem a tremer, antes de esquecer que dá sim pra fazer, antes de alguém te convencer que não sabe o que tá fazendo, antes que as coisas saiam dos trilhos e esmaguem os planos, antes que a realidade bata, antes que a semana comece, dança.

E eu que nem sou mais menino de andar perdido por aí
Mas gosto de perder a linha
Quando você olha
De mansinho, e pede pra eu continuar

Preciso que a terra gire logo
Pra eu poder dançar
Puxar a tua mão
E te levar pra rua

Preciso da tua voz ressoando no ar
Cantando qualquer coisa
Eu não vou me importar
Apenas acompanho os teus mistérios

00:12

eu tenho uma facilidade assustadora de entrar em piras existenciais por QUALQUER RAZÃO. dia desses me peguei pensando no tanto que as nossas relações humanas são baseadas em troca de energia, experiência e referência porque coloquei alguns legumes diferentes na mesma água e as cores se misturaram e eu pensei olha exatamente igual a gente!!!! o que não necessariamente faz muito sentido. mas aí foi massa porque ontem eu tava esquentando a janta no microondas (o famoso restodontê) e aí eu decidi que merecia um pãozinho pra acompanhar e coloquei o pão na sanduicheira e tirei a comida do microondas e enquanto o pão virava torrada eu comecei a ficar impaciente e andar de um lado pro outro da casa e querer tirar o pão aí quando ele minimamente pegou o formato da sanduicheira, tirei. tava meio molenga, mas ia dar pra comer, eu pensei, e deixei o pão ali, em cima da bancada e encostei na cumbuca com a comida. fria. coloquei mais um minuto e meio no microondas e pensei: porra se eu não fosse tão agoniada o pão teria ficado melhor, mais crocante e ficaria pronto junto com a comida. tentei ser prática e só compliquei. aí eu ali, naquele momento, encarando o visor do microondas, decidi que precisava aprender a deixar o tempo das coisas ser o tempo das coisas e entrei numas de mudar de postura (sabe quando você arruma a coluna antes de entrar no call pra parecer mais sério?) e aceitar o processo das coisas e tudo isso. mas toda essa indagação todo esse questionamento aconteceu em um minuto e dezoito segundos e quando eu já tava de saco cheio de respeitar o processo de todas as coisas, ainda faltavam doze longos segundos. de processo. da janta. e o pãozinho ali, molenga e quase gelado. o que me fez refletir sobre outra coisa: será que nossas relações humanas não são, na verdade, como o calor dos alimentos, que, quanto mais a gente pensa a respeito, menos sobra pra sentir?

all in

não entendo nem faço médias, não tenho intenção de balancear. vou com quem se joga de cabeça, chega por inteiro e vai embora sem que um osso sequer sobreviva para contar a história. e conto eu mesma, portanto, todas as histórias que vejo ouço faço. com os cacos todos desencontrados pelo globo. chego a pensar que com tantos resquícios talvez a vida ganhe mais espaço. que coragem. deveria ser crime. o otimismo. o brilho no olhar. a vontade de enxergar. deveria ser crime encher o coração de ânimo. deveria ser crime deixar a gente ser feliz. deveria ser crime a gente querer estar onde está. porque não dura. acaba cedo, antes do que deveria, quando tava bom demais pra ser verdade. nunca é bom demais pra ser verdade. nem começa. tudo é demais. pra ser verdade, pra ser mentira, pra ser qualquer coisa. equilíbrio não é demais, é o que precisa. não é crime, não anima, não faz ninguém feliz. o meio do caminho é um desperdício. se cabe um conselho de quem sempre sobra: se escorrer, lamba.

quando ainda se faziam

citar outra pessoa era uma coisa muito feita quando ainda se faziam blogs. era legal: a gente ia lá, chamava alguém pra escrever alguma coisa, conhecia novas vozes. se via em outros formatos. era divertido, plural, mostrava muito da gente. a gente parou. porque agora não se fazem mais blogs. mas hoje é dia do escritor, e eu pensei, não faz sentido não citar alguém, não faz sentido não citar caio. precisava citar caio que escrevia crônicas em jornais desde que a vida lhe foi dada como sua e, em 1986, narrou o que nós todos precisamos ler em 2020. é assim que se faz literatura, eu sempre penso, ou pelo menos era assim que se fazia literatura quando ainda se faziam escritores.

“Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto – olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. (…) Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.”

(Caio Fernando de Abreu, n’O Estado de S. Paulo, 24/09/86)

quando matar a gente finge que não morreu

parece que alguém decidiu que de repente a gente nem fala mais naquilo, então. e quem sabe se a gente ficar assim, meio que fingindo que não existe, não decide ir embora? aí a gente vai voltando, a gente vai procurando, a gente vai esquecendo. aí a gente resolve alguns problemas numa ignorada só. parece bom. rimou, até, não rimou? configura rima? não precisa responder. então fica assim. nem um pio. quando aparecer a gente finge que não viu. quando bater a gente finge que não sentiu. quando matar a gente finge que não morreu. e tenta ir fingindo. ficando. quem sobrar. quem ficar. quem conseguir. quem conseguir fingir tá feito. quem conseguir falar, tá certo. quem conseguir ouvir, tá vivo.

história pra contar

quase que passou uma semana inteira sem que eu publicasse algo e seria péssimo porque eu escrevi, literalmente, na bio do meu twitter que tem texto novo no site toda semana. não é como se alguém realmente estivesse vindo aqui a cada sete dias pra checar e me bonificar – ou cobrar -, mas eu adoraria conseguir publicar pelo menos uma vez por semana alguma coisa que eu escrevi. é muito doido porque eu realmente escrevi bastante essa semana. entreguei alguns projetos e precisei reescrever vários conteúdos para o trabalho então sim escrevi bastante mas o meu arquivo do livro, por exemplo, não foi lá muito frequentado, eu na verdade escrevi cenas isoladas e tomei algumas decisões em relação ao final da história (que é exatamente a parte que estou construindo agora), mas é definitivamente assustador estar terminando de escrever um livro porque eu fico com a sensação que se esse livro for bom eu nunca mais vou conseguir escrever outro como esse e se ele livro for ruim eu nunca mais vou conseguir escrever qualquer coisa. e aí eu também começo a me perguntar quem é que vai definir se é boa ou ruim a história que eu estou tentando contar há tantos anos?, porque faz pelo menos cinco desde que escrevi uma cena da Rita pela primeira vez e a história já foi pra vários outros caminhos e agora temos duas personagens fortes e fodas com alegrias e verdades absolutas e traumas e vazios e danças descontroladas e pequenas grandes coisas pra contar e eu sempre me pergunto como será que alguém, seja ele quem for, vai definir se é boa ou ruim essa história que há anos vem me fazendo descobrir que dentro de mim existem pequenas grandes coisas pra contar? quase passei uma semana inteira sem publicar nada, mas aí me deu um medo de acharem que eu não tenho nada pra contar e resolvi dizer que eu venho há anos descobrindo que tenho sim.

escrever não é um dom

antes dessa loucura toda começar, eu acordava antes de ir pro trabalho pra escrever. ainda acordo. escrevo durante horas consecutivas, até a dor no pulso me impedir de continuar. escrevo dezenas de páginas e apago tudo para recomeçar. sem titubear. escrevo com os livros ao lado, escrevo lendo, escrevo pensando. escrevo no canto do papel, escrevo onde, como, quando preciso – nunca quando dá. quando dá, não consigo. nem quero. escrevo porque preciso. escrevo amo escrever, escrevo porque as palavras escritas dão significado às coisas que nem sempre podem ser descritas; escrevo porque a letra tem vida e é só no que tem vida que a vida acontece. escrevo porque eu tenho vida. é trabalho duro: escrevo pela insistência. mergulhar em um texto, reler, deletar, reescrever. reescrever um texto pronto, reler centenas de páginas centenas de vezes. dia desses transformei três capítulos numa frase: “a gente começou no bar”. nada mais precisava ser dito. ouvi de outro autor que não se deve jamais dizer em 50 poemas o que pode se dizer em 25. a parte mais difícil é dizer em 25. dá vontade de dizer em 70. escrever todo mundo escreve. difícil é ser lida. não porque não leem. mas justamente porque leem. porque é preciso que leiam. e é preciso que entendam, absorvam, se apoderem das palavras quase como se fosse impossível de se desvincular. escrever não é um dom. a vida é. colocá-la em palavras é a minha escolha.

pra sempre meu, caio f.

querido caio,

te escrevo porque hoje nasceu o sol. também escrevo porque você me ensinou a me ouvir. esse é o tipo de coisa que a gente fala pra um terapeuta, não pra alguém com quem a gente nunca conversou. mas você também me ensinou que as coisas funcionam pra cada um como as coisas funcionam pra cada um e aí já não tem muito o que fazer. então tô aqui pra te dizer isso. tô aqui pra te dizer, também, que se tivesse te conhecido acho que teria te achado um chato. isso porque li os livros de quase todos os seus amigos e sempre que, em cartas, falam sobre você, dizem que você era um mala e acredito. você parece ter sido chatíssimo, até por isso gosto tanto de você. você é real, como eu, que não tenho nada de gente boa, não faço a fina, nem tento. mas você é real, que conquista quem conquista pela realidade do ser e não tem vergonha nenhuma disso. acho que a coisa mais importante que você me ensinou, eu fico aqui pensando, é que a gente precisa sempre escrever sobre as coisas que matam o peito da gente. doa a quem doer. você me ensinou a colocar magia nas coisas. porque a gente, que é de verdade, não tem vergonha nem medo de falar as coisas como as coisas são e as coisas são, sim, mágicas, porque com o tempo e com a vida a gente vai descobrindo que a vida pode ser qualquer coisa que a gente queira. isso é pura magia. acho tosco quem diz que a tecnologia é indistinguível da magia. tecnologia é truque. o que tem de mágico na vida é tudo aquilo que a gente faz só com a gente. a magia é essencialmente humana. pensar, escutar, criar, imaginar, dançar, trepar, beijar, abraçar, refletir, mudar. a gente não precisa de mais nada pra fazer nenhuma dessas coisas e sem todas essas coisas a gente não tem nada pra ser. já pensou, que loucura, não ter a oportunidade de ser alguma coisa? ainda bem que li você, assim sei que a gente sempre é alguma coisa. só tem que descobrir. geralmente, só precisa aceitar. e quando a gente aceita quem a gente é, ninguém pode impedir a gente de nada. não tem nada mais poderoso do que o autoconhecimento. já ouvi dizer que é sempre uma má notícia e não discordo, mas é indiscutivelmente poderoso. mas eu tô escrevendo tudo isso porque tem uma coisa que eu preciso te falar. esse falatório todo é pra te falar essa única coisa, na verdade. você disse uma vez que sempre quis alguém que te amasse por alguma coisa que você escreveu. sempre achei lindo. mesmo. eu cresci pensando do mesmo jeito, por sua causa. eu cresci achando que queria ter alguém que me amasse pelas palavras, pelo meu estilo repetido, pelas minhas caixas sempre baixas, pela minha mania de criar personagens contraditórios que cutucam as pessoas porque elas mesmas são contraditórias mas não gostam de se reconhecer dessa forma (vê só como é importante a gente se aceitar como a gente é?). parecia ideal ser amado por algo que escrevi, se o que escrevo é tão real e tão vívido e tão representativo de quem eu sou. mas não é assim que funciona. porque quando alguém escreve como eu, caio, quando alguém aprende com você que a gente precisa ser verdadeiro e coloca o bom e o péssimo pra fora; quando alguém vive das palavras que cria; quando alguém se alimenta do mundo pra vomitar poesia… quem se encanta não desperta magia. quem se encanta tem problema, tem excesso, tem ausência. olha eu aqui, depois de tanto me encantar com você. mas eu não estou aqui para preencher ausências. eu estou aqui pra compartilhar completude. todo o resto não me interessa. e eu precisava te dizer isso, especificamente isso, caio, porque eu aprendi tanto com você que sinto que você sofreu muito por ter buscado um amor que te amasse por algo que você escreveu. e talvez, se dessa vez você tiver a oportunidade, busque um amor que te ame pelo que você não escreve. me disseram que saiu nos búzios que você está voltando para consertar situações inacabadas da sua existência terrena. achei uma loucura, mas não pude deixar de te dar só esse conselho porque sei que você só voltaria à vida por amor: procure alguém que te ame pelo chato que você é, por ser o amigo que pega no pé, pelo seu jeito de se arrastar pela vida, que te ame até pela dor que você sente lá no fundo do peito e não passou com yoga, natação, meditação. você vai tentar tudo isso dessa vez de novo? se sim, recomendo procurar alguém que te encontre tomando um chá verde no fim da aula de yoga. ou alguém que tenha esquecido os chinelos no vestiário da natação. se você quiser ser feliz, procure por alguma coisa assim. normal. de praxe. alguém que não saiba, logo de cara, que você escreve. alguém que não tenha contato com as suas palavras. procure, nessa nova vida, alguém que te ame por algo que você nunca escreveria. esse é o amor que vai salvar a sua vida. os outros amores vão te destruir. o lado bom é que a destruição criou ótimas histórias e o ruim é que a gente ainda não sabe o que um coração calmo é capaz de fazer. eu escrevi essa carta depois de uma noite deliciosa com o meu amor, calmo, que não tem a menor intenção de me amar por essas palavras, mas que insiste em me amar porque eu nunca esqueço de tirar o lixo. parece chato, eu sei, mas a felicidade é sempre meio chata, mesmo. e, bom, você está voltando em uma era em que nada é muito doce. nem uma vez, nem sete. tem que ter muita chatice e mornidão pra pacificar um coração cheio de magia como o seu. como o meu, por assimilação. espero que essa carta te encontre a tempo. boa sorte. estamos em 2020 e, por aqui, o mundo já acabou faz tempo.

pra sempre tua,

giovanna

Esse texto foi escrito como exercício da Oficina Criativa da Clara Averbuck de 2020. 🙂

a pé com uma mulher feia

é fácil ser um homem feio. é parecido com metade da população masculina do mundo então você sai de casa para trabalhar sabendo que pelo menos ½ dos homens com quem você se encontrar hoje vão gostar de você. os homens são metade do mundo e você já sabe que vai se dar bem com metade de metade do mundo. ¼ de aprovação é mais do que o bolsonaro tem. não parece problema pra ele. 

eu tenho ¾ de rejeição. eu sou um homem feio preso no corpo de uma mulher feia. o que é duplamente horroroso. horroroso porque essa é a palavra que melhor descreve a sensação permanente de ausência com a qual eu convivo. posso tentar explicar pra você, como se eu tentasse explicar para uma criança: desde que nasci, sinto que deveria ser de outra forma. em todo santo segundo percebo que algo não está como deveria: se não é da mente é do olhar do mundo inteiro pra dentro de mim. não esqueço, por um segundo sequer, do quanto gostaria de poder ser visto como homem, de ser colocado nas rodas como homem, de ser relacionado ao homem que sinto que sou. ninguém entende quem eu sou ou o que eu digo.

se eu fosse feio, então passaria desapercebido, mas sou feia, então reparam em mim a todo tempo. até o pouco feminino desperta o olhar. eu nunca vou conseguir perdoar deus. permitir que seus servos construam moral em cima de gênero é uma loucura sem tamanho. nem sentido faz. mas vai tentar dizer, você, visto como mulher feia, que mulheres e homens têm os mesmos direitos. a ignorância é percebida em todos os seus estados, da grosseria à mais pura burrice, como é o caso. 

mulher feia não tem direito aos seus direitos, mulher feia não trepa no copacabana palace, mulher feia não ganha desconto nem fura fila. mulher feia espera sua vez, pega o caminho mais longo, trepa em motel da rede bali. ninguém gosta dos motéis da rede bali, só levam lá aquelas pessoas com quem não se orgulham de trepar. a maioria fecha até o teto solar do carro, pra não correr o risco de ser visto por alguém. assim, se encontram conhecidos, sabem que estão igualmente humilhados acompanhados por mulheres feias. ninguém pode julgar.

eu, por mais que seja visto como mulher, sei que sou feio porque desejo as mulheres feias. talvez porque vivo no corpo da mulher feia que é rejeitada por ¾ da população mundial. talvez porque nós, vistos e vistas pela sociedade como mulheres feias, temos tempo para o processo de construção do que prevemos como nosso futuro melhor. o futuro melhor da pessoa que é vista como mulher feia é, quem sabe, encontrar outra mulher feia com quem se deitar. e, entre a permanente sensação de ausência do meu corpo e a inédita sensação de ser desejada do outro corpo ao lado do meu, fazemos o que ¾ do mundo nunca arriscaria fazer antes de engolir uma garrafa inteira de gim: reservar uma pernoite e chegar a pé num motel da maldita rede bali para que todos vejam o belíssimo casal de mulheres feias que seríamos se eu não fosse um homem feio.