calma

perto de onde eu moro tem um parque e, sempre que to voltando pra casa do trabalho, vejo uma galera com muita cara & coragem & emoção em seus lindos trajes fitness correndo na avenida bem depois do sol de pôr. hoje, quando eu tava voltando, tinha duas pessoas (que podiam ser um casal ou dois amigos ou dois peguetes ficantes não-sérios daquele esquema de nãomoro relacionamento semi-aberto ou, quem sabe, duas pessoas que se conheceram correndo por aí), e essas duas pessoas tavam rindo muito. elas corriam, mesmo com o vento meio frio que devia tá batendo na cara delas, rindo muito. tinha alguma coisa acontecendo ali que deixava tudo muito bem pra dar pra rir numa quarta a noite que nem mercúrio retrógrado conseguiu atrapalhar. eu fiquei me perguntando o que será que era, se eles tavam realmente muito apaixonados por alguém a ponto de conseguirem ignorar toda a vida, ou se eles tinham recebido um aumento no trabalho, ou se eles tinham tido um bom dia apesar de, ou se eles já estavam tão no fundo do poço que sair pra correr já contava como subir uns cinco andares ou se sei lá. eu fiquei me perguntando o que será que tava acontecendo e depois me perguntei se eles ligam pra vida que acontece ou se é só essa galera que se mete a tentar entender coisas que se fode no entendimento do todo. será que o pessoal que sai pra correr por aí também para pra pensar que a gente é o que é e não tem desculpa, nem regência astrológica e nem teoria psicológica que o justifique? será que esse pessoal que consegue sorrir depois de um dia como hoje, porque hoje foi um dia como hoje, será que esse pessoal que consegue sorrir também pensa nessas coisas aleatórias que deixam a gente sem dormir? será que esse pessoal também quer abraçar o mundo e deixa cair e quebrar porque o mundo é frágil e de vidro e fica tentando remendar os cacos sem sucesso e só caga tudo mais uma vez porque escapa pelo vão dos dedos, agora que são cacos e não mais uma gigantesca bola de vidro? será que eles pensam? acho que se pensassem estariam em casa escrevendo, não na rua correndo.

que sorte a deles.

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milly lacombe e quem morreu hoje

terminei de ler “o ano que morri em nova york” essa semana. uma avalanche de informações e sentimentos tomaram conta de mim desde o início dessa história: eu sou sempre a cafona que insiste em falar de amor. milly, então, por deus. o marcinho perde de lavada. o amor é tão bonito, quando bem vivido. e tão sofrido em todo o resto do tempo. os dois extremos convivem muito bem nessa história. história da milly, aliás. que escancarou as portas da frente da própria casa e revirou as gavetas pra falar sobre o que (quase) ninguém sabe e/ou quer falar. falar de amor. de traição. traição da cabeça pra dentro e pra onde isso vai levando a gente. traição dos próprios instintos. do que se sente. do que se é. falou de quando a gente só vai. de quando ir faz a gente descobrir um mundo. doido. novo. terminei de ler “o ano que morri em nova york” e esse foi um daqueles livros que me fizeram rir & chorar & perder: o ponto pra descer, a hora de dormir e a certeza do quê fazer. quem tem certeza? eu não tenho. de quase nada. tinha de mais coisas. mas aí eu li milly. li um monte de milly. e quando eu fechei o livro, descobri que milly tá vivíssima. nessa história, com esse tanto de vida, e risco, e dor, e amor, e perda, e ganho, e mais um pouco de risco, e suor, e muito muito mato, e verdades absolutas ditas por ninguém; quando eu li essa história, quando eu li tudo isso e acordei às quatro e meia pra escrever no dia seguinte, eu quase morri de novo quando descobri que quem tinha morrido tinha sido eu. que doido. já dizia vinicius. morrer e continuar vivendo. delícia. ele disse. eu morri. e tô viva.

viva uma vida da qual você se orgulhe

viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém pra mim em algum momento não lembro muito bem qual. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém pra mim quando eu entrava às oito da manhã num emprego merda num lugar que eu odiava pra obedecer ordens de uma pessoa que me odiava mais do que eu odiava trabalhar naquele lugar onde eu entrava às oito. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém pra mim ao mencionar que deus tinha planos melhores e que tudo isso, essas coisas e pessoas e horários e lugares, faziam parte de uma coisa bem maior que um dia eu ia ver só. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém no momento em que eu pisei no lugar mais legal do mundo pra ouvir o som mais legal do mundo dos cantores e musicistas mais legais do mundo e tudo o que há de mais legal no mundo — e ali eu me orgulhei. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém com as mãos segurando as minhas assim como conchas como seguramos as mãos de quem queremos que entenda nosso ponto olhando nos nos nossos olhos. viva uma vida da qual você se orgulhe. um dia me disseram.

um dia vou viver. rir muito alto na sala de alguma amiga que terá sempre um vinho guardado pra um dia como esse. dançar depois do expediente. maratonar uma série abraçada no pescoço mais cheiroso desse mundo. morrer de suar numa terça-feira fria. cantar num karaokê. acender um cigarro no fim do dia e apoiar os antebraços nos joelhos pra lembrar que a vida pode ser boa, sim. dar um gole numa cerveja bem geladinha depois de terminar de escrever alguma coisa realmente muito boa. pintar as unhas e acertar o lugar certo que o palito precisa entrar pra não se perder pela unha e acabar fazendo um risco sem esmalte bem no cantinho. fechar a torneira sempre completamente pra não precisar levantar pra fechar de novo depois. ir no dentista ver essa obturação. voltar a correr. fazer aula de dança. aprender a dirigir. terminar de escrever um livro. gravar uma música. mudar a armação do óculos que já tá fazendo hora extra. aprender a tocar bossa nova no violão, só pra mim. cantar que eu preciso dizer que te amo pra mulher que eu amo no fim de um dia difícil. descobrir um jeito fácil de ajudá-la no fim de um dia difícil. bordar. arrumar a cama todos os dias de manhã. acertar o ponto do café. e dar risada das pedras do caminho que, numa vida que eu me orgulho, claramente formarão um sorrisinho simpático quando vistas de cima.

viva uma vida da qual você se orgulhe. um dia. não hoje. hoje eu só quero dormir.

doze de junho

doze de junho é dia dos namorados e eu queria te desejar uma vida feliz. queria te dizer que faz algum tempo que a gente escolheu estar junto e que, mesmo que a gente não tenha dado nome, sonho com seu sorriso quando consigo dormir em paz. e, nos meus sonhos mais assustadores, quando alguém vem me salvar é sempre você. quando ninguém me salva, é em você que eu penso pra me acalmar quando acordo. e aí eu tô salva.

queria te dizer que desde que te conheci a vida tem sido mais fácil. nem um pouco por causa da vida. totalmente por causa do jeito que você sorri pra mim de manhã. do tamanho do seu cabelo. do formato da sua boca. do gosto do seu beijo. do cheiro do seu pescoço. do beijo que você me dá na nuca. do abraço que é só seu. do que transborda do meu peito quando você chega. e do tanto que eu gosto de te ver chegar.

doze de junho é dia dos namorados e eu queria que você soubesse que a sociedade só criou essa data pra vender mais coisas, mas tem tantos corações espalhados pela cidade que me parece um bom momento pra te dizer que cada um deles me lembra de você. que você criou, ou melhor, nutriu dentro de mim uma coisa tão linda que me dá vontade de cantar. estar com você me faz querer olhar de novo pra vida com um pouco mais de gosto. me dá sempre a sensação de que dá pra ser melhor: eu, as coisas, o mundo. dá mais cor pro cinza que eu vejo todo dia, mais motivação pras noites que eu preciso enfrentar madrugada adentro pra dar conta da vida que, bem, como eu já disse, nunca foi fácil por si só.

é doze de junho e, eu sei, tem muita coisa envolvida, vai além de só você e eu – mas, às vezes, eu acho que nem precisava ir, não. podia ser dez de junho e doze de junho pra gente, sabe? a gente se virou até aqui. e eu queria continuar me virando com você daqui pra frente. e mais e mais pra frente. e se você deixar, eu vou continuar aqui. tentando pisar menos na bola. tentando endireitar meu jeito torto. tentando te fazer dar uma risadinha, pelo menos. te escrevendo poemas. falando de você. decorando o  caminho que suas pintas fazem pelo corpo.

é doze de junho e, eu sei, eu sou cafona. tô aqui inventando mais uma desculpa pra falar de amor.

quando você nasce pra dar certo e não dá

quando você nasce pra dar certo e não dá, sempre tem alguém pra te lembrar o por quê. como se tivesse alguma coisa a ver com não gostar de brincar de boneca. como se fosse culpa de divórcio. ou de más influências. como se tivesse sentido culpar aquela minha amiga. como se tivesse sentido culpar.

ninguém nunca me culpou por trabalhar demais – só meu próprio corpo e meus terapeutas. ninguém nunca procurou em quem colocar a culpa das minhas conquistas profissionais. nunca sequer questionaram se havia uma razão pro meu jeito emoção de lidar com o mundo ao redor: eu sempre cuido pra que a vida seja mais leve. não tem culpa.

mas me culpam por gostar de acender um cigarro de manhã junto com o café. por ter largado cursos que não me faziam bem. por dizer não quando eu não quero. por querer ficar com quem me dá vontade de ficar, não importa onde. como se a gente tivesse escolha, sabe? como se a gente ficasse ponderando o que incomoda mais, só pra incomodar – e a gente pondera o que faz sentir melhor, e faz.

mas, se você nasce pra dar certo, você teoricamente não tem o direito de fazer o que faz sentir melhor. você tem direito de fazer o que tem que ser feito. casar, ter dois filhos, terminar a faculdade, fazer uma especialização, um mestrado, ser phD em alguma coisa. aí você não faz: não quer casar, não quer ter filhos, dane-se o academicismo. a minha pira é outra.

quero realizar: ver as coisas mudando de forma, a vida em movimento, os dias acontecendo um atrás do outro – sem pausas. eu gosto de quem acompanha. quem topa o vinho no copo errado, a cerveja na rua, a exposição no fim do mundo num dia aleatório, ficar junto pra não dormir. gosto de quem fica junto. essa é a minha pira.

e acho que nem tinha que ter medo envolvido nisso aí. nem vergonha. nem pé atrás. boto os dois pés na frente, com medo mesmo. na cara, nem vergonha nem maquiagem. limpa. lavada. indo, sempre. pra onde, eu descubro.

um dia alguém vai me dizer que lembra de um texto que eu escrevi um dia sobre não ter vergonha nem medo e eu vou falar que também lembro. porque eu tenho escrito esse texto a vida inteira. e ele nunca vai estar completo: eu não sou o que nasci pra ser – eu não nasci pra nada, porque eu nasci pro todo. e o todo é coisa demais pra acabar um dia. então tá bem: tragam os ossos do ofício, indiquem os palheiros que eu busco as agulhas, minha cara está pronta pros tapas e eu comprei peroba pra passar na minha cara de pau. deixo que digam, que pensem, que falem. manda a bola, eu rebato no peito. deixa a vida ser o que é. a minha é. sempre vai ser.

por que eu discuti anitta no almoço de natal

eu sei que já faz um tempo desde o natal e que, teoricamente, as publicações, textões e reflexões acerca do ano não se dão em quase-abril e, sim, no nosso amado mês de dezembro. caguei. me senti no direito de enviar esse texto agora, em plena quase-páscoa, porque o foco da história não é a data dos acontecimentos narrados e, sim, a diva pop internacional anira – tema das discussões do meu almoço comemorativo do aniversário do menino jesus.

sou uma mulher de sorte. minha família é feita de pessoas inteligentes, de cabeça aberta, que sabem discutir sem ofender, que respeitam sem bajular e bebem cerveja pra conversar. o último item facilita todas as outras coisas da lista, precisamos admitir. dentre as pessoas sentadas à mesa às três da tarde do dia vinte e cinco de dezembro do ano passado, três tias, minha madrasta, meu pai, meu irmão, meu avô, minha avódrasta, um tio com sua esposa, uma prima, duas crianças e um cachorro – só faltou o violão.

falo muito. puxo assunto nas mesas todas. mantenho as pessoas falando, trocando ideias, batendo de frente, buscando referências. e, para manter isso acontecendo, entre um gancho e outro, resolvi falar sobre uma mulher maravilhosa, empresária, igualmente inteligente e cabeça aberta, como eram todas as presentes, que estava fazendo todo um auê na mídia naquele momento pelo lançamento do clipe oficial do prometido hit de carnaval. anitta, com seu “vai, malandra”  – lembrando sempre que gravação em estúdio da canção somavam mais participações especiais do que tínhamos de pessoas na mesa na ocasião.

daí os diálogos: ai meu deus mas é muita exposição. ai meu deus mas por que precisa de tanta bunda. será que precisa sexualizar tanto a mulher. a gente luta tanto pela igualdade de gêneros pra esse tanto de bunda num clipe. mas tia os caras também estão seminus. mas é outra coisa. é outra coisa por causa da sociedade. mas é a sociedade que a gente vive. e a gente tem que mudá-la, ué. mas precisa de tanta bunda. precisa. precisa? precisa. quem disse? eu tô dizendo. logo você? logo eu.

e aí fica engraçado, veja só: não pode ter bunda de mulher no clipe de funk, que foi culturalmente desenvolvido para ser mais sexualizado do que a música orquestrada, por exemplo. não pode falar de sexo. não pode um monte de coisa. e por que? porque a gente quer igualdade. mas aí tudo bem o cara seminu. mas aí tudo bem chico dizendo que quer ficar no corpo que nem tatuagem – gente, grudar na pele é mais forte do que brincar com o bumbum.

é tudo uma questão de linguagem, então, eu pensei. pode deixar a mão errante adentrar atrás, na frente, em cima, embaixo e deixá-la entrar: êta, caê! mas, vamos lá, descer, rebolar, empinar olhando… de jeito nenhum? deve facilitar a tal mão errante, eu pensei. é uma questão de ângulo.

daí sempre tem alguém pra falar de geração. wasted youth e outras frases fracas. não faz sentido algum, visto que temos muitas pessoas falando de t r e p a r (separadinho, pra não assustar) com requinte antes dos quarenta, também. mart’nália fala de samba pra falar que vai pendurar roupa no cabide. além de tudo é organizada. que mulher. e a céu, que usa a delicadeza da voz pra falar dessa malemolência toda? dá até vontade de ficar sem chão, também.

se a questão é a linguagem, aceito as críticas: aquele rap no meio dá uma prejudicada na cadência da música. mas, veja bem, tem hora que ninguém aguenta mais chico querendo t r e p a r (separadinho, pra não assustar) e poetizando, pra ver se ganha um café na cama de manhã. mas, ok, aceito, a gente tem que discutir essas coisas, mesmo. botar anitta em pauta, falar de sexo, falar de vida, falar de gente. vamos fazer o que? piada de pavê eu não aguento mais. a gente podia dançar, quem sabe. será que tem cerveja o suficiente? se não, ó, vamos lá: deixa as garota brilhá.

e vai, malandra.

sobre caio fernando abreu

caio é meu autor preferido. acho que nasci amando, mas não tenho certeza. sei que nasci pronta pra escrever e a vida se encarregou de colocar um livro dele nas minhas mãos pra garantir a inspiração. virginiano, completaria mais um ano de vida no último dia doze de setembro. caio me desperta coisas. caio fala de encantos súbitos sobre pés, fala de borboletas, alecrim, hortelã, janelas, dragões e doçura. caio sempre fala de doçura. em dias, caio me dá vontade de sair andando, resolver problemas, escalar montanhas, atravessar pontes, salvar o mundo, abrir a geladeira e sorrir pro pote de manteiga e pra garrafa de água, porque a vida é como é e ponto. em outros dias, lê-lo me faz explodir em mim e causa erupções dos sentimentos mais diversos, pecaminosos, dolosos, dolorosos e profundos que alguém é capaz de sentir. caio faria aniversário no último dia doze e esqueci. talvez tenha sido por isso que hoje, quando decidi que precisava sentir coisas e torci pra que ele me despertasse vontade de sorrir pros problemas irremediáveis, foi logo esse o texto que caiu no meu colo. fala de ana cristina, outra escritora incrível que costurou palavras lindas em palavras horríveis e quase criou uma canção. tenho quase certeza que, se bem tentado, um beijo que parece um blues vira um som lindo de se ouvir. ele fala de ana cristina e ana cristina subiu escadas como uma diva antes de escolher seu grand finale aos 30 e poucos. pelo menos não dá pra reclamar de inércia. a vida é como é.

[escrito em 19 de setembro de 2017, sobre esse texto: http://caiofcaio.blogspot.com.br/2011/06/por-aquelas-escadas-subiu-feito-uma.html]

“queria tanto que alguém que me amasse por alguma coisa que escrevi”

conheci caio fernando abreu em algum lugar aleatório das estantes das bibliotecas que frequentei no ensino fundamental. eu com certeza não estava procurando por alguém que havia escrito crônicas e contos e romances no século passado e, menos ainda, buscando autores que haviam morrido no ano que nasci. lembro de ainda estar usando uniforme azul de moletom e gorro quando li pela primeira vez as palavras “queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi”. fiquei perpetuamente tocada pela possibilidade de conseguir um amor por algo que não sabia (e ainda não aprendi) como não fazer.

eu queria muito um amor.

caio

na minha cabeça pré-adolescente, conseguir um amor dependia de muitas coisas que eu não sabia fazer direito. um amor exigia uma coleção de vestidos bonitos, com pelo menos um pretinho básico e vários saltos 15. tinha certeza que pra viver um amor era preciso usar maquiagem (o que eu me forcei a fazer, mesmo odiando), alisar os cabelos (o que eu também fiz) e um cartão-fidelidade de uma floricultura. meu futuro amor merecia flores. eu tinha certeza que, pra ter um amor, era preciso cozinhar bem (a única coisa da lista de pré-requisitos que eu sabia fazer), limpar a casa e ser ótima na cama – eu tinha essa preocupação e, naquela época, a única coisa agitada que eu fazia na cama era acordar de pesadelos com a vilã “zula, a menina azul” do castelo rá-tim-bum.

apesar de toda essa meninice de não entender nada sobre o amor (quem entende?), fiquei esperançosa quando conheci caio. primeiro, porque foi um dos primeiros autores que li que não escreviam como quem dá aulas de hermenêutica. eu sentia que podia ter escrito o que lia – e quanta prepotência! segundo, porque seu desejo se tornou o meu: quando o li, já havia começado a escrever. mais ou menos um mês atrás, encontrei um conto que escrevi há mais de dez anos. é péssimo. mas serviu para recordar com clareza como sempre encontrei uma forma de documentar quaisquer que fossem os sentimentos talhados no meu peito. ou então os presos nessa minha mente que nunca poupou esforços pra inventar o que quer que fosse e coubesse em dúzias de palavras ritmadas, repetidas, listadas e agrupadas em frases longas sem pontos finais. certas coisas nunca mudam.

quando conheci caio fernando abreu, uma revolução aconteceu na minha vida: eu tinha, agora, um autor preferido. e ele, em alguma escala, havia vindo junto com a possibilidade de realização de um desejo meu – que fora dele e do qual me apossei. em suma, entrei na biblioteca atrás de um livro e ganhei dois amores. o de caio e o que me amaria por alguma coisa que escrevi. e caio me foi – e é – um amor, daqueles eternos, porque tenho certeza que ele e eu nos encontramos nas vidas passadas que eu nem acredito que tive, mas gosto de fingir que sim, só pela possibilidade de tê-lo visto em alguma delas.

e comecei a mirabolar sobre esse amor. ele se apaixonaria pelas minhas palavras, tão minhas. se apaixonaria ao me ver escrevendo à mão, ou no computador, ou em guardanapos dos restaurantes que frequentaríamos – e eu não estaria vestindo um único pretinho básico, nem salto 15, nem maquiagem e nem estaria de cabelo alisado, porque agora nada disso era necessário já que eu teria um amor que me amaria pelo que eu havia escrito.

esse meu amor, o que me amaria pelas razões certas, me levaria para tomar um café e entenderia completamente quando eu olhasse para o nada com cara de quem acabou de encontrar um romance entre os quadros da decoração. ele aprenderia a mexer na minha cafeteira para fazer café quando o meu acabasse e ouviria atentamente à minha prova de artigos, textos, contos e romances inteiros se preciso fosse. e ganharia todos. esse meu amor se esconderia por entre as entrelinhas dos meus textos sobre são paulo, seria o “você” de todas as longas cartas pra ninguém que eu passaria a escrever depois de muito ouvir adriana calcanhotto num dia meio feio.

na minha cabeça, esse meu amor que me amaria por alguma coisa que eu escrevi seria daqueles brandos que abraçam apertado sem a menor justificativa e discutem sem levantar o tom de voz. que não maltratam o lado de dentro de peito e dão beijos de amor louco sempre que a vontade bate – o amor que eu imaginei era do tipo que apanha da vontade que bate a qualquer hora do dia.

a coisa mais louca dessa vida é que eu nunca esperaria que, para ter um amor desse tipo e que me amaria por uma coisa que eu escrevi, eu precisaria escrever outras coisas. para que o amor que me amaria pelo o que eu escrevi cumprisse todos os requisitos que eu mirabolei – que eram quase uma soma pior que de salto 15, pretinho básico e maquiagem com cabelo alisado -, eu precisaria escrever coisas calmas, de voz baixa, sem exclamações, com mais pontos finais e, talvez, uma quantidade menor de palavrões ou menções à coisas que me são tão importantes tais quais os nuncas e sempres e todos os outros amores que passaram pela minha vida. pra eu ter um amor daqueles eu precisaria ser uma escritora daquelas.

e sendo uma escritora como sou, os amores que me aparecem exclamam. gritam. berram. são doidos e dizem não e dizem sim e depois juntam o não e o sim num meio de caminho que nem eu nem o amor entendemos e seguimos sem nada entender sem vírgulas usar construindo sentenças longas demais. quem vai cumprir? meu desejo se realizou e me amaram e me amam por alguma coisa que escrevi: caio devia ter avisado que o seu amor vem de acordo com o que você cria e, pasme! it’s both a bless and a curse. caio devia ter avisado que ser um escritor que fala o que quer é sempre ser um amor que tem o peito dilacerado e depois se reconstrói com as palavras que despencam de cada um dos ventrículos átrios veias e moléculas sanguíneas que se espalham pelo chão.

não tem poesia em ser amado pelo que se escreveu – no máximo, você cria alguma poesia desse amor: fria, mórbida, sem muita esperança, com palavras muito duras. ou, quem sabe, se você for um escritor como eu, consiga criar uma poesia com esperança de um próximo amor melhor que, talvez, quem sabe, virá num momento em que minhas palavras serão mais brandas e que, talvez, quem sabe, atrairão um amor que caiba na ideia mirabolante da pré-adolescente que, um dia, pegou um livro de caio fernando abreu na mão e decidiu que só acreditaria no amor se ele se apresentasse dizendo que amou alguma coisa que escrevi.

ode ao rio

ainda tem areia da praia da barra nos meus óculos de sol. é engraçado, porque o rio de janeiro nunca vai embora de você. você volta pra sua cidade, vê o cinza dos prédios, mas, se fechar os olhos, quase sente o bafo quente que se compensa pelo céu e pelo mar. e pelos morros. e pelas mulheres de biquíni almoçando em botecos no leblon. você quase consegue ver os postos das praias no meio das calçadas, quando volta do rio. eu digo que, acredite, é só fechar o olho pra sentir a lata de antárctica gelada suando na mão. ninguém passa imune aos arcos da lapa. nem aos botecos da barrinha. nem às caipirinhas do posto 9. e não passar imune pode ser amor ou ódio – a linha é tênue. eu já tinha ido pra lá e voltado com ódio dos preços do transporte e dos rostos mal humorados de quem não suporta visita de quem não fala chiando, nem usa o “r” com emoção. o rio de janeiro é pra quem vive com emoção. uma experiência de gente grande que absorve a rua e bebe em boteco do centro depois de sentar na mureta da urca com mais gente grande, vinda de todo canto do mundo. o corpo tenta abstrair, mas repete que ele continua lindo sim. o rio, por assim dizer. canta que eu rio porque tô no rio de janeiro. e repensa a ideia de vida da selva de pedra. remonta. revive. dá vontade de ficar, voltar, cuidar, conhecer os idosos que tomam muita cerveja, comem camarão e comemoram cada dia que termina e todos os que começam. dá vontade de mostrar o rio que não dá vontade de ir embora. de guanabara, botafogo e jacarepaguá. é caminho sem volta. o rio faz você se apaixonar ou odiar profundamente. mas você sente, sempre sente. muito. e traz pra casa uma saudade. e areia da praia da barra nos óculos de sol. tem um rio pra todo mundo e um pra cada um. tem o rio dos ciclistas, dos banhistas, dos turistas, das ativistas feministas e dos paraquedistas – é só procurar. conheci um rio pra turco, carioca, baiano, paulistano e até russo que achou ali um lugar. tem um rio pra cada um e eu quero construir o meu – e vou começar com a areia da praia da barra que ainda tá nos meus óculos de sol.
 

não me siga, eu também estou perdidzzzZzz & um ode aos clichês

“não me siga, eu também estou perdida.”, cê já deve ter ouvido isso, eu aposto. ou lido, em alguma placa, num bar, num restaurante modernoso ou estampado numa caneca numa foto de fundo desfocado d’um instagram de feed organizado. quem tem tempo pra organizar feed? eu mal organizo minha mesa. aliás, fiz isso hoje: ano novo, mesa velha. arrumada, ao menos. voltei de viagem e tinha até um pedaço de calça em cima do meu computador, que estava na cama – não uso computador na cama há anos. agora, tudo sob controle. pedaço de calça no lixo, computador na mesa: cada coisa em seu lugar.

na vida, não posso dizer o mesmo. mas posso repetir clichês. uso e abuso deles e re-repito [neologismo já está permitido em 2018?]: não me siga, eu também estou perdida. e pra onde ir quando não se sabe onde está? parece abstrato, mas é menos complexo do que o diálogo de alice no país das maravilhas. eu estou aqui. na minha mesa, agora organizada, sentada, um tanto atrasada pra um compromisso que marquei não tem nem vinte minutos. marquei sabendo que tinha esse texto pra terminar: marquei sabendo que não chegaria a tempo. marquei. se isso não é coisa de gente perdida, o que é?

aliás, tem coisa mais perdida do que marcar compromissos em horários inviáveis com a falsa ilusão de que chegará em tempo? reunião às 9h num local a mais de 40 minutos de distância: ninguém chega a tempo. café da manhã às 10h na padaria debaixo de casa: não chegarei a tempo – porque é perto, vou me atrasar e sair de casa às 10h15. reunião de trabalho depois do expediente, às 18h30: não é HUMANAMENTE POSSÍVEL chegar a tempo em qualquer lugar entre as 17h30 e 19h00 em são paulo. e, mesmo assim, marcamos. por que? porque somos todos perdidos, oras. quer dizer: eu sou.

já falei? e tem mais: não me segue, não. no instagram, se quiser, pode ser. o feed não é organizado, mas as legendas são engraçadinhas. no twitter, seja bem-vindo. na vida, pelo amor de deus, me perco no caminho de casa. confundi a tijuca e o leblon, uma vez. se me largar no centro da cidade e for muito longe da roosevelt, já esqueço como COMER, tamanho desespero. não me siga.

meus amigos inventaram de me seguir, uma vez. o destino era o bixiga. acabamos numa avenida aleatória, onde todos os comércios estavam fechados e a uma ladeira IMPRATICÁVEL de distância de qualquer local conhecido. me seguiram. pagaram o Uber. é isso que acontece quando me seguem. não me sigam. eu não só estou perdida, como sou.

agora, por exemplo: vou chegar atrasada. não precisava, podia ter marcado meia horinha mais tarde pra dar tempo de, pelo menos, dar um jeito no topete. a única coisa que me consola é que a outra pessoa que vai dividir a mesa comigo também escreve. esperar me inspira. deve inspirá-lo, também. quem sabe, na minha chegada, não exista uma porção de guardanapos com um texto prontinho para ser publicado.

posso chutar? o título será algo perto de “por que insistimos em quem nunca chega na hora?” e, meu caro amigo, eu te respondo desde já: você insiste em mim e me espera, porque eu sou perdida. e não saber onde se está rende ótimas histórias. quer coisa melhor? um dia, te conto a do pedaço de calça em cima do computador. agora não dá, tô atrasada. mas tô chegando. me espera. pede chopp pra dois?