um texto de quem viveu 2017

sentei pra escrever esse texto umas quinze vezes. nunca pareço encontrar as palavras certas: logo eu, que falo tanto, escrevo o tempo todo e sempre tenho um pitaco pra dar. acontece que esse ano foi muito doido. eu comecei de cabelo comprido a viver 2017 e fui cortando. lugares, ocupações, hobbies, julgamentos, pessoas, palavras, medos, hábitos. fui cortando e sobrou só o necessário: quando vejo foto da mesma data do ano passado, não me reconheço. o óculos era outro, o cabelo muito longo, o sorriso menos largo do que deveria. e sempre fui de sorrir largo. mas tem excesso que a gente precisa cortar pra aumentar. tem excesso de medo, de mania – tem excesso de falta de coragem que faz a gente parar por tanto tempo. a gente só percebe que estagnou quando anda de novo.

no último ano, perdi a vontade de fazer cena. perdi a coragem de não me ouvir – que tarefa desafiadora essa de ignorar alguém que nunca te abandona. perdi o medo de perder: elizabeth bishop já tinha avisado que a arte de perder não é nenhum mistério. eu que nunca quis ouvir. perdi o medo e tatuei um monte de coisa que eu amo ver no meu corpo. tudo de uma vez. ouvi que era doida um milhão de vezes. sou. mudei o óculos e o ponto de vista: parei de usar remendos pra enxergar a realidade que tava na minha frente, sabe? aprendi a enxergar as coisas de forma crua e transparente, porque é mais fácil ser feliz quando a gente não se perde nas ilusões que cria porque quer. e cria porque quer ser mais feliz. é quase irônico.

foi nesse ano que eu entendi que cometo erros mil, mas que eles são parte do processo. que tem gente que usa a gente de apoio e que tudo bem, porque a gente faz isso com os outros sem notar, também. aprendi que a vida da gente é mais que a falsa estabilidade de saber pra onde ir amanhã de manhã. fui pra tantos lugares novos amanhã de manhã. falei sim pra umas coisas que até hoje não acredito. conheci gente da melhor qualidade. dancei até o chão, gargalhei altíssimo. atrapalhei várias reuniões, levei tantas outras nas costas. conquistei: clientes, pessoas, amores, inimizades. a gente conquista um monte de coisa sem perceber. tão bom sentir que a gente consegue conquistar gente boa. gente que fala da gente sorrindo, depois.

que delícia conquistar gente que imprime na gente uma vontade de quero mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer ir embora – que delícia ir embora de onde a gente não quer ficar. que delícia ficar onde a gente quer ficar.

fui embora mais cedo de shows, fiquei até a balada acender as luzes. abracei pessoas que me inspiram. ouvi artistas incríveis de pertinho. senti o que é viver a arte à flor da pele. criei tanta coisa boa. criei tanta coisa ruim. cantei e gritei a noite inteira e depois emendei num almoço de família. miei o rolê e dormi até mais tarde. me dei o dia de folga. trabalhei domingos inteiros. pedi o isqueiro emprestado, emprestei isqueiros mil. perdi isqueiros. perdi a hora, a paciência, a noção, a caneta azul, o tine, o rumo e a vontade.

a arte de perder não é nenhum mistério. um ano de perdas e ganhos. perder e ganhar são exercícios de vida. vivi. vivemos. que fique perto quem está disposto. paz e bem à quem não estiver. paz e bem à vida. e um brinde à nós, que somos ótimos. sempre ótimos. e seguimos. sobrevivemos.

graças a deus.

causa mortis

você entra no elevador e tem certeza que todas as mortes do século passado foram ocasionadas pelas pessoas que fumavam em elevadores. o ícone universal que proíbe sigaros em locais fechados, alocado bem na altura dos olhos dos viajantes daquela peça de metal, indica que querem que menos pessoas morram neste século que agora estamos. aí você sai do elevador e acende seu próprio sigaro sem jogar fumaça em ninguém pra morrer sozinho, se for o caso. anda pelas calçadas desniveladas e pensa que algumas das mortes deste século nada têm a ver com os sigaros e sim com tropeços de senhoras de setenta e tantos andando por lugares que seus andadores emperram e seus queixos, já frágeis, dão beijos de amor louco numa pedra fora de lugar in this sidewalk, baby. sidewalk esta preenchida por mulheres e homens carregando seus bebês protegidos do sol com uma manta quente que vai matá-los de hipertermia num futuro próximo. e aí você pensa que as mortes do próximo século serão majoritariamente de bebês protegidos do sol com mantas quentes por mães e pais que tentam evitar e causam. entra pra tomar um café no primeiro estabelecimento que vê e gasta quase vintchy reais num café com pão, entende que, na verdade, os sigaros mataram pouco e as mantas só fazem suar: o que vai matar a próxima geração são os preços exorbitantes dos cafés com pão. aí você anda mais, passa por umas bibocas esquisitas com a sensação de que está no lugar errado, chega no lugar certo, pega o ônibus pra casa e sobe as escadas, porque sua casa não tem elevador e os sigaros poderiam ser acesos sem causar uma ação genocida. entra no chuveiro, toma um banho frio. percebe que nada mata, a gente só morre. a vida acaba mesmo. que loucura. não pode acabar hoje, nem amanhã. você percebe que antes de acabar tem tanta coisa pra fazer. tanta coisa pra confabular sobre a morte. tanta coisa pra confabular sobre a vida, a maior e melhor fábula de todas. e senta. num lugar aberto, pra não matar ninguém. acende um sigaro. viva, enfim. vivíssima. 

tomar cerveja em são paulo e outros caminhos sem volta

eu nunca perco uma oportunidade de tomar cerveja na rua em são paulo. geralmente, me deparo com situações maravilhosas que fazem valer a pena quaisquer cochilos dados no metrô na volta pra casa. já conheci gente incrível em fumódromos diversos. já acabei em lugares diferentes com pessoas que eu jamais imaginei conhecer. já respirei o ar podre do baixo augusta (alguém ainda fala isso?) e o ar tarifado da oscar freire na mesma noite. já me meti a ficar zanzando pelo centro de são paulo pra ver “onde isso dá”. lugar nenhum, se querem saber. na roosevelt, geralmente. se bem ou mal acompanhada, deixo no ar. era de se esperar.

andar por são paulo é uma aventura doida. quem se atreve a sair do trecho baladas-na-augusta-ou-vila-madalena-ou-pinheiros consegue encontrar de tudo. sobretudo, gente. num mesmo final de semana, encontrei andando sem pressa por essa cidade um casal de amigos, uma menina que conheci em 2008 (quando ainda fazíamos fakes no orkut e vivíamos vidas baseadas em ações precedidas por um asterisco), um cara ótimo que eu não via há algum tempo e uma amiga que fazia um ano que não aparecia nem numa janela do whatsapp. fui da zona norte à sul, passei pelo centro e me enfiei na zona oeste em alguma parte do final de semana que, se você me perguntar agora, não vou saber te dizer qual.

tem que ter muita coragem pra viver em são paulo: é tanta coisa pra explorar que você sempre vai acabar encontrando alguém. ou alguma coisa. ou alguém meio coisa. ou uma coisa meio gente, que vai te fazer pensar em algo e te dar um estalo e você vai ter a epifania necessária pra fazer o dia inteiro diferente. e aí você vai pra um lugar que nunca imaginou, numa travessa de uma avenida que nem sabia que existia (mas tem doze bares, um copo sujo e duas baladas) e encontrar um cara que você não vê desde o casamento de 2014. nessa altura, já se divorciou e casou com outra. ou outro.

caminhar por esse buraco te leva a encontrar amores mil e perdê-los todos por entre os dedos, sem dar tempo nem de segurá-los. cê sente tanto gosto que já nem sabe mais o seu. e depois decora tanto o seu que não consegue mais se afeiçoar por gosto nenhum. cê conhece tanta gente nova que sente que tava perdendo tempo de vida e aprende a sorrir pra todo mundo que aparece, porque provavelmente o novo vem acompanhado de uma ótima história. quem vive por aqui aprende a ouvir histórias como ninguém e a construir as suas próprias usando mão-de-obra independente.

se um dia você acabar na zona norte, depois de uma festa que acontecia na zona oeste, pra onde você foi depois de um esquenta na zona sul, pare num boteco qualquer e peça uma cerveja. conhecer são paulo é tão longe de conhecer os lugares-de-sempre que posso te dizer que o maior ponto turístico é o metrô, que te leva pra todo canto. a cidade inteira é uma coisa louca, as regras não existem e não tem ninguém capaz de sair imune a esse caos. ainda mais se for são paulo de verdade, com copo sujo, um certo grau de dificuldade de acesso e um monte de moradores bairristas que nunca vão aprender a deixar a esquerda livre.

7×1

milagre ninguém faz. reza braba tem uma porção. garrafa de vinho, de cerveja e de cachaça nunca faltam. nem faltarão, amém. há quem diga que deus proverá – eu não duvido! mas, se a resposta tá no céu, eu vou buscar. nem que seja apé.

problema aparece pra gente resolver: tapa na cara é pra endireitar o rosto, soco na fuça estala o pescoço e pé na bunda te leva em frente. se tudo vem forte e ao mesmo tempo, a gente senta. e aproveita que vinho, cerveja e cachaça nunca faltam. aproveita que tem lugar pra sentar e abre mais uma. aproveita que tem vida pra viver e ri mais alto. aproveita que a arte existe e ouve um som. bom, de preferência. aproveita que a bunda existe e rebola. sozinha, se for o caso.

aproveita que o tempo tá ameno pra usar um moletom confortável. aproveita que a meia feia tá lavada pra vestir e andar sem sapato. aproveita que a pia tá limpa pra não se estressar com isso. aproveita que a pia tá suja pra deixar mais um copo. aproveita o copo limpo pra encher de uísque. aproveita o copo sujo pra empilhar no outro que tá na pia e encaixar certinho, como se tivessem sido feitos pra isso.

se tá uma loucura, a gente aproveita. a gente aproveita o caos pra mandar o mundo a merda. levanta da mesa e vai embora antes do horário; senta na mesa e fica até depois, abre a terceira garrafa de vinho e conta mais uma história. aproveita pra ouvir sobre as mulheres maravilhosas da vida de quem for e as mulheres frouxíssimas de outra vida que perambula por aí e ainda bem que cruzou com a sua. a gente aproveita o clima frio pra dar um beijo quente, aproveita o abraço apertado pra se esconder do vento, aproveita a vista bonita pra se inspirar sem ver passar o tempo.

e se aparece uma pedra no sapato a gente para e tira, se aparece um murro fora de hora a gente abaixa e desvia, se aparece um 7×1 a gente grita gol e se aparece um garçom a gente pede pra descer mais uma.

se a vida quebra em dois, a gente não costura: vai duas vezes mais forte pra briga e deixa o adversário tontinho. a gente usa o melhor de cada metade e pede mais uma pra brindar.

se a vida deixa sozinho, a gente olha pro céu e aproveita pra cantar. sem ter ninguém pra falar, ninguém vai reclamar. a gente aproveita pra ouvir música brega e cortar um pouco mais o cabelo. a gente sacode a poeira e deixa ela baixar.

se a vida mete o pé, a gente chega na voadora. porque eu prometi um dia e vou cumprir todos os outros: se quiser me foder, vai ter que se preparar, porque eu não vivi tudo o que vivi pra desistir por nada mais ou menos. pode vir, mas vem de jeito. porque eu até perco a partida, mas o palanque é meu. e vou dançar até chegar o que for que eu tiver que enfrentar.

então quer dizer que eu sou a única mulher do rolê?

dia desses fui num bar tomar um chopp com uns amigos, jogar conversa fora e comemorar um corte de cabelo novo que eu enrolei séculos pra fazer. enrolei, primeiro, porque sabia que meu pai não ia ficar lá muito feliz (e a opinião dele importa). segundo, porque tava frio e nuca gelada é oficina da garganta inflamada. e depois, porque eu já ouvia “sapatão!” no meio da rua por ter um dos lados mais curto que o outro – e tenho medo de apanhar no caminho pra casa. maldita sociedade babaca. nem sapatão eu sou (mas sempre agradeço o elogio).

aí, sim, ok, estávamos lá, sentados e felizes tomando cerveja. um amigo abraçou o sofá e o chamou de “meu amor”: deitou eternamente em berço esplêndido apoiando os braços nas almofadas ao seu redor. eu tava de conchinha com uma almofada quase maior que eu. e o terceiro amigo, pragmático e rei da pose como é, manteve até com a coluna reta ao sentar, se você quer saber. chega uma pessoa no bar. olha ao redor. “então quer dizer que eu sou a única mulher do rolê?”.

risos nervosos. gargalhadas altíssimas – a minha, inclusive.

“ah, não força também, né! meu cabelo tá curto, mas não tenho um pau!”, respondi. ela culpou o álcool, o cansaço, a falta de atenção, são paulo. essas coisas que a gente sempre culpa. viramos amigos para sempre. quando você conhece pessoas no bar, no fumódromo ou na fila do banheiro, vocês automaticamente se tornam amigos para sempre. sobretudo se envolver uma piada. ela tinha lá seus 30. salto alto, carreira contábil em plena ascensão e muita história pra contar. “me empresta o isqueiro?” é sempre a melhor forma de começar uma conversa. ela parecia saber. vida, relacionamentos, família, álcool, histórias de álcool e de amor: porque nem o álcool te leva a ser tão bobo quanto o amor. conversamos. dividimos. nos aconselhamos como se nos conhecêssemos há anos. o chopp não tinha tempo de esquentar no copo e a gente já pedia, quase num tom uníssono: “thor, faz mais uma pra gente?”. nem o frio nos impediu de tagarelar e fazer as piadas mais infames do mundo para essas novas pessoas que pareciam estar na nossa vida desde que nascemos.

isso acontece sempre: na fila do banheiro de uma casa brasileira com muito samba, suor e cerveja, fiz amigos pra sempre que perduraram até o fumódromo. comunicadores, todos. mídia, digital, planejamento, atendimento: todo mundo farinha do mesmo saco do universo da publicidade e propaganda.

teve um dia que conheci uma menina que nasceu no mesmo dia que eu – e nosso mapa astral era ferozmente diferente, mesmo assim. já conheci colombianos, sergipanos, um cara que jura que nasceu no acre e que lá, além de existir, é um lugar lindo. já conheci gente que levei pra dormir em casa no mesmo dia e acordei com todos os órgãos no mesmo lugar. conhecer gente é o tempero que a gente precisa pra ter força pra viver os dias. dar risada de piada velha de gente nova é uma das melhores sensações do mundo. só perde pra sensação maravilhosa de conversar sobre tudo isso com os amigos de sempre e, de repente e mais uma vez, aparecer alguém que também sabe a melhor forma de iniciar uma conversa: “me empresta o isqueiro?”.

um dia a gente se lê

eu tinha te dito que não ia dar, que eu não sou pra essas coisas, mas a gente tentou e eu me perdi nos caminhos por aí. não me procurei nas suas curvas: talvez tivesse encontrado — quem vai dizer?

assumi o risco e a responsabilidade de escolher fazer alguns atalhos com você: pular algumas etapas, ir em direção a um destino que eu já tinha conhecido, mas parecia ter sido reformado nesse tempo que passou. parecia uma boa ideia, você deve saber como é.

não deu tempo de saber se tava certo ou se ficaria com o tempo; se o tempo trabalharia a nosso favor ou se nossos receios tinham algum fundamento. deviam ter. receios são a forma escrachada do nosso cérebro nos avisar do que está prestes a acontecer. faltou um pulo.

não demos.

eu tinha te dito que não ia dar, mas fico feliz por ter voltado atrás. eu precisava dos seus livros, músicas e daqueles papos matinais pra encarar esses dias esquisitos que se sucederam enfim. sempre acreditei que as coisas acontecem como precisam acontecer e você foi a coisa mais inusitada que poderia ter aparecido.

de volta aos trilhos: que bom que me perdi. por aqui, o caminho parecia não ter tanta graça, mas eu precisei ser a filha pródiga que retorna pra entender o meu lugar. isso acontece, às vezes. seu papel se cumpriu, não se preocupe.

seus caminhos tortos também têm poesia — e eu adorei ler. mas, você sabe, eu nunca neguei: nasci pra escrever as minhas próprias e nos seus atalhos não sobrava espaço. acontece. um dia a gente se lê.

eu não sou a pessoa certa

eu não sou a pessoa certa pra agora — vou chegar no momento errado e você vai dizer “se fosse dez meses atrás…”. eu não sou a pessoa certa pra dez meses atrás, porque era o momento ideal pra você conhecer a sua pessoa certa. eu não sou a pessoa certa pra ser sua amiga: vou falar alto demais, ressaltar os seus erros e não vou passar a mão na sua cabeça quando você se enfiar com aquela mina problema de novo. eu não sou a pessoa certa pra ficar com você, porque eu não vou te mandar mensagem no dia seguinte falando que adorei o papo com um emoji que pisca. ;).

eu não sou a pessoa certa pra andar de mãos dadas com você na rua. minhas mãos suam, eu fico desconfortável e esbarro nas pessoas o tempo inteiro. eu não sou a pessoa certa pra trepar e esquecer, porque às vezes eu não quero esquecer nada, mesmo sem conseguir lembrar seu nome. eu não sou a pessoa certa pra sorrir de manhã com você, porque durmo mal e acordo cedo — fica sempre difícil de sorrir com alguém quando você acorda antes das 5. eu não sou a pessoa certa pra dividir um apê com você, porque eu vou querer tudo no lugar na hora certa e talvez comece a guardar os utensílios que você tá usando pra cozinhar um estrogonofe, que eu nem posso comer, enquanto o frango não tá nem refogado. eu não sou a pessoa certa pra ir jantar com você: sou intolerante à lactose, faço dieta low carb quase sempre e detesto tempero de restaurante chique.

eu não sou a pessoa certa pra ser sua amiga. eu não vou sair da sua vida tão cedo, vou ficar insistindo pra você me dar colo quando eu precisar e vou aparecer na sua casa de ressaca querendo acender um cigarro, comer qualquer coisa e tomar uma cerveja pra rebater a noite. eu não sou a pessoa com quem você vai poder dividir uma cerveja. eu vou querer pedir o balde logo de saída, com uma porção de batata com calabresa pra acompanhar. eu não sou nem a pessoa certa com quem dividir uns litrões, porque eu canso de ficar em pé em algum momento e vou embora. eu não sou a pessoa certa pra você dividir os seus problemas, porque eu vou conseguir te convencer de que foi você quem os criou e, talvez, você entre numa paranoia profunda de que está se sabotando.

fiz isso comigo mesma.

eu não sou a pessoa certa nem pra ficar comigo. mas ninguém é. e se você quiser ficar comigo, ou com qualquer um, vai precisar passar por cima disso tudo. porque você também não é a pessoa certa pra mim e nosso encaixe é amórfico já faz tempo. mas, se você estiver disponível, a gente pode conversar sobre eu não ser a pessoa certa. porque eu não sou. mas, se quiser, a gente pode tentar. só tem que querer muito.

o feminismo, meu corpo e as regras de outrém

aceitar o próprio corpo é uma roleta russa. tem dia que cai em você e nem o motorista que te chamar de “balofa” pra te dar a passagem fora da faixa vai diminuir seu amor próprio. tem dia que até uma risada quando você entra no ambiente vai parecer ter sido gerada pela sua cara.

ainda mais quando você tá fora do padrão: se você não é branca, se o seu cabelo não é liso, se você não veste 38 e não calça 36, se seu corpo não entende que depilação custa caro e não mantém por duas semaninhas os últimos 70 pilas que você pagou ou se o seu nariz não foi feito pelo dr. Hollywood: I feel you, sistah.

não usar maquiagem já é um avanço. tem dia que a pele acorda pior que a dos adolescentes que precisaram de roacutan (presente!) e a vontade que dá é de jogar ácido sulfúrico pra ver se tira a oleosidade da área T. e o olho, cansado, que pede um corretivo amarelo depois do primer e uma quantidade considerável de um BB Cream qualquer? nem vou começar a falar da boca que com certeza veio da cor errada, porque todo mundo insiste em perguntar se eu tô doente se não tô de batom.

pra piorar, a vida real acontece girando em torno de uma mídia (desculpa aí, parceiros de profissão, mas cês só cagam na tanga) totalmente excludente que reafirma os padrões de beleza inalcançáveis e fazem pelo menos quatro meninas chorarem por anúncio divulgado.

não odiar o próprio corpo é uma guerra. não é falta de entender à quê nossa sociedade nos condiciona, não é falta de desconstrução (#desconstruidona). as mulheres que eu mais admiro dentro do movimento feminista têm problemas em aceitar seus corpos como são. talvez seja uma transição. mas, com certeza, é uma guerra.

é muito bonito quando a gente lê por aí que o corpo feminino é lindo como é, que suas dobras são lindas como são, que seu cabelo é lindo como foi feito, que sua celulite é poesia escrita na pele, que suas estrias são como as ondas no mar. uh! dá até pra acreditar por 1,9 segundos. mas é só olhar pro espelho que a gente volta pra estaca zero e pr’aquele terrível gosto na boca, que diz: “eu nem gosto tanto assim desse reflexo”.

o discurso é maravilhoso e toda feminista sabe recitar (presente, de novo!), mas, no fim do dia, dá pra contar nos dedos de uma mão quem realmente vive o que fala. e a culpa não é nossa, não.

eu, que me considero bonita e tenho a autoestima no lugar, vezenquando me pego pensando em como já fui mais magra, mais bonita, mais ajeitada e nas coisas que posso ter deixado de conquistar porque conquistei os 15kg que me lembram diariamente que larguei a academia umas quatro ou cinco vezes.

vejo mulheres que considero lindas reclamando de pintas pelo corpo, de cicatrizes, de celulites imperceptíveis, de marcas de nascença que parecem ter sido colocadas à mão, de tão exatas. vejo mulheres que considero lindas estragando a própria pele ao entupir os poros do rosto de maquiagem para esconder imperfeições perfeitas.

e pra quê, né? a gente deixa de sorrir pra foto porque evidencia o nariz, deixa de usar regata pra não mostrar o braço, deixa de usar shorts pra não marcar as coxas. a gente deixa de transar pra não mostrar o corpo, deixa de gozar se não apagar a luz. a gente queima a pele pra tirar o pêlo, queima o cabelo pra tirar o cacho — queima o sutiã pra quê?

aliás, sutiãs! a gente machuca e aperta o peito pra ninguém saber o que todo mundo já sabe: mulher tem mamilo.

breaking news.

é engraçado e irritante ao mesmo tempo quando a gente consegue perceber que chegou no nível em que não sabe mais se ama ou odeia o próprio corpo.

eu mesma estacionei nesse estágio. me acho bonita. e, às vezes, também acho que preciso perder esses 15kg pra ontem. me acho atraente. e também acho que ninguém tem razão alguma pra se sentir atraído por mim. não uso maquiagem, não uso sutiã e não deixo de fazer nada por conta do meu corpo. mas vezenquando preciso olhar no espelho e lembrar pela bilionésima vez que não preciso parecer com ninguém, porque eu já me pareço comigo e isso é tudo o que eu preciso ser.

a gente vai sobrevivendo com um discurso maravilhoso de amor próprio que, quando falha, faz a gente cair do cavalo na self-esteem feminist tour e chegar no fim do dia com a cara arrastada no chão, sem maquiagem, sem sutiã, com todas as imperfeições com as quais a gente nasceu, cresceu e foi construindo no corpo ao longo de uma vida toda pairando do nosso lado no fundo do poço. esses dias, a gente, que decorou o discurso e quase se sente culpada por se sentir assim, só espera acabar.

no fim do dia, a gente se odiando ou se amando, aceitando nossa pele como é ou remendando como pode, com a luz acesa ou apagada, todo mundo deita pra dormir e, no dia seguinte, acorda no mesmo corpo que, até agora, cumpriu muito bem seu papel de nos trazer até aqui. alguns dias, com nossa aprovação. outros, com nosso desprezo. sempre, bonito como é.

por hoje, já vale. amanhã a gente vê — ou espera acabar.

as coisas que eu queria te contar

hoje eu queria te contar de um projeto que eu terminei. ele ficou tão bonito.

Mas eu não tenho mais esse direito.

Ontem eu quis te contar de um projeto que eu tinha começado. Ia ficar tão bonito.

mas eu já não tinha esse direito.

anteontem passei por uma barra, foi tenso, fiquei estressadíssima, os meus cabelos arrepiaram mais que o normal e a minha pele escura enrubesceu.

mas eu não podia te contar, tirei meu direito com a mão e foi horrível precisar ignorar a vontade de fugir pro seu abraço.

na última semana precisei de você. precisei do seu abraço. não precisei: quis. quis muito. não tive.

mas também já não tinha mais o direito de te exigir mais nada. seu abraço enlaçava outros braços.

no último mês precisei de você. precisei do seu beijo, do seu afago, do seu cheiro e do seu carinho.

eu podia te exigir, te implorar, te espernear, te convencer. mas eu escolhi pedir. a negativa dessa resposta me trouxe todas as outras negativas que me dei.

mas hoje, hoje eu queria muito te contar de um projeto que eu terminei. ficou tão bonito.

if that’s all it is, my friends, so let’s keep dancing!

olha, eu não vou escrever um texto hiper motivacional sobre como é importantíssimo manter-se positivo em meio às aflições da vida. primeiro, porque todos os sites de comportamento já estão aí pra isso e não tenho exatamente muito tempo pra perder falando o que todo mundo já diz. segundo, porque ninguém nasceu sabendo tirar leite de pedra, mas a gente se esforça pra isso todo dia.

dito isso, sabemos: pensamento positivo é importante. ponto.

agora, vamos lá, como podemos filtrar coisas boas de uma coisa tão ruim quanto dias ruins? falo assim, no plural e como uma coisa só, porque um dia ruim vez ou outra todo mundo tem. a barra pesa e a batata esquenta quando são vários. quando uma noite após a outra não resolve. quando dá dor de cabeça de raiva. de nervoso. quando você se olha no espelho e fala: que merda. tô um porre.

eu tive uma sequência de dias péssimos nas últimas semanas. com esses dias péssimos, aprendi algumas coisas.

a primeira cabe em meio tweet:

SAP: “você nem sempre pode ser forte, mas você sempre pode ser corajoso”, que é um trecho de doctor who.

depois, descobri que sou emocionalmente instável quando estou brava. nunca soube disso. sempre fui bem bravinha e intolerante com determinadas situações, mas nunca tinha notado como isso afeta todas as minhas relações. ao mesmo tempo em que quero colo, abraço e tapinha nas costas, não suporto o olhar de “ô, judiação…”. o que sobra?

também aprendi que stress não resolve problema. fiquei extremamente estressada, irritada, esbravejei aos quatro cantos toda a minha raiva, escrevi vinte e oito páginas de diário (que, se eu ainda escrevesse com a cor baseada no meu humor, estariam todas em vermelho-ódio) e… o problema continuou lá, intacto, pronto pra me dizer: que cena, hein.

não adianta.

nos dias péssimos, aprendi uma coisa maravilhosa: nunca deixe de ouvir música. ela faz maravilhas. james brown, freddie mercury e fernando anitelli operam milagres cerebrais se forem usados na medida certa.

os dias ruins fazem a gente acreditar que tudo é uma grande bola de decepções e que as coisas vão continuar dando errado, para sempre. e aí você precisa olhar pra vida e falar: MAS NÃO MESMO!

minha forma de fazer isso, hoje, foi dançando i feel good, do james brown, em público, no meio do bar, tomando uma cerveja depois do trabalho.

não resolveu nenhum dos meus problemas. nenhunzinho, nem diminuiu a dose.

mas pelo menos eu dancei.