quando matar a gente finge que não morreu

parece que alguém decidiu que de repente a gente nem fala mais naquilo, então. e quem sabe se a gente ficar assim, meio que fingindo que não existe, não decide ir embora? aí a gente vai voltando, a gente vai procurando, a gente vai esquecendo. aí a gente resolve alguns problemas numa ignorada só. parece bom. rimou, até, não rimou? configura rima? não precisa responder. então fica assim. nem um pio. quando aparecer a gente finge que não viu. quando bater a gente finge que não sentiu. quando matar a gente finge que não morreu. e tenta ir fingindo. ficando. quem sobrar. quem ficar. quem conseguir. quem conseguir fingir tá feito. quem conseguir falar, tá certo. quem conseguir ouvir, tá vivo.

história pra contar

quase que passou uma semana inteira sem que eu publicasse algo e seria péssimo porque eu escrevi, literalmente, na bio do meu twitter que tem texto novo no site toda semana. não é como se alguém realmente estivesse vindo aqui a cada sete dias pra checar e me bonificar – ou cobrar -, mas eu adoraria conseguir publicar pelo menos uma vez por semana alguma coisa que eu escrevi. é muito doido porque eu realmente escrevi bastante essa semana. entreguei alguns projetos e precisei reescrever vários conteúdos para o trabalho então sim escrevi bastante mas o meu arquivo do livro, por exemplo, não foi lá muito frequentado, eu na verdade escrevi cenas isoladas e tomei algumas decisões em relação ao final da história (que é exatamente a parte que estou construindo agora), mas é definitivamente assustador estar terminando de escrever um livro porque eu fico com a sensação que se esse livro for bom eu nunca mais vou conseguir escrever outro como esse e se ele livro for ruim eu nunca mais vou conseguir escrever qualquer coisa. e aí eu também começo a me perguntar quem é que vai definir se é boa ou ruim a história que eu estou tentando contar há tantos anos?, porque faz pelo menos cinco desde que escrevi uma cena da Rita pela primeira vez e a história já foi pra vários outros caminhos e agora temos duas personagens fortes e fodas com alegrias e verdades absolutas e traumas e vazios e danças descontroladas e pequenas grandes coisas pra contar e eu sempre me pergunto como será que alguém, seja ele quem for, vai definir se é boa ou ruim essa história que há anos vem me fazendo descobrir que dentro de mim existem pequenas grandes coisas pra contar? quase passei uma semana inteira sem publicar nada, mas aí me deu um medo de acharem que eu não tenho nada pra contar e resolvi dizer que eu venho há anos descobrindo que tenho sim.

escrever não é um dom

antes dessa loucura toda começar, eu acordava antes de ir pro trabalho pra escrever. ainda acordo. escrevo durante horas consecutivas, até a dor no pulso me impedir de continuar. escrevo dezenas de páginas e apago tudo para recomeçar. sem titubear. escrevo com os livros ao lado, escrevo lendo, escrevo pensando. escrevo no canto do papel, escrevo onde, como, quando preciso – nunca quando dá. quando dá, não consigo. nem quero. escrevo porque preciso. escrevo amo escrever, escrevo porque as palavras escritas dão significado às coisas que nem sempre podem ser descritas; escrevo porque a letra tem vida e é só no que tem vida que a vida acontece. escrevo porque eu tenho vida. é trabalho duro: escrevo pela insistência. mergulhar em um texto, reler, deletar, reescrever. reescrever um texto pronto, reler centenas de páginas centenas de vezes. dia desses transformei três capítulos numa frase: “a gente começou no bar”. nada mais precisava ser dito. ouvi de outro autor que não se deve jamais dizer em 50 poemas o que pode se dizer em 25. a parte mais difícil é dizer em 25. dá vontade de dizer em 70. escrever todo mundo escreve. difícil é ser lida. não porque não leem. mas justamente porque leem. porque é preciso que leiam. e é preciso que entendam, absorvam, se apoderem das palavras quase como se fosse impossível de se desvincular. escrever não é um dom. a vida é. colocá-la em palavras é a minha escolha.

pra sempre meu, caio f.

querido caio,

te escrevo porque hoje nasceu o sol. também escrevo porque você me ensinou a me ouvir. esse é o tipo de coisa que a gente fala pra um terapeuta, não pra alguém com quem a gente nunca conversou. mas você também me ensinou que as coisas funcionam pra cada um como as coisas funcionam pra cada um e aí já não tem muito o que fazer. então tô aqui pra te dizer isso. tô aqui pra te dizer, também, que se tivesse te conhecido acho que teria te achado um chato. isso porque li os livros de quase todos os seus amigos e sempre que, em cartas, falam sobre você, dizem que você era um mala e acredito. você parece ter sido chatíssimo, até por isso gosto tanto de você. você é real, como eu, que não tenho nada de gente boa, não faço a fina, nem tento. mas você é real, que conquista quem conquista pela realidade do ser e não tem vergonha nenhuma disso. acho que a coisa mais importante que você me ensinou, eu fico aqui pensando, é que a gente precisa sempre escrever sobre as coisas que matam o peito da gente. doa a quem doer. você me ensinou a colocar magia nas coisas. porque a gente, que é de verdade, não tem vergonha nem medo de falar as coisas como as coisas são e as coisas são, sim, mágicas, porque com o tempo e com a vida a gente vai descobrindo que a vida pode ser qualquer coisa que a gente queira. isso é pura magia. acho tosco quem diz que a tecnologia é indistinguível da magia. tecnologia é truque. o que tem de mágico na vida é tudo aquilo que a gente faz só com a gente. a magia é essencialmente humana. pensar, escutar, criar, imaginar, dançar, trepar, beijar, abraçar, refletir, mudar. a gente não precisa de mais nada pra fazer nenhuma dessas coisas e sem todas essas coisas a gente não tem nada pra ser. já pensou, que loucura, não ter a oportunidade de ser alguma coisa? ainda bem que li você, assim sei que a gente sempre é alguma coisa. só tem que descobrir. geralmente, só precisa aceitar. e quando a gente aceita quem a gente é, ninguém pode impedir a gente de nada. não tem nada mais poderoso do que o autoconhecimento. já ouvi dizer que é sempre uma má notícia e não discordo, mas é indiscutivelmente poderoso. mas eu tô escrevendo tudo isso porque tem uma coisa que eu preciso te falar. esse falatório todo é pra te falar essa única coisa, na verdade. você disse uma vez que sempre quis alguém que te amasse por alguma coisa que você escreveu. sempre achei lindo. mesmo. eu cresci pensando do mesmo jeito, por sua causa. eu cresci achando que queria ter alguém que me amasse pelas palavras, pelo meu estilo repetido, pelas minhas caixas sempre baixas, pela minha mania de criar personagens contraditórios que cutucam as pessoas porque elas mesmas são contraditórias mas não gostam de se reconhecer dessa forma (vê só como é importante a gente se aceitar como a gente é?). parecia ideal ser amado por algo que escrevi, se o que escrevo é tão real e tão vívido e tão representativo de quem eu sou. mas não é assim que funciona. porque quando alguém escreve como eu, caio, quando alguém aprende com você que a gente precisa ser verdadeiro e coloca o bom e o péssimo pra fora; quando alguém vive das palavras que cria; quando alguém se alimenta do mundo pra vomitar poesia… quem se encanta não desperta magia. quem se encanta tem problema, tem excesso, tem ausência. olha eu aqui, depois de tanto me encantar com você. mas eu não estou aqui para preencher ausências. eu estou aqui pra compartilhar completude. todo o resto não me interessa. e eu precisava te dizer isso, especificamente isso, caio, porque eu aprendi tanto com você que sinto que você sofreu muito por ter buscado um amor que te amasse por algo que você escreveu. e talvez, se dessa vez você tiver a oportunidade, busque um amor que te ame pelo que você não escreve. me disseram que saiu nos búzios que você está voltando para consertar situações inacabadas da sua existência terrena. achei uma loucura, mas não pude deixar de te dar só esse conselho porque sei que você só voltaria à vida por amor: procure alguém que te ame pelo chato que você é, por ser o amigo que pega no pé, pelo seu jeito de se arrastar pela vida, que te ame até pela dor que você sente lá no fundo do peito e não passou com yoga, natação, meditação. você vai tentar tudo isso dessa vez de novo? se sim, recomendo procurar alguém que te encontre tomando um chá verde no fim da aula de yoga. ou alguém que tenha esquecido os chinelos no vestiário da natação. se você quiser ser feliz, procure por alguma coisa assim. normal. de praxe. alguém que não saiba, logo de cara, que você escreve. alguém que não tenha contato com as suas palavras. procure, nessa nova vida, alguém que te ame por algo que você nunca escreveria. esse é o amor que vai salvar a sua vida. os outros amores vão te destruir. o lado bom é que a destruição criou ótimas histórias e o ruim é que a gente ainda não sabe o que um coração calmo é capaz de fazer. eu escrevi essa carta depois de uma noite deliciosa com o meu amor, calmo, que não tem a menor intenção de me amar por essas palavras, mas que insiste em me amar porque eu nunca esqueço de tirar o lixo. parece chato, eu sei, mas a felicidade é sempre meio chata, mesmo. e, bom, você está voltando em uma era em que nada é muito doce. nem uma vez, nem sete. tem que ter muita chatice e mornidão pra pacificar um coração cheio de magia como o seu. como o meu, por assimilação. espero que essa carta te encontre a tempo. boa sorte. estamos em 2020 e, por aqui, o mundo já acabou faz tempo.

pra sempre tua,

giovanna

Esse texto foi escrito como exercício da Oficina Criativa da Clara Averbuck de 2020. 🙂

a pé com uma mulher feia

é fácil ser um homem feio. é parecido com metade da população masculina do mundo então você sai de casa para trabalhar sabendo que pelo menos ½ dos homens com quem você se encontrar hoje vão gostar de você. os homens são metade do mundo e você já sabe que vai se dar bem com metade de metade do mundo. ¼ de aprovação é mais do que o bolsonaro tem. não parece problema pra ele. 

eu tenho ¾ de rejeição. eu sou um homem feio preso no corpo de uma mulher feia. o que é duplamente horroroso. horroroso porque essa é a palavra que melhor descreve a sensação permanente de ausência com a qual eu convivo. posso tentar explicar pra você, como se eu tentasse explicar para uma criança: desde que nasci, sinto que deveria ser de outra forma. em todo santo segundo percebo que algo não está como deveria: se não é da mente é do olhar do mundo inteiro pra dentro de mim. não esqueço, por um segundo sequer, do quanto gostaria de poder ser visto como homem, de ser colocado nas rodas como homem, de ser relacionado ao homem que sinto que sou. ninguém entende quem eu sou ou o que eu digo.

se eu fosse feio, então passaria desapercebido, mas sou feia, então reparam em mim a todo tempo. até o pouco feminino desperta o olhar. eu nunca vou conseguir perdoar deus. permitir que seus servos construam moral em cima de gênero é uma loucura sem tamanho. nem sentido faz. mas vai tentar dizer, você, visto como mulher feia, que mulheres e homens têm os mesmos direitos. a ignorância é percebida em todos os seus estados, da grosseria à mais pura burrice, como é o caso. 

mulher feia não tem direito aos seus direitos, mulher feia não trepa no copacabana palace, mulher feia não ganha desconto nem fura fila. mulher feia espera sua vez, pega o caminho mais longo, trepa em motel da rede bali. ninguém gosta dos motéis da rede bali, só levam lá aquelas pessoas com quem não se orgulham de trepar. a maioria fecha até o teto solar do carro, pra não correr o risco de ser visto por alguém. assim, se encontram conhecidos, sabem que estão igualmente humilhados acompanhados por mulheres feias. ninguém pode julgar.

eu, por mais que seja visto como mulher, sei que sou feio porque desejo as mulheres feias. talvez porque vivo no corpo da mulher feia que é rejeitada por ¾ da população mundial. talvez porque nós, vistos e vistas pela sociedade como mulheres feias, temos tempo para o processo de construção do que prevemos como nosso futuro melhor. o futuro melhor da pessoa que é vista como mulher feia é, quem sabe, encontrar outra mulher feia com quem se deitar. e, entre a permanente sensação de ausência do meu corpo e a inédita sensação de ser desejada do outro corpo ao lado do meu, fazemos o que ¾ do mundo nunca arriscaria fazer antes de engolir uma garrafa inteira de gim: reservar uma pernoite e chegar a pé num motel da maldita rede bali para que todos vejam o belíssimo casal de mulheres feias que seríamos se eu não fosse um homem feio.

não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas

não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas. hoje, por exemplo, esse dia frio, esse tempo esquisito, esse sol que não serve pra nada, esse café que gela tão rápido, esse pé que não esquenta nem com meia. qual a chance de aceitar uma panqueca de banana? nenhuma, cara, não combina, não tem nada a ver. banana tem hora. banana cai bem num dia ensolarado, numa ressaca filha da puta, num prato com mais sorvete que banana. aí sim. agora, panqueca? só porque a banana tá ficando preta por fora? sai pra lá. faz outra coisa. bota pra congelar, tem receita de sorvete feito só com banana. deixa no freezer até o verão voltar. agora não. agora a gente toma sopa no pão, se joga nos cobertores e se veste mal. banana não combina com frio. se combinasse, ia ter camisa de manga comprida com estampa de banana. não tem. tem shortinho, tem camisa da riachuelo que já vem com a manga dobrada da fábrica. mas blusa de frio não. porque não orna. banana não orna.

do lado de lá

a gente sempre quer uma vida extraordinária esperando pela gente logo ali na próxima porta a ser aberta. eu quero, pelo menos. mais que a sorte de um amor tranquilo. e até parece que, um dia, vai rolar. quando a maré está boa, a sensação que dá é que a gente tá indo muito bem e que as coisas vão se resolver. quando não tá, a gente sente que o mundo inteiro vai desabar na nossa cabeça e a gente não vai poder fazer nada pra mudar.

já passei pelas duas coisas muitas vezes. questionei minha sanidade, minha capacidade, minha competência, meu caráter e minhas decisões em inúmeras situações diferentes. geralmente, em decorrência do excesso de confiança aplicada em alguém que, a gente sempre acaba descobrindo, não merecia. por outro lado, me senti segura, confiante, forte, absurdamente capaz, lindíssima: boa companhia, boa de copo, boa de papo e boa de cama, como cantam bruna caram e roberta sá.

tem muita coisa que não dá pra ignorar. a vida, você sabe, dá umas rasteiras na gente meio fora de hora e a gente não tem tempo de raciocinar. age no impulso. fala o que não devia. deixa de falar um tanto. deixa falarem o que não poderia. ouve o que jamais deve ser dito por ninguém: acredita, absorve. acontece. gente sente tudo: gente não pensa muito. deveria. poderia. eu agradeceria.

a gente aprende a relevar. ignorar. deixar lá. um buraco no assoalho, um monte de poeira em cima de um tapete caro. e vai embora. porque o tempo passa e a gente aprende a ir. a gente sai da casa, a gente sai de quem a gente era e vai pra outro lugar com quem a gente descobre que é. com outras pessoas, com outras conversas, contextos, cenários. com outras histórias.

e torce pra que a vida se torne, um pouco de cada vez, extraordinária. torce pra que renda boas histórias. torce pra que sempre tenha alguém que mereça ouvir. e pra ter pique pra descobrir quem.

primeiro de maio

meu trabalho da vida é escrever. sempre foi. até quando eu não trabalhava, escrevia. dia desses, destralhando coisas da Gaveta De Bagunça, achei uma história de seis páginas que escrevi durante as aulas da sexta série. sei disso porque estava escrito: “Fim. (Escrito por Giovanna Marques – nº 14 – 6ªB)”. não era um trabalho pra escola, era uma história que eu queria contar. era de amor.

eu lembro de escrever nas últimas páginas dos cadernos e de acabar invadindo as matérias das aulas do ensino médio. lembro de carregar um caderno a mais na mochila pra escrever o meu livro. lembro de escrever cartas, contos, músicas, textos, histórias.

foi depois da escola que isso virou trabalho: entrei no universo da publicidade por meio do digital. trabalhei em agência, escrevendo todo tipo de conteúdo pra internet, pra todo tipo de marca. ao mesmo tempo, minha tia me mostrou um blog que buscava uma colunista fixa pra falar de cultura. por que não eu? tentei. consegui.

na agência, escrevia post de facebook, fazia ghost writing pra gente c-level que não tinha tempo de escrever, fazia estratégia, planejava campanha, atendia cliente, organizava equipe e bebia muito, muito, muito café e ainda mais cerveja. para o blog, escrevia um texto por semana. pra falar de literatura, de cinema, de peça de teatro, de lançamento musical. fui pra cabine de imprensa, pra lançamento, coletivas, consegui exclusivas, entrevistei nomes conhecidos e entrevistei pessoas cujos nomes deveriam ser conhecidos. conversei com a primeira mulher a dirigir um longa metragem no brasil. assisti, sentada na platéia, o lázaro ramos ensinar, com cautela e educação, uma jornalista branca a fazer questionamentos pertinentes sobre racismo.

alguns anos depois, descobri que a escrita podia me levar a trabalhar com pessoas e marcas muito legais e fui redescobrir minha literatura trabalhando com dois escritores fodas. na minha primeira entrevista, com um deles, saí escrevendo um texto sobre o aviso de proibido fumar no elevador do prédio. na segunda entrevista, com o outro, saí tão inspirada que escrevi dezenas (literalmente) de páginas do meu livro no caminho de volta pra casa.

sempre digo que entre escrever as marcas na minha biografia e deixar a minha escrita na biografia das marcas, escolho fazer os dois. trabalho formalmente criando para marcas porque acredito que, em um mundo capitalista como o nosso, empresas têm um poder de mudança gigantesco. se minhas palavras puderem direcionar o caminho para o bem, estou satisfeita. por hoje e todos os outros dias.

alma sebosa

mas, porra, é claro que tem uma razão pra eu não ter respondido suas mensagens, por ter silenciado suas postagens no facebook, por não ter dado like no seu parabéns na minha linha do tempo. aliás, eu nem entendo pra quê você ainda tenta falar comigo, sendo que na nossa última conversa eu deixei muito, muito, muito claro que eu não tava nem um pouco afim de manter relações com você. e já faz anos. eu deixei claro que diferença política não é igual time de futebol que a gente ignora e faz piada. e olha que eu já não gosto de me relacionar com gente que não reza pro cássio antes de dormir. a questão aqui, bem, é que diferença política mata gente, diferença política empobrece a alma. a sua é pobre e podre. e você ainda tem coragem de falar de deus. acontece que você me lembra um monte de coisa que eu não suporto. a ideia de você me dá nojo. você me lembra de tudo o que é pequeno, de tudo o que é arrogante, de tudo o que é feio, de tudo que não cresce, não muda e não evolui. você me lembra do que me angustia o peito e me lembra das pessoas que nunca lembram de ninguém porque estão preocupadas com coisas que não têm a menor importância. você é a soma de todas essas pequenezas e, nem assim, consegue crescer. continua sendo pequeno. minúsculo. pensa pequeno, vive pequeno, se limita no que escuta e não explora o que a vida pode ser. é disso que o johnny hooker fala quando canta alma sebosa. e tô pra te dizer que eu fiquei melhor sem você, não apenas sobrevivi. dá até dó. gente pequena não cabe no meu espaço. de você, e esse povo que vem no pacote com você, eu tô bem tranquila. nem passa amanhã.

o processo de todas as coisas

eu sou ruim com o processo de todas as coisas. meu maior pesadelo é a vida acontecer sem chegar a lugar algum.

isso me parece um jeito de explicar, por exemplo, minha fixação pela morte ou minha obsessão pela primeira frase de livros. elvira vigna, com muita sabedoria, começa seu “deixei ele lá e vim” com toda a força do mundo: “meire está ali, de pé na minha frente. sua cara é a única coisa que muda num mundo em que nada muda há muito tempo.”

Deixei ele lá e vim

esse trecho sempre fez todo o sentido do mundo pra mim. menos agora. agora, o mundo inteiro tá mudando o tempo todo. todo dia. de ontem pra hoje já mudou tanto que eu já nem sei mais se eu, se fosse elvira, reconheceria a mudança no rosto de meire.

as coisas estão mudando, a rotina está mudando, a casa já mudou. aqui, na nossa casa, a gente mudou a mesa de lugar. com isso, tudo tem outra cara. a tomada de sempre não tem utilidade. o lugar pra colocar as chaves não é mais o mesmo. e, no mais, o nosso corpo já é outro. a minha mente mudou. e, bom, vai continuar mudando. o tempo todo, todo dia.

e desse processo não dá pra fugir. dá pra tolerar. dá pra tentar levar de outro jeito. dá pra tentar levar com outra cara. dá pra tentar fazer as coisas serem mais leves. dá pra tentar fazer curso, aula online, especialização, yoga, jump, alongamento, ver live. dá pra tentar aflorar a espiritualidade, dá pra jogar tudo pro alto. dá pra fazer tudo, só não dá pra fugir.

e eu, logo eu, que sou ruim com o processo de todas as coisas, decidi nem tentar. decidi permitir esse processo acontecer. com os dias bons, quando eu acredito que vamos todos passar por isso da melhor forma possível, danço na sala de casa, dou um beijo bem gostoso na minha namorada antes de levantar e faço o café dançando. e, também, respeitando os dias ruins, quando não consigo fazer as letras da tela do computador terem sentido, o corpo não aguenta levantar da cama e o café fica fraco.

faz parte do processo. eu precisei aprender. e, se tiver sorte, quem sabe não aprendo a lidar com os outros tantos quando a gente conseguir descobrir onde tudo isso vai dar. porque, por mais irônico que seja, a gente não tem como sair imune dessa. ainda bem.