não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas

não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas. hoje, por exemplo, esse dia frio, esse tempo esquisito, esse sol que não serve pra nada, esse café que gela tão rápido, esse pé que não esquenta nem com meia. qual a chance de aceitar uma panqueca de banana? nenhuma, cara, não combina, não tem nada a ver. banana tem hora. banana cai bem num dia ensolarado, numa ressaca filha da puta, num prato com mais sorvete que banana. aí sim. agora, panqueca? só porque a banana tá ficando preta por fora? sai pra lá. faz outra coisa. bota pra congelar, tem receita de sorvete feito só com banana. deixa no freezer até o verão voltar. agora não. agora a gente toma sopa no pão, se joga nos cobertores e se veste mal. banana não combina com frio. se combinasse, ia ter camisa de manga comprida com estampa de banana. não tem. tem shortinho, tem camisa da riachuelo que já vem com a manga dobrada da fábrica. mas blusa de frio não. porque não orna. banana não orna.

do lado de lá

a gente sempre quer uma vida extraordinária esperando pela gente logo ali na próxima porta a ser aberta. eu quero, pelo menos. mais que a sorte de um amor tranquilo. e até parece que, um dia, vai rolar. quando a maré está boa, a sensação que dá é que a gente tá indo muito bem e que as coisas vão se resolver. quando não tá, a gente sente que o mundo inteiro vai desabar na nossa cabeça e a gente não vai poder fazer nada pra mudar.

já passei pelas duas coisas muitas vezes. questionei minha sanidade, minha capacidade, minha competência, meu caráter e minhas decisões em inúmeras situações diferentes. geralmente, em decorrência do excesso de confiança aplicada em alguém que, a gente sempre acaba descobrindo, não merecia. por outro lado, me senti segura, confiante, forte, absurdamente capaz, lindíssima: boa companhia, boa de copo, boa de papo e boa de cama, como cantam bruna caram e roberta sá.

tem muita coisa que não dá pra ignorar. a vida, você sabe, dá umas rasteiras na gente meio fora de hora e a gente não tem tempo de raciocinar. age no impulso. fala o que não devia. deixa de falar um tanto. deixa falarem o que não poderia. ouve o que jamais deve ser dito por ninguém: acredita, absorve. acontece. gente sente tudo: gente não pensa muito. deveria. poderia. eu agradeceria.

a gente aprende a relevar. ignorar. deixar lá. um buraco no assoalho, um monte de poeira em cima de um tapete caro. e vai embora. porque o tempo passa e a gente aprende a ir. a gente sai da casa, a gente sai de quem a gente era e vai pra outro lugar com quem a gente descobre que é. com outras pessoas, com outras conversas, contextos, cenários. com outras histórias.

e torce pra que a vida se torne, um pouco de cada vez, extraordinária. torce pra que renda boas histórias. torce pra que sempre tenha alguém que mereça ouvir. e pra ter pique pra descobrir quem.

primeiro de maio

meu trabalho da vida é escrever. sempre foi. até quando eu não trabalhava, escrevia. dia desses, destralhando coisas da Gaveta De Bagunça, achei uma história de seis páginas que escrevi durante as aulas da sexta série. sei disso porque estava escrito: “Fim. (Escrito por Giovanna Marques – nº 14 – 6ªB)”. não era um trabalho pra escola, era uma história que eu queria contar. era de amor.

eu lembro de escrever nas últimas páginas dos cadernos e de acabar invadindo as matérias das aulas do ensino médio. lembro de carregar um caderno a mais na mochila pra escrever o meu livro. lembro de escrever cartas, contos, músicas, textos, histórias.

foi depois da escola que isso virou trabalho: entrei no universo da publicidade por meio do digital. trabalhei em agência, escrevendo todo tipo de conteúdo pra internet, pra todo tipo de marca. ao mesmo tempo, minha tia me mostrou um blog que buscava uma colunista fixa pra falar de cultura. por que não eu? tentei. consegui.

na agência, escrevia post de facebook, fazia ghost writing pra gente c-level que não tinha tempo de escrever, fazia estratégia, planejava campanha, atendia cliente, organizava equipe e bebia muito, muito, muito café e ainda mais cerveja. para o blog, escrevia um texto por semana. pra falar de literatura, de cinema, de peça de teatro, de lançamento musical. fui pra cabine de imprensa, pra lançamento, coletivas, consegui exclusivas, entrevistei nomes conhecidos e entrevistei pessoas cujos nomes deveriam ser conhecidos. conversei com a primeira mulher a dirigir um longa metragem no brasil. assisti, sentada na platéia, o lázaro ramos ensinar, com cautela e educação, uma jornalista branca a fazer questionamentos pertinentes sobre racismo.

alguns anos depois, descobri que a escrita podia me levar a trabalhar com pessoas e marcas muito legais e fui redescobrir minha literatura trabalhando com dois escritores fodas. na minha primeira entrevista, com um deles, saí escrevendo um texto sobre o aviso de proibido fumar no elevador do prédio. na segunda entrevista, com o outro, saí tão inspirada que escrevi dezenas (literalmente) de páginas do meu livro no caminho de volta pra casa.

sempre digo que entre escrever as marcas na minha biografia e deixar a minha escrita na biografia das marcas, escolho fazer os dois. trabalho formalmente criando para marcas porque acredito que, em um mundo capitalista como o nosso, empresas têm um poder de mudança gigantesco. se minhas palavras puderem direcionar o caminho para o bem, estou satisfeita. por hoje e todos os outros dias.

alma sebosa

mas, porra, é claro que tem uma razão pra eu não ter respondido suas mensagens, por ter silenciado suas postagens no facebook, por não ter dado like no seu parabéns na minha linha do tempo. aliás, eu nem entendo pra quê você ainda tenta falar comigo, sendo que na nossa última conversa eu deixei muito, muito, muito claro que eu não tava nem um pouco afim de manter relações com você. e já faz anos. eu deixei claro que diferença política não é igual time de futebol que a gente ignora e faz piada. e olha que eu já não gosto de me relacionar com gente que não reza pro cássio antes de dormir. a questão aqui, bem, é que diferença política mata gente, diferença política empobrece a alma. a sua é pobre e podre. e você ainda tem coragem de falar de deus. acontece que você me lembra um monte de coisa que eu não suporto. a ideia de você me dá nojo. você me lembra de tudo o que é pequeno, de tudo o que é arrogante, de tudo o que é feio, de tudo que não cresce, não muda e não evolui. você me lembra do que me angustia o peito e me lembra das pessoas que nunca lembram de ninguém porque estão preocupadas com coisas que não têm a menor importância. você é a soma de todas essas pequenezas e, nem assim, consegue crescer. continua sendo pequeno. minúsculo. pensa pequeno, vive pequeno, se limita no que escuta e não explora o que a vida pode ser. é disso que o johnny hooker fala quando canta alma sebosa. e tô pra te dizer que eu fiquei melhor sem você, não apenas sobrevivi. dá até dó. gente pequena não cabe no meu espaço. de você, e esse povo que vem no pacote com você, eu tô bem tranquila. nem passa amanhã.

o processo de todas as coisas

eu sou ruim com o processo de todas as coisas. meu maior pesadelo é a vida acontecer sem chegar a lugar algum.

isso me parece um jeito de explicar, por exemplo, minha fixação pela morte ou minha obsessão pela primeira frase de livros. elvira vigna, com muita sabedoria, começa seu “deixei ele lá e vim” com toda a força do mundo: “meire está ali, de pé na minha frente. sua cara é a única coisa que muda num mundo em que nada muda há muito tempo.”

Deixei ele lá e vim

esse trecho sempre fez todo o sentido do mundo pra mim. menos agora. agora, o mundo inteiro tá mudando o tempo todo. todo dia. de ontem pra hoje já mudou tanto que eu já nem sei mais se eu, se fosse elvira, reconheceria a mudança no rosto de meire.

as coisas estão mudando, a rotina está mudando, a casa já mudou. aqui, na nossa casa, a gente mudou a mesa de lugar. com isso, tudo tem outra cara. a tomada de sempre não tem utilidade. o lugar pra colocar as chaves não é mais o mesmo. e, no mais, o nosso corpo já é outro. a minha mente mudou. e, bom, vai continuar mudando. o tempo todo, todo dia.

e desse processo não dá pra fugir. dá pra tolerar. dá pra tentar levar de outro jeito. dá pra tentar levar com outra cara. dá pra tentar fazer as coisas serem mais leves. dá pra tentar fazer curso, aula online, especialização, yoga, jump, alongamento, ver live. dá pra tentar aflorar a espiritualidade, dá pra jogar tudo pro alto. dá pra fazer tudo, só não dá pra fugir.

e eu, logo eu, que sou ruim com o processo de todas as coisas, decidi nem tentar. decidi permitir esse processo acontecer. com os dias bons, quando eu acredito que vamos todos passar por isso da melhor forma possível, danço na sala de casa, dou um beijo bem gostoso na minha namorada antes de levantar e faço o café dançando. e, também, respeitando os dias ruins, quando não consigo fazer as letras da tela do computador terem sentido, o corpo não aguenta levantar da cama e o café fica fraco.

faz parte do processo. eu precisei aprender. e, se tiver sorte, quem sabe não aprendo a lidar com os outros tantos quando a gente conseguir descobrir onde tudo isso vai dar. porque, por mais irônico que seja, a gente não tem como sair imune dessa. ainda bem.

o ar condicionado e o meu perfil do twitter

estranhamente, acho que esse texto precisa de uma introdução. eu trabalhava em uma empresa onde, vira e mexe, o ar condicionado quebrava. o ar condicionado também não tinha um controle central e, por isso, era mexido todo dia pelas pessoas que, como em todo lugar, brigavam entre si pela temperatura ideal. isso é comum. a questão é que, nesse dia em que esse texto foi escrito, eu perdi o acesso à minha conta do twitter. fiquei inativa por pelo menos catorze meses. a conta já tinha muitos anos de vida, foi criada antes dos meus 13 anos (a razão pela qual eu fui banida durante uma varredura e pente fino do twitter para confirmar a idade dos usuários) e eu tinha muita coisa guardada lá. na época, eu usava a rede social do jeito certo e vivia twittando sobre toda e qualquer coisa. no primeiro dia, tive a ideia de escrever tudo no mesmo texto, como num fluxo de consciência, o que eu postaria no twitter em situações normais. nunca tinha lido, desde que escrevi. gosto do resultado e resolvi dividir. pronto. agora vai.

“o ar condicionado da sala de reunião quebrou e tá muito quente aqui. eu comi muito, muito mais do que deveria. sabe o executivo do boteco da esquina? comi inteiro com duas porções de feijão, uma eu roubei do meu amigo que pediu uma carne de panela e achou que não combinava – eu acho que combina. feijão sempre combina com arroz e outros molhos. até com estrogonofe. desculpa, sociedade. voltei do almoço com tanta comida no estômago que não consegui acender um cigarro na volta pro escritório. cheguei querendo fumar um cigarro. tá muito quente aqui. será que, se eu acender um cigarro aqui, vai pegar fogo em tudo? espero que não. afudê é do caralho. ficou tudo do caralho. depois de tanto tempo de trabalho, muito, muito trabalho, deu tudo certo. afudê. quando respondem kkk pra não bater em você: acho engraçado. kkk. o bruno bandido escreve risadas do mesmo jeito desde 2009. sei disso porque tava lendo os textos dele de 2009. hah. ele ri assim. três letrinhas. acho quase escroto. kkk. alguém conserta o ar condicionado, pelo amor de deus? a vida é uma merda e de vez em quando, quando você vai atravessar a rua, o sinal abre. hoje é dia do escritor e eu terminei de ler o livro do vitor. o martins. tá calor. queria fumar um cigarro. eu gosto do meu isqueiro novo. meu nariz tá muito entupido. esse tempo tá uma merda, tô doente de novo. consertaram o ar condicionado. tô apaixonada de novo pela jade baraldo. queria estar assim com a menina que eu gosto. não apaixonada. apaixonada eu tô.”

um trabalho que não gosto

não gostar do próprio trabalho é um privilégio de muitos. amar o que você faz não é sinônimo de não trabalhar um dia sequer, como dizem por aí. a frase correta deveria ser: “encontre um trabalho que você ama e não fique sem trabalhar um dia sequer”. um burnout aos 22 e três pedidos de demissões depois, preciso dizer que, hoje, sou privilegiada: eu tenho um trabalho que não gosto.

apesar de já ter amado meus colegas de trabalho, de já ter dividido a conta da cerveja com quem me pagava o salário, de já ter chorado bêbada no colo de quem podia me demitir, de já ter ganhado prêmios renomados, de já ter vivido muitos sorrisos em um escritório que eu amava, nada se compara ao prazer de não gostar do próprio trabalho.

o prazer inenarrável de não precisar se apegar aos detalhes, porque aquilo simplesmente não importa. a deliciosa sensação de poder sair no horário sem culpa, porque tudo aquilo o que se refere ao trabalho que você não gosta se torna desnecessário. a maravilha, o prazer, o deleite de se entregar às garras de uma última cerveja tarde demais em dia útil, porque o dia seguinte pela manhã, no trabalho que você não gosta, não importa tanto assim.

existem coisas para as quais ninguém te prepara e, vou dizer, essa é uma delas: ter o trabalho que você não gosta é uma oportunidade de construir pontes sem um cnpj envolvido. poder descobrir o lado bom das pessoas sem se preocupar com o que elas trabalham – afinal, quem tem um trabalho que não gosta, não quer falar dele pra ninguém.

eu, pelo menos, sei que não quero.

quando me perguntam como vai o trabalho, sempre digo: “ah, você sabe como é, né?” e deixo a vida ir acontecendo nas perguntas que se sucedem. quase sempre o assunto é cortado, quase sempre alguém pede pra passar o açúcar, quase sempre a conversa morre.

ninguém quer saber de você que tem um trabalho que você não gosta, todo mundo quer saber daquele cara que enche o peito pra dizer que às 05 da manhã já está lendo e respondendo e-mails. da mulher em uma saia lápis se orgulha das 14h consecutivas que trabalhou ontem. porque estar de corpo, alma e coração é definitivo para o futuro da empresa e que, ah!, ela se orgulha de precisar ir embora do happy hour pra trabalhar porque é assim: quando a gente ama o que faz, não se importa de fazer sacrifícios.

deus me livre.

vou até tomar mais uma cerveja pra garantir que amanhã eu chego atrasada.

 

a fantasia acabou

um dia você vai se dar conta de que a fantasia acabou. um dia você vai acordar e vai perceber que a realidade é dura e cruel e vai precisar fazer coisas que você não gostaria de fazer, você vai precisar sorrir pra pessoas pra quem você não gostaria de sorrir, você vai precisar ir pra lugares pra onde você não quer ir, você vai precisar engolir sapos e vários outros bichos ainda maiores, você vai precisar respirar fundo e a vida real é uma merda porque você vai ter rinite nesse dia e você não vai conseguir nem respirar direito. e a vida real é uma merda porque depois de tudo isso, depois desse monte de coisa que você preferiria morrer a ter que fazer você vai precisar fazer coisas que não são legais, mas não são imorais e muito menos poéticas; depois de tanto tempo gasto durante o dia pra fazer coisas que você não quer fazer, você vai precisar chegar em casa e fazer a janta, você vai precisar descascar alho e vai precisar lidar com o cheiro de alho na mão enquanto você pega as roupas sujas do cesto e coloca pra lavar aquele monte de roupa já meio gasta meio velha que você ainda usa porque não tem dinheiro ou vontade pra comprar novas, porque não faz sentido gastar dinheiro com isso, porque não faz sentido parecer mais bonito porque nesse dia, no dia que a fantasia tiver acabado, nesse dia você vai saber que é feio também e vai saber que não adianta você ter uma posição concorrida ou ser ouvido, não adianta nada disso porque você é irrelevante e você vai adoecer no dia que a fantasia acabar e você vai ser substituído naquele lugar onde apenas você poderia ir, outra pessoa irá e tudo ficará bem porque na vida real tudo fica bem no fim e isso não depende de você e nunca dependerá, porque no fim do dia, na vida real, o cheiro de alho não sai e os banheiros são sujos e você não é relevante e a vida é difícil e, sim, você vai precisar sorrir de novo de manhã e não, ninguém te ajuda. mas existem abraços apertados, cervejas geladas, mesas vazias esperando você sentar e contar uma história sobre um dia que você foi naquele show que você disse que iria e como foi incrível e como naquele dia o banheiro estava limpo e as cadeiras eram confortáveis e as calças jeans eram ideais e não apertavam a sua barriga inchada de tanto tomar cerveja e comer tranqueiras, você vai dar risada alto e um gole grande no copo de cerveja e pedir mais uma sorrindo porque hoje, nesse dia, hoje isso não é um sacrifício e aí você vai chegar em casa. e quando você chegar em casa você vai tirar os sapatos e tomar um banho e agradecer porque a fantasia voltou pra te lembrar que dá pra criá-la quando quiser você só precisa fechar os olhos e rir pra outras coisas, pras coisas certas, dar risada pras coisas boas e quem sabe quando a fantasia acabar de novo você vai poder ter alguém que te convença de que você é relevante e importante e que a sua vida importa pra alguém ou pra alguma coisa. é uma esperança. por via das dúvidas, sorria amanhã e não conte com ajuda. mas conte por aí que a fantasia pode ser inventada. quem sabe o que pode aparecer.

fora de casa

eu fiquei pensando que durante muito tempo minha única alegria era aquele matinho que tinha do lado de fora da casa da minha mãe. eu lembro de ficar olhando muito pra baixo e depois cada vez menos pra baixo, mas sempre olhando, percebendo ele crescer e notando como as coisas crescem e lembro de pensar que as coisas mudam mesmo quando a gente não fica olhando sempre, mas eu olhava. eu lembro que olhava de manhã e a noite já tava escuro demais pra olhar e tava sempre, sempre um pouquinho diferente. eu lembro de pensar que as coisas mudam mesmo quando a gente não olha e lembro que eu ficava torcendo sempre em silêncio meio assim escondido meio assim com vergonha mas sempre torcia pra que um dia quando eu chegasse em casa já de noite eu encontrasse minha mãe completamente mudada e diferente e eu pudesse olhar pra cima, pra eu poder ter uma alegria, pra eu poder olhar pra alguma coisa que crescesse e ficasse melhor e não ficasse do lado de fora da casa.