calma

perto de onde eu moro tem um parque e, sempre que to voltando pra casa do trabalho, vejo uma galera com muita cara & coragem & emoção em seus lindos trajes fitness correndo na avenida bem depois do sol de pôr. hoje, quando eu tava voltando, tinha duas pessoas (que podiam ser um casal ou dois amigos ou dois peguetes ficantes não-sérios daquele esquema de nãomoro relacionamento semi-aberto ou, quem sabe, duas pessoas que se conheceram correndo por aí), e essas duas pessoas tavam rindo muito. elas corriam, mesmo com o vento meio frio que devia tá batendo na cara delas, rindo muito. tinha alguma coisa acontecendo ali que deixava tudo muito bem pra dar pra rir numa quarta a noite que nem mercúrio retrógrado conseguiu atrapalhar. eu fiquei me perguntando o que será que era, se eles tavam realmente muito apaixonados por alguém a ponto de conseguirem ignorar toda a vida, ou se eles tinham recebido um aumento no trabalho, ou se eles tinham tido um bom dia apesar de, ou se eles já estavam tão no fundo do poço que sair pra correr já contava como subir uns cinco andares ou se sei lá. eu fiquei me perguntando o que será que tava acontecendo e depois me perguntei se eles ligam pra vida que acontece ou se é só essa galera que se mete a tentar entender coisas que se fode no entendimento do todo. será que o pessoal que sai pra correr por aí também para pra pensar que a gente é o que é e não tem desculpa, nem regência astrológica e nem teoria psicológica que o justifique? será que esse pessoal que consegue sorrir depois de um dia como hoje, porque hoje foi um dia como hoje, será que esse pessoal que consegue sorrir também pensa nessas coisas aleatórias que deixam a gente sem dormir? será que esse pessoal também quer abraçar o mundo e deixa cair e quebrar porque o mundo é frágil e de vidro e fica tentando remendar os cacos sem sucesso e só caga tudo mais uma vez porque escapa pelo vão dos dedos, agora que são cacos e não mais uma gigantesca bola de vidro? será que eles pensam? acho que se pensassem estariam em casa escrevendo, não na rua correndo.

que sorte a deles.

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fluxo de consciência III

as últimas pessoas que me inspiraram a escrever algo foram o bruno bandido e o val. eu acho que já li todos os livros do val. acho. eu com certeza li todos os posts do bruno bandido, o que é estranho porque ele escreve no mesmo blog faz quase dez anos e eu o conheço há menos de um. mas li. eu também li quase tudo do mario bortolotto, que também é bem bom, mas não li tudo porque ele vive no parlapatões, que é um bar sujo na roosevelt, e gosto de fingir que em algum momento vou encontrá-lo por lá e pedir pra ele me contar as histórias que não quis ler. e como mesmo assim quero escrever, qualquer coisa que seja, meio suja e meio mal-feita, talvez, se é que existe um crivo de qualidade parado em algum lugar aqui perto, fico rodando atrás do meu próprio rabo falando um monte de merda. começo a falar umas asneiras sem muito nexo de outras histórias que eu não tive nem onde ler e acabei ouvindo quando sentei num bar. nunca o parlapatões, porque nunca vou lá pra beber só pra mijar e claramente nunca vou conhecer o mario bortolotto, mas, nesse bar que eu sentei, eu conheci alguém e aí quis escrever. alguém que tá sempre contando uma história nada a ver sobre algo que eu não me importo. ou usando “pitch” no meio do papo e deixando escancarado que trabalha numa agência. as pessoas que trabalham em agências são o alívio cômico nos textos de escritores fodidos desde os anos 80 porque ninguém gosta de pessoas que trabalham em agências. cheira a café velho e cigarro ruim. nesse momento que o fator Funcionário de Agência aparece & dependendo da quantidade de cerveja que eu já tomei, nesse momento muito específico, eu levanto os braços e grito AH NÃO MAS EU NÃO SAÍ DE AGÊNCIA PRA ACHAR PUBLICITÁRIO NO BAR NÃO EIN CÊ NÃO ME COMEÇA QUE O PRIMEIRO QUE FALAR JOB EU VOU SOCAR, ou então eu interrompo porque não quero saber de pitch nenhum, mas quero falar um monte de coisa que também não tem nexo, e começo a contar histórias aleatórias sobre como a paixão me pegou tentei escapar e não consegui ou, as que são minhas preferidas, histórias meio mórbidas e meio engraçadas com personagens que ninguém nunca vai conseguir humanizar de forma homogênea já que meus personagens não têm o menor nexo também. uma vez escrevi sobre um cara que pegava fogo no próprio sofá porque deixou um bolo no forno. ele morria, mas isso todo mundo já sabia porque o nome do texto é no final dessa história alguém vai morrer. nem sempre eu conto que as histórias são histórias e é sempre bom observar a feição dos presentes para o choque doido de imaginar alguém pegando fogo num sofá por causa de um bolo. ou quando eu começo a testar a veracidade das histórias dos meus personagens e falo que tenho um amigo jogador de vôlei que fuma e ninguém fica tão chocado assim porque, olha, um monte de atleta fuma e isso explica porque tá todo mundo sempre em dia com o peso ideal, né?, é, eu acho que sim. as pessoas acreditam no que elas querem, você pode testar com o que quiser. um amigo meu da faculdade convenceu minha mãe de que era astrólogo e ela nem tinha terminado a primeira taça de vinho. escorregou quando colocou a lua em marte, mas ela é crente demais pra perceber qualquer coisa que tenha a ver com estrelas. ele é, até hoje, pra ela, meu amigo astrólogo. deve ser assim que ela tá se convencendo até agora de que eu sou tudo o que ela sempre quis que eu fosse – e eu acho bom que ela continue assim. imagina só que bosta se ela aceitasse que eu, na verdade, quando ela acha que eu deveria estar na igreja, tô plantada na porta do boteco fumando um cigarro e tomando cerveja pra ter coragem de começar mais uma semana sem saber direito o que vai acontecer. imagina se ela soubesse que eu gasto tempo de vida tentando contar um monte de história que pipoca na minha cabeça sem muito final. imagina a tristeza se ela parasse de mentir pra si mesma e aceitasse que eu sou esse acumulado de bosta que vomita bosta e fala bosta e continua fazendo bosta mesmo sabendo que bosta gera bosta e que não tem como isso cheirar bem. fede mais que funcionário de agência. imagina só. depois me conta. se for legal, vou escrever. se não for, vou fazer ficar. se não der, paciência. nem tudo dá. tem gente que dá. tem gente que não dá. eu só descubro. ou invento.

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a arte imita a vida.

milly lacombe e quem morreu hoje

terminei de ler “o ano que morri em nova york” essa semana. uma avalanche de informações e sentimentos tomaram conta de mim desde o início dessa história: eu sou sempre a cafona que insiste em falar de amor. milly, então, por deus. o marcinho perde de lavada. o amor é tão bonito, quando bem vivido. e tão sofrido em todo o resto do tempo. os dois extremos convivem muito bem nessa história. história da milly, aliás. que escancarou as portas da frente da própria casa e revirou as gavetas pra falar sobre o que (quase) ninguém sabe e/ou quer falar. falar de amor. de traição. traição da cabeça pra dentro e pra onde isso vai levando a gente. traição dos próprios instintos. do que se sente. do que se é. falou de quando a gente só vai. de quando ir faz a gente descobrir um mundo. doido. novo. terminei de ler “o ano que morri em nova york” e esse foi um daqueles livros que me fizeram rir & chorar & perder: o ponto pra descer, a hora de dormir e a certeza do quê fazer. quem tem certeza? eu não tenho. de quase nada. tinha de mais coisas. mas aí eu li milly. li um monte de milly. e quando eu fechei o livro, descobri que milly tá vivíssima. nessa história, com esse tanto de vida, e risco, e dor, e amor, e perda, e ganho, e mais um pouco de risco, e suor, e muito muito mato, e verdades absolutas ditas por ninguém; quando eu li essa história, quando eu li tudo isso e acordei às quatro e meia pra escrever no dia seguinte, eu quase morri de novo quando descobri que quem tinha morrido tinha sido eu. que doido. já dizia vinicius. morrer e continuar vivendo. delícia. ele disse. eu morri. e tô viva.

fluxo de consciência II

eu tava aqui pensando que tem uma parada bem bizarra acontecendo por aí. é mais ou menos assim: você não vai mais ter direito de ser você. mais ou menos isso. agora você precisa ouvir um babaca te falando que você não pode beijar sua mina, não. que vai ter que passar pó de arroz porque sua cara tá da cor tá errada. que vai ter que se readequar, oras. oras é o cacete. readequar minhas bolas. e olha que nem bola eu tenho. eu não cheguei nem a me adequar. isso aqui já tá errado há tempo o bastante pra todo mundo concordar que precisava fazer alguma coisa. mas a ideia era melhorar. m e l h o r a r. enfiar no meu cu um cano de pvc de 30cm de diâmetro não era uma opção plausível. nem sei qual seria. essa, com certeza, não. aí, depois desse papelão de readequação, vêm falar de esforço. quer mais esforço? duazora pra chegar no trabalho, duazora pra chegar em casa, um vale refeição abaixo do esperado e uma carga trabalhista compatível com o mercado (o que não quer dizer que é pouco). um monte de conta pra pagar. sexo só quando dá. a única coisa que eu tenho que faz bem é um amor pra chamar de meu. e olha que eu achei que não ia ter, ein. que ia continuar empilhando corpos nus na sombra do meu colchão. mas, olha só, aparentemente eu queria um só. o corpo inteirinho dela, todo pra mim, com aqueles olhos lindos que, hoje, sempre me dizem alguma coisa. antes não diziam, não. antes os olhos dela só me assustavam. morria de medo de apanhar daquela mina, irmão. hoje eu só torço pra ela não ir embora. pra ela continuar me olhando. isso é o que eu tenho. o jeito que ela me olha. o beijo que ela me dá. ninguém deve ter recebido aquele beijo. eu jamais deixaria ir embora alguém que me beija do jeito que ela me beija. eu jamais vou deixá-la ir embora. ela é o que eu tenho. ela é minha sorte. todo resto me tira o prumo. eu perco a classe. e tem tanta babaquice espalhada. é a própria pauliceia desvairada. bem como autodeclarada, inutilíssima. a diferença é que a pauliceia de mario de 1922 servia como poesia que só tem a si mesma como a razão de ser. esses mandamentos excludentes não têm razão alguma de ser ou existir. a não ser o fomento da ignorância. da grosseria. da falta de educação. da proteção dos que nem fracos, nem oprimidos são. dos que só merecem da vida o foda-se e um copo d’água. só faltou falar que cazuza tava errado e que o banheiro não é a igreja de todos os bêbados. daí não ia dar. eu ia ser obrigada a tomar um porre. e dar na cara dele. e lembrar, sorrindo, que o banheiro é a igreja de todos os bêbados. incontestável. negar seria reprodução falaciosa. deve ser crime. é? alguém sabe?

uns bons quase dez anos

uns bons quase dez anos atrás você me disse reza pra esse ano eu cumprir todas as minhas promessas. devia ser dezembro, a gente sempre conversou mais perto do final do ano porque rola toda aquela nostalgia de quem deveria estar mais na nossa vida e nunca está porque a gente tá ocupado demais descumprindo promessas e vivendo no piloto automático dos dias que nunca mudam – aqueles dos quais a gente insiste em reclamar. uns bons quase dez anos atrás você me disse que queria cumprir mais suas promessas, mas eu nunca acreditei que você cumpriria e foi exatamente por isso que, naquele dia, enquanto respondia sua mensagem, eu pedi um café com pão de queijo. uns bons quase dez anos atrás eu não era intolerante à lactose e podia comer vários pães de queijo com café, e sempre pedia mesma coisa, você lembra?, faz uns bons quase dez anos, mas agora eu só troquei o pão de queijo por uma esfiha qualquer que não tenha leite pra eu não cair numa dor de barriga nos botecos que eu vou. muita coisa mudou nesse tempo todo e, uns bons dez anos atrás, a gente vivia numa realidade paralela com muitas bandas ruins e momentos esquisitos e dores de cabeça que vinham de situações que a gente se esforçava muito pra criar só pra ter problema pra reclamar, porque era bonito, porque parecia maduro, porque era melhor se tivesse do que reclamar. uns bons dez anos atrás a gente pedia café com pão de queijo e escondia um do outro os erros que cometia como se o outro não estivesse cometendo exatamente o mesmo erro. aliás, uns bons quase dez anos atrás eu cometia muitos erros imbecis e só ia pra boteco pra comer pão de queijo e tomar café, o que era um dos maiores erros porque botecos têm cervejas e cachaças e pingas e coisas muito mais legais para oferecer do que café melado e pão de queijo dormido, e pra responder suas mensagens. uns bons quase dez anos atrás você me disse reza pra esse ano eu cumprir todas as minhas promessas e faz mais ou menos uns bons dez anos que eu te respondi o que era esperado de ser respondido pra alguém que nunca cumpre promessas, e eu lembro claramente de abaixar a cabeça pra rir na hora de responder dizendo, adivinha só o que eu acabei de pedir.

viva uma vida da qual você se orgulhe

viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém pra mim em algum momento não lembro muito bem qual. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém pra mim quando eu entrava às oito da manhã num emprego merda num lugar que eu odiava pra obedecer ordens de uma pessoa que me odiava mais do que eu odiava trabalhar naquele lugar onde eu entrava às oito. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém pra mim ao mencionar que deus tinha planos melhores e que tudo isso, essas coisas e pessoas e horários e lugares, faziam parte de uma coisa bem maior que um dia eu ia ver só. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém no momento em que eu pisei no lugar mais legal do mundo pra ouvir o som mais legal do mundo dos cantores e musicistas mais legais do mundo e tudo o que há de mais legal no mundo — e ali eu me orgulhei. viva uma vida da qual você se orgulhe, disse alguém com as mãos segurando as minhas assim como conchas como seguramos as mãos de quem queremos que entenda nosso ponto olhando nos nos nossos olhos. viva uma vida da qual você se orgulhe. um dia me disseram.

um dia vou viver. rir muito alto na sala de alguma amiga que terá sempre um vinho guardado pra um dia como esse. dançar depois do expediente. maratonar uma série abraçada no pescoço mais cheiroso desse mundo. morrer de suar numa terça-feira fria. cantar num karaokê. acender um cigarro no fim do dia e apoiar os antebraços nos joelhos pra lembrar que a vida pode ser boa, sim. dar um gole numa cerveja bem geladinha depois de terminar de escrever alguma coisa realmente muito boa. pintar as unhas e acertar o lugar certo que o palito precisa entrar pra não se perder pela unha e acabar fazendo um risco sem esmalte bem no cantinho. fechar a torneira sempre completamente pra não precisar levantar pra fechar de novo depois. ir no dentista ver essa obturação. voltar a correr. fazer aula de dança. aprender a dirigir. terminar de escrever um livro. gravar uma música. mudar a armação do óculos que já tá fazendo hora extra. aprender a tocar bossa nova no violão, só pra mim. cantar que eu preciso dizer que te amo pra mulher que eu amo no fim de um dia difícil. descobrir um jeito fácil de ajudá-la no fim de um dia difícil. bordar. arrumar a cama todos os dias de manhã. acertar o ponto do café. e dar risada das pedras do caminho que, numa vida que eu me orgulho, claramente formarão um sorrisinho simpático quando vistas de cima.

viva uma vida da qual você se orgulhe. um dia. não hoje. hoje eu só quero dormir.

como diria Sérgio Vaz

a gente sabe muito bem como funciona. escolhe fingir que não, mas não dá pra fugir: a vida só é o que é. não tem grandes emoções, nem um grande apelo no final: é 1 mais 1 que soma 2 e nenhuma boa fé vai fazer dar 11. aliás, Sérgio Vaz diria: viver é foda. o resto é poesia.

até essa frase que, sem querer, rimou. é só coincidência. não existe uma motivação externa ou qualquer intenção da escritora, que bate nas teclas com um pouco mais de força que o necessário, de fazer soar melhor. a vida não é feita pra soar bem, a vida não é feita pra ter flores nas pedras. adélia odeia olhar pra pedra e ver pedra. adélia, minha querida: é uma pedra. qualquer outra coisa é sorte. coincidência positiva. às vezes, aparece uma flor. às vezes, elas nascem. é a natureza. há quem admire, há quem ignore, há quem escolha poetizar. verbalizo, sempre.

a vida como verbo de ação é o meu ponto de partida. o problema, veja só, é que a gente raramente chega em algum lugar. qualquer que seja. em geral, a gente não sai de onde tá. sobe de cargo, muda de emprego, vai pra mais longe, assiste um show, ouve um som, pinta, escreve, transa, canta, bebe mais que deveria, fuma mais do que deveria, se enfia em buracos que não deveria. e a vida te mantém sempre lá: aqui, a priori. intacta. estática. empática, por escolha, quem quiser. escolhas, coincidências, reticências. a vivência é só o impacto do tanto faz nas ações de quem sempre faz. o resto é poesia. tem que fazer. alguma coisa. qualquer coisa. ou não fazer. mas lidar, sempre lidar. com a vida sendo o que é – e só o que é. o que você está fazendo?

doze de junho

doze de junho é dia dos namorados e eu queria te desejar uma vida feliz. queria te dizer que faz algum tempo que a gente escolheu estar junto e que, mesmo que a gente não tenha dado nome, sonho com seu sorriso quando consigo dormir em paz. e, nos meus sonhos mais assustadores, quando alguém vem me salvar é sempre você. quando ninguém me salva, é em você que eu penso pra me acalmar quando acordo. e aí eu tô salva.

queria te dizer que desde que te conheci a vida tem sido mais fácil. nem um pouco por causa da vida. totalmente por causa do jeito que você sorri pra mim de manhã. do tamanho do seu cabelo. do formato da sua boca. do gosto do seu beijo. do cheiro do seu pescoço. do beijo que você me dá na nuca. do abraço que é só seu. do que transborda do meu peito quando você chega. e do tanto que eu gosto de te ver chegar.

doze de junho é dia dos namorados e eu queria que você soubesse que a sociedade só criou essa data pra vender mais coisas, mas tem tantos corações espalhados pela cidade que me parece um bom momento pra te dizer que cada um deles me lembra de você. que você criou, ou melhor, nutriu dentro de mim uma coisa tão linda que me dá vontade de cantar. estar com você me faz querer olhar de novo pra vida com um pouco mais de gosto. me dá sempre a sensação de que dá pra ser melhor: eu, as coisas, o mundo. dá mais cor pro cinza que eu vejo todo dia, mais motivação pras noites que eu preciso enfrentar madrugada adentro pra dar conta da vida que, bem, como eu já disse, nunca foi fácil por si só.

é doze de junho e, eu sei, tem muita coisa envolvida, vai além de só você e eu – mas, às vezes, eu acho que nem precisava ir, não. podia ser dez de junho e doze de junho pra gente, sabe? a gente se virou até aqui. e eu queria continuar me virando com você daqui pra frente. e mais e mais pra frente. e se você deixar, eu vou continuar aqui. tentando pisar menos na bola. tentando endireitar meu jeito torto. tentando te fazer dar uma risadinha, pelo menos. te escrevendo poemas. falando de você. decorando o  caminho que suas pintas fazem pelo corpo.

é doze de junho e, eu sei, eu sou cafona. tô aqui inventando mais uma desculpa pra falar de amor.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje. não é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. é uma parada: é mais ou menos como se a cidade inteira – ou a avenida paulista – parassem pra celebrar o orgulho lgbt no mesmo canto durante algumas horas. é a única data do ano que as pessoas não tacam coisas em pessoas no metrô por causa de arco-íris ou do seu tipo de amor. é basicamente o livre direito de circulação de pessoas lgbtq pra cidade. é mais ou menos assim: para aí, a parada é nossa. a cidade inteira, hoje, é nossa.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia. e é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. essa parada é ótima: a gente tá aparecendo. saindo do armário, sabe? pouco a pouco, porque ainda dá medo. é osso de aguentar gente falando na sua orelha, eu admito. é osso de aguentar parente falando que você nunca foi assim, por que agora é?!, como se fosse uma escolha de roupa nova do dia. é osso de aguentar ouvir que é amigo de quem a gente ama do fundo do peito. é osso de aguentar ouvir que a gente é bicho, é verme, é sujeira, é promíscuo. a gente não é nada disso, não, cara. a gente é gente boa demais.
a gente quer dar risada da vida e faz isso todo dia, quando dá. quando não tem um da gente morrendo, tomando lampadada, sendo sequestrado, sendo injustiçado no trabalho, sendo nivelado por baixo porque não deixa seu amor pra lá. a gente dá risada da vida quando consegue andar de mão dada sem ter que ouvir que é bonito demais para. a homofobia é uma merda, puta que pariu, que grandessíssima merda. mas tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje, tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia e, com sorte, vai ter uma parada gay acontecendo dentro de todo mundo um dia pra todo mundo entender que essa parada de ser gay não tem que fazer ninguém parar, não.
aliás, a parada é movimento, dança, é gente que se mexe, gente que quer fazer a roda girar, fazer a vida acontecer sem tanto drama, sem tanta trama, sem precisar criar esquema pra gente poder ser. a gente não quer ser gay – a gente nasceu gostando de gente e tá vivendo aí fazendo o que o peito diz que faz bem. tá bom ou quer mais? vou te contar: vai acontecer uma parada muito gay nos próximos dias quando eu encontrar a mulher que eu descobri que eu amo. e ela é linda, viu? muito, muito, muito linda. e a parada gay que acontece entre a gente tem tanto movimento que me leva mais pra frente do que eu jamais acreditei que pudesse ir. e acontece todo dia.
é uma coisa louca. dá até vontade de cantar daniela: a cor dessa cidade sou eu. quando eu tô com ela, o canto dessa cidade é todo nosso. eu quero movimentar essa parada pra gente poder ser movimento pra todo canto. essa parada que é um negócio tipo treco tipo bagulho tipo trem. tipo tudo isso. juntinho. igual a gente. que gosta de ser junto. juntinho.