estragar as próprias relações é um direito inalienável

andar por aí, pela vida, sozinha, é uma das coisas que mais gosto de fazer desde que me conheço por gente. amo a companhia dos meus amigos, incríveis, com ótimas piadas e boa voz, mas amo a minha, do meu caderno de anotações e meus fones de ouvido. andar por aí só comigo é uma delícia.

independente disso, existem dias em que a última pessoa com que quero ficar é comigo. nessas, convido pessoas — das mais aleatórias possíveis — , pra me fazerem companhia nos tantos cantos que procuro conhecer.

numa porta de entrada de bar, encontrei um amigo que não via há uns quatro anos, se escolhermos arredondar pra menos e quisermos diminuir a vergonha de não ver alguém por quem se tem tanto apreço por tantos anos. mas sendo sincera, naquele dia específico completaria o sexto ano sem vê-lo. eu nunca esqueceria a data. a vida nos deu caminhos completamente diferentes e nós somos horríveis em combinar qualquer coisa. é sempre do nada, sempre num lugar que não dá pra chegar de ônibus, sempre com uma roupa que não diz “caraca! o tempo te fez bem!”.

esse amigo era especial: a gente viveu todas as fases juntas. passamos pela fé, pela ausência dela, pelo rock, pela mpb, pelo ativismo, pela universidade pública, pela fase horrível & maravilhosa de desistir de todos os cursos da vida e viver da própria arte (até aprendermos que dinheiro não dá em árvore e entrarmos na fase de trabalhar em qualquer coisa pra ganhar qualquer mil reais por mês) e chegamos juntos na fase da faculdade, trabalhando muito mais pra ganhar um pouco mais e pagarmos muitas cervejas um para o outro.

esse amigo era especial: sempre foi. desde o dia em que nos conhecemos, sabíamos que iríamos passar muito tempo juntos. a gente se deu super bem quando, no ônibus indo pro sítio, cantamos juntos todas as músicas e versões que um colega arranhava num violão desafinado que alguém tinha tido a maravilhosa ideia de levar. a gente sabia que ia viver muitas histórias, porque enquanto todo mundo enchia a cara de vinho barato e comia paçoca, a gente sentou pra conversar do lado da fogueira e descobriu que o gosto literário batia, as referências musicais eram as mesmas e, se fosse pra somar o meu ipod e o dele, só teríamos umas 15 músicas novas cada um (ele ganharia minha marisa monte e eu receberia os novos baianos de presente).

quando a gente encontra gente que combina com a gente, a gente tem mania, hábito e essa coisa errada de transformar em amor romântico. ele podia ter sido um amigo maravilhoso que viveria coisas maravilhosas comigo, mas a gente achou que já que a gente cantava tanta coisa boa, lia tanta coisa boa e conhecia os mesmos lugares, a gente devia se beijar, dar as mãos e passar um bom tempo deitados revesando entre quem dava o colo agora.

porque a gente foi pelo amor romântico, com o tempo perdemos o interesse da novidade e esquecemos que tínhamos tudo pra dar certo. até porque a gente nem tinha. a gente tinha o mesmo gosto musical e gostava das mesmas coisas, mas ele nunca aceitaria a quantidade de livros que eu guardo, eu nunca superaria a mania insuportável de ser instável e não conseguir decidir nada – e ele não conseguia passar por cima disso. aceitar os sintéticos que ele adorava nunca passou pela minha cabeça e ele nunca foi de gostar de mulher que bebe demais — e eu sempre dou um jeito de enfiar uma cerveja na rotina.

por isso, quando a gente decidiu que não ia mais ficar junto, a gente fez daquelas quinze músicas o nosso trato de amizade e manteve contato em alguns encontros esporádicos que sempre acabavam em beijos, mãos dadas e tempo deitados revesando quem dava colo. a gente sabia que não ia dar certo: pela manhã, era sempre estressante precisar ir embora brigado e passar milênios no ponto de ônibus esperando algum que fosse pra estação chegar perto da casa dele, que é longe de toda civilização.

mas a gente insistia muito nisso. o papo sempre começava bom, a gente descobria que mesmo separado acabava passando pelas mesmas coisas. quando pedi as contas e fui trabalhar de freelancer full-time, ele tinha acabado de fazer o mesmo e estava agora vendendo seus textos e criando pautas incríveis pra um jornal que a gente sempre gostou de ler. a gente conversava sobre como era bom não estar no sistema, a liberdade de trabalhar pra si, a graça de não ter CLT e o lado bom de não precisar depender de VR. a gente conversava sobre a graça de fazer a própria comida e como fazia bem respirar pela manhã sabendo que você está construindo com as próprias mãos a sua própria vida.

a gente insistia em sugerir “dorme lá em casa” depois do papo bom, porque sempre esquecia que ia ser estressante entrar na casa um do outro e lembrar que por trás de tanta coincidência existem dois seres humanos que não têm nada a ver um com o outro. e por mais que nas primeiras três horas fosse super possível ignorar, na manhã seguinte o café já estava mais amargo do que deveria e o beijo de despedida era sempre uma bochechada seguida por uma porta que batia mais forte do que era realmente necessário.

a gente estragava os nossos laços até precisarmos ficar seis anos sem as coincidências, as músicas e os livros. a gente foi criando barreiras tão fortes que nem a menina que dançava ao som de novos baianos conseguia superá-las.

a gente cagou tudo, porque estragar a própria vida é um direito inalienável (já diria amélie poulain). mas, dessa vez, quando eu o convidei pra tomar uma cerveja no meio do nada num lugar que eu achei e precisei enviar a localização do celular pra passar o endereço — dessa vez, quando ele chegou, ele trouxe uma menina com ele. e essa menina não tinha nada a ver com a gente, mas não dava a mínima pros sintéticos, era tão instável quanto ele e não colocava uma gota de álcool na boca desde os dezoito.

e aí a gente conseguiu fazer o que deveria ter feito desde o dia que se conheceu: fomos cada um pra sua respectiva casa, dormimos felizes pelo reencontro e conseguimos dar play na lista com quinze novas músicas que com certeza vamos gostar de ouvir sem o estresse matinal que a gente nem precisava ter tido durante todos esses anos.

estragar as próprias relações é um direito inalienável que, por deus, ninguém deveria ter.

não é porque acabou que precisa acabar com você

nem nos piores dias eu desejei não ter te conhecido.

até porque viver um amor é uma das melhores coisas que estar vivo nos propicia: é bom beijar, é bom abraçar, é bom dormir perto, é bom sentir e decorar o cheiro, é bom compartilhar a vida, é bom encaixar no peito, é bom dividir as dores, é bom caber na agenda. amar é uma delícia, até quando deixa de ser.

e aí, quando deixa de ser, a gente segue. segue, porque o amor não deixa de ser amor só porque deixou de estar junto. o amor segue sendo amor mesmo que cada um siga amando a si, mesmo que apareçam novos peitos, cheiros, abraços e lábios. mesmo que apareçam novos — mesmo que se escolham os velhos, que não mais os seus, que não mais os meus. o amor segue sendo amor mesmo que a vida pareça turva, mesmo que os dias pareçam errados, mesmo que as músicas pareçam provocativas e tragam de volta à memória os abraços, cheiros e peitos que já não se abraçam, sentem ou encaixam.

e aquela vida que se divide e multiplica porque são duas, o dia que se estende e se entende com o calor do cobertor e aquela mão que segura a outra mão e acaricia a ponta do dedão nunca deixam de ser bons, presentes ou reais só porque o amor deixa de ser. ainda bem que os dias se mantêm azuis, que o céu se mantém ensolarado e o cobertor, mesmo que só pra um, mantém-se aquecido e pronto para te confortar nos dias mais gélidos dessa primavera tão linda.

o amor tanto mantém-se sendo amor que, mesmo ele que deixe de ser pra dois no auge do outono que é frio e propício à solidão, ele traz a primavera florida e linda pra provar que, por mais que o amor deixe de estar, o amor segue sendo amor em todas as outras coisas.

o amor sempre é amor. a gente só esquece de ver.

pediram pra eu falar de desapego

fazia algum tempo que ninguém me pedia um texto.

na semana passada, uma colega (que eu poderia dizer que é da faculdade, mas, na verdade, é só do bar, mesmo) me falou: você precisa escrever sobre desapego.

aí eu comecei a pensar: putz. desapego. desapego é complicado. desapego é contar pra quem tá lendo que ele não vai ganhar nada continuando enfiado em algo pelo hábito. desapego é desmistificar o amor romântico que tudo suporta — mesmo se o assunto for amizade. desapego é precisar explicar que não adianta de nada insistir em dar murro de ponta de faca só pra provar pra si mesmo que tentou até o fim. falar de desapego é precisar falar que é melhor provar pra si mesmo que só escolheu ficar bem.

aí tá. passou.

ontem a noite, depois de chegar de uma comemoração de aniversário de uma pessoa maravilhosa que conheci há pouquíssimo tempo, voltei a ponderar: qual foi a última coisa da qual eu me desapeguei?

primeiro, achei que tivessem sido dos livros. aí lembrei que também doei e vendi alguns dvds. mas aí lembrei que tinha um cara me dando no saco que eu mantinha contato por ser amigo da família que eu também mandei passear.

e depois lembrei que coloquei um monte de roupa que não servia e tava super socada no fundo do armário na bolsa de doação. e lembrei também que além de tudo isso eu desapeguei do hábito ruim de falar sim por impulso e tenho falado vários nãos. mas aí pensei melhor e meu coração apertou quando eu lembrei de qual tipo de desapego ela tinha pedido pra eu falar.

alguém lembra dessa brincadeira?

ela tinha pedido pra eu escrever sobre aquele desapego que dói, sabe? aquele que a gente tira com a mão. aquele desapego que aparece na nossa vida como se fosse um soco na cara. aquele que é igual era jogar mertiolate na ferida nos anos 90. aquele que significa fazer uma escolha, sabe? ela tava falando de desapegar de algo que nem sempre é ruim, mas muitas vezes acaba ficando e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.

ela tava pedindo pra eu falar que a gente precisa deixar ir pra conseguir ser bem feliz. ela tava falando daquele desapego que a gente precisa ter pra conseguir seguir a vida sem chorar ao ouvir músicas que todo mundo ouve dançando. ela veio me pedir pra escrever sobre o desapego que a gente precisa ter pra voltar à vida com alegria.

o que ela veio me pedir — vocês não imaginam como foi esse pedido — foi pra eu escrever sobre como a gente precisa abrir o peito pra receber o novo, como a gente precisa voltar no b-a-ba do sentimento pra não se deixar cair, como a gente precisa abrir mão pra voltar a respirar em paz.

eu acho que a gente sempre sabe que precisa desapegar das coisas, sabe?

a gente sabe mesmo, o nosso peito sabe, a mente sabe, o coração sabe. é que a angústia fala mais alto e a gente se habitua a ter por perto. mas, olha, eu vou te falar: a gente precisa olhar pra dentro pra lembrar os porquês. entende?

tudo tem a ver com os porquês. você, eu, a gente precisa respirar muito fundo e tentar decifrar de onde veio esse impulso de parar. uma hora a gente precisa parar de tentar e isso vem de dentro.

a gente tem que entender os porquês pra deixar ir.

e, já que você me pediu pra falar de desapego, eu vou falar sem papas na língua: se você acha que deixar ir é uma merda, é porque nunca pensou no absurdo que é se segurar no vento. o tapa dói e você nem entende de onde vem. 

as coisas que eu queria te contar

hoje eu queria te contar de um projeto que eu terminei. ele ficou tão bonito.

Mas eu não tenho mais esse direito.

Ontem eu quis te contar de um projeto que eu tinha começado. Ia ficar tão bonito.

mas eu já não tinha esse direito.

anteontem passei por uma barra, foi tenso, fiquei estressadíssima, os meus cabelos arrepiaram mais que o normal e a minha pele escura enrubesceu.

mas eu não podia te contar, tirei meu direito com a mão e foi horrível precisar ignorar a vontade de fugir pro seu abraço.

na última semana precisei de você. precisei do seu abraço. não precisei: quis. quis muito. não tive.

mas também já não tinha mais o direito de te exigir mais nada. seu abraço enlaçava outros braços.

no último mês precisei de você. precisei do seu beijo, do seu afago, do seu cheiro e do seu carinho.

eu podia te exigir, te implorar, te espernear, te convencer. mas eu escolhi pedir. a negativa dessa resposta me trouxe todas as outras negativas que me dei.

mas hoje, hoje eu queria muito te contar de um projeto que eu terminei. ficou tão bonito.

if that’s all it is, my friends, so let’s keep dancing!

olha, eu não vou escrever um texto hiper motivacional sobre como é importantíssimo manter-se positivo em meio às aflições da vida. primeiro, porque todos os sites de comportamento já estão aí pra isso e não tenho exatamente muito tempo pra perder falando o que todo mundo já diz. segundo, porque ninguém nasceu sabendo tirar leite de pedra, mas a gente se esforça pra isso todo dia.

dito isso, sabemos: pensamento positivo é importante. ponto.

agora, vamos lá, como podemos filtrar coisas boas de uma coisa tão ruim quanto dias ruins? falo assim, no plural e como uma coisa só, porque um dia ruim vez ou outra todo mundo tem. a barra pesa e a batata esquenta quando são vários. quando uma noite após a outra não resolve. quando dá dor de cabeça de raiva. de nervoso. quando você se olha no espelho e fala: que merda. tô um porre.

eu tive uma sequência de dias péssimos nas últimas semanas. com esses dias péssimos, aprendi algumas coisas.

a primeira cabe em meio tweet:

SAP: “você nem sempre pode ser forte, mas você sempre pode ser corajoso”, que é um trecho de doctor who.

depois, descobri que sou emocionalmente instável quando estou brava. nunca soube disso. sempre fui bem bravinha e intolerante com determinadas situações, mas nunca tinha notado como isso afeta todas as minhas relações. ao mesmo tempo em que quero colo, abraço e tapinha nas costas, não suporto o olhar de “ô, judiação…”. o que sobra?

também aprendi que stress não resolve problema. fiquei extremamente estressada, irritada, esbravejei aos quatro cantos toda a minha raiva, escrevi vinte e oito páginas de diário (que, se eu ainda escrevesse com a cor baseada no meu humor, estariam todas em vermelho-ódio) e… o problema continuou lá, intacto, pronto pra me dizer: que cena, hein.

não adianta.

nos dias péssimos, aprendi uma coisa maravilhosa: nunca deixe de ouvir música. ela faz maravilhas. james brown, freddie mercury e fernando anitelli operam milagres cerebrais se forem usados na medida certa.

os dias ruins fazem a gente acreditar que tudo é uma grande bola de decepções e que as coisas vão continuar dando errado, para sempre. e aí você precisa olhar pra vida e falar: MAS NÃO MESMO!

minha forma de fazer isso, hoje, foi dançando i feel good, do james brown, em público, no meio do bar, tomando uma cerveja depois do trabalho.

não resolveu nenhum dos meus problemas. nenhunzinho, nem diminuiu a dose.

mas pelo menos eu dancei.

a paixão que vem depois do amor

eu quero que, de todos os cheiros, gostos, toques, beijos, braços e sentimentos que eu experimentar, os seus sejam os meus preferidos. quero enlaçar nossos dedos de forma que não se soltem mesmo com a distância imensurável de nossos ninhos. ninhos, porque, como mainás, voamos mundo afora em busca de tudo o que nos brilha o olhar — e voltamos sempre à postos e a tempo para casa, mesmo que, para isso, precisemos nos esconder e desprender de em mil e uma coisas.

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e porque você me beija rindo e beija minha bochecha e beija meu pescoço e beija minha boca. e porque você me olha e seu olhar parece um beijo.

e porque eu sei que causei alguma das suas insônias, mas também porque sei que muitas delas tem outras razões que eu queria poder anular.

porque você pode ter estado com várias mulheres e, mesmo assim, quando olha pra mim, eu tenho a certeza de que não olhou pra elas da mesma forma — porque, se tivesse, elas nunca te deixariam ir.

porque você segura minha mão e porque sabe a letra de todas as músicas imbecis que não me saem da memória.

porque você me enlaça nos seus braços, nas suas pernas, me enlaça nos seus olhos, me enlaça nos seus beijos, no seu gosto, no seu sorriso e no seu eu.

porque o tesão que eu sinto é proveniente da vontade que eu tenho de te ter. porque eu quero conhecer e beijar cada milímetro do seu corpo e quero dar pra você tudo o que tiver no meu.

e porque você me abraça daquele jeito que só você sabe. porque você tem em você tudo aquilo que você é — e eu amo tudo o que você é.

sobre tentar escrever e outras odisséias

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inspiração é coisa de momento. tem dia que acordo virada na clarice lispector e crio poesia até sobre o ângulo específico em que a minha janela se encontra. tem dia que nem todo amor, alegria, felicidade e paixão conseguem me fazer uma legenda de foto.

sequer criaria um tweet.

dia desses, enquanto zappeava internet afora, encontrei o blog de uma professora de escrita (laura cohen é o nome da moça, o blog é o estratégias narrativas — espetacular). em primeiro lugar, venho por meio desta dizer que meu ceticismo sempre se encontrou presente no que diz respeito a acadêmicos da literatura. tanto pra produção, quanto pra consumo: não acredito (não acreditava?) em quem teoriza paixão. mas a laura faz isso com uma delicadeza que investi a madrugada inteira lendo do título aos direitos autorais do criador do site. wordpress, caso interesse. maravilhoso, tudo maravilhoso.

minha bandeira sempre foi de que o poema só é do poeta até a tinta cair na folha, que as palavras têm sentidos próprios pra cada leitor e que não cabe a crítico, acadêmico ou o que for a tarefa de tentar explicar qual era o sentimento do autor.

autor (eu, pelo menos) não tem sentimento específico pra cada palavra escolhida. obviamente, escolhemos a dedo a posição de cada vírgula e o porquê de cada tempo verbal, mas não o fazemos para que, posteriormente, os críticos associem uma cortina à um estado de espírito ou um adjetivo a características de pessoas próximas. escolhemos para que o texto tome a forma que é necessária e que sempre coube a ele, desde o momento em que a primeira frase surgiu em nossas cabeças como uma janela pop-up.

e por falar em frases que surgem, meus textos sempre saem de uma frase específica. O texto inteiro, dos mais longos que se estendem por cento e tantas páginas aos mais curtos que mal podem ser chamados de parágrafo, surgem todos de uma única frase que minha mente cria. este texto, por exemplo, surgiu inteiro a partir do título. vai entender.

nos meus textos também cabe uma característica que, por deus, sempre quis que um crítico dos mais chatos analisasse. tenho um hábito — péssimo, inclusive, meus contratantes faltam me esfregar o rosto no chão — de abusar das letras minúsculas. não consigo me habituar as letras maiúsculas em início de frase: não me parece necessário. gosto de como fica a frase quando não se usa coisas imensas depois de cada ponto. parecem-me como um portão fechado. as frases não são portões, são pontes. são interligadas e as letras maiúsculas são morros gigantescos entre elas.

sou asmática, não posso subir.

os críticos também se divertiriam com o meu hábito de elencar adjetivos e características, lado a lado, abusando do direito da vírgula. adoro quando um dos meus personagens exige algo de mim. dia desses, ao escrever uma personagem que adoro (chama lúcia, com acento agudo), precisei elencar uma série de razões pelas quais ela não queria mais morar onde estava. lúcia é organizadíssima, muito metódica, quase cética se não fosse a seriedade com que trata sua fé. o parágrafo ficou assim:

Mas não poderia mais estar ali, nem lá, nem cá, disse pra dentro enquanto olhava pra todos os cantos daquele lugar. Ela não estava se lembrando especificamente dos doze anos morando ali, mas da última semana, porque o prazo, ali, já havia acabado. As coisas todas possuem prazo e o daquela casa havia acabado há uma semana. E contando. Possuía prazos. Quando acaba, é preciso fazer algo. O prazo acabou para aquele lugar — aquele, porque estava em outro, e comemorando, mas já chegaremos lá — o prazo acabou para aquele lugar quando as bromélias murcharam na primavera, quando seus chinelos desapareceram, seus pés começaram a engrossar no calcanhar, os ombros passaram a descascar quando sentava pela manhã, depois de chegar do trabalho, no mesmo lugar onde sentou pelos últimos doze anos. A janela é a mesma, mas, como acabou o prazo, não possui mais a mesma funcionalidade. Prazos são prazos, o dali acabou.

vejam a quantidade de vírgulas, a mania de listar tudo. essa é uma característica dos meus textos desde que me conheço por gente. lembro-me claramente de sentar pra escrever ainda no ensino fundamental (me conheci por gente bem cedo) e receber uma bronca da professora por adiar o ponto final. poderia fazer um parágrafo inteiro sem um só ponto.

culpa das letras maiúsculas, eu tenho certeza.

talvez por isso — pelo amor às vírgulas, listas e letras minúsculas — sempre tenha me encantado tanto em conhecer e ler fluxos de consciência. no livro “os dragões não conhecem o paraíso”, o autor gaúcho-quase-chileno caio fernando de abreu escreve um fluxo de consciência entitulado “à beira do mar aberto”. frases puxam frases, sentimentos, momentos, detalhes específicos do personagem que, mesmo sem vírgula ou parágrafos, nos leva pra mil e um lugares e, ao fim, também nos leva ao afogamento pela mesma mão que uma vez o tirou do fundo.

um bom texto puxa vírgulas. pontos finais exigem novas sentenças, sintática e frases completas com artigo, objetos, sujeitos. sempre quis escrever, mas sempre soube que não seria utilizada em escolas.

por deus, oculto até os artigos das frases, quem dirá escrevê-las sintaticamente corretas para que sejam analisadas por crianças do quinto ano. não, obrigada, gosto das entrelinhas.

tem dias que a inspiração não vem de jeito nenhum. e, nesses dias, escrevo sobre escrever. mas sempre escrevo. escrevo há tanto tempo que aprendi uma coisa (que sempre respondo quando me perguntam de onde tiro tanta criatividade): mesmo sem vontade e sem criatividade, crie algo. por mais que comece batido e pareça que céus, estou criando algo que já foi feito antes peloamordedeus alguém me salva do plágio involuntário.

sempre pensei nisso, mas laura cohen (a moça que me fez gostar de teoria sobre produção literária) verbaliza muito melhor em um de seus textos, onde diz que cada um de nós tem suas próprias palavras. não existe essa ladainha de que tudo já foi escrito, de que é preciso se ler o que os grandes pensadores escreveram para que não se escreva o mesmo e muitos blá blá blás. academicistas e suas fórmulas mágicas pra criação. criação é pessoal e todo mundo tem algo a dizer.

quando achar que nada que pode ser dito é verdadeiramente útil ou bonito, escreva sobre a sua fórmula mágica (pelo menos, essa é a minha).