não é a pior fase

nem de longe é a pior fase da minha vida. eu acho. sei que tá longe de ser a melhor. eu nunca senti tanta tristeza acumulada, tanto mal estar ininterrupto, tanta vontade de desistir. eu já senti muita dor da falta, muita angústia, muita insatisfação. eu já senti muita vontade de fugir e de transformar a minha vida em pó estelar. eu já senti muita vontade de ir embora de todos os lugares, mas eu nunca tinha sentido tanta vontade de desistir simplesmente por estar triste. a tristeza profunda em seu estado mais natural: o sentimento de que os dias estão escorrendo e de que nada tem muito propósito. o sentimento constante de que, veja só você, não adiantou porra nenhuma e vamos todos morrer amanhã. se tivermos sorte, vai ser cedo e não vamos desperdiçar café. o pó de café, inclusive, acabou lá em casa. e eu não comprei outro, porque não acho forças. não tenho energia pra deixar minha tristeza de lado só pra ir até ali a vendinha e comprar um mísero pacote de pó de café. acho que não é a pior fase da minha vida. mas tá ainda mais longe de ser a melhor. aliás, tá longe de ser qualquer coisa pela qual valha a pena levantar da cama, limpar as cinzas, tirar o lixo, lavar as roupas acumuladas. tá longe de ser qualquer coisa pela qual valha a pena tentar de novo. eu não tenho mais forças pra tentar porra nenhuma mais nenhuma vez. eu tô só triste. o tempo inteiro. sem sentir o amor que chega pra mim, sem sentir nada que não seja dor. e é tanta, tanta dor pra sentir. e eu danço com a cabeça enquanto choro escondida por aí. um dia de cada vez. acho.

aquele momento

foi maravilhoso aquele momento que a gente não se viu. aquele momento exato em que eu pisei na padaria que você tinha acabado de sair e sentei exatamente na mesma cadeira que você estava sentada e pedi o mesmo pão de queijo e café e suco de laranja que você pediu e depois saí pra fumar igualzinho você fez e antes de pagar a conta peguei um docinho e saí pela mesma porta que você saiu e andei exatamente pela mesma direção que você andou e foi maravilhoso aquele momento exato em que você estava saindo da farmácia onde deve ter comprado muitos remédios porque demorou todo o meu café pra sair e começou andar bem na minha frente e eu, coincidentemente, do jeito que eu nunca faço, resolvi responder mensagens no celular no meio da rua e abaixei a cabeça e não consegui ver seu cabelo, não reparei na sua roupa que ainda era a mesma de sempre, não reparei que você tava carregando a caixa do seu violão que eu comprei junto com você, foi maravilhoso aquele momento exato, aquele segundo inesquecível que você virou a próxima rua à direita e entrou no carro e eu continuei andando até o metrô e cheguei aqui em casa com a deliciosa sensação que só dá pra ter quando a gente não se vê.

só pra quem me lê

tinha alguma coisa no meio daquilo tudo. era como se, no final das contas, nada tivesse valido a pena. ir atrás, correr, tentar, entrar, conseguir, conquistar tudo. nada tinha valido a pena. tinha sido um saco chegar até aqui, tava sendo cansativo me manter em pé, tá doendo um pouco a coluna esse tempo todo escalando, escalando, escalando. já cheguei e ultrapassei meus sonhos mais distantes, distintos, difusos. as coisas que eu nem sabia que queria, eu quis e conquistei e continuo insatisfeita. insegura. inquieta. com uma vontade louca de desistir, jogar tudo pro alto e só ir embora. sem voltar. sem nem saber pra onde ir. só partir. deixar a vida rimar com o que quiser. me encontrar com quem fosse, gente estranha, esquisita. ir pra festa estranha, esquisita. bem renato. me meter num beco sem saída só pra sentir o coração pular. ficar parada aqui no canto não dá. esse canto é bom, é confortável e sempre úmido, mas eu queria ir pra um lugar meio apertado, ruim de ficar. que desse vontade de sair. eu gosto de sair. quero correr. me dá vontade de correr. de sentir uma angústia, uma emoção, um negócio. deve ser por isso que da última vez o beco sem saída ruim e com pouco ar me dava tanta sensação de vida. deve ser por isso que eu insisti tanto naquele negócio que não era bom: tudo que é ruim dá pra gente uma vontade louca de melhorar. mas daí até eu descobrir que a vontade de melhorar não é vontade de melhorar é só a vontade de sentir vontade… aí foi chão. aí foi tempo. aí foi um monte de gente se machucando no caminho. mas eu não tive culpa. não muita. eu só descobri agora que eu não gosto disso. eu devia ter desconfiado: olha a merda toda que eu construí até aqui, por deus. você saberia se tivesse me lido. eu saberia se tivesse me ouvido. mas eu nunca me ouço. deve ser por isso que eu fiquei aqui até agora, nesse lugar confortável e sempre úmido. faz bem pra rinite. até a rinite tava bem. essa porra nem tem cura. você entende? eu sei que você não vai entender. eu não sabia, também. mas você teria sabido se tivesse me lido. essa foi a diferença. as outras, os outros, todo mundo sempre me lia. você não me leu. nem tentou. daí quando eu fugi, quando eu saí correndo sem ter pra onde ir, quando eu fui pros braços dos amores errados e dos ciúmes forjados e dos momentos sofridos de emoção à flor da pele, você não entendeu. disse que eu não era assim. só que eu era. sempre fui. você deveria ter me lido. eu voltei pra quem me lia. mas eu já tinha avisado. você teria sabido. devia ter me lido.

sobre escrever e prolongar

uma vez, li na autobiografia de uma escritora um texto de um outro escritor que dizia que escreve com dois dedos e ama com a vida inteira. a escritora, milly lacombe, e o escritor, antonio maria, têm em comum muito pouco. comigo, menos. mas penso sempre na escrita: de onde veio?

de tantas coisas que eu poderia ter sido, entre o mundo astronômico e uma catástrofe qualquer que poderia ter sido evitada caso eu quisesse ter me tornado uma policial civil tático-operacional, escritora. ninguém nunca precisa de um escritor. um avião em chamas não precisa de um escritor. uma sala lotada de pronto atendimento não precisa de um escritor. um sangramento ininterrupto não precisa de um escritor. Uma dívida colossal não precisa de um escritor. ninguém liga pra o escritor a não ser que sofra. E precisa ser muito. pra pouco sofrimento, um ombro basta. e uma caixa de cataflan. para o restante, haja palavras. muitas. extensas. ininterruptas.

numa longa tentativa de explicar, compreender e (ninguém nunca admitirá, mas vou dizer) prolongar a tal da dor, leem. leem escritores sofridos, daqueles clássicos que provavelmente fumam cigarros de filtro vermelho e bebem conhaques daquela garrafa que custa menos de um mico leão-dourado que você sabe bem o nome. esses escritores caricatos que ninguém admite que gosta – e que os escritores que não têm bem essa característica jamais admitiriam que queriam ser.

nunca quis.

sempre quis ser mais adélia prado do que caio fernando abreu: adélia vê flor em pedra, poesia na cor, na vida que rege a existência de quem ama com o peito aberto. adélia fala tão bonito daquilo tudo que a gente não sabe muito bem como falar. a gente aprende a viver a alegria. beber pra comemorar. beijar uma boca amada, com o beijo mais gostoso do mundo. abraçar mais apertado. respirar mais fundo o ar, mesmo que não tão limpo assim. levantar os braços e gritar. a gente aprende a comemorar, a sorrir, a comemorar. a gente só não sabe falar muito bem sobre a alegria. alegria não rima.

escritor não aprende a falar de bonança. a gente é especialista em lamentar, em elencar motivação pra poesia que rima amor com dor. a gente aprende até a justificar os colegas sem muita criatividade que desgastam as frases que ainda, nessa altura do campeonato, combinam o pesar com qualquer verbo infinitivo terminado em “ar” com conotação sofrível. a vida é sofrível por si só, o escritor a interpreta e prolonga. nosso trabalho é prolongar.

eu nunca entendi por que esse virou o meu. logo o meu. nunca entendi direito por que eu. nunca entendi direito de onde veio. nunca entendi direito. mas não abro mão das minhas palavras. não abro mão do que sai daqui. deve ser por isso que de vez em quando a mão volta. fechada. num soco. na minha cara. e eu aceito. sorrindo. e depois escrevo. sangrando. e sempre, sempre, sempre me recuso a estancar.

um guia para achar a poesia

fico triste quando a poesia se perde pela vida: quando se perde por entre os deuses, os amores, as pedras no sapato que insistem em não sair e de forma alguma não se tornam um poema, um texto, uma crônica, um negócio que você coloca em algum lugar pra alguém ler. eu fico triste quando a vida se perde por entre os poemas, mas é melhor que se perca a vida e se ache poemas do que ver a poesia escorrer pelo ralo. geralmente, limpo. quando se perde poesia, se limpa a casa. não deixe que suas panelas brilhem mais do que você, me disseram uma vez, e a gente sempre brilha pouco quando tem muito tempo pra arear panela. mas não dá pra culpar: a poesia não tem apelo, não tem prenúncio de guerra, salvação ou vida eterna – e tem gente que acha os três num deus só. acontece que é triste demais quando a poesia se perde por entre os dias e fica ainda mais triste quando a gente não consegue achar de jeito nenhum. fica ainda mais e mais triste, daquela tristeza que escorre um pouco do olho mas não chega a ser choro, quando a gente percebe que ela foi pra tão longe que nem tem como voltar, sabe? sabe quando a gente tenta achar a poesia e acha um negócio meio parecido, mas que não chega ainda a ser poesia fica ali no meio do caminho, um negócio que não chega a ser poesia, mas pelo menos já deixa a panela de molho uns dois dias, sabe? aquele negócio que não chega a ser poesia talvez seja a melhor forma de chegar na poesia, porque quando a gente começa a pensar em procurar, quem sabe, a poesia, esse negócio que não serve pra muita coisa nem garante vida eterna pra ninguém, a poesia se sente um pouco mais querida, um pouco mais bem quista, com um pouco de espaço no meio da sujeira de quem não tem tempo pra limpar porque tá procurando  poesia. e aí talvez quem sabe ela chegue. quem sabe a poesia chegue se você procurar num fundo do copo de uísque ruim ou no filtro de um cigarro daqueles que custam menos do que deveria. eu acredito que a poesia deva estar naquele bar que você parou de ir pra começar a meditar. eu tenho certeza, na verdade, porque eu encontrei a sua poesia lá da última vez que fui. ela não tava com saudade, falou foi mal de você, mas rancorosa ela nunca foi e, bem, foi um monte de bons momentos amontoados que vocês passaram juntos então eu imagino que ela, se você procurá-la, vá aceitar voltar pra você. eu sei que é um pedido meio escroto, meio arrastado, assim, sem muita poesia, mas é que eu perdi a minha um tempo atrás e consegui encontrar, aí toda vez que eu vejo alguém perder a poesia eu fico tão triste quando a poesia se perde pela vida que eu precisei vir aqui te dizer que essa meditação aí não leva ninguém pra lugar nenhum e que é nosso jeito fodido de achar poesia na própria fodeção que garante que a gente vá chegar em qualquer lugar com ainda mais poesia. e vale a pena chegar lá, já me disseram. não tem vida eterna, nem salvação, nem guerra e muito menos perdão, mas poesia tem. e disseram que, poesia, comida e putaria, lá, sempre se faz bem.

o sabonete velho na casa nova

parece quase errado mudar de casa tão do nada que o sabonete ainda tá meio inteiro e é claro que eu não vou jogar fora pelo amor de deus então se liga aí que tô tomando mais banhos que o normal nesses últimos dias na minha casa velha então devo estar mais cheirosa amor vem checar mas então como eu estava dizendo super esquisito isso de mudar de casa do nada tem que colocar a vida na caixa e a gente que trabalha com essas coisas que a gente trabalha sempre fala de pensar fora da caixa será que vale também pra mudança?, as mudanças fora da caixa devem dar um trabalhão é tanto treco né como que eu poderia levar o sabonete sem ter uma caixa onde colocar por exemplo.

fluxo de consciência III

as últimas pessoas que me inspiraram a escrever algo foram o bruno bandido e o val. eu acho que já li todos os livros do val. acho. eu com certeza li todos os posts do bruno bandido, o que é estranho porque ele escreve no mesmo blog faz quase dez anos e eu o conheço há menos de um. mas li. eu também li quase tudo do mario bortolotto, que também é bem bom, mas não li tudo porque ele vive no parlapatões, que é um bar sujo na roosevelt, e gosto de fingir que em algum momento vou encontrá-lo por lá e pedir pra ele me contar as histórias que não quis ler. e como mesmo assim quero escrever, qualquer coisa que seja, meio suja e meio mal-feita, talvez, se é que existe um crivo de qualidade parado em algum lugar aqui perto, fico rodando atrás do meu próprio rabo falando um monte de merda. começo a falar umas asneiras sem muito nexo de outras histórias que eu não tive nem onde ler e acabei ouvindo quando sentei num bar. nunca o parlapatões, porque nunca vou lá pra beber só pra mijar e claramente nunca vou conhecer o mario bortolotto, mas, nesse bar que eu sentei, eu conheci alguém e aí quis escrever. alguém que tá sempre contando uma história nada a ver sobre algo que eu não me importo. ou usando “pitch” no meio do papo e deixando escancarado que trabalha numa agência. as pessoas que trabalham em agências são o alívio cômico nos textos de escritores fodidos desde os anos 80 porque ninguém gosta de pessoas que trabalham em agências. cheira a café velho e cigarro ruim. nesse momento que o fator Funcionário de Agência aparece & dependendo da quantidade de cerveja que eu já tomei, nesse momento muito específico, eu levanto os braços e grito AH NÃO MAS EU NÃO SAÍ DE AGÊNCIA PRA ACHAR PUBLICITÁRIO NO BAR NÃO EIN CÊ NÃO ME COMEÇA QUE O PRIMEIRO QUE FALAR JOB EU VOU SOCAR, ou então eu interrompo porque não quero saber de pitch nenhum, mas quero falar um monte de coisa que também não tem nexo, e começo a contar histórias aleatórias sobre como a paixão me pegou tentei escapar e não consegui ou, as que são minhas preferidas, histórias meio mórbidas e meio engraçadas com personagens que ninguém nunca vai conseguir humanizar de forma homogênea já que meus personagens não têm o menor nexo também. uma vez escrevi sobre um cara que pegava fogo no próprio sofá porque deixou um bolo no forno. ele morria, mas isso todo mundo já sabia porque o nome do texto é no final dessa história alguém vai morrer. nem sempre eu conto que as histórias são histórias e é sempre bom observar a feição dos presentes para o choque doido de imaginar alguém pegando fogo num sofá por causa de um bolo. ou quando eu começo a testar a veracidade das histórias dos meus personagens e falo que tenho um amigo jogador de vôlei que fuma e ninguém fica tão chocado assim porque, olha, um monte de atleta fuma e isso explica porque tá todo mundo sempre em dia com o peso ideal, né?, é, eu acho que sim. as pessoas acreditam no que elas querem, você pode testar com o que quiser. um amigo meu da faculdade convenceu minha mãe de que era astrólogo e ela nem tinha terminado a primeira taça de vinho. escorregou quando colocou a lua em marte, mas ela é crente demais pra perceber qualquer coisa que tenha a ver com estrelas. ele é, até hoje, pra ela, meu amigo astrólogo. deve ser assim que ela tá se convencendo até agora de que eu sou tudo o que ela sempre quis que eu fosse – e eu acho bom que ela continue assim. imagina só que bosta se ela aceitasse que eu, na verdade, quando ela acha que eu deveria estar na igreja, tô plantada na porta do boteco fumando um cigarro e tomando cerveja pra ter coragem de começar mais uma semana sem saber direito o que vai acontecer. imagina se ela soubesse que eu gasto tempo de vida tentando contar um monte de história que pipoca na minha cabeça sem muito final. imagina a tristeza se ela parasse de mentir pra si mesma e aceitasse que eu sou esse acumulado de bosta que vomita bosta e fala bosta e continua fazendo bosta mesmo sabendo que bosta gera bosta e que não tem como isso cheirar bem. fede mais que funcionário de agência. imagina só. depois me conta. se for legal, vou escrever. se não for, vou fazer ficar. se não der, paciência. nem tudo dá. tem gente que dá. tem gente que não dá. eu só descubro. ou invento.

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a arte imita a vida.

fluxo de consciência II

eu tava aqui pensando que tem uma parada bem bizarra acontecendo por aí. é mais ou menos assim: você não vai mais ter direito de ser você. mais ou menos isso. agora você precisa ouvir um babaca te falando que você não pode beijar sua mina, não. que vai ter que passar pó de arroz porque sua cara tá da cor tá errada. que vai ter que se readequar, oras. oras é o cacete. readequar minhas bolas. e olha que nem bola eu tenho. eu não cheguei nem a me adequar. isso aqui já tá errado há tempo o bastante pra todo mundo concordar que precisava fazer alguma coisa. mas a ideia era melhorar. m e l h o r a r. enfiar no meu cu um cano de pvc de 30cm de diâmetro não era uma opção plausível. nem sei qual seria. essa, com certeza, não. aí, depois desse papelão de readequação, vêm falar de esforço. quer mais esforço? duazora pra chegar no trabalho, duazora pra chegar em casa, um vale refeição abaixo do esperado e uma carga trabalhista compatível com o mercado (o que não quer dizer que é pouco). um monte de conta pra pagar. sexo só quando dá. a única coisa que eu tenho que faz bem é um amor pra chamar de meu. e olha que eu achei que não ia ter, ein. que ia continuar empilhando corpos nus na sombra do meu colchão. mas, olha só, aparentemente eu queria um só. o corpo inteirinho dela, todo pra mim, com aqueles olhos lindos que, hoje, sempre me dizem alguma coisa. antes não diziam, não. antes os olhos dela só me assustavam. morria de medo de apanhar daquela mina, irmão. hoje eu só torço pra ela não ir embora. pra ela continuar me olhando. isso é o que eu tenho. o jeito que ela me olha. o beijo que ela me dá. ninguém deve ter recebido aquele beijo. eu jamais deixaria ir embora alguém que me beija do jeito que ela me beija. eu jamais vou deixá-la ir embora. ela é o que eu tenho. ela é minha sorte. todo resto me tira o prumo. eu perco a classe. e tem tanta babaquice espalhada. é a própria pauliceia desvairada. bem como autodeclarada, inutilíssima. a diferença é que a pauliceia de mario de 1922 servia como poesia que só tem a si mesma como a razão de ser. esses mandamentos excludentes não têm razão alguma de ser ou existir. a não ser o fomento da ignorância. da grosseria. da falta de educação. da proteção dos que nem fracos, nem oprimidos são. dos que só merecem da vida o foda-se e um copo d’água. só faltou falar que cazuza tava errado e que o banheiro não é a igreja de todos os bêbados. daí não ia dar. eu ia ser obrigada a tomar um porre. e dar na cara dele. e lembrar, sorrindo, que o banheiro é a igreja de todos os bêbados. incontestável. negar seria reprodução falaciosa. deve ser crime. é? alguém sabe?

uns bons quase dez anos

uns bons quase dez anos atrás você me disse reza pra esse ano eu cumprir todas as minhas promessas. devia ser dezembro, a gente sempre conversou mais perto do final do ano porque rola toda aquela nostalgia de quem deveria estar mais na nossa vida e nunca está porque a gente tá ocupado demais descumprindo promessas e vivendo no piloto automático dos dias que nunca mudam – aqueles dos quais a gente insiste em reclamar. uns bons quase dez anos atrás você me disse que queria cumprir mais suas promessas, mas eu nunca acreditei que você cumpriria e foi exatamente por isso que, naquele dia, enquanto respondia sua mensagem, eu pedi um café com pão de queijo. uns bons quase dez anos atrás eu não era intolerante à lactose e podia comer vários pães de queijo com café, e sempre pedia mesma coisa, você lembra?, faz uns bons quase dez anos, mas agora eu só troquei o pão de queijo por uma esfiha qualquer que não tenha leite pra eu não cair numa dor de barriga nos botecos que eu vou. muita coisa mudou nesse tempo todo e, uns bons dez anos atrás, a gente vivia numa realidade paralela com muitas bandas ruins e momentos esquisitos e dores de cabeça que vinham de situações que a gente se esforçava muito pra criar só pra ter problema pra reclamar, porque era bonito, porque parecia maduro, porque era melhor se tivesse do que reclamar. uns bons dez anos atrás a gente pedia café com pão de queijo e escondia um do outro os erros que cometia como se o outro não estivesse cometendo exatamente o mesmo erro. aliás, uns bons quase dez anos atrás eu cometia muitos erros imbecis e só ia pra boteco pra comer pão de queijo e tomar café, o que era um dos maiores erros porque botecos têm cervejas e cachaças e pingas e coisas muito mais legais para oferecer do que café melado e pão de queijo dormido, e pra responder suas mensagens. uns bons quase dez anos atrás você me disse reza pra esse ano eu cumprir todas as minhas promessas e faz mais ou menos uns bons dez anos que eu te respondi o que era esperado de ser respondido pra alguém que nunca cumpre promessas, e eu lembro claramente de abaixar a cabeça pra rir na hora de responder dizendo, adivinha só o que eu acabei de pedir.

como diria Sérgio Vaz

a gente sabe muito bem como funciona. escolhe fingir que não, mas não dá pra fugir: a vida só é o que é. não tem grandes emoções, nem um grande apelo no final: é 1 mais 1 que soma 2 e nenhuma boa fé vai fazer dar 11. aliás, Sérgio Vaz diria: viver é foda. o resto é poesia.

até essa frase que, sem querer, rimou. é só coincidência. não existe uma motivação externa ou qualquer intenção da escritora, que bate nas teclas com um pouco mais de força que o necessário, de fazer soar melhor. a vida não é feita pra soar bem, a vida não é feita pra ter flores nas pedras. adélia odeia olhar pra pedra e ver pedra. adélia, minha querida: é uma pedra. qualquer outra coisa é sorte. coincidência positiva. às vezes, aparece uma flor. às vezes, elas nascem. é a natureza. há quem admire, há quem ignore, há quem escolha poetizar. verbalizo, sempre.

a vida como verbo de ação é o meu ponto de partida. o problema, veja só, é que a gente raramente chega em algum lugar. qualquer que seja. em geral, a gente não sai de onde tá. sobe de cargo, muda de emprego, vai pra mais longe, assiste um show, ouve um som, pinta, escreve, transa, canta, bebe mais que deveria, fuma mais do que deveria, se enfia em buracos que não deveria. e a vida te mantém sempre lá: aqui, a priori. intacta. estática. empática, por escolha, quem quiser. escolhas, coincidências, reticências. a vivência é só o impacto do tanto faz nas ações de quem sempre faz. o resto é poesia. tem que fazer. alguma coisa. qualquer coisa. ou não fazer. mas lidar, sempre lidar. com a vida sendo o que é – e só o que é. o que você está fazendo?