um guia para achar a poesia

fico triste quando a poesia se perde pela vida: quando se perde por entre os deuses, os amores, as pedras no sapato que insistem em não sair e de forma alguma não se tornam um poema, um texto, uma crônica, um negócio que você coloca em algum lugar pra alguém ler. eu fico triste quando a vida se perde por entre os poemas, mas é melhor que se perca a vida e se ache poemas do que ver a poesia escorrer pelo ralo. geralmente, limpo. quando se perde poesia, se limpa a casa. não deixe que suas panelas brilhem mais do que você, me disseram uma vez, e a gente sempre brilha pouco quando tem muito tempo pra arear panela. mas não dá pra culpar: a poesia não tem apelo, não tem prenúncio de guerra, salvação ou vida eterna – e tem gente que acha os três num deus só. acontece que é triste demais quando a poesia se perde por entre os dias e fica ainda mais triste quando a gente não consegue achar de jeito nenhum. fica ainda mais e mais triste, daquela tristeza que escorre um pouco do olho mas não chega a ser choro, quando a gente percebe que ela foi pra tão longe que nem tem como voltar, sabe? sabe quando a gente tenta achar a poesia e acha um negócio meio parecido, mas que não chega ainda a ser poesia fica ali no meio do caminho, um negócio que não chega a ser poesia, mas pelo menos já deixa a panela de molho uns dois dias, sabe? aquele negócio que não chega a ser poesia talvez seja a melhor forma de chegar na poesia, porque quando a gente começa a pensar em procurar, quem sabe, a poesia, esse negócio que não serve pra muita coisa nem garante vida eterna pra ninguém, a poesia se sente um pouco mais querida, um pouco mais bem quista, com um pouco de espaço no meio da sujeira de quem não tem tempo pra limpar porque tá procurando  poesia. e aí talvez quem sabe ela chegue. quem sabe a poesia chegue se você procurar num fundo do copo de uísque ruim ou no filtro de um cigarro daqueles que custam menos do que deveria. eu acredito que a poesia deva estar naquele bar que você parou de ir pra começar a meditar. eu tenho certeza, na verdade, porque eu encontrei a sua poesia lá da última vez que fui. ela não tava com saudade, falou foi mal de você, mas rancorosa ela nunca foi e, bem, foi um monte de bons momentos amontoados que vocês passaram juntos então eu imagino que ela, se você procurá-la, vá aceitar voltar pra você. eu sei que é um pedido meio escroto, meio arrastado, assim, sem muita poesia, mas é que eu perdi a minha um tempo atrás e consegui encontrar, aí toda vez que eu vejo alguém perder a poesia eu fico tão triste quando a poesia se perde pela vida que eu precisei vir aqui te dizer que essa meditação aí não leva ninguém pra lugar nenhum e que é nosso jeito fodido de achar poesia na própria fodeção que garante que a gente vá chegar em qualquer lugar com ainda mais poesia. e vale a pena chegar lá, já me disseram. não tem vida eterna, nem salvação, nem guerra e muito menos perdão, mas poesia tem. e disseram que, poesia, comida e putaria, lá, sempre se faz bem.

o sabonete velho na casa nova

parece quase errado mudar de casa tão do nada que o sabonete ainda tá meio inteiro e é claro que eu não vou jogar fora pelo amor de deus então se liga aí que tô tomando mais banhos que o normal nesses últimos dias na minha casa velha então devo estar mais cheirosa amor vem checar mas então como eu estava dizendo super esquisito isso de mudar de casa do nada tem que colocar a vida na caixa e a gente que trabalha com essas coisas que a gente trabalha sempre fala de pensar fora da caixa será que vale também pra mudança?, as mudanças fora da caixa devem dar um trabalhão é tanto treco né como que eu poderia levar o sabonete sem ter uma caixa onde colocar por exemplo.

fluxo de consciência III

as últimas pessoas que me inspiraram a escrever algo foram o bruno bandido e o val. eu acho que já li todos os livros do val. acho. eu com certeza li todos os posts do bruno bandido, o que é estranho porque ele escreve no mesmo blog faz quase dez anos e eu o conheço há menos de um. mas li. eu também li quase tudo do mario bortolotto, que também é bem bom, mas não li tudo porque ele vive no parlapatões, que é um bar sujo na roosevelt, e gosto de fingir que em algum momento vou encontrá-lo por lá e pedir pra ele me contar as histórias que não quis ler. e como mesmo assim quero escrever, qualquer coisa que seja, meio suja e meio mal-feita, talvez, se é que existe um crivo de qualidade parado em algum lugar aqui perto, fico rodando atrás do meu próprio rabo falando um monte de merda. começo a falar umas asneiras sem muito nexo de outras histórias que eu não tive nem onde ler e acabei ouvindo quando sentei num bar. nunca o parlapatões, porque nunca vou lá pra beber só pra mijar e claramente nunca vou conhecer o mario bortolotto, mas, nesse bar que eu sentei, eu conheci alguém e aí quis escrever. alguém que tá sempre contando uma história nada a ver sobre algo que eu não me importo. ou usando “pitch” no meio do papo e deixando escancarado que trabalha numa agência. as pessoas que trabalham em agências são o alívio cômico nos textos de escritores fodidos desde os anos 80 porque ninguém gosta de pessoas que trabalham em agências. cheira a café velho e cigarro ruim. nesse momento que o fator Funcionário de Agência aparece & dependendo da quantidade de cerveja que eu já tomei, nesse momento muito específico, eu levanto os braços e grito AH NÃO MAS EU NÃO SAÍ DE AGÊNCIA PRA ACHAR PUBLICITÁRIO NO BAR NÃO EIN CÊ NÃO ME COMEÇA QUE O PRIMEIRO QUE FALAR JOB EU VOU SOCAR, ou então eu interrompo porque não quero saber de pitch nenhum, mas quero falar um monte de coisa que também não tem nexo, e começo a contar histórias aleatórias sobre como a paixão me pegou tentei escapar e não consegui ou, as que são minhas preferidas, histórias meio mórbidas e meio engraçadas com personagens que ninguém nunca vai conseguir humanizar de forma homogênea já que meus personagens não têm o menor nexo também. uma vez escrevi sobre um cara que pegava fogo no próprio sofá porque deixou um bolo no forno. ele morria, mas isso todo mundo já sabia porque o nome do texto é no final dessa história alguém vai morrer. nem sempre eu conto que as histórias são histórias e é sempre bom observar a feição dos presentes para o choque doido de imaginar alguém pegando fogo num sofá por causa de um bolo. ou quando eu começo a testar a veracidade das histórias dos meus personagens e falo que tenho um amigo jogador de vôlei que fuma e ninguém fica tão chocado assim porque, olha, um monte de atleta fuma e isso explica porque tá todo mundo sempre em dia com o peso ideal, né?, é, eu acho que sim. as pessoas acreditam no que elas querem, você pode testar com o que quiser. um amigo meu da faculdade convenceu minha mãe de que era astrólogo e ela nem tinha terminado a primeira taça de vinho. escorregou quando colocou a lua em marte, mas ela é crente demais pra perceber qualquer coisa que tenha a ver com estrelas. ele é, até hoje, pra ela, meu amigo astrólogo. deve ser assim que ela tá se convencendo até agora de que eu sou tudo o que ela sempre quis que eu fosse – e eu acho bom que ela continue assim. imagina só que bosta se ela aceitasse que eu, na verdade, quando ela acha que eu deveria estar na igreja, tô plantada na porta do boteco fumando um cigarro e tomando cerveja pra ter coragem de começar mais uma semana sem saber direito o que vai acontecer. imagina se ela soubesse que eu gasto tempo de vida tentando contar um monte de história que pipoca na minha cabeça sem muito final. imagina a tristeza se ela parasse de mentir pra si mesma e aceitasse que eu sou esse acumulado de bosta que vomita bosta e fala bosta e continua fazendo bosta mesmo sabendo que bosta gera bosta e que não tem como isso cheirar bem. fede mais que funcionário de agência. imagina só. depois me conta. se for legal, vou escrever. se não for, vou fazer ficar. se não der, paciência. nem tudo dá. tem gente que dá. tem gente que não dá. eu só descubro. ou invento.

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a arte imita a vida.

fluxo de consciência II

eu tava aqui pensando que tem uma parada bem bizarra acontecendo por aí. é mais ou menos assim: você não vai mais ter direito de ser você. mais ou menos isso. agora você precisa ouvir um babaca te falando que você não pode beijar sua mina, não. que vai ter que passar pó de arroz porque sua cara tá da cor tá errada. que vai ter que se readequar, oras. oras é o cacete. readequar minhas bolas. e olha que nem bola eu tenho. eu não cheguei nem a me adequar. isso aqui já tá errado há tempo o bastante pra todo mundo concordar que precisava fazer alguma coisa. mas a ideia era melhorar. m e l h o r a r. enfiar no meu cu um cano de pvc de 30cm de diâmetro não era uma opção plausível. nem sei qual seria. essa, com certeza, não. aí, depois desse papelão de readequação, vêm falar de esforço. quer mais esforço? duazora pra chegar no trabalho, duazora pra chegar em casa, um vale refeição abaixo do esperado e uma carga trabalhista compatível com o mercado (o que não quer dizer que é pouco). um monte de conta pra pagar. sexo só quando dá. a única coisa que eu tenho que faz bem é um amor pra chamar de meu. e olha que eu achei que não ia ter, ein. que ia continuar empilhando corpos nus na sombra do meu colchão. mas, olha só, aparentemente eu queria um só. o corpo inteirinho dela, todo pra mim, com aqueles olhos lindos que, hoje, sempre me dizem alguma coisa. antes não diziam, não. antes os olhos dela só me assustavam. morria de medo de apanhar daquela mina, irmão. hoje eu só torço pra ela não ir embora. pra ela continuar me olhando. isso é o que eu tenho. o jeito que ela me olha. o beijo que ela me dá. ninguém deve ter recebido aquele beijo. eu jamais deixaria ir embora alguém que me beija do jeito que ela me beija. eu jamais vou deixá-la ir embora. ela é o que eu tenho. ela é minha sorte. todo resto me tira o prumo. eu perco a classe. e tem tanta babaquice espalhada. é a própria pauliceia desvairada. bem como autodeclarada, inutilíssima. a diferença é que a pauliceia de mario de 1922 servia como poesia que só tem a si mesma como a razão de ser. esses mandamentos excludentes não têm razão alguma de ser ou existir. a não ser o fomento da ignorância. da grosseria. da falta de educação. da proteção dos que nem fracos, nem oprimidos são. dos que só merecem da vida o foda-se e um copo d’água. só faltou falar que cazuza tava errado e que o banheiro não é a igreja de todos os bêbados. daí não ia dar. eu ia ser obrigada a tomar um porre. e dar na cara dele. e lembrar, sorrindo, que o banheiro é a igreja de todos os bêbados. incontestável. negar seria reprodução falaciosa. deve ser crime. é? alguém sabe?

uns bons quase dez anos

uns bons quase dez anos atrás você me disse reza pra esse ano eu cumprir todas as minhas promessas. devia ser dezembro, a gente sempre conversou mais perto do final do ano porque rola toda aquela nostalgia de quem deveria estar mais na nossa vida e nunca está porque a gente tá ocupado demais descumprindo promessas e vivendo no piloto automático dos dias que nunca mudam – aqueles dos quais a gente insiste em reclamar. uns bons quase dez anos atrás você me disse que queria cumprir mais suas promessas, mas eu nunca acreditei que você cumpriria e foi exatamente por isso que, naquele dia, enquanto respondia sua mensagem, eu pedi um café com pão de queijo. uns bons quase dez anos atrás eu não era intolerante à lactose e podia comer vários pães de queijo com café, e sempre pedia mesma coisa, você lembra?, faz uns bons quase dez anos, mas agora eu só troquei o pão de queijo por uma esfiha qualquer que não tenha leite pra eu não cair numa dor de barriga nos botecos que eu vou. muita coisa mudou nesse tempo todo e, uns bons dez anos atrás, a gente vivia numa realidade paralela com muitas bandas ruins e momentos esquisitos e dores de cabeça que vinham de situações que a gente se esforçava muito pra criar só pra ter problema pra reclamar, porque era bonito, porque parecia maduro, porque era melhor se tivesse do que reclamar. uns bons dez anos atrás a gente pedia café com pão de queijo e escondia um do outro os erros que cometia como se o outro não estivesse cometendo exatamente o mesmo erro. aliás, uns bons quase dez anos atrás eu cometia muitos erros imbecis e só ia pra boteco pra comer pão de queijo e tomar café, o que era um dos maiores erros porque botecos têm cervejas e cachaças e pingas e coisas muito mais legais para oferecer do que café melado e pão de queijo dormido, e pra responder suas mensagens. uns bons quase dez anos atrás você me disse reza pra esse ano eu cumprir todas as minhas promessas e faz mais ou menos uns bons dez anos que eu te respondi o que era esperado de ser respondido pra alguém que nunca cumpre promessas, e eu lembro claramente de abaixar a cabeça pra rir na hora de responder dizendo, adivinha só o que eu acabei de pedir.

como diria Sérgio Vaz

a gente sabe muito bem como funciona. escolhe fingir que não, mas não dá pra fugir: a vida só é o que é. não tem grandes emoções, nem um grande apelo no final: é 1 mais 1 que soma 2 e nenhuma boa fé vai fazer dar 11. aliás, Sérgio Vaz diria: viver é foda. o resto é poesia.

até essa frase que, sem querer, rimou. é só coincidência. não existe uma motivação externa ou qualquer intenção da escritora, que bate nas teclas com um pouco mais de força que o necessário, de fazer soar melhor. a vida não é feita pra soar bem, a vida não é feita pra ter flores nas pedras. adélia odeia olhar pra pedra e ver pedra. adélia, minha querida: é uma pedra. qualquer outra coisa é sorte. coincidência positiva. às vezes, aparece uma flor. às vezes, elas nascem. é a natureza. há quem admire, há quem ignore, há quem escolha poetizar. verbalizo, sempre.

a vida como verbo de ação é o meu ponto de partida. o problema, veja só, é que a gente raramente chega em algum lugar. qualquer que seja. em geral, a gente não sai de onde tá. sobe de cargo, muda de emprego, vai pra mais longe, assiste um show, ouve um som, pinta, escreve, transa, canta, bebe mais que deveria, fuma mais do que deveria, se enfia em buracos que não deveria. e a vida te mantém sempre lá: aqui, a priori. intacta. estática. empática, por escolha, quem quiser. escolhas, coincidências, reticências. a vivência é só o impacto do tanto faz nas ações de quem sempre faz. o resto é poesia. tem que fazer. alguma coisa. qualquer coisa. ou não fazer. mas lidar, sempre lidar. com a vida sendo o que é – e só o que é. o que você está fazendo?

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje. não é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. é uma parada: é mais ou menos como se a cidade inteira – ou a avenida paulista – parassem pra celebrar o orgulho lgbt no mesmo canto durante algumas horas. é a única data do ano que as pessoas não tacam coisas em pessoas no metrô por causa de arco-íris ou do seu tipo de amor. é basicamente o livre direito de circulação de pessoas lgbtq pra cidade. é mais ou menos assim: para aí, a parada é nossa. a cidade inteira, hoje, é nossa.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia. e é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. essa parada é ótima: a gente tá aparecendo. saindo do armário, sabe? pouco a pouco, porque ainda dá medo. é osso de aguentar gente falando na sua orelha, eu admito. é osso de aguentar parente falando que você nunca foi assim, por que agora é?!, como se fosse uma escolha de roupa nova do dia. é osso de aguentar ouvir que é amigo de quem a gente ama do fundo do peito. é osso de aguentar ouvir que a gente é bicho, é verme, é sujeira, é promíscuo. a gente não é nada disso, não, cara. a gente é gente boa demais.
a gente quer dar risada da vida e faz isso todo dia, quando dá. quando não tem um da gente morrendo, tomando lampadada, sendo sequestrado, sendo injustiçado no trabalho, sendo nivelado por baixo porque não deixa seu amor pra lá. a gente dá risada da vida quando consegue andar de mão dada sem ter que ouvir que é bonito demais para. a homofobia é uma merda, puta que pariu, que grandessíssima merda. mas tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje, tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia e, com sorte, vai ter uma parada gay acontecendo dentro de todo mundo um dia pra todo mundo entender que essa parada de ser gay não tem que fazer ninguém parar, não.
aliás, a parada é movimento, dança, é gente que se mexe, gente que quer fazer a roda girar, fazer a vida acontecer sem tanto drama, sem tanta trama, sem precisar criar esquema pra gente poder ser. a gente não quer ser gay – a gente nasceu gostando de gente e tá vivendo aí fazendo o que o peito diz que faz bem. tá bom ou quer mais? vou te contar: vai acontecer uma parada muito gay nos próximos dias quando eu encontrar a mulher que eu descobri que eu amo. e ela é linda, viu? muito, muito, muito linda. e a parada gay que acontece entre a gente tem tanto movimento que me leva mais pra frente do que eu jamais acreditei que pudesse ir. e acontece todo dia.
é uma coisa louca. dá até vontade de cantar daniela: a cor dessa cidade sou eu. quando eu tô com ela, o canto dessa cidade é todo nosso. eu quero movimentar essa parada pra gente poder ser movimento pra todo canto. essa parada que é um negócio tipo treco tipo bagulho tipo trem. tipo tudo isso. juntinho. igual a gente. que gosta de ser junto. juntinho.

você é a soma do que não precisa ser

você não precisa pegar o mesmo trajeto todos os dias. nem economizar no almoço de segunda. nem ir pro bar na sexta. nem deixar de responder uma ofensa só porque veio de alguém cujo papel social parece importar. você não precisa engolir sapos. nem aceitar um contrato meia-boca. você não precisa esconder seus medos, defeitos e tentar apagar as cagadas do passado. você não precisa aguentar gente chata. você não precisa ser simpática com gente chata.
você não precisa ter empatia com todo mundo. você não precisa estar sempre feliz, nem fingir que está tudo bem quando não está. você não precisa saber tudo, nem conhecer tudo, nem conhecer o mundo. mas, se puder, conheça, saiba e saia por aí. conhecer o seu bairro inteiro já é bastante coisa. você não precisa usar sutiã. você não precisa esconder as tatuagens. nem o maço de cigarros no fundo da mochila. você não precisa fingir que gosta de alguém. nem de mim. nem me avisar.
você não precisa olhar o lado bom da vida todos os dias. nem dar passagem pra um carro que vem de um cruzamento quando você está com pressa. você não precisa abaixar o volume do fone de ouvido. nem maneirar na cerveja. nem beber até cair todo final de semana. você não precisa sair. você não precisa ficar em casa. você não precisa usar o mouse com a mão direita. você não precisa usar um mouse. você não precisa responder aquele cara. nem aquela mina. você não precisa ser um cara ou uma mina legal. você sequer precisa ser um cara ou uma mina, ponto.
você só precisa ser você. essencialmente. com quem está ao seu redor. e assumir a bronca que ser você trará. sempre traz. olhar a vida de frente. não se fazer de vítima das circunstâncias e não permitir que te coloquem no espaço de coitado. você não é coitado, nem vítima de nada. você é a soma das coisas que não precisa ser, mas é. você é resultado do que você não precisa fazer, mas faz. você só precisa saber quem é e o que não tolera. nem precisa saber o que gosta: só saber o que não aceita já limita muita coisa. você só precisa respeitar quem o outro é, mesmo que isso signifique mantê-lo longe. e você precisa deixar a esquerda livre. esse último não é negociável.

por aí

já é meio manjada essa coisa de querer escrever e não saber o que daí se enfiar numas de chamar de fluxo de consciência o monte de tralha que assola a cabeça de qualquer panaca que se mete a escrever qualquer coisa. porque escrever é uma merda: você enfia o dedo na garganta e ninguém tá nem ai pro que vai sair, mas você sai mendigando atenção dos outros para olharem os restos de você que saíram à força d’um lugar que ninguém queria visitar. e aí começa a falar de coisas babacas e banais como a caixa de papelão cheia de roupas amassadas que fica do lado da cama da garota que te faz agir como uma completa idiota também. começa a escrever sem muito filtro sobre como é um inferno trabalhar tanto e como ninguém aguenta mais a sensação de que a vida não passa. ninguém é muita gente, quem não aguenta é você mesma. e aí pensa que essas reclamações talvez sejam masculinas demais e que a coisa desgraçada de beber demais, fumar demais e quase vomitar com o cheiro de cigarro nos próprios dedos é coisa de escritor fudido. mas aí lembra que você é uma escritora fudida, mesmo, e não tem muito como fugir. já é meio manjada a coisa do escritor fudido, mas, veja só, tão feminista que sou enfiei a porra da igualdade na pior parte possível. e agora sou uma escritora fudida tal qual tantos escritores fudidos que frequentam, sozinhos, bares sujos e pagam pouco por muito álcool pra ver se estabiliza alguma coisa de uma cabeça que nunca pára quieta se não estiver completamente tonta por causa do álcool. bebe demais, fala demais, alto demais. nada de poético ou de bonito em ser fudida. mas, escrevendo babaquices esses dias eu descobri, olha só, nunca quis ser diferente. então foda-se.

armários

eu nem queria sair do armário e me socaram pra fora porque começaram a falar que deus não era legal, porque, olha, veja bem: gente legal não é homofóbica nem segregacionista nem te julga porque você transa antes de assinar meia dúzia de papéis – na real, mesmo, se você for ler a bíblia vai entender que deus era legal sim porque quer que a gente seja feliz de verdade e não faz o menor sentido botar numa necessidade fisiológica o peso da fogueira do inferno, mas, tá, seguimos: me socaram pra fora do armário porque eu não suportaria nem a pau viver dentro daquele lugar escuro e sem cor, daí, bem, foi isso, saí do armário da religião pela porta da frente e, ao invés de viver livre leve solta, soquei todos os meus amigos gays dentro do armário da minha vida e fingi para papai e mamãe que não eram gays coisa nenhuma eram só duas amigas, só dois amigos, ele tava abraçando de pertinho porque é bem carinhoso mesmo, eu juro, não precisa nem questionar duas vezes, mas aí elas se beijaram lá e minha mãe viu umas mensagens e ok, é gay, que que tem, deixa serem felizes, eu não tenho nada a ver com isso: até ter e nossa, como eu tenho a ver com isso e o que é isso que eu estou sentindo?, se ela é uma mulher eu não deveria estar me sentindo assim, tinha que ser diferente, tinha que ser um sentimento de admiração e amizade, mas eu queria mesmo era beijá-la até o dia virar noite e continuar beijando depois que a lua aparecesse pra dar seu brilho pro céu e aí isso pra mim era ser feliz de verdade, porque ela me fazia feliz de verdade, então eu preciso fingir que não e, olha lá, me instalei dentro do armário de novo, mas cansei, não tenho mais idade pra mentir, e saí do armário pela décima sétima vez e caminhei pra fora com o peso do mundo nas costas e agora eu to andando por aí avisando pra todo mundo que perguntar que o beijo que eu quero de manhã vem de outra mulher e ela é a pessoa mais linda do mundo e a porta do armário não cabe mais no meu quarto e na verdade o que eu sinto por ela também é bem maior que aquele espaço e eu explodo o tempo todo porque sinto que se eu me apaixonar só mais um pouquinho por ela meu coração vai triplicar de tamanho e vou precisar de um corpo novo pra colocá-lo: o nando reis fala que tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém e, hoje, fora do armário, talvez eu tenha entendido tudo e queira muito não explodir e só tornar esse amor real e entregá-lo às mãos que seguram as minhas pela rua, em público, sem madeira nenhuma em volta até porque marrom é uma cor morta e ela é a pessoa que mais gosta de cores que eu conheço – espero que tenha sido por isso que ela tenha escolhido ficar comigo: eu gosto das cores todas e meus amigos dizem que eu sou uma das pessoas mais coloridas que eles conhecem e eu quero dar pra ela razão pra enxergar todas as cores que existem nesse mundo.