é segunda-feira

você acorda mal humorada. dá três ou quatro passos em direção ao móvel mais próximo pra se apoiar e achar os chinelos no chão. já são seis e quinze, você tinha que ter saído do banho às seis e dez.

é segunda-feira. seus óculos escorregam pelo nariz com uma pele descamada proveniente de um bate-volta numa praia suja que provavelmente te deu alguma infecção. a infecção não se manifesta, mas os óculos escorregam. e caem. no chão. com a lente virada pra baixo, é claro. pior que manteiga.

são seis e quarenta e você sai correndo pra não perder o ônibus. tropeça. cai. sem óculos, não tem nada pra quebrar. só o nariz. e quebra. vai de ônibus pro hospital, só pra não atrapalhar ninguém. o nariz dói muito. o motorista diz pra você descer pela frente. a coisa deve estar feia. você tenta enxergar a situação pela câmera frontal do celular, mas criou um mofo esquisito nela já faz alguns anos e você é fudida demais pra conseguir parcelar um novo em doze. quem tem linha de crédito decente depois dos trinta morando em são paulo? você não.

o hospital tá cheio. a recepcionista te olha com cara de dó. “até o óculos caiu e quebrou hoje cedo, não enxergo direito a ficha, você pode me ajudar?”. cara de dó. pronto atendimento lotado. você senta. preenche errado. diz que seu nome é feminino e que mora na rua 09876–555. assina no campo de número da carteirinha do convênio. entrega com os dados errados. a recepcionista quase ri. te entrega uma nova folha e diz: “pede ajuda pra alguém, é melhor”. você fica em dúvida se é um conselho ou uma ameaça.

horas na fila de espera. um velho com manchas pelo corpo e muito cheiro de cigarro ruim (existe algum bom?) ronca muito alto do seu lado. você começa a odiar o fato dele respirar e odiar as empresas de cigarro que não cumprem suas promessas de morte a seus consumidores.

sua vez. o médico é desengonçado e não olha na sua cara. provavelmente nem viu que você está com o nariz sangrando e mais vermelha do que estava na praia que te deu infecção (se ele tivesse olhado na sua cara, você teria perguntado se tem uma infecção). ele não olha, você tem preguiça de discutir.

toma aqui, 2 semanas de cataflan. 2 vezes ao dia. vai resolver.

“você não vai colocar no lugar?”

ah, é. desculpa.

ele não vai olhar pra você. ele vai ajeitar a placa com o nome dele na mesa. porque ele acha que você quer saber o nome dele. você vai ficar muito brava e vai “sem querer” “deixar cair” a placa com o nome dele. e aí ele vai olhar na sua cara.

e você vai embora. e vai pra casa. são onze e meia. você esqueceu o atestado. é segunda-feira.

no fim da tarde, uma mensagem nova no happn: “oi, tudo bem? o que vai fazer hoje?”

quebrar o óculos, o nariz e a placa com o nome de um médico desengonçado que me deu cataflan pra uma fratura.

e você?

juro por deus

não é possível que só eu esteja sentindo tudo isso, mas, enfim, é isso, faz parte, tem que seguir e olha só o tanto de coisa pra fazer, meu deus, eu não vou dar conta, vou precisar chamar ele de novo pra me ajudar e aí vou ter que adiar a compra do meu computador por mais um mês pra pagar o freela, mas tudo bem, faz parte, tem que seguir. mês passado eu fiquei quatro horas na fila pra descobrir que precisava tomar cataflan de novo e minha garganta não para de inflamar, já tentei gengibre vick vaporub antibióticos antiinflamatórios e até o diabo do cataflan eu já tomei três vezes e nada, não sei mais o que fazer, será que a garganta de mais alguém inflamou? esse cara não me responde há uns quarenta minutos e visualizou, será que deu alguma merda?se ele foi assaltado também eu desisto da vida. não aguento mais rodar o feed do facebook e encontrar várias variações da mesma piada condensada em tweets cortados na mesma dimensão, deve ter uns 350px de altura e sabe-se lá deus quantos de largura, nunca fui boa de proporção, olha aí, outro, a água que não bebereis, gente, todo mundo sabe que alguém sempre acaba bebendo o diabo da água. se a gente não bebe a água, a gente vive pra quê, sabe? tem que beber mesmo, dessa água me afogareis, se deus quiser. preciso terminar esse monte de coisa, a gente pode deixar a cerveja de amanhã pra segunda-feira que vem? é que de segunda não tenho reunião e fica mais fácil, amanhã é dia de terapia e complica tudo. desculpa mesmo, eu nem lembrei disso quando marquei, fiquei tão animada. MEEEUUU, cê nem vai acreditar, semana passada entrei num trampo novo MUITO LEGAL e fiquei empolgadíssima, foi uma loucura, cê não tem nem ideia. opa, vamo comemorar. pode ser na terça? segunda vou sair com um cara que conheci aí num desses grupos de facebook. ou será que esse foi no bar? eu não lembro. preciso terminar o media kit antes do meio-dia senão eu com certeza vou ser demitida. ei, relaxa, eu sei que dói quando a gente termina, mas é mais fácil do que parece, sabe? a gente sempre aprende a viver sem aquela pessoa e o cheiro dela não se torna mais tão nocivo assim, eu garanto. você vai conseguir ficar perto, dar risada, falar de culinária bela gil veganismo sexo contracultura trainspotting drogas lícitas ilícitas e de vocês sem problema nenhum, eu juro. juro por deus já tentei até mesmo provar do extremo, filipe catto falou e eu sempre achei absurdíssimo, mas será que sonrisal, guaraná, rum, cachaça e veneno é tanta coisa assim? é melhor deixar pra lá, ele não visualiza há horas e com certeza não vai ligar de novo. deixa quieto, outra hora a gente conversa, vai ver tá ocupado. taí, de novo, outra piada com a água. é sério, só bebe a água. tá calor. não é possível que só eu esteja sentindo tudo isso.

puro, por favor

quase fumei, contei até três pra não me distrair e fui andando em linha reta contando os tijolos vermelhos na calçada desnivelada. era domingo, o céu estava nublado e algumas poças da manhã chuvosa ainda permaneciam no asfalto. era domingo e eu quase fumei na calçada desnivelada — quis ter um carro só pra bater, atropelar meia dúzia que nunca mais ia ver, cantar muito alto domingos de alexandre nero pra assustar criancinhas e velhinhos com o refrão prometendo que vamos foder o dia inteiro. quase fumei, mas decidi captar a emoção do proibido com alguma música desconhecida, com um resquício de vida que pudesse ser condensado num arquivo de áudio compartilhado pelo spotify com caminho direto para os meus ouvidos.

eu andava na calçada cambaleando quase sem saber pra onde ir, emoção à flor da pele que também parecia não ter mais graça ali. era domingo de manhã, quase fumei os cigarros que você deixou no bolso de fora da minha mochila. mirabolei que talvez você pudesse ter se perdido, mesmo que já fizessem semanas e agora eu já estivesse caminhando novamente por essas mesmas ruas no caminho de volta pra casa, mas mirabolei que você pudesse ter se perdido, porque acreditar no que diziam, que você fugiu, se escondeu de mim, foi pra longe porque quis e não vai voltar, não!, sempre doía mais a medida que a vida ia acontecendo e os minutos passando com os tijolos vermelhos contados nessa calçada desnivelada.

era domingo, quase fumei. mas cheguei em casa pelo caminho mais longo, contei trezentos e oitenta tijolos vermelhos, não bati um carro, nem mesmo procurei um carro pra bater, não atropelei ninguém, nem assustei crianças e velhinhos gritando que iria foder sendo que não iria foder nem o dia inteiro – nem dia nenhum. não acendi um cigarro sequer. era domingo de manhã, quase fumei. passei um café. açúcar ou adoçante? puro, por favor. ainda bem.

passa amanhã

hoje eu queria escrever sobre as coisas que eu não consigo falar e descrever cada um dos sentimentos que eu não consigo mais demonstrar. eu queria falar de amor ao próximo, abraços ótimos, de um mar de olhares que eu nunca transformei em nada. nunca. nada. hoje eu queria usar palavras eternas pra dizer que dois e dois só são quatro na matemática e que todas as outras disciplinas são indisciplinadas pra somar. hoje eu queria escrever de paz, de sossego e de tudo que faz tempo que eu não consigo sentir e já não sei mais como buscar.

hoje eu queria atravessar na frente do carro e sentir o vento bater no cabelo e conhecer a sensação de ouvi-lo dizer: “foi por pouco” e depois escrever sobre o segundo exato em que tive certeza de que iria sobreviver. hoje eu queria sobreviver. e escrever sobre a sensação de estar viva. hoje eu queria escrever sobre reviver os dias, sobre cantar fora de hora e lugar e me sentir num karaokê saindo da estação do metrô. hoje eu queria escrever sobre yoga, pilates, meditação, ahayuaska, natação e todas as coisas que a gente nunca faz.

hoje quando eu acordei eu pensei sobre a falta. e desde então a vida me tirou o fôlego necessário pra completar a frase que eu comecei a escrever pra dizer o que hoje eu acordei pra dizer. e só me sobrou a falta. e nunca consigo dizer nada. nunca. nada. palavras eternas sem razão. toda força do mundo no vazio do sem porquê.

hoje eu queria escrever. quem sabe amanhã.

o que era pra ser

era pra você ser uma crônica escrita num domingo de manhã, com cheiro de café recém-coado e gosto de quem dormiu tudo o que precisava. era pra você ser um poema escrito na sexta a noite depois do expediente, com o peso das costas e o suor do dia que insiste em nunca acabar. era pra você ser só um dos textos que eu escrevo por aí e que parecem ter seis páginas de extensão e me obrigam a cortar até caber em mil e quinhentos caracteres. era pra você ser um texto que eu escrevi no meu diário e nunca tirei de lá, porque falava muito profundamente sobre nós sem dizer nada sobre coisa nenhuma. era pra você ser só uma frase que eu rabisquei no canto do caderno de tarefas e nunca tirei de lá.

mas aí você veio como uma avalanche e tomou conta da coisa toda, se tornou uma odisseia contemporânea de doze volumes e eu não consigo mais ver fim. você veio fazendo o papel de tsunami que prometeu que faria e estraçalhou tudo o que viu pela frente, transformou meus poemas em cobertor e os usou pra se aquecer nos dias em que o gelo do mundo tomava conta de dentro de você. você fez exatamente o que prometeu e não pensou duas vezes antes de me transformar na palavra mais dita do seu dia, no canto que nunca cessa, no livro de cabeceira que sempre está ao lado, que é indicado pra todo mundo, que todo mundo precisa ler, mas que faz uma década e meia que serve de apoio pros óculos que você coloca na cabeceira antes de dormir.

era pra você ser um poema, mas você veio como um turbilhão e eu já não sei mais usar as palavras pra outra coisa que não seja te contar que era pra você ser um monte de coisa que você avisou que não seria — e eu insisti em não acreditar.

identidade

eu queria ser da balada, da noite, da vodca quase pura pingada de doce e gelo, do som alto com batidas contínuas e do andar tropeçado da madrugada gelada. queria ser dos que dormem sem meia no pé e planejam viagens homéricas para todo final de ano, mas não teve jeito: nasci pro chão batido de barro ao som de voz e violão.

nasci pra boteco com mesa de plástico (quando muito, madeira) e cerveja gelada no tempo que for. nasci pro samba raiz, sendo ensinada que quem não gosta de samba bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou é doente do pé. nasci boa de cabeça e boa de pé, mesmo que, pra dançar, só saiba usar os ombros.photo_2017-10-12_19-26-50

nasci pra viagem de carro no meio do dia, pra ir até o mar e agradecer. vim pra andar até onde dá ouvindo que a vida tem sempre razão, pra lembrar que a melhor qualidade que alguém pode ter é a gratidão. me olho no espelho e sei que tô aqui pra mais do que constar: não sirvo pra ser gesso de parede. nasci pra ser alicerce, concreto, arquiteta e construtora da vida que escolhi ter.

escolhi.

queria ser quem consegue viver esperando que a vida aconteça a qualquer custo, com a plena fé de que o acaso vai proteger quando andar distraído. pudera eu ser quem coloca um casaco pela manhã e, das oito às seis, aperta botão, cumpre tarefa, responde e-mails e, ao final do dia, volta pra casa com sensação de trabalho realizado, porque no fim do mês o salário vem.

o salário vem, mas a vida continua e que vida é essa que você precisa acordar cedo e colocar um casaco pela manhã pra apertar botões das oito às seis?

a vida que escolhi pra mim vai além, porque a pele é muita pra só servir pra sentir frio e ser coberta com casaco. a pele envolve todo o corpo e o corpo precisa sentir.

queria ser quem sente só frio, mas nasci pra sentir tudo. nasci pra sentir na pele frio, calor, arrepio, calafrio, abraço, toque do outro, meu próprio toque. nasci com uma pele que não aceita ser a mesma e, de quando em quando, descama e troca e envelhece e se rejuvenesce sozinha com o uso contínuo da vida como verbo de ação.

não nasci pra batida eletrônica alta nem pra virar madrugada trançando as pernas, porque na madrugada que tentei acabei parada na porta do metrô com um livro do caio fernando abreu que dizia que alguém vinha e o puxava e ao invés de tirá-lo do fundo do poço o afundava ainda mais e quem o puxava era aquele ser icônico e, agora sim, homérico que, assim como esse texto, minhas constantes, minhas verdades e a minha vida, não acaba nem assim nem agora e nem aqui

um conselho que eu nunca cumpri

eu já tinha falado num outro texto que eu sempre tento muito. é bem bonito na poesia: todo mundo enche o peito pra dizer que sou determinada e batalhadora. e sou mesmo! tento à exaustão tudo o que aparece na minha frente. se é trampo, corro atrás até ter certeza de que não vou conseguir fazer. se é problema, me desdobro em trinta pra tentar resolver. não importa do que se trata, vou tentar até estar escrito em vermelho, em letras garrafais: cê não vai conseguir, cacete!

por que raios eu seria diferente com pessoas?

bom, a resposta eu tenho — só não tento (falar que não consigo é mentir) mudar a minha essência que grita dizendo: mais uma tentativazinha não vai fazer mal à ninguém…

mas faz mal, sim. sempre faz.

e eu vou falar o porquê.

é uma merda quando você fica tentando, porque as coisas têm prazo de validade. tem coisa que nasceu pra ser aquele único encontro legal que te deu aquele up pra voltar a tentar conhecer pessoas, quando você já saiu com tanta gente maisoumenos que não vê nem sentido tentar conhecer alguém. tem gente que nasceu pra ser na sua vida só a brisa suave que traz paz num dia quente e horrível onde a cerveja esquenta em cinco minutinhos parada na sua mão. algumas pessoas aparecem só pra ser aquele abraço. só aquele. gente que nunca vai se tornar sua amiga, mas vai sim aparecer na sua vida num momento caótico pra te dar o conselho que você precisava escutar e te servir como mola impulsora para que volte a conseguir respirar.

tem gente que nasceu pra ser aquela meia dúzia de beijos bons, mas depois ficar na sua vida como uma saudade tão boa quanto — e nada mais. tem gente que nasceu pra ser uma noite só: tudo de melhor de uma vez e termina com um beijo que sela tudo e fim. sem tempo nem pra vírgulas. muita gente nasce pra não ser nada depois da manhã seguinte.

tem gente que nem dura até lá.

tem gente que tá ali só pra não ser, saca?

o importante é a gente ter o tine de saber quando parar. quando não é mais pra ser. se relacionar também é saber dizer não. relacionamento também é término — mesmo que isso aconteça em menos de 24h. estar com alguém também é ter a sensibilidade de olhar pra frente e saber se o que acontece dentro de você também acontece no coração que pulsa do outro lado da mesa.

e mais importante do que perceber e saber é parar e falar: “ok. a gente era pra ser isso aqui. que bom que fomos!”, sem esperar que a resposta seja: “voltakiiiiiiiiiii” (com k mesmo).

na verdade, saber parar de tentar é se respeitar. é entender que você também tem prazo de validade de ficar esmurrando o diacho da ponta da faca e que talvez do outro lado da mesa até tenha um coração que pulsa, mas não é por você — e não bata nem um pouquinho mais forte.

saber parar de tentar é aceitar que às vezes as pessoas não estão na tua vida pra isso. é saber que cada coisa tem um porquê e que nem sempre precisa durar milianos pra explicar à quê veio.

é entender e aceitar que depois do prazo de validade, nada fica bom: o queijo estraga, o leite fede e as pessoas amargam. invariavelmente.

já dizia o velho dito popular, o mais clichê de todos, aquele que até teu tio manda pela manhã no grupo da família: não importa o tempo que as coisas duram, mas a intensidade com que acontecem.

e é, né? tem gente que precisa de cinco anos pra fazer na tua vida o que alguém pode fazer em três dias. não é demérito de ninguém, é só a droga da vida cumprindo seu papel de nos deixar confusos diariamente. eu sei, é uma bosta.

também não sei lidar.

pelo menos eu avisei.

estragar as próprias relações é um direito inalienável

andar por aí, pela vida, sozinha, é uma das coisas que mais gosto de fazer desde que me conheço por gente. amo a companhia dos meus amigos, incríveis, com ótimas piadas e boa voz, mas amo a minha, do meu caderno de anotações e meus fones de ouvido. andar por aí só comigo é uma delícia.

independente disso, existem dias em que a última pessoa com que quero ficar é comigo. nessas, convido pessoas — das mais aleatórias possíveis — , pra me fazerem companhia nos tantos cantos que procuro conhecer.

numa porta de entrada de bar, encontrei um amigo que não via há uns quatro anos, se escolhermos arredondar pra menos e quisermos diminuir a vergonha de não ver alguém por quem se tem tanto apreço por tantos anos. mas sendo sincera, naquele dia específico completaria o sexto ano sem vê-lo. eu nunca esqueceria a data. a vida nos deu caminhos completamente diferentes e nós somos horríveis em combinar qualquer coisa. é sempre do nada, sempre num lugar que não dá pra chegar de ônibus, sempre com uma roupa que não diz “caraca! o tempo te fez bem!”.

esse amigo era especial: a gente viveu todas as fases juntas. passamos pela fé, pela ausência dela, pelo rock, pela mpb, pelo ativismo, pela universidade pública, pela fase horrível & maravilhosa de desistir de todos os cursos da vida e viver da própria arte (até aprendermos que dinheiro não dá em árvore e entrarmos na fase de trabalhar em qualquer coisa pra ganhar qualquer mil reais por mês) e chegamos juntos na fase da faculdade, trabalhando muito mais pra ganhar um pouco mais e pagarmos muitas cervejas um para o outro.

esse amigo era especial: sempre foi. desde o dia em que nos conhecemos, sabíamos que iríamos passar muito tempo juntos. a gente se deu super bem quando, no ônibus indo pro sítio, cantamos juntos todas as músicas e versões que um colega arranhava num violão desafinado que alguém tinha tido a maravilhosa ideia de levar. a gente sabia que ia viver muitas histórias, porque enquanto todo mundo enchia a cara de vinho barato e comia paçoca, a gente sentou pra conversar do lado da fogueira e descobriu que o gosto literário batia, as referências musicais eram as mesmas e, se fosse pra somar o meu ipod e o dele, só teríamos umas 15 músicas novas cada um (ele ganharia minha marisa monte e eu receberia os novos baianos de presente).

quando a gente encontra gente que combina com a gente, a gente tem mania, hábito e essa coisa errada de transformar em amor romântico. ele podia ter sido um amigo maravilhoso que viveria coisas maravilhosas comigo, mas a gente achou que já que a gente cantava tanta coisa boa, lia tanta coisa boa e conhecia os mesmos lugares, a gente devia se beijar, dar as mãos e passar um bom tempo deitados revesando entre quem dava o colo agora.

porque a gente foi pelo amor romântico, com o tempo perdemos o interesse da novidade e esquecemos que tínhamos tudo pra dar certo. até porque a gente nem tinha. a gente tinha o mesmo gosto musical e gostava das mesmas coisas, mas ele nunca aceitaria a quantidade de livros que eu guardo, eu nunca superaria a mania insuportável de ser instável e não conseguir decidir nada – e ele não conseguia passar por cima disso. aceitar os sintéticos que ele adorava nunca passou pela minha cabeça e ele nunca foi de gostar de mulher que bebe demais — e eu sempre dou um jeito de enfiar uma cerveja na rotina.

por isso, quando a gente decidiu que não ia mais ficar junto, a gente fez daquelas quinze músicas o nosso trato de amizade e manteve contato em alguns encontros esporádicos que sempre acabavam em beijos, mãos dadas e tempo deitados revesando quem dava colo. a gente sabia que não ia dar certo: pela manhã, era sempre estressante precisar ir embora brigado e passar milênios no ponto de ônibus esperando algum que fosse pra estação chegar perto da casa dele, que é longe de toda civilização.

mas a gente insistia muito nisso. o papo sempre começava bom, a gente descobria que mesmo separado acabava passando pelas mesmas coisas. quando pedi as contas e fui trabalhar de freelancer full-time, ele tinha acabado de fazer o mesmo e estava agora vendendo seus textos e criando pautas incríveis pra um jornal que a gente sempre gostou de ler. a gente conversava sobre como era bom não estar no sistema, a liberdade de trabalhar pra si, a graça de não ter CLT e o lado bom de não precisar depender de VR. a gente conversava sobre a graça de fazer a própria comida e como fazia bem respirar pela manhã sabendo que você está construindo com as próprias mãos a sua própria vida.

a gente insistia em sugerir “dorme lá em casa” depois do papo bom, porque sempre esquecia que ia ser estressante entrar na casa um do outro e lembrar que por trás de tanta coincidência existem dois seres humanos que não têm nada a ver um com o outro. e por mais que nas primeiras três horas fosse super possível ignorar, na manhã seguinte o café já estava mais amargo do que deveria e o beijo de despedida era sempre uma bochechada seguida por uma porta que batia mais forte do que era realmente necessário.

a gente estragava os nossos laços até precisarmos ficar seis anos sem as coincidências, as músicas e os livros. a gente foi criando barreiras tão fortes que nem a menina que dançava ao som de novos baianos conseguia superá-las.

a gente cagou tudo, porque estragar a própria vida é um direito inalienável (já diria amélie poulain). mas, dessa vez, quando eu o convidei pra tomar uma cerveja no meio do nada num lugar que eu achei e precisei enviar a localização do celular pra passar o endereço — dessa vez, quando ele chegou, ele trouxe uma menina com ele. e essa menina não tinha nada a ver com a gente, mas não dava a mínima pros sintéticos, era tão instável quanto ele e não colocava uma gota de álcool na boca desde os dezoito.

e aí a gente conseguiu fazer o que deveria ter feito desde o dia que se conheceu: fomos cada um pra sua respectiva casa, dormimos felizes pelo reencontro e conseguimos dar play na lista com quinze novas músicas que com certeza vamos gostar de ouvir sem o estresse matinal que a gente nem precisava ter tido durante todos esses anos.

estragar as próprias relações é um direito inalienável que, por deus, ninguém deveria ter.

não é porque acabou que precisa acabar com você

nem nos piores dias eu desejei não ter te conhecido.

até porque viver um amor é uma das melhores coisas que estar vivo nos propicia: é bom beijar, é bom abraçar, é bom dormir perto, é bom sentir e decorar o cheiro, é bom compartilhar a vida, é bom encaixar no peito, é bom dividir as dores, é bom caber na agenda. amar é uma delícia, até quando deixa de ser.

e aí, quando deixa de ser, a gente segue. segue, porque o amor não deixa de ser amor só porque deixou de estar junto. o amor segue sendo amor mesmo que cada um siga amando a si, mesmo que apareçam novos peitos, cheiros, abraços e lábios. mesmo que apareçam novos — mesmo que se escolham os velhos, que não mais os seus, que não mais os meus. o amor segue sendo amor mesmo que a vida pareça turva, mesmo que os dias pareçam errados, mesmo que as músicas pareçam provocativas e tragam de volta à memória os abraços, cheiros e peitos que já não se abraçam, sentem ou encaixam.

e aquela vida que se divide e multiplica porque são duas, o dia que se estende e se entende com o calor do cobertor e aquela mão que segura a outra mão e acaricia a ponta do dedão nunca deixam de ser bons, presentes ou reais só porque o amor deixa de ser. ainda bem que os dias se mantêm azuis, que o céu se mantém ensolarado e o cobertor, mesmo que só pra um, mantém-se aquecido e pronto para te confortar nos dias mais gélidos dessa primavera tão linda.

o amor tanto mantém-se sendo amor que, mesmo ele que deixe de ser pra dois no auge do outono que é frio e propício à solidão, ele traz a primavera florida e linda pra provar que, por mais que o amor deixe de estar, o amor segue sendo amor em todas as outras coisas.

o amor sempre é amor. a gente só esquece de ver.

pediram pra eu falar de desapego

fazia algum tempo que ninguém me pedia um texto.

na semana passada, uma colega (que eu poderia dizer que é da faculdade, mas, na verdade, é só do bar, mesmo) me falou: você precisa escrever sobre desapego.

aí eu comecei a pensar: putz. desapego. desapego é complicado. desapego é contar pra quem tá lendo que ele não vai ganhar nada continuando enfiado em algo pelo hábito. desapego é desmistificar o amor romântico que tudo suporta — mesmo se o assunto for amizade. desapego é precisar explicar que não adianta de nada insistir em dar murro de ponta de faca só pra provar pra si mesmo que tentou até o fim. falar de desapego é precisar falar que é melhor provar pra si mesmo que só escolheu ficar bem.

aí tá. passou.

ontem a noite, depois de chegar de uma comemoração de aniversário de uma pessoa maravilhosa que conheci há pouquíssimo tempo, voltei a ponderar: qual foi a última coisa da qual eu me desapeguei?

primeiro, achei que tivessem sido dos livros. aí lembrei que também doei e vendi alguns dvds. mas aí lembrei que tinha um cara me dando no saco que eu mantinha contato por ser amigo da família que eu também mandei passear.

e depois lembrei que coloquei um monte de roupa que não servia e tava super socada no fundo do armário na bolsa de doação. e lembrei também que além de tudo isso eu desapeguei do hábito ruim de falar sim por impulso e tenho falado vários nãos. mas aí pensei melhor e meu coração apertou quando eu lembrei de qual tipo de desapego ela tinha pedido pra eu falar.

alguém lembra dessa brincadeira?

ela tinha pedido pra eu escrever sobre aquele desapego que dói, sabe? aquele que a gente tira com a mão. aquele desapego que aparece na nossa vida como se fosse um soco na cara. aquele que é igual era jogar mertiolate na ferida nos anos 90. aquele que significa fazer uma escolha, sabe? ela tava falando de desapegar de algo que nem sempre é ruim, mas muitas vezes acaba ficando e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.

ela tava pedindo pra eu falar que a gente precisa deixar ir pra conseguir ser bem feliz. ela tava falando daquele desapego que a gente precisa ter pra conseguir seguir a vida sem chorar ao ouvir músicas que todo mundo ouve dançando. ela veio me pedir pra escrever sobre o desapego que a gente precisa ter pra voltar à vida com alegria.

o que ela veio me pedir — vocês não imaginam como foi esse pedido — foi pra eu escrever sobre como a gente precisa abrir o peito pra receber o novo, como a gente precisa voltar no b-a-ba do sentimento pra não se deixar cair, como a gente precisa abrir mão pra voltar a respirar em paz.

eu acho que a gente sempre sabe que precisa desapegar das coisas, sabe?

a gente sabe mesmo, o nosso peito sabe, a mente sabe, o coração sabe. é que a angústia fala mais alto e a gente se habitua a ter por perto. mas, olha, eu vou te falar: a gente precisa olhar pra dentro pra lembrar os porquês. entende?

tudo tem a ver com os porquês. você, eu, a gente precisa respirar muito fundo e tentar decifrar de onde veio esse impulso de parar. uma hora a gente precisa parar de tentar e isso vem de dentro.

a gente tem que entender os porquês pra deixar ir.

e, já que você me pediu pra falar de desapego, eu vou falar sem papas na língua: se você acha que deixar ir é uma merda, é porque nunca pensou no absurdo que é se segurar no vento. o tapa dói e você nem entende de onde vem.