a importância da autoconsciência e das coisas que a gente não pode aceitar na cama de casa

tem muita gente por aí aceitando muita coisa que não devia. não preciso ir longe — na real, não preciso chegar nem no quintal de casa. pra ser mais específica, não preciso sair do quarto. deitada comigo, eu mesma trago pra cama, de quando em quando, uma porção de coisas que não deveria. pessoas. projetos. lugares. experiências. cansaços. notícias. pesares.

coisas que poderiam ter ficado lá, de onde nunca deviam ter saído e eu, sendo como sou, insisti em arriscar. trazer. e carregar.

mas a gente precisa lembrar, todo dia antes de levantar da cama, exatamente quem é, o que aceita, à quê veio e exatamente o quê é capaz de mexer com a nossa cabeça. parece muita coisa, mas dá pra separar nos dedos de uma mão sem precisar preenchê-la por completo. geralmente dá pra especificar numa frase. se apertar, numa palavra só.

saber quem eu sou me faz escapar de muita furada. e me faz mergulhar de braçada em outras inúmeras. ser quem sou me trouxe empregos, parceiros de trabalho, amigos que abraçam apertado, experiências maravilhosas e uma porção de histórias pra contar (que eu com certeza vou repetir mil vezes, porque, sendo quem sou, esqueço de tudo).

saber que sou quem sou é o que me faz seguir minhas vontades sem pestanejar e viver a vida deliciosamente, sem mais pisar em ovos. é o que me garante que um “puts, isso foi cagada minha! me desculpa?” não diminui em nada o que sou para quem convive comigo, porque a autoconsciência de ser alguém que vale a pena ter por perto faz com que uma cagada aqui e outra acolá, se bem conversadas e esclarecidas, não são nada perto do monte de coisa boa que eu, sendo quem sou, posso dividir com quem divide a vida comigo.

isso não é umbiguismo: saber quem você é garante que você saiba, também, quais são seus pontos fracos e até onde isso é relevável pra quem tá ali no teu cangote no dia-a-dia. saber quem se é também é entender que a gente precisa ser um pouco mais do que foi ontem pra não parar no tempo. saber quem se é também é deixar de ser.

a gente tem que saber quem é pra evitar de trazer pra cama gente – e coisa – que só vai fazer mais peso na sua cabeça na hora de descansar no travesseiro. a gente precisa saber os pontos altos e baixos da gente pra não se enfiar em beco sem saída e acabar com o travesseiro molhado de choro angustiado numa madrugada qualquer. a gente tem que saber quem é, até onde vai e o que aceita pra não se afogar numa maré que nem sempre é preciso nadar contra.

a gente tem que saber quem é pra poder viver em paz. pra saber que, pelo sim, pelo não, pela boa decisão, pela cagada, pelo mergulho em mar aberto ou pela ducha no chuveiro de casa, a gente faz o que faz por respeito à quem, pela manhã, sempre acorda comigo numa cama que, se tudo der certo, amanhã vai ter uma coisa a menos com o quê dividir espaço.

(em resposta ao poema “eu durmo comigo”, de Angelica Freitas)

eu nunca

você sempre, eu nunca. quem vira o copo? uma vida baseada em amores rasos que vão embora rápido numa peripécia infinda de tentar envolver qualquer coisa que não tenha nem solução, nem objetivo, nem questionamento, nem consequência pro caso de vir a acabar. a gente se envolve nas coisas pra quê, se nem objetivo têm? pra onde elas vão, afinal?

você sempre vai, eu nunca fico. a gente acaba no mesmo lugar, mas, o copo, quem vira?

eu viro a casaca, jogo no mundo, quero que o mundo se acabe em fel pra eu poder adoçar. você assiste o espetáculo e aplaude no final. se bato o pé no chão e jogo o braço pro céu, você segura minha mão e me beija pra me calar a boca. não dá pra te enfiar em música nenhuma, porque você canta todas e tudo te encaixa bem. eu sou uma coletânea riscada das canções do cazuza que ninguém nunca ouviu. exagerado é pouco e o amor que ele inventa não chega nem perto do amor que a gente criou. e que criação, ein?

moldamos a mão cada uma das curvas de uma estrada de barro, horrível de andar apé, pior ainda pra pneus de má qualidade como os do seu carro – que vive quebrado enfurnado em alguma oficina meia-boca que nunca vai resolver problema nenhum. e a gente anda mesmo assim. você, sem reclamar. eu, listando todos os contras. o único pró é que você tá junto. pra você, a paisagem vale o perrengue. esse copo, mais ainda, por deus, quem será que toma.

você sempre, eu nunca. eu nunca topo nada pré-agendado, detesto essa parada de ir sempre no mesmo lugar e caminho pela vida descobrindo pra onde tô indo a cada passo que dou. você sempre sabe pra onde vai, senta na mesma mesa do mesmo bar, pede a mesma cerveja pro mesmo garçom que já decorou seu gosto, seu rosto e seu cartão. você tava no de sempre, eu tava no de nunca. por acaso, dividimos o balcão. duas pingas, puras, sem limão.

você sempre, eu nunca.

quem vira?

uma crônica de amor louco que nada tem a ver com bukowski

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mas vou colocá-lo aqui mesmo assim

a gente acorda mais tarde do que deveria e acha lugar pra sentar no metrô. escuta uma música que lembra alguém, escuta outra que quase soa como alguém que você nunca deixou de lembrar. olha pra frente, bate o olho num cabelo claro e comprido e lembra daquele outro alguém que amanheceu na sua sacada num dia de céu esquisito. dois passos afrente, o aleatório escolhe uma música que lembra alguém que te tira o sono. seu coração acelera. você pensa que se apaixonou pela pessoa errada e precisa muito contar pra alguém quanto está sofrendo. dessa vez é sério, você sempre diz. é diferente. o jeito que me olha. as coisas que me faz sentir. ok, talvez não seja lá a pessoa que mais vale no mundo, mas vai ser diferente. comigo é. e é claro que não é. e dói, dói muito, dói no peito e você sente a vontade de se contorcer no próprio corpo e ignorar seus discursos e se entregar a um amor muito doido que claramente não foi feito pra ser nada, só uma grande bagunça na sua cara. um amor que nasceu pra durar o marlboro que o maurício pereira fuma na rua às oito da noite, como todo mundo. um amor que não cabe nem em trovoa, que já é por si só um amor muito doido. você escuta trovoa. e, de novo, diz que está amando e que vai ser diferente. vai ser daqueles amores de tomar cerveja fora de hora e discutir amenidades como quem descobre a cura pra todas as mazelas da humanidade (como a arrogância e a impaciência crônica). a gente só ama pra se iludir. a gente só ama pra acreditar que um dia vai ser diferente, que hoje é insuficiente, mas vai deixar de ser já, já. o já, já quase nunca chega e a gente dorme com o peso do mundo no peito. a gente não chora, mas bebe mais do que deveria, canta mais alto do que deveria qualquer canção que traga a sensação de autossuficiência que não existe, beija um gato entre as orelhas, acende um cigarro atrás do outro perto do metrô barra funda, brinca com um cachorro de rua e quase chora quando ele vai embora. a gente entra no metrô e pega um vagão diferente, encara o medo e sobe a rua apé quando já é mais tarde do que a região permite. a dor deixa a gente ter coragem. e aí chega em casa, o dia foi doido, você sabe, o chefe, aquela pilha de coisas, já é fim do mês, tem relatório pra entregar e a lista de pautas parece não ter fim. e nem tem. a gente para tudo, acorda mais tarde do que deveria, acha lugar pra sentar e, quando coloca o fone, a vida, ingrata que é, nos presenteia com uma regravação de arco de luz que entrou no disco novo de filipe catto. você respira fundo: o dia seguinte é sempre melhor, a gente consegue até passar as músicas que machucam. a próxima é um grito. o aleatório escolhe a última música do disco novo, que canta eu quero mais é que você se foda. você não quer que ninguém se foda. a gente só quer que as pessoas fiquem bem, a gente só quer juntar o nosso corpo nossa mente nossa cabeça nossa literatura nossas músicas nossos anseios – a gente só quer juntar nosso nós com alguém que, vai saber, seja como maurício e fume um marlboro na rua como todo mundo. alguém que cante filipe catto, talvez. alguém que não te embrulhe o peito no metrô. te faça esboçar um sorriso, talvez. daqueles de canto de boca, que não dê nem pra disfarçar. e que dure. pelo amor, que dure. pelo menos até a próxima música, se é que eu posso pedir.

eu preciso dizer que te amo

vou ser prática, porque a vida corre rápido e não tenho tempo pra ficar explicando sentimento que é meticulosamente explicitado diariamente. assim, não quero ser grossa: longe disso. mas você me conhece melhor do que ninguém e sabe que eu não sou de muito mimimi. então, vamos logo: eu preciso muito dizer que te amo.
preciso mesmo, mas vou ser prática pra não aumentar muito a conversa. bem, tá aí: eu te amo e preciso que você saiba disso pra que você jamais ache que não levo seu cafuné matinal a sério. na verdade, me importo muito e o amo quase tanto quanto amo você. preciso dizer que te amo pra que você tenha convicção plena de que seus beijos são os melhores que já provei, que seus braços têm os melhores abraços da vida e que são seus olhos que quero olhar todos os dias antes de dormir.
eu preciso dizer que te amo pra que você jamais deixe, em hipótese alguma e sob nenhuma desculpa, esfarrapada ou justificável, de dormir ao meu lado diariamente, deixando o calor do seu corpo passar direto para o meu. digo que te amo, agora, nessa forma rápida de dizer “eu amo você” pra você não esquecer, no meio do stress, que tem alguém aqui, do lado de dentro do peito, te enviando todas as coisas boas que te cabem. então, sempre que sua cabeça te enfurecer, teus trabalhos te cansarem, teus olhos pesarem, tua mente enfurecer, não esqueça que tem alguém aqui que, mesmo que na correria e na falta de tempo, tirou um tempo pra te lembrar que precisa dizer, mesmo que de um jeito meio tonto, que te ama sem nem pensar no porquê.
eu preciso dizer que te amo, porque aprendi a tomar as rédeas da minha própria vida e te amar é a escolha mais certeira que eu tomei nos últimos tempos. e, também, porque sei que, nós dois sendo tanto como somos nós dois, essa escolha se tornará diariamente certeira até que deixe de ser.
e te digo que se deixar de ser, meu bem, não existirá um momento nessa vida em que me arrependerei de ter parado esses minutos para lembrar que eu, por muito sentir, precisava dizer que te amo.

é segunda-feira

você acorda mal humorada. dá três ou quatro passos em direção ao móvel mais próximo pra se apoiar e achar os chinelos no chão. já são seis e quinze, você tinha que ter saído do banho às seis e dez.

é segunda-feira. seus óculos escorregam pelo nariz com uma pele descamada proveniente de um bate-volta numa praia suja que provavelmente te deu alguma infecção. a infecção não se manifesta, mas os óculos escorregam. e caem. no chão. com a lente virada pra baixo, é claro. pior que manteiga.

são seis e quarenta e você sai correndo pra não perder o ônibus. tropeça. cai. sem óculos, não tem nada pra quebrar. só o nariz. e quebra. vai de ônibus pro hospital, só pra não atrapalhar ninguém. o nariz dói muito. o motorista diz pra você descer pela frente. a coisa deve estar feia. você tenta enxergar a situação pela câmera frontal do celular, mas criou um mofo esquisito nela já faz alguns anos e você é fudida demais pra conseguir parcelar um novo em doze. quem tem linha de crédito decente depois dos trinta morando em são paulo? você não.

o hospital tá cheio. a recepcionista te olha com cara de dó. “até o óculos caiu e quebrou hoje cedo, não enxergo direito a ficha, você pode me ajudar?”. cara de dó. pronto atendimento lotado. você senta. preenche errado. diz que seu nome é feminino e que mora na rua 09876–555. assina no campo de número da carteirinha do convênio. entrega com os dados errados. a recepcionista quase ri. te entrega uma nova folha e diz: “pede ajuda pra alguém, é melhor”. você fica em dúvida se é um conselho ou uma ameaça.

horas na fila de espera. um velho com manchas pelo corpo e muito cheiro de cigarro ruim (existe algum bom?) ronca muito alto do seu lado. você começa a odiar o fato dele respirar e odiar as empresas de cigarro que não cumprem suas promessas de morte a seus consumidores.

sua vez. o médico é desengonçado e não olha na sua cara. provavelmente nem viu que você está com o nariz sangrando e mais vermelha do que estava na praia que te deu infecção (se ele tivesse olhado na sua cara, você teria perguntado se tem uma infecção). ele não olha, você tem preguiça de discutir.

toma aqui, 2 semanas de cataflan. 2 vezes ao dia. vai resolver.

“você não vai colocar no lugar?”

ah, é. desculpa.

ele não vai olhar pra você. ele vai ajeitar a placa com o nome dele na mesa. porque ele acha que você quer saber o nome dele. você vai ficar muito brava e vai “sem querer” “deixar cair” a placa com o nome dele. e aí ele vai olhar na sua cara.

e você vai embora. e vai pra casa. são onze e meia. você esqueceu o atestado. é segunda-feira.

no fim da tarde, uma mensagem nova no happn: “oi, tudo bem? o que vai fazer hoje?”

quebrar o óculos, o nariz e a placa com o nome de um médico desengonçado que me deu cataflan pra uma fratura.

e você?

juro por deus

não é possível que só eu esteja sentindo tudo isso, mas, enfim, é isso, faz parte, tem que seguir e olha só o tanto de coisa pra fazer, meu deus, eu não vou dar conta, vou precisar chamar ele de novo pra me ajudar e aí vou ter que adiar a compra do meu computador por mais um mês pra pagar o freela, mas tudo bem, faz parte, tem que seguir. mês passado eu fiquei quatro horas na fila pra descobrir que precisava tomar cataflan de novo e minha garganta não para de inflamar, já tentei gengibre vick vaporub antibióticos antiinflamatórios e até o diabo do cataflan eu já tomei três vezes e nada, não sei mais o que fazer, será que a garganta de mais alguém inflamou? esse cara não me responde há uns quarenta minutos e visualizou, será que deu alguma merda?se ele foi assaltado também eu desisto da vida. não aguento mais rodar o feed do facebook e encontrar várias variações da mesma piada condensada em tweets cortados na mesma dimensão, deve ter uns 350px de altura e sabe-se lá deus quantos de largura, nunca fui boa de proporção, olha aí, outro, a água que não bebereis, gente, todo mundo sabe que alguém sempre acaba bebendo o diabo da água. se a gente não bebe a água, a gente vive pra quê, sabe? tem que beber mesmo, dessa água me afogareis, se deus quiser. preciso terminar esse monte de coisa, a gente pode deixar a cerveja de amanhã pra segunda-feira que vem? é que de segunda não tenho reunião e fica mais fácil, amanhã é dia de terapia e complica tudo. desculpa mesmo, eu nem lembrei disso quando marquei, fiquei tão animada. MEEEUUU, cê nem vai acreditar, semana passada entrei num trampo novo MUITO LEGAL e fiquei empolgadíssima, foi uma loucura, cê não tem nem ideia. opa, vamo comemorar. pode ser na terça? segunda vou sair com um cara que conheci aí num desses grupos de facebook. ou será que esse foi no bar? eu não lembro. preciso terminar o media kit antes do meio-dia senão eu com certeza vou ser demitida. ei, relaxa, eu sei que dói quando a gente termina, mas é mais fácil do que parece, sabe? a gente sempre aprende a viver sem aquela pessoa e o cheiro dela não se torna mais tão nocivo assim, eu garanto. você vai conseguir ficar perto, dar risada, falar de culinária bela gil veganismo sexo contracultura trainspotting drogas lícitas ilícitas e de vocês sem problema nenhum, eu juro. juro por deus já tentei até mesmo provar do extremo, filipe catto falou e eu sempre achei absurdíssimo, mas será que sonrisal, guaraná, rum, cachaça e veneno é tanta coisa assim? é melhor deixar pra lá, ele não visualiza há horas e com certeza não vai ligar de novo. deixa quieto, outra hora a gente conversa, vai ver tá ocupado. taí, de novo, outra piada com a água. é sério, só bebe a água. tá calor. não é possível que só eu esteja sentindo tudo isso.

puro, por favor

quase fumei, contei até três pra não me distrair e fui andando em linha reta contando os tijolos vermelhos na calçada desnivelada. era domingo, o céu estava nublado e algumas poças da manhã chuvosa ainda permaneciam no asfalto. era domingo e eu quase fumei na calçada desnivelada — quis ter um carro só pra bater, atropelar meia dúzia que nunca mais ia ver, cantar muito alto domingos de alexandre nero pra assustar criancinhas e velhinhos com o refrão prometendo que vamos foder o dia inteiro. quase fumei, mas decidi captar a emoção do proibido com alguma música desconhecida, com um resquício de vida que pudesse ser condensado num arquivo de áudio compartilhado pelo spotify com caminho direto para os meus ouvidos.

eu andava na calçada cambaleando quase sem saber pra onde ir, emoção à flor da pele que também parecia não ter mais graça ali. era domingo de manhã, quase fumei os cigarros que você deixou no bolso de fora da minha mochila. mirabolei que talvez você pudesse ter se perdido, mesmo que já fizessem semanas e agora eu já estivesse caminhando novamente por essas mesmas ruas no caminho de volta pra casa, mas mirabolei que você pudesse ter se perdido, porque acreditar no que diziam, que você fugiu, se escondeu de mim, foi pra longe porque quis e não vai voltar, não!, sempre doía mais a medida que a vida ia acontecendo e os minutos passando com os tijolos vermelhos contados nessa calçada desnivelada.

era domingo, quase fumei. mas cheguei em casa pelo caminho mais longo, contei trezentos e oitenta tijolos vermelhos, não bati um carro, nem mesmo procurei um carro pra bater, não atropelei ninguém, nem assustei crianças e velhinhos gritando que iria foder sendo que não iria foder nem o dia inteiro – nem dia nenhum. não acendi um cigarro sequer. era domingo de manhã, quase fumei. passei um café. açúcar ou adoçante? puro, por favor. ainda bem.

passa amanhã

hoje eu queria escrever sobre as coisas que eu não consigo falar e descrever cada um dos sentimentos que eu não consigo mais demonstrar. eu queria falar de amor ao próximo, abraços ótimos, de um mar de olhares que eu nunca transformei em nada. nunca. nada. hoje eu queria usar palavras eternas pra dizer que dois e dois só são quatro na matemática e que todas as outras disciplinas são indisciplinadas pra somar. hoje eu queria escrever de paz, de sossego e de tudo que faz tempo que eu não consigo sentir e já não sei mais como buscar.

hoje eu queria atravessar na frente do carro e sentir o vento bater no cabelo e conhecer a sensação de ouvi-lo dizer: “foi por pouco” e depois escrever sobre o segundo exato em que tive certeza de que iria sobreviver. hoje eu queria sobreviver. e escrever sobre a sensação de estar viva. hoje eu queria escrever sobre reviver os dias, sobre cantar fora de hora e lugar e me sentir num karaokê saindo da estação do metrô. hoje eu queria escrever sobre yoga, pilates, meditação, ahayuaska, natação e todas as coisas que a gente nunca faz.

hoje quando eu acordei eu pensei sobre a falta. e desde então a vida me tirou o fôlego necessário pra completar a frase que eu comecei a escrever pra dizer o que hoje eu acordei pra dizer. e só me sobrou a falta. e nunca consigo dizer nada. nunca. nada. palavras eternas sem razão. toda força do mundo no vazio do sem porquê.

hoje eu queria escrever. quem sabe amanhã.

o que era pra ser

era pra você ser uma crônica escrita num domingo de manhã, com cheiro de café recém-coado e gosto de quem dormiu tudo o que precisava. era pra você ser um poema escrito na sexta a noite depois do expediente, com o peso das costas e o suor do dia que insiste em nunca acabar. era pra você ser só um dos textos que eu escrevo por aí e que parecem ter seis páginas de extensão e me obrigam a cortar até caber em mil e quinhentos caracteres. era pra você ser um texto que eu escrevi no meu diário e nunca tirei de lá, porque falava muito profundamente sobre nós sem dizer nada sobre coisa nenhuma. era pra você ser só uma frase que eu rabisquei no canto do caderno de tarefas e nunca tirei de lá.

mas aí você veio como uma avalanche e tomou conta da coisa toda, se tornou uma odisseia contemporânea de doze volumes e eu não consigo mais ver fim. você veio fazendo o papel de tsunami que prometeu que faria e estraçalhou tudo o que viu pela frente, transformou meus poemas em cobertor e os usou pra se aquecer nos dias em que o gelo do mundo tomava conta de dentro de você. você fez exatamente o que prometeu e não pensou duas vezes antes de me transformar na palavra mais dita do seu dia, no canto que nunca cessa, no livro de cabeceira que sempre está ao lado, que é indicado pra todo mundo, que todo mundo precisa ler, mas que faz uma década e meia que serve de apoio pros óculos que você coloca na cabeceira antes de dormir.

era pra você ser um poema, mas você veio como um turbilhão e eu já não sei mais usar as palavras pra outra coisa que não seja te contar que era pra você ser um monte de coisa que você avisou que não seria — e eu insisti em não acreditar.

identidade

eu queria ser da balada, da noite, da vodca quase pura pingada de doce e gelo, do som alto com batidas contínuas e do andar tropeçado da madrugada gelada. queria ser dos que dormem sem meia no pé e planejam viagens homéricas para todo final de ano, mas não teve jeito: nasci pro chão batido de barro ao som de voz e violão.

nasci pra boteco com mesa de plástico (quando muito, madeira) e cerveja gelada no tempo que for. nasci pro samba raiz, sendo ensinada que quem não gosta de samba bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou é doente do pé. nasci boa de cabeça e boa de pé, mesmo que, pra dançar, só saiba usar os ombros.photo_2017-10-12_19-26-50

nasci pra viagem de carro no meio do dia, pra ir até o mar e agradecer. vim pra andar até onde dá ouvindo que a vida tem sempre razão, pra lembrar que a melhor qualidade que alguém pode ter é a gratidão. me olho no espelho e sei que tô aqui pra mais do que constar: não sirvo pra ser gesso de parede. nasci pra ser alicerce, concreto, arquiteta e construtora da vida que escolhi ter.

escolhi.

queria ser quem consegue viver esperando que a vida aconteça a qualquer custo, com a plena fé de que o acaso vai proteger quando andar distraído. pudera eu ser quem coloca um casaco pela manhã e, das oito às seis, aperta botão, cumpre tarefa, responde e-mails e, ao final do dia, volta pra casa com sensação de trabalho realizado, porque no fim do mês o salário vem.

o salário vem, mas a vida continua e que vida é essa que você precisa acordar cedo e colocar um casaco pela manhã pra apertar botões das oito às seis?

a vida que escolhi pra mim vai além, porque a pele é muita pra só servir pra sentir frio e ser coberta com casaco. a pele envolve todo o corpo e o corpo precisa sentir.

queria ser quem sente só frio, mas nasci pra sentir tudo. nasci pra sentir na pele frio, calor, arrepio, calafrio, abraço, toque do outro, meu próprio toque. nasci com uma pele que não aceita ser a mesma e, de quando em quando, descama e troca e envelhece e se rejuvenesce sozinha com o uso contínuo da vida como verbo de ação.

não nasci pra batida eletrônica alta nem pra virar madrugada trançando as pernas, porque na madrugada que tentei acabei parada na porta do metrô com um livro do caio fernando abreu que dizia que alguém vinha e o puxava e ao invés de tirá-lo do fundo do poço o afundava ainda mais e quem o puxava era aquele ser icônico e, agora sim, homérico que, assim como esse texto, minhas constantes, minhas verdades e a minha vida, não acaba nem assim nem agora e nem aqui