um conselho que eu nunca cumpri

eu já tinha falado num outro texto que eu sempre tento muito. é bem bonito na poesia: todo mundo enche o peito pra dizer que sou determinada e batalhadora. e sou mesmo! tento à exaustão tudo o que aparece na minha frente. se é trampo, corro atrás até ter certeza de que não vou conseguir fazer. se é problema, me desdobro em trinta pra tentar resolver. não importa do que se trata, vou tentar até estar escrito em vermelho, em letras garrafais: cê não vai conseguir, cacete!

por que raios eu seria diferente com pessoas?

bom, a resposta eu tenho — só não tento (falar que não consigo é mentir) mudar a minha essência que grita dizendo: mais uma tentativazinha não vai fazer mal à ninguém…

mas faz mal, sim. sempre faz.

e eu vou falar o porquê.

é uma merda quando você fica tentando, porque as coisas têm prazo de validade. tem coisa que nasceu pra ser aquele único encontro legal que te deu aquele up pra voltar a tentar conhecer pessoas, quando você já saiu com tanta gente maisoumenos que não vê nem sentido tentar conhecer alguém. tem gente que nasceu pra ser na sua vida só a brisa suave que traz paz num dia quente e horrível onde a cerveja esquenta em cinco minutinhos parada na sua mão. algumas pessoas aparecem só pra ser aquele abraço. só aquele. gente que nunca vai se tornar sua amiga, mas vai sim aparecer na sua vida num momento caótico pra te dar o conselho que você precisava escutar e te servir como mola impulsora para que volte a conseguir respirar.

tem gente que nasceu pra ser aquela meia dúzia de beijos bons, mas depois ficar na sua vida como uma saudade tão boa quanto — e nada mais. tem gente que nasceu pra ser uma noite só: tudo de melhor de uma vez e termina com um beijo que sela tudo e fim. sem tempo nem pra vírgulas. muita gente nasce pra não ser nada depois da manhã seguinte.

tem gente que nem dura até lá.

tem gente que tá ali só pra não ser, saca?

o importante é a gente ter o tine de saber quando parar. quando não é mais pra ser. se relacionar também é saber dizer não. relacionamento também é término — mesmo que isso aconteça em menos de 24h. estar com alguém também é ter a sensibilidade de olhar pra frente e saber se o que acontece dentro de você também acontece no coração que pulsa do outro lado da mesa.

e mais importante do que perceber e saber é parar e falar: “ok. a gente era pra ser isso aqui. que bom que fomos!”, sem esperar que a resposta seja: “voltakiiiiiiiiiii” (com k mesmo).

na verdade, saber parar de tentar é se respeitar. é entender que você também tem prazo de validade de ficar esmurrando o diacho da ponta da faca e que talvez do outro lado da mesa até tenha um coração que pulsa, mas não é por você — e não bata nem um pouquinho mais forte.

saber parar de tentar é aceitar que às vezes as pessoas não estão na tua vida pra isso. é saber que cada coisa tem um porquê e que nem sempre precisa durar milianos pra explicar à quê veio.

é entender e aceitar que depois do prazo de validade, nada fica bom: o queijo estraga, o leite fede e as pessoas amargam. invariavelmente.

já dizia o velho dito popular, o mais clichê de todos, aquele que até teu tio manda pela manhã no grupo da família: não importa o tempo que as coisas duram, mas a intensidade com que acontecem.

e é, né? tem gente que precisa de cinco anos pra fazer na tua vida o que alguém pode fazer em três dias. não é demérito de ninguém, é só a droga da vida cumprindo seu papel de nos deixar confusos diariamente. eu sei, é uma bosta.

também não sei lidar.

pelo menos eu avisei.

estragar as próprias relações é um direito inalienável

andar por aí, pela vida, sozinha, é uma das coisas que mais gosto de fazer desde que me conheço por gente. amo a companhia dos meus amigos, incríveis, com ótimas piadas e boa voz, mas amo a minha, do meu caderno de anotações e meus fones de ouvido. andar por aí só comigo é uma delícia.

independente disso, existem dias em que a última pessoa com que quero ficar é comigo. nessas, convido pessoas — das mais aleatórias possíveis — , pra me fazerem companhia nos tantos cantos que procuro conhecer.

numa porta de entrada de bar, encontrei um amigo que não via há uns quatro anos, se escolhermos arredondar pra menos e quisermos diminuir a vergonha de não ver alguém por quem se tem tanto apreço por tantos anos. mas sendo sincera, naquele dia específico completaria o sexto ano sem vê-lo. eu nunca esqueceria a data. a vida nos deu caminhos completamente diferentes e nós somos horríveis em combinar qualquer coisa. é sempre do nada, sempre num lugar que não dá pra chegar de ônibus, sempre com uma roupa que não diz “caraca! o tempo te fez bem!”.

esse amigo era especial: a gente viveu todas as fases juntas. passamos pela fé, pela ausência dela, pelo rock, pela mpb, pelo ativismo, pela universidade pública, pela fase horrível & maravilhosa de desistir de todos os cursos da vida e viver da própria arte (até aprendermos que dinheiro não dá em árvore e entrarmos na fase de trabalhar em qualquer coisa pra ganhar qualquer mil reais por mês) e chegamos juntos na fase da faculdade, trabalhando muito mais pra ganhar um pouco mais e pagarmos muitas cervejas um para o outro.

esse amigo era especial: sempre foi. desde o dia em que nos conhecemos, sabíamos que iríamos passar muito tempo juntos. a gente se deu super bem quando, no ônibus indo pro sítio, cantamos juntos todas as músicas e versões que um colega arranhava num violão desafinado que alguém tinha tido a maravilhosa ideia de levar. a gente sabia que ia viver muitas histórias, porque enquanto todo mundo enchia a cara de vinho barato e comia paçoca, a gente sentou pra conversar do lado da fogueira e descobriu que o gosto literário batia, as referências musicais eram as mesmas e, se fosse pra somar o meu ipod e o dele, só teríamos umas 15 músicas novas cada um (ele ganharia minha marisa monte e eu receberia os novos baianos de presente).

quando a gente encontra gente que combina com a gente, a gente tem mania, hábito e essa coisa errada de transformar em amor romântico. ele podia ter sido um amigo maravilhoso que viveria coisas maravilhosas comigo, mas a gente achou que já que a gente cantava tanta coisa boa, lia tanta coisa boa e conhecia os mesmos lugares, a gente devia se beijar, dar as mãos e passar um bom tempo deitados revesando entre quem dava o colo agora.

porque a gente foi pelo amor romântico, com o tempo perdemos o interesse da novidade e esquecemos que tínhamos tudo pra dar certo. até porque a gente nem tinha. a gente tinha o mesmo gosto musical e gostava das mesmas coisas, mas ele nunca aceitaria a quantidade de livros que eu guardo, eu nunca superaria a mania insuportável de ser instável e não conseguir decidir nada – e ele não conseguia passar por cima disso. aceitar os sintéticos que ele adorava nunca passou pela minha cabeça e ele nunca foi de gostar de mulher que bebe demais — e eu sempre dou um jeito de enfiar uma cerveja na rotina.

por isso, quando a gente decidiu que não ia mais ficar junto, a gente fez daquelas quinze músicas o nosso trato de amizade e manteve contato em alguns encontros esporádicos que sempre acabavam em beijos, mãos dadas e tempo deitados revesando quem dava colo. a gente sabia que não ia dar certo: pela manhã, era sempre estressante precisar ir embora brigado e passar milênios no ponto de ônibus esperando algum que fosse pra estação chegar perto da casa dele, que é longe de toda civilização.

mas a gente insistia muito nisso. o papo sempre começava bom, a gente descobria que mesmo separado acabava passando pelas mesmas coisas. quando pedi as contas e fui trabalhar de freelancer full-time, ele tinha acabado de fazer o mesmo e estava agora vendendo seus textos e criando pautas incríveis pra um jornal que a gente sempre gostou de ler. a gente conversava sobre como era bom não estar no sistema, a liberdade de trabalhar pra si, a graça de não ter CLT e o lado bom de não precisar depender de VR. a gente conversava sobre a graça de fazer a própria comida e como fazia bem respirar pela manhã sabendo que você está construindo com as próprias mãos a sua própria vida.

a gente insistia em sugerir “dorme lá em casa” depois do papo bom, porque sempre esquecia que ia ser estressante entrar na casa um do outro e lembrar que por trás de tanta coincidência existem dois seres humanos que não têm nada a ver um com o outro. e por mais que nas primeiras três horas fosse super possível ignorar, na manhã seguinte o café já estava mais amargo do que deveria e o beijo de despedida era sempre uma bochechada seguida por uma porta que batia mais forte do que era realmente necessário.

a gente estragava os nossos laços até precisarmos ficar seis anos sem as coincidências, as músicas e os livros. a gente foi criando barreiras tão fortes que nem a menina que dançava ao som de novos baianos conseguia superá-las.

a gente cagou tudo, porque estragar a própria vida é um direito inalienável (já diria amélie poulain). mas, dessa vez, quando eu o convidei pra tomar uma cerveja no meio do nada num lugar que eu achei e precisei enviar a localização do celular pra passar o endereço — dessa vez, quando ele chegou, ele trouxe uma menina com ele. e essa menina não tinha nada a ver com a gente, mas não dava a mínima pros sintéticos, era tão instável quanto ele e não colocava uma gota de álcool na boca desde os dezoito.

e aí a gente conseguiu fazer o que deveria ter feito desde o dia que se conheceu: fomos cada um pra sua respectiva casa, dormimos felizes pelo reencontro e conseguimos dar play na lista com quinze novas músicas que com certeza vamos gostar de ouvir sem o estresse matinal que a gente nem precisava ter tido durante todos esses anos.

estragar as próprias relações é um direito inalienável que, por deus, ninguém deveria ter.

não é porque acabou que precisa acabar com você

nem nos piores dias eu desejei não ter te conhecido.

até porque viver um amor é uma das melhores coisas que estar vivo nos propicia: é bom beijar, é bom abraçar, é bom dormir perto, é bom sentir e decorar o cheiro, é bom compartilhar a vida, é bom encaixar no peito, é bom dividir as dores, é bom caber na agenda. amar é uma delícia, até quando deixa de ser.

e aí, quando deixa de ser, a gente segue. segue, porque o amor não deixa de ser amor só porque deixou de estar junto. o amor segue sendo amor mesmo que cada um siga amando a si, mesmo que apareçam novos peitos, cheiros, abraços e lábios. mesmo que apareçam novos — mesmo que se escolham os velhos, que não mais os seus, que não mais os meus. o amor segue sendo amor mesmo que a vida pareça turva, mesmo que os dias pareçam errados, mesmo que as músicas pareçam provocativas e tragam de volta à memória os abraços, cheiros e peitos que já não se abraçam, sentem ou encaixam.

e aquela vida que se divide e multiplica porque são duas, o dia que se estende e se entende com o calor do cobertor e aquela mão que segura a outra mão e acaricia a ponta do dedão nunca deixam de ser bons, presentes ou reais só porque o amor deixa de ser. ainda bem que os dias se mantêm azuis, que o céu se mantém ensolarado e o cobertor, mesmo que só pra um, mantém-se aquecido e pronto para te confortar nos dias mais gélidos dessa primavera tão linda.

o amor tanto mantém-se sendo amor que, mesmo ele que deixe de ser pra dois no auge do outono que é frio e propício à solidão, ele traz a primavera florida e linda pra provar que, por mais que o amor deixe de estar, o amor segue sendo amor em todas as outras coisas.

o amor sempre é amor. a gente só esquece de ver.

pediram pra eu falar de desapego

fazia algum tempo que ninguém me pedia um texto.

na semana passada, uma colega (que eu poderia dizer que é da faculdade, mas, na verdade, é só do bar, mesmo) me falou: você precisa escrever sobre desapego.

aí eu comecei a pensar: putz. desapego. desapego é complicado. desapego é contar pra quem tá lendo que ele não vai ganhar nada continuando enfiado em algo pelo hábito. desapego é desmistificar o amor romântico que tudo suporta — mesmo se o assunto for amizade. desapego é precisar explicar que não adianta de nada insistir em dar murro de ponta de faca só pra provar pra si mesmo que tentou até o fim. falar de desapego é precisar falar que é melhor provar pra si mesmo que só escolheu ficar bem.

aí tá. passou.

ontem a noite, depois de chegar de uma comemoração de aniversário de uma pessoa maravilhosa que conheci há pouquíssimo tempo, voltei a ponderar: qual foi a última coisa da qual eu me desapeguei?

primeiro, achei que tivessem sido dos livros. aí lembrei que também doei e vendi alguns dvds. mas aí lembrei que tinha um cara me dando no saco que eu mantinha contato por ser amigo da família que eu também mandei passear.

e depois lembrei que coloquei um monte de roupa que não servia e tava super socada no fundo do armário na bolsa de doação. e lembrei também que além de tudo isso eu desapeguei do hábito ruim de falar sim por impulso e tenho falado vários nãos. mas aí pensei melhor e meu coração apertou quando eu lembrei de qual tipo de desapego ela tinha pedido pra eu falar.

alguém lembra dessa brincadeira?

ela tinha pedido pra eu escrever sobre aquele desapego que dói, sabe? aquele que a gente tira com a mão. aquele desapego que aparece na nossa vida como se fosse um soco na cara. aquele que é igual era jogar mertiolate na ferida nos anos 90. aquele que significa fazer uma escolha, sabe? ela tava falando de desapegar de algo que nem sempre é ruim, mas muitas vezes acaba ficando e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.

ela tava pedindo pra eu falar que a gente precisa deixar ir pra conseguir ser bem feliz. ela tava falando daquele desapego que a gente precisa ter pra conseguir seguir a vida sem chorar ao ouvir músicas que todo mundo ouve dançando. ela veio me pedir pra escrever sobre o desapego que a gente precisa ter pra voltar à vida com alegria.

o que ela veio me pedir — vocês não imaginam como foi esse pedido — foi pra eu escrever sobre como a gente precisa abrir o peito pra receber o novo, como a gente precisa voltar no b-a-ba do sentimento pra não se deixar cair, como a gente precisa abrir mão pra voltar a respirar em paz.

eu acho que a gente sempre sabe que precisa desapegar das coisas, sabe?

a gente sabe mesmo, o nosso peito sabe, a mente sabe, o coração sabe. é que a angústia fala mais alto e a gente se habitua a ter por perto. mas, olha, eu vou te falar: a gente precisa olhar pra dentro pra lembrar os porquês. entende?

tudo tem a ver com os porquês. você, eu, a gente precisa respirar muito fundo e tentar decifrar de onde veio esse impulso de parar. uma hora a gente precisa parar de tentar e isso vem de dentro.

a gente tem que entender os porquês pra deixar ir.

e, já que você me pediu pra falar de desapego, eu vou falar sem papas na língua: se você acha que deixar ir é uma merda, é porque nunca pensou no absurdo que é se segurar no vento. o tapa dói e você nem entende de onde vem.