um grito preso atrás do ouvido

o centro das atenções o tempo todo. você entra em um lugar e sente que tá todo mundo preocupado com você. com sua roupa, seu cabelo, seu peso, sua voz. parece que todo mundo sabe onde dá. e aí você tenta ser discreto. pensar mais baixo. cobre demais o corpo. pra ver se esconde a vergonha. fala demais e faz escândalo. pra ver se aparece mais do que um grito que nasceu preso atrás do ouvido.

todo mundo faz alguma coisa. tem gente que se omite e tem gente que imita gente e faz teatro. tem gente que faz festa. tem gente que dança pra ver se o balanço arranca isso daqui. todo mundo faz alguma coisa. tá todo mundo sempre fazendo alguma coisa pra ver se esse nó na garganta tem jeito de virar laço.

vinte & 4

eu sempre quis ser a pessoa que. a pessoa que lê esses calhamaços (e não era). a que assiste esses filmes cults (e não era). a que deixa a vida acontecer (e não era). eu queria ser a pessoa que não incomoda ninguém (e nunca fui). vivia com a palavra engasgada na garganta. ainda bem que os verbos ficam no passado, junto com todas essas coisas que eu não sou. só sobra espaço pra ser de verdade. espero que qualquer outra coisa nunca caiba por aí, também. hoje eu completo vinte e quatro anos reescrevendo as circunstâncias que a vida coloca no meu caminho. com meus livrinhos, filmes bobinhos, muito planejamento e, como bem disse caio, “não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”. contando história pra quem quiser ouvir. e, como diz lamparina e a primavera:

não
me
entrego
pros
caretas.

tenhamos coragem, queridos. é a única coisa que nos resta num mundo tão cafona.

essa cara

você tem uma cara de quem vai fuder a minha vida. tem cara de quem corta as unhas de propósito. tira a calça com os pés pra ir mais rápido. chega por trás e aperta seu corpo no meu. tem cara de quem não deve nada pra ninguém. tem cara de quem sabe disso. tem essa delícia de beijo bom. tem cara de vida no volume máximo. tem esse cheiro doce. tem cara de quem sua. eu queria que você suasse me beijando de novo. eu queria não ter te visto despretensiosamente sentada de calça jeans e regata branca nessa porra dessa mesa de bar. eu queria ter passado batido, eu queria ter ignorado. eu olhei pra trás, eu olhei duas vezes, eu sorri escondido. porque você tem cara de quem vai fuder minha vida. e eu acho que tudo bem, se você me fuder também. eu queria te ouvir gemer de novo. eu queria te fazer tremer. agora. às três da tarde. depois sair pra fumar e ficar em dúvida se tô com mais vontade de um cigarro ou de você. 

 

um trecho de “mesa pra duas”