gente que erra

eu gosto de gente que erra. num mundo tão cheio de cobrança e maluquice por todo lado não tem nada mais nobre do que se rodear de gente que não tenta ser perfeita. gente que bate no peito e diz que vacilou, que na próxima vai fazer diferente. que não é assim que gostaria de ter agido. que aconteceu, mas vai fazer o que puder pra não acontecer mais. gosto de gente que não tenta se colocar acima dos outros. gente que não diz ah porque eles não entendem pessoas como nós. gente que diz é, eu poderia ser um deles. gente que se enxerga. até gente de saco cheio. gente que aceita a porra do copo vazio. gente que cansa. e que vai continuar errando, se a gente tiver sorte.

eu continuo falando de você

Quando eu for falar de você, não vou contar sobre como me magoei, nem espalhar que, num dia desses quaisquer, você usou minhas palavras contra mim pra ir embora de vez. Quando eu for falar de você, vou deixar claro que, com você, dois e dois nunca somam quatro e os excessos têm gosto de café da manhã. E que você me beijava, até quando não me beijava. Até quando estava longe. Fora: daqui, de si, de mim.
Quando eu for falar de você, vou respeitar os dias que, pelo seu sorriso, sorri pela manhã e esconder os detalhes sórdidos do dia que acordei com dor de cabeça depois de chorar na sacada. Não vou contar da sua impulsividade que me destruiu muito mais vezes que tentei te transformar na soma exata que você me disse que era. Ninguém precisa saber dos seus nãos, mas os sins vou jogar pro mar e deixar molhar. Porque seus sins são os melhores.
Quando eu for falar de você, vou falar dos beijos na nuca. E na boca, no rosto, no pescoço, no corpo. Vou falar do seu jeito engraçado de falar da vida. Vou contar da gente como quem conta de algo bom e vou deixar pra lá as inconformidades do nosso discurso. Vou deixar pra lá nossas inconsistências. Vou deixar pra lá nossa equação e me somar comigo pra contar pro outro que um dia você me desejou bom dia com um texto bandido que me fez escrever vinte páginas. Você nunca leu nenhuma delas, mas aposto que adoraria. Eu sempre vou contar que você me lia – e que eu adorava ler você.
Vou contar rindo da sua casa bagunçada e da louça que você jurava que não tava na pia. E das suas inspirações. E das suas piadas. E vou contar rindo do seu sorriso, porque eu sempre rio quando não sei o que fazer e, pensando no seu sorriso, eu não faço a menor ideia.
Eu sempre vou falar de como você prometia vir e vou omitir que nunca veio. Vou contar que você pedia sem citar que era sem vontade. Vou falar do seu abraço sem mencionar que você soltava os braços antes de mim.
Quando eu for falar de você, vou contar da sua melhor versão, porque foi ela que eu guardei. E todo o resto não importa tanto assim. Eu ponho pra fora pra te ter dentro. Em mim, não cabe seus nãos, nem esses impulsos de somar errado e nem mesmo admitir. Aí eu jogo fora. E te perpetuo contando de você pra quem quiser ouvir.
E, quando eu for falar de você, sempre vou começar assim dizendo: “uma vez, me apaixonei pela pessoa mais legal do mundo.”

Texto publicado em 2018 no Coletivo We Love.

o fim do twitter

já que o elon musk vai comprar o twitter e arruinar o único espaço da internet onde as pessoas podem não fingir que está tudo bem eu decidi que agora vou usar o instagram como a gente usava em 2012 naquela época em que a gente tirava foto de uma luminária e um pé e parecia poético na época que a gente tirava selfie todo dia na época que a gente postava foto de trecho do livro na época que a gente postava foto de café se bem que eu to escrevendo tudo isso e pensando que tem gente ainda que faz essas coisas será que eu fiquei presa no twitter tempo demais e parei de ver será que a melhor coisa que o elon musk pode fazer é comprar o twitter pra eu poder sair de lá será que a gente vai voltar a usar o instagram como nos velhos tempos será que vamos superar as dancinhas será que vamos atravessar essa fase de reels seeeeeráááááá que vamos conseguir VENCER? eu beijaria o renato russo talvez até postasse no twitter SE o elon musk…

linn da quebrada

ela ia falando

e eu ia me sentindo

menormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenormenorme.

assim a gente vai ficando melhor

eu sempre digo, a gente faz terapia toma remédio cuida da saúde faz exercícios bebe água come legumes tempera bem a salada e come fruta pra acordar sem querer morrer na segunda-feira não porque o trabalho é ruim o trabalho não tem culpa de nada o trabalho é só o trabalho eu quando era mais nova sempre sonhei em trabalhar escrevendo e hoje meu trabalho é basicamente contar histórias então sim estou bem no meu trabalho o problema não é esse o problema é a segunda-feira é o pesar da semana é o primeiro dia que pode mudar o resto da sua vida é como se todos os dias precisássemos fazer algo revolucionário que possa gerar uma mudança no mundo dar um 360 em como as pessoas fazem as coisas fazer as pessoas olharem pra mesma coisa do mesmo jeito criar quem sabe até mesmo fã de banco é tanta tanta coisa pra pensar pra fazer será que a gente tem mesmo que mudar o mundo? às vezes dá vontade de não mudar coisa nenhuma só pra conseguir sobreviver às segundas-feiras daí, quem sabe, numa segunda-feira levantar antes do despertador e passar um café melhorzinho talvez colocar uma roupa bonitinha quiçá aumentar o volume do fone no máximo e ouvir os 3:53 minutos de tá escrito do grupo relevação ao vivo pra começar o dia com essa energia ERGA essa cabeça METE o pé E VAI NA FÉ manda essa tristeza EMBORA você ouviu? e assim a gente vive mais uma segunda-feira é assim que a gente passa pelo domingo é assim que a gente atravessa dezembro e renova as energias pra em janeiro começar a fazer as coisas com mais paixão voltar a pegar peso na academia aprender a correr do jeito certo fazer yoga antes de dormir criar um novo começo por dia criar um novo dia a cada dia não se permitir fazer as mesmas coisas não se permitir não fazer as coisas que mais fazem você feliz se permitir se permitir todas as coisas que só podem acontecer num domingo todas as coisas que só podem acontecer em dezembro se permitir fazer todas as coisas que fazem a gente viver 

e com esse orgulho eu faço o quê?

engraçado que ano passado eu tava cheia de vontade de falar do orgulho, de amor, de ser sapatão em todas as escalas de cor. esse ano só tenho raiva. porque os números não mudam. porque o brasil continua sendo o país que mais mata os lgbtqia+. porque a gente continua tendo que fazer a phyna pra continuar empregado. porque nosso grito ainda é mimimi. porque nossas famílias ainda não são vistas como famílias. porque nossa vida ainda não tem valor. porque nossa luta não tem fim. e é exaustivo. repetitivo. punitivo. sobram dúvidas. eu demorei pra entender minha sexualidade. anos e anos achando que admirava aquelas mulheres. daí entendi e me pergunto: agora faz o quê? é só cortar o cabelo? qual o manual pra ser sapatão tardia? e todo mundo que eu já tinha dito que era hétero? preciso voltar e avisar cada um? ou deixa que digam, que pensem, que falem? deixo isso pra lá? e com o resto, faço o quê? faço o que com esse nó no peito a cada notícia, que agora fala dos meus? faço o que com esse medo de ser a próxima? faço o quê?

um grito preso atrás do ouvido

o centro das atenções o tempo todo. você entra em um lugar e sente que tá todo mundo preocupado com você. com sua roupa, seu cabelo, seu peso, sua voz. parece que todo mundo sabe onde dá. e aí você tenta ser discreto. pensar mais baixo. cobre demais o corpo. pra ver se esconde a vergonha. fala demais e faz escândalo. pra ver se aparece mais do que um grito que nasceu preso atrás do ouvido.

todo mundo faz alguma coisa. tem gente que se omite e tem gente que imita gente e faz teatro. tem gente que faz festa. tem gente que dança pra ver se o balanço arranca isso daqui. todo mundo faz alguma coisa. tá todo mundo sempre fazendo alguma coisa pra ver se esse nó na garganta tem jeito de virar laço.

vinte & 4

eu sempre quis ser a pessoa que. a pessoa que lê esses calhamaços (e não era). a que assiste esses filmes cults (e não era). a que deixa a vida acontecer (e não era). eu queria ser a pessoa que não incomoda ninguém (e nunca fui). vivia com a palavra engasgada na garganta. ainda bem que os verbos ficam no passado, junto com todas essas coisas que eu não sou. só sobra espaço pra ser de verdade. espero que qualquer outra coisa nunca caiba por aí, também. hoje eu completo vinte e quatro anos reescrevendo as circunstâncias que a vida coloca no meu caminho. com meus livrinhos, filmes bobinhos, muito planejamento e, como bem disse caio, “não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”. contando história pra quem quiser ouvir. e, como diz lamparina e a primavera:

não
me
entrego
pros
caretas.

tenhamos coragem, queridos. é a única coisa que nos resta num mundo tão cafona.

essa cara

você tem uma cara de quem vai fuder a minha vida. tem cara de quem corta as unhas de propósito. tira a calça com os pés pra ir mais rápido. chega por trás e aperta seu corpo no meu. tem cara de quem não deve nada pra ninguém. tem cara de quem sabe disso. tem essa delícia de beijo bom. tem cara de vida no volume máximo. tem esse cheiro doce. tem cara de quem sua. eu queria que você suasse me beijando de novo. eu queria não ter te visto despretensiosamente sentada de calça jeans e regata branca nessa porra dessa mesa de bar. eu queria ter passado batido, eu queria ter ignorado. eu olhei pra trás, eu olhei duas vezes, eu sorri escondido. porque você tem cara de quem vai fuder minha vida. e eu acho que tudo bem, se você me fuder também. eu queria te ouvir gemer de novo. eu queria te fazer tremer. agora. às três da tarde. depois sair pra fumar e ficar em dúvida se tô com mais vontade de um cigarro ou de você. 

 

um trecho de “mesa pra duas”