eu não sou a pessoa certa

eu não sou a pessoa certa pra agora — vou chegar no momento errado e você vai dizer “se fosse dez meses atrás…”. eu não sou a pessoa certa pra dez meses atrás, porque era o momento ideal pra você conhecer a sua pessoa certa. eu não sou a pessoa certa pra ser sua amiga: vou falar alto demais, ressaltar os seus erros e não vou passar a mão na sua cabeça quando você se enfiar com aquela mina problema de novo. eu não sou a pessoa certa pra ficar com você, porque eu não vou te mandar mensagem no dia seguinte falando que adorei o papo com um emoji que pisca. ;).

eu não sou a pessoa certa pra andar de mãos dadas com você na rua. minhas mãos suam, eu fico desconfortável e esbarro nas pessoas o tempo inteiro. eu não sou a pessoa certa pra trepar e esquecer, porque às vezes eu não quero esquecer nada, mesmo sem conseguir lembrar seu nome. eu não sou a pessoa certa pra sorrir de manhã com você, porque durmo mal e acordo cedo — fica sempre difícil de sorrir com alguém quando você acorda antes das 5. eu não sou a pessoa certa pra dividir um apê com você, porque eu vou querer tudo no lugar na hora certa e talvez comece a guardar os utensílios que você tá usando pra cozinhar um estrogonofe, que eu nem posso comer, enquanto o frango não tá nem refogado. eu não sou a pessoa certa pra ir jantar com você: sou intolerante à lactose, faço dieta low carb quase sempre e detesto tempero de restaurante chique.

eu não sou a pessoa certa pra ser sua amiga. eu não vou sair da sua vida tão cedo, vou ficar insistindo pra você me dar colo quando eu precisar e vou aparecer na sua casa de ressaca querendo acender um cigarro, comer qualquer coisa e tomar uma cerveja pra rebater a noite. eu não sou a pessoa com quem você vai poder dividir uma cerveja. eu vou querer pedir o balde logo de saída, com uma porção de batata com calabresa pra acompanhar. eu não sou nem a pessoa certa com quem dividir uns litrões, porque eu canso de ficar em pé em algum momento e vou embora. eu não sou a pessoa certa pra você dividir os seus problemas, porque eu vou conseguir te convencer de que foi você quem os criou e, talvez, você entre numa paranoia profunda de que está se sabotando.

fiz isso comigo mesma.

eu não sou a pessoa certa nem pra ficar comigo. mas ninguém é. e se você quiser ficar comigo, ou com qualquer um, vai precisar passar por cima disso tudo. porque você também não é a pessoa certa pra mim e nosso encaixe é amórfico já faz tempo. mas, se você estiver disponível, a gente pode conversar sobre eu não ser a pessoa certa. porque eu não sou. mas, se quiser, a gente pode tentar. só tem que querer muito.

é segunda-feira

você acorda mal humorada. dá três ou quatro passos em direção ao móvel mais próximo pra se apoiar e achar os chinelos no chão. já são seis e quinze, você tinha que ter saído do banho às seis e dez.

é segunda-feira. seus óculos escorregam pelo nariz com uma pele descamada proveniente de um bate-volta numa praia suja que provavelmente te deu alguma infecção. a infecção não se manifesta, mas os óculos escorregam. e caem. no chão. com a lente virada pra baixo, é claro. pior que manteiga.

são seis e quarenta e você sai correndo pra não perder o ônibus. tropeça. cai. sem óculos, não tem nada pra quebrar. só o nariz. e quebra. vai de ônibus pro hospital, só pra não atrapalhar ninguém. o nariz dói muito. o motorista diz pra você descer pela frente. a coisa deve estar feia. você tenta enxergar a situação pela câmera frontal do celular, mas criou um mofo esquisito nela já faz alguns anos e você é fudida demais pra conseguir parcelar um novo em doze. quem tem linha de crédito decente depois dos trinta morando em são paulo? você não.

o hospital tá cheio. a recepcionista te olha com cara de dó. “até o óculos caiu e quebrou hoje cedo, não enxergo direito a ficha, você pode me ajudar?”. cara de dó. pronto atendimento lotado. você senta. preenche errado. diz que seu nome é feminino e que mora na rua 09876–555. assina no campo de número da carteirinha do convênio. entrega com os dados errados. a recepcionista quase ri. te entrega uma nova folha e diz: “pede ajuda pra alguém, é melhor”. você fica em dúvida se é um conselho ou uma ameaça.

horas na fila de espera. um velho com manchas pelo corpo e muito cheiro de cigarro ruim (existe algum bom?) ronca muito alto do seu lado. você começa a odiar o fato dele respirar e odiar as empresas de cigarro que não cumprem suas promessas de morte a seus consumidores.

sua vez. o médico é desengonçado e não olha na sua cara. provavelmente nem viu que você está com o nariz sangrando e mais vermelha do que estava na praia que te deu infecção (se ele tivesse olhado na sua cara, você teria perguntado se tem uma infecção). ele não olha, você tem preguiça de discutir.

toma aqui, 2 semanas de cataflan. 2 vezes ao dia. vai resolver.

“você não vai colocar no lugar?”

ah, é. desculpa.

ele não vai olhar pra você. ele vai ajeitar a placa com o nome dele na mesa. porque ele acha que você quer saber o nome dele. você vai ficar muito brava e vai “sem querer” “deixar cair” a placa com o nome dele. e aí ele vai olhar na sua cara.

e você vai embora. e vai pra casa. são onze e meia. você esqueceu o atestado. é segunda-feira.

no fim da tarde, uma mensagem nova no happn: “oi, tudo bem? o que vai fazer hoje?”

quebrar o óculos, o nariz e a placa com o nome de um médico desengonçado que me deu cataflan pra uma fratura.

e você?

preciso ir, mas não quero

o problema é que a distância até a porta
é muito maior que a da tua boca até minha nuca

e essa nuca implora
cê olha e ela nem tem hora
pra arrepiar
e influente que é
envia pro corpo inteiro
o sinal que ir não é ligeiro
e que é melhor aceitar

e quando a boca chega perto
não tem nem que encostar

a mente diz que vai dar merda
que contato sai caro
que se tu não parar, eu paro
mas na real procuro fresta
nas tuas desculpas esfarrapadas
pra rir bem na cara
de quem sabe que é gente enrolada
complicada
que discurso não serve pra nada
que não adianta chamar de amor
meu bem, só se for
mas se chama pelo nome
fica mais difícil de esquecer

é que é gostoso demais
te observar me observar
te decorar pelos cantos do corpo
te levar pra cama de novo
falar que é a última vez
antes da próxima
só pra fechar

mas quando a boca chega perto
não tem nem que encostar
e já quero ficar

e como eu sei que tu não presta
e tu sabe que não vai ter essa
de contar historinha
pra convencer só por mais meia horinha
eu invisto uma hora cheia
ocupo a cama inteira
beijo tua boca logo
me encaixo no teu corpo todo
e deixo o dia continuar

o problema é que a distância até a porta
é muito maior que a da tua boca até minha nuca
e, na nuca, não precisa nem encostar
e aí nem a hora se apressa a passar

o cheiro do seu cabelo

eu lembro do cheiro do seu cabelo
eu lembro que você tinha pelos do bigode que saiam na bochecha e quase chegavam nas olheiras
eu lembro da textura da pele do seu braço
eu lembro da grossura do seu pulso
e lembro de querer segurar sua mão

eu lembro de fazer cafuné na sua cabeça e sentir o cheiro do seu cabelo vindo em direção às minhas narinas como quem dança num ritmo muito particular, você não entenderia
eu lembro de dançar com você num ritmo muito particular
eu lembro de cantar aquelas mesmas músicas que o renato russo desacreditaria que alguém teria tanta paciência pra cantar tontamente tantas vezes tanto tempo depois
eu lembro de sentir o cheiro do seu cabelo na minha mão e de querer segurar a sua

e quando oro a deus e falo de você
eu peço que minha mente se acalme
que a saudade diminua
que a dor vá embora
que os dias passem mais rápido
que setembro dure só o tempo que deve durar
mas, sobretudo, oro pra que a fabricante desse creme pra pentear nunca mude a formulação da linha pra cachos
porque eu passei a consumir esse leave-in
que é feito de compostos químicos nocivos e falsos resquícios de babosa e outras coisas mais
que funciona pra todos os cabelos
que não funciona direito pro meu
que é um amontoado de izinas e iteos que eu nunca vou entender,
mas vou continuar usando
porque é o cheiro que eu decorei na memória junto com o toque do seu abraço,
e que pelo menos vende em pote
e posso me dar ao luxo de lembrar
que apesar do tempo não me poupar de passar
eu ainda lembro como é sentir o cheiro do seu cabelo
e de querer segurar sua mão.

juro por deus

não é possível que só eu esteja sentindo tudo isso, mas, enfim, é isso, faz parte, tem que seguir e olha só o tanto de coisa pra fazer, meu deus, eu não vou dar conta, vou precisar chamar ele de novo pra me ajudar e aí vou ter que adiar a compra do meu computador por mais um mês pra pagar o freela, mas tudo bem, faz parte, tem que seguir. mês passado eu fiquei quatro horas na fila pra descobrir que precisava tomar cataflan de novo e minha garganta não para de inflamar, já tentei gengibre vick vaporub antibióticos antiinflamatórios e até o diabo do cataflan eu já tomei três vezes e nada, não sei mais o que fazer, será que a garganta de mais alguém inflamou? esse cara não me responde há uns quarenta minutos e visualizou, será que deu alguma merda?se ele foi assaltado também eu desisto da vida. não aguento mais rodar o feed do facebook e encontrar várias variações da mesma piada condensada em tweets cortados na mesma dimensão, deve ter uns 350px de altura e sabe-se lá deus quantos de largura, nunca fui boa de proporção, olha aí, outro, a água que não bebereis, gente, todo mundo sabe que alguém sempre acaba bebendo o diabo da água. se a gente não bebe a água, a gente vive pra quê, sabe? tem que beber mesmo, dessa água me afogareis, se deus quiser. preciso terminar esse monte de coisa, a gente pode deixar a cerveja de amanhã pra segunda-feira que vem? é que de segunda não tenho reunião e fica mais fácil, amanhã é dia de terapia e complica tudo. desculpa mesmo, eu nem lembrei disso quando marquei, fiquei tão animada. MEEEUUU, cê nem vai acreditar, semana passada entrei num trampo novo MUITO LEGAL e fiquei empolgadíssima, foi uma loucura, cê não tem nem ideia. opa, vamo comemorar. pode ser na terça? segunda vou sair com um cara que conheci aí num desses grupos de facebook. ou será que esse foi no bar? eu não lembro. preciso terminar o media kit antes do meio-dia senão eu com certeza vou ser demitida. ei, relaxa, eu sei que dói quando a gente termina, mas é mais fácil do que parece, sabe? a gente sempre aprende a viver sem aquela pessoa e o cheiro dela não se torna mais tão nocivo assim, eu garanto. você vai conseguir ficar perto, dar risada, falar de culinária bela gil veganismo sexo contracultura trainspotting drogas lícitas ilícitas e de vocês sem problema nenhum, eu juro. juro por deus já tentei até mesmo provar do extremo, filipe catto falou e eu sempre achei absurdíssimo, mas será que sonrisal, guaraná, rum, cachaça e veneno é tanta coisa assim? é melhor deixar pra lá, ele não visualiza há horas e com certeza não vai ligar de novo. deixa quieto, outra hora a gente conversa, vai ver tá ocupado. taí, de novo, outra piada com a água. é sério, só bebe a água. tá calor. não é possível que só eu esteja sentindo tudo isso.

puro, por favor

quase fumei, contei até três pra não me distrair e fui andando em linha reta contando os tijolos vermelhos na calçada desnivelada. era domingo, o céu estava nublado e algumas poças da manhã chuvosa ainda permaneciam no asfalto. era domingo e eu quase fumei na calçada desnivelada — quis ter um carro só pra bater, atropelar meia dúzia que nunca mais ia ver, cantar muito alto domingos de alexandre nero pra assustar criancinhas e velhinhos com o refrão prometendo que vamos foder o dia inteiro. quase fumei, mas decidi captar a emoção do proibido com alguma música desconhecida, com um resquício de vida que pudesse ser condensado num arquivo de áudio compartilhado pelo spotify com caminho direto para os meus ouvidos.

eu andava na calçada cambaleando quase sem saber pra onde ir, emoção à flor da pele que também parecia não ter mais graça ali. era domingo de manhã, quase fumei os cigarros que você deixou no bolso de fora da minha mochila. mirabolei que talvez você pudesse ter se perdido, mesmo que já fizessem semanas e agora eu já estivesse caminhando novamente por essas mesmas ruas no caminho de volta pra casa, mas mirabolei que você pudesse ter se perdido, porque acreditar no que diziam, que você fugiu, se escondeu de mim, foi pra longe porque quis e não vai voltar, não!, sempre doía mais a medida que a vida ia acontecendo e os minutos passando com os tijolos vermelhos contados nessa calçada desnivelada.

era domingo, quase fumei. mas cheguei em casa pelo caminho mais longo, contei trezentos e oitenta tijolos vermelhos, não bati um carro, nem mesmo procurei um carro pra bater, não atropelei ninguém, nem assustei crianças e velhinhos gritando que iria foder sendo que não iria foder nem o dia inteiro – nem dia nenhum. não acendi um cigarro sequer. era domingo de manhã, quase fumei. passei um café. açúcar ou adoçante? puro, por favor. ainda bem.

passa amanhã

hoje eu queria escrever sobre as coisas que eu não consigo falar e descrever cada um dos sentimentos que eu não consigo mais demonstrar. eu queria falar de amor ao próximo, abraços ótimos, de um mar de olhares que eu nunca transformei em nada. nunca. nada. hoje eu queria usar palavras eternas pra dizer que dois e dois só são quatro na matemática e que todas as outras disciplinas são indisciplinadas pra somar. hoje eu queria escrever de paz, de sossego e de tudo que faz tempo que eu não consigo sentir e já não sei mais como buscar.

hoje eu queria atravessar na frente do carro e sentir o vento bater no cabelo e conhecer a sensação de ouvi-lo dizer: “foi por pouco” e depois escrever sobre o segundo exato em que tive certeza de que iria sobreviver. hoje eu queria sobreviver. e escrever sobre a sensação de estar viva. hoje eu queria escrever sobre reviver os dias, sobre cantar fora de hora e lugar e me sentir num karaokê saindo da estação do metrô. hoje eu queria escrever sobre yoga, pilates, meditação, ahayuaska, natação e todas as coisas que a gente nunca faz.

hoje quando eu acordei eu pensei sobre a falta. e desde então a vida me tirou o fôlego necessário pra completar a frase que eu comecei a escrever pra dizer o que hoje eu acordei pra dizer. e só me sobrou a falta. e nunca consigo dizer nada. nunca. nada. palavras eternas sem razão. toda força do mundo no vazio do sem porquê.

hoje eu queria escrever. quem sabe amanhã.

o que era pra ser

era pra você ser uma crônica escrita num domingo de manhã, com cheiro de café recém-coado e gosto de quem dormiu tudo o que precisava. era pra você ser um poema escrito na sexta a noite depois do expediente, com o peso das costas e o suor do dia que insiste em nunca acabar. era pra você ser só um dos textos que eu escrevo por aí e que parecem ter seis páginas de extensão e me obrigam a cortar até caber em mil e quinhentos caracteres. era pra você ser um texto que eu escrevi no meu diário e nunca tirei de lá, porque falava muito profundamente sobre nós sem dizer nada sobre coisa nenhuma. era pra você ser só uma frase que eu rabisquei no canto do caderno de tarefas e nunca tirei de lá.

mas aí você veio como uma avalanche e tomou conta da coisa toda, se tornou uma odisseia contemporânea de doze volumes e eu não consigo mais ver fim. você veio fazendo o papel de tsunami que prometeu que faria e estraçalhou tudo o que viu pela frente, transformou meus poemas em cobertor e os usou pra se aquecer nos dias em que o gelo do mundo tomava conta de dentro de você. você fez exatamente o que prometeu e não pensou duas vezes antes de me transformar na palavra mais dita do seu dia, no canto que nunca cessa, no livro de cabeceira que sempre está ao lado, que é indicado pra todo mundo, que todo mundo precisa ler, mas que faz uma década e meia que serve de apoio pros óculos que você coloca na cabeceira antes de dormir.

era pra você ser um poema, mas você veio como um turbilhão e eu já não sei mais usar as palavras pra outra coisa que não seja te contar que era pra você ser um monte de coisa que você avisou que não seria — e eu insisti em não acreditar.

fome

há algo incrivelmente belo
em deixar o caos se apossar
do espaço vazio na cama fria
com cheiro e cara de que ali é habitat
também tem que eu sempre soube
onde isso ia dar
e que o quente do edredom
não ia ser suficiente pro gelo da sua pele
que parecia combinar tão bem
com o jeito do seu coração
de me tratar tão mal
e ficar sendo sempre igual
achando que sentimento é prato de comida
que não se nega pra ninguém
quando na verdade
é melhor deixar faminto
do que mal sentimentado
bem, eu não quero colecionar receitas
de como se curar um desamor
se toda vez você promete que não volta mais
e eu preciso sempre preparar o peito
já que o espaço vazio da cama
é o caos
com a fôrma perfeita
pra te acolher
depois te deixar partir
e porque tem beleza
eu nunca ocupo o espaço
e deixo sempre a porta aberta
só pelo prazer
de te ver chegar de novo

o último a sentir apague as luzes

estou entregue à minha própria
falta de sorte
ou alguma sorte de azar
que canta o sorriso
que você não deu
o copo
que você não bateu
com o meu
pra brindar
à festa que você não esteve
à companhia que você não foi
à música que você não cantou
ao lábio que você não beijou
ao corpo que você não puxou
para perto do seu
que,
quando perto do meu,
suspiros causou
e fez tremer
gemer
morrer
de prazer
te conhecer.

quando sair,
apague as luzes.