o feminismo, meu corpo e as regras de outrém

aceitar o próprio corpo é uma roleta russa. tem dia que cai em você e nem o motorista que te chamar de “balofa” pra te dar a passagem fora da faixa vai diminuir seu amor próprio. tem dia que até uma risada quando você entra no ambiente vai parecer ter sido gerada pela sua cara.

ainda mais quando você tá fora do padrão: se você não é branca, se o seu cabelo não é liso, se você não veste 38 e não calça 36, se seu corpo não entende que depilação custa caro e não mantém por duas semaninhas os últimos 70 pilas que você pagou ou se o seu nariz não foi feito pelo dr. Hollywood: I feel you, sistah.

não usar maquiagem já é um avanço. tem dia que a pele acorda pior que a dos adolescentes que precisaram de roacutan (presente!) e a vontade que dá é de jogar ácido sulfúrico pra ver se tira a oleosidade da área T. e o olho, cansado, que pede um corretivo amarelo depois do primer e uma quantidade considerável de um BB Cream qualquer? nem vou começar a falar da boca que com certeza veio da cor errada, porque todo mundo insiste em perguntar se eu tô doente se não tô de batom.

pra piorar, a vida real acontece girando em torno de uma mídia (desculpa aí, parceiros de profissão, mas cês só cagam na tanga) totalmente excludente que reafirma os padrões de beleza inalcançáveis e fazem pelo menos quatro meninas chorarem por anúncio divulgado.

não odiar o próprio corpo é uma guerra. não é falta de entender à quê nossa sociedade nos condiciona, não é falta de desconstrução (#desconstruidona). as mulheres que eu mais admiro dentro do movimento feminista têm problemas em aceitar seus corpos como são. talvez seja uma transição. mas, com certeza, é uma guerra.

é muito bonito quando a gente lê por aí que o corpo feminino é lindo como é, que suas dobras são lindas como são, que seu cabelo é lindo como foi feito, que sua celulite é poesia escrita na pele, que suas estrias são como as ondas no mar. uh! dá até pra acreditar por 1,9 segundos. mas é só olhar pro espelho que a gente volta pra estaca zero e pr’aquele terrível gosto na boca, que diz: “eu nem gosto tanto assim desse reflexo”.

o discurso é maravilhoso e toda feminista sabe recitar (presente, de novo!), mas, no fim do dia, dá pra contar nos dedos de uma mão quem realmente vive o que fala. e a culpa não é nossa, não.

eu, que me considero bonita e tenho a autoestima no lugar, vezenquando me pego pensando em como já fui mais magra, mais bonita, mais ajeitada e nas coisas que posso ter deixado de conquistar porque conquistei os 15kg que me lembram diariamente que larguei a academia umas quatro ou cinco vezes.

vejo mulheres que considero lindas reclamando de pintas pelo corpo, de cicatrizes, de celulites imperceptíveis, de marcas de nascença que parecem ter sido colocadas à mão, de tão exatas. vejo mulheres que considero lindas estragando a própria pele ao entupir os poros do rosto de maquiagem para esconder imperfeições perfeitas.

e pra quê, né? a gente deixa de sorrir pra foto porque evidencia o nariz, deixa de usar regata pra não mostrar o braço, deixa de usar shorts pra não marcar as coxas. a gente deixa de transar pra não mostrar o corpo, deixa de gozar se não apagar a luz. a gente queima a pele pra tirar o pêlo, queima o cabelo pra tirar o cacho — queima o sutiã pra quê?

aliás, sutiãs! a gente machuca e aperta o peito pra ninguém saber o que todo mundo já sabe: mulher tem mamilo.

breaking news.

é engraçado e irritante ao mesmo tempo quando a gente consegue perceber que chegou no nível em que não sabe mais se ama ou odeia o próprio corpo.

eu mesma estacionei nesse estágio. me acho bonita. e, às vezes, também acho que preciso perder esses 15kg pra ontem. me acho atraente. e também acho que ninguém tem razão alguma pra se sentir atraído por mim. não uso maquiagem, não uso sutiã e não deixo de fazer nada por conta do meu corpo. mas vezenquando preciso olhar no espelho e lembrar pela bilionésima vez que não preciso parecer com ninguém, porque eu já me pareço comigo e isso é tudo o que eu preciso ser.

a gente vai sobrevivendo com um discurso maravilhoso de amor próprio que, quando falha, faz a gente cair do cavalo na self-esteem feminist tour e chegar no fim do dia com a cara arrastada no chão, sem maquiagem, sem sutiã, com todas as imperfeições com as quais a gente nasceu, cresceu e foi construindo no corpo ao longo de uma vida toda pairando do nosso lado no fundo do poço. esses dias, a gente, que decorou o discurso e quase se sente culpada por se sentir assim, só espera acabar.

no fim do dia, a gente se odiando ou se amando, aceitando nossa pele como é ou remendando como pode, com a luz acesa ou apagada, todo mundo deita pra dormir e, no dia seguinte, acorda no mesmo corpo que, até agora, cumpriu muito bem seu papel de nos trazer até aqui. alguns dias, com nossa aprovação. outros, com nosso desprezo. sempre, bonito como é.

por hoje, já vale. amanhã a gente vê — ou espera acabar.

um conselho que eu nunca cumpri

eu já tinha falado num outro texto que eu sempre tento muito. é bem bonito na poesia: todo mundo enche o peito pra dizer que sou determinada e batalhadora. e sou mesmo! tento à exaustão tudo o que aparece na minha frente. se é trampo, corro atrás até ter certeza de que não vou conseguir fazer. se é problema, me desdobro em trinta pra tentar resolver. não importa do que se trata, vou tentar até estar escrito em vermelho, em letras garrafais: cê não vai conseguir, cacete!

por que raios eu seria diferente com pessoas?

bom, a resposta eu tenho — só não tento (falar que não consigo é mentir) mudar a minha essência que grita dizendo: mais uma tentativazinha não vai fazer mal à ninguém…

mas faz mal, sim. sempre faz.

e eu vou falar o porquê.

é uma merda quando você fica tentando, porque as coisas têm prazo de validade. tem coisa que nasceu pra ser aquele único encontro legal que te deu aquele up pra voltar a tentar conhecer pessoas, quando você já saiu com tanta gente maisoumenos que não vê nem sentido tentar conhecer alguém. tem gente que nasceu pra ser na sua vida só a brisa suave que traz paz num dia quente e horrível onde a cerveja esquenta em cinco minutinhos parada na sua mão. algumas pessoas aparecem só pra ser aquele abraço. só aquele. gente que nunca vai se tornar sua amiga, mas vai sim aparecer na sua vida num momento caótico pra te dar o conselho que você precisava escutar e te servir como mola impulsora para que volte a conseguir respirar.

tem gente que nasceu pra ser aquela meia dúzia de beijos bons, mas depois ficar na sua vida como uma saudade tão boa quanto — e nada mais. tem gente que nasceu pra ser uma noite só: tudo de melhor de uma vez e termina com um beijo que sela tudo e fim. sem tempo nem pra vírgulas. muita gente nasce pra não ser nada depois da manhã seguinte.

tem gente que nem dura até lá.

tem gente que tá ali só pra não ser, saca?

o importante é a gente ter o tine de saber quando parar. quando não é mais pra ser. se relacionar também é saber dizer não. relacionamento também é término — mesmo que isso aconteça em menos de 24h. estar com alguém também é ter a sensibilidade de olhar pra frente e saber se o que acontece dentro de você também acontece no coração que pulsa do outro lado da mesa.

e mais importante do que perceber e saber é parar e falar: “ok. a gente era pra ser isso aqui. que bom que fomos!”, sem esperar que a resposta seja: “voltakiiiiiiiiiii” (com k mesmo).

na verdade, saber parar de tentar é se respeitar. é entender que você também tem prazo de validade de ficar esmurrando o diacho da ponta da faca e que talvez do outro lado da mesa até tenha um coração que pulsa, mas não é por você — e não bata nem um pouquinho mais forte.

saber parar de tentar é aceitar que às vezes as pessoas não estão na tua vida pra isso. é saber que cada coisa tem um porquê e que nem sempre precisa durar milianos pra explicar à quê veio.

é entender e aceitar que depois do prazo de validade, nada fica bom: o queijo estraga, o leite fede e as pessoas amargam. invariavelmente.

já dizia o velho dito popular, o mais clichê de todos, aquele que até teu tio manda pela manhã no grupo da família: não importa o tempo que as coisas duram, mas a intensidade com que acontecem.

e é, né? tem gente que precisa de cinco anos pra fazer na tua vida o que alguém pode fazer em três dias. não é demérito de ninguém, é só a droga da vida cumprindo seu papel de nos deixar confusos diariamente. eu sei, é uma bosta.

também não sei lidar.

pelo menos eu avisei.

pra são paulo – I

talheres

são paulo uma vez me disse
numa manhã dessas quaisquer
quando se acorda no horário,
toma café sem pressa,
se lembra do que precisava se lembrar,
pega o ônibus com o motorista certo,
consegue um apoio para as lombadas
e chega-se no metrô ainda em tempo,
numa dessas manhãs,
são paulo disse que iria me engolir.

de primeira, não entendi.

segui o rumo,
entrei no vagão que me deixa mais perto das escadas,
andei pelos corredores,
peguei os atalhos diários,
subi as escadarias
e desci as mesmas escadarias
no caminho de volta pra casa
depois de deixar escorrer as horas
por entre meus dedos
enquanto, a cada minuto que passava,
eu sentia na flor da pele
o garfo e a faca
na mão da cidade
que pelo menos teve a decência de alertar
o que iria fazer comigo.

estragar as próprias relações é um direito inalienável

andar por aí, pela vida, sozinha, é uma das coisas que mais gosto de fazer desde que me conheço por gente. amo a companhia dos meus amigos, incríveis, com ótimas piadas e boa voz, mas amo a minha, do meu caderno de anotações e meus fones de ouvido. andar por aí só comigo é uma delícia.

independente disso, existem dias em que a última pessoa com que quero ficar é comigo. nessas, convido pessoas — das mais aleatórias possíveis — , pra me fazerem companhia nos tantos cantos que procuro conhecer.

numa porta de entrada de bar, encontrei um amigo que não via há uns quatro anos, se escolhermos arredondar pra menos e quisermos diminuir a vergonha de não ver alguém por quem se tem tanto apreço por tantos anos. mas sendo sincera, naquele dia específico completaria o sexto ano sem vê-lo. eu nunca esqueceria a data. a vida nos deu caminhos completamente diferentes e nós somos horríveis em combinar qualquer coisa. é sempre do nada, sempre num lugar que não dá pra chegar de ônibus, sempre com uma roupa que não diz “caraca! o tempo te fez bem!”.

esse amigo era especial: a gente viveu todas as fases juntas. passamos pela fé, pela ausência dela, pelo rock, pela mpb, pelo ativismo, pela universidade pública, pela fase horrível & maravilhosa de desistir de todos os cursos da vida e viver da própria arte (até aprendermos que dinheiro não dá em árvore e entrarmos na fase de trabalhar em qualquer coisa pra ganhar qualquer mil reais por mês) e chegamos juntos na fase da faculdade, trabalhando muito mais pra ganhar um pouco mais e pagarmos muitas cervejas um para o outro.

esse amigo era especial: sempre foi. desde o dia em que nos conhecemos, sabíamos que iríamos passar muito tempo juntos. a gente se deu super bem quando, no ônibus indo pro sítio, cantamos juntos todas as músicas e versões que um colega arranhava num violão desafinado que alguém tinha tido a maravilhosa ideia de levar. a gente sabia que ia viver muitas histórias, porque enquanto todo mundo enchia a cara de vinho barato e comia paçoca, a gente sentou pra conversar do lado da fogueira e descobriu que o gosto literário batia, as referências musicais eram as mesmas e, se fosse pra somar o meu ipod e o dele, só teríamos umas 15 músicas novas cada um (ele ganharia minha marisa monte e eu receberia os novos baianos de presente).

quando a gente encontra gente que combina com a gente, a gente tem mania, hábito e essa coisa errada de transformar em amor romântico. ele podia ter sido um amigo maravilhoso que viveria coisas maravilhosas comigo, mas a gente achou que já que a gente cantava tanta coisa boa, lia tanta coisa boa e conhecia os mesmos lugares, a gente devia se beijar, dar as mãos e passar um bom tempo deitados revesando entre quem dava o colo agora.

porque a gente foi pelo amor romântico, com o tempo perdemos o interesse da novidade e esquecemos que tínhamos tudo pra dar certo. até porque a gente nem tinha. a gente tinha o mesmo gosto musical e gostava das mesmas coisas, mas ele nunca aceitaria a quantidade de livros que eu guardo, eu nunca superaria a mania insuportável de ser instável e não conseguir decidir nada – e ele não conseguia passar por cima disso. aceitar os sintéticos que ele adorava nunca passou pela minha cabeça e ele nunca foi de gostar de mulher que bebe demais — e eu sempre dou um jeito de enfiar uma cerveja na rotina.

por isso, quando a gente decidiu que não ia mais ficar junto, a gente fez daquelas quinze músicas o nosso trato de amizade e manteve contato em alguns encontros esporádicos que sempre acabavam em beijos, mãos dadas e tempo deitados revesando quem dava colo. a gente sabia que não ia dar certo: pela manhã, era sempre estressante precisar ir embora brigado e passar milênios no ponto de ônibus esperando algum que fosse pra estação chegar perto da casa dele, que é longe de toda civilização.

mas a gente insistia muito nisso. o papo sempre começava bom, a gente descobria que mesmo separado acabava passando pelas mesmas coisas. quando pedi as contas e fui trabalhar de freelancer full-time, ele tinha acabado de fazer o mesmo e estava agora vendendo seus textos e criando pautas incríveis pra um jornal que a gente sempre gostou de ler. a gente conversava sobre como era bom não estar no sistema, a liberdade de trabalhar pra si, a graça de não ter CLT e o lado bom de não precisar depender de VR. a gente conversava sobre a graça de fazer a própria comida e como fazia bem respirar pela manhã sabendo que você está construindo com as próprias mãos a sua própria vida.

a gente insistia em sugerir “dorme lá em casa” depois do papo bom, porque sempre esquecia que ia ser estressante entrar na casa um do outro e lembrar que por trás de tanta coincidência existem dois seres humanos que não têm nada a ver um com o outro. e por mais que nas primeiras três horas fosse super possível ignorar, na manhã seguinte o café já estava mais amargo do que deveria e o beijo de despedida era sempre uma bochechada seguida por uma porta que batia mais forte do que era realmente necessário.

a gente estragava os nossos laços até precisarmos ficar seis anos sem as coincidências, as músicas e os livros. a gente foi criando barreiras tão fortes que nem a menina que dançava ao som de novos baianos conseguia superá-las.

a gente cagou tudo, porque estragar a própria vida é um direito inalienável (já diria amélie poulain). mas, dessa vez, quando eu o convidei pra tomar uma cerveja no meio do nada num lugar que eu achei e precisei enviar a localização do celular pra passar o endereço — dessa vez, quando ele chegou, ele trouxe uma menina com ele. e essa menina não tinha nada a ver com a gente, mas não dava a mínima pros sintéticos, era tão instável quanto ele e não colocava uma gota de álcool na boca desde os dezoito.

e aí a gente conseguiu fazer o que deveria ter feito desde o dia que se conheceu: fomos cada um pra sua respectiva casa, dormimos felizes pelo reencontro e conseguimos dar play na lista com quinze novas músicas que com certeza vamos gostar de ouvir sem o estresse matinal que a gente nem precisava ter tido durante todos esses anos.

estragar as próprias relações é um direito inalienável que, por deus, ninguém deveria ter.

não é porque acabou que precisa acabar com você

nem nos piores dias eu desejei não ter te conhecido.

até porque viver um amor é uma das melhores coisas que estar vivo nos propicia: é bom beijar, é bom abraçar, é bom dormir perto, é bom sentir e decorar o cheiro, é bom compartilhar a vida, é bom encaixar no peito, é bom dividir as dores, é bom caber na agenda. amar é uma delícia, até quando deixa de ser.

e aí, quando deixa de ser, a gente segue. segue, porque o amor não deixa de ser amor só porque deixou de estar junto. o amor segue sendo amor mesmo que cada um siga amando a si, mesmo que apareçam novos peitos, cheiros, abraços e lábios. mesmo que apareçam novos — mesmo que se escolham os velhos, que não mais os seus, que não mais os meus. o amor segue sendo amor mesmo que a vida pareça turva, mesmo que os dias pareçam errados, mesmo que as músicas pareçam provocativas e tragam de volta à memória os abraços, cheiros e peitos que já não se abraçam, sentem ou encaixam.

e aquela vida que se divide e multiplica porque são duas, o dia que se estende e se entende com o calor do cobertor e aquela mão que segura a outra mão e acaricia a ponta do dedão nunca deixam de ser bons, presentes ou reais só porque o amor deixa de ser. ainda bem que os dias se mantêm azuis, que o céu se mantém ensolarado e o cobertor, mesmo que só pra um, mantém-se aquecido e pronto para te confortar nos dias mais gélidos dessa primavera tão linda.

o amor tanto mantém-se sendo amor que, mesmo ele que deixe de ser pra dois no auge do outono que é frio e propício à solidão, ele traz a primavera florida e linda pra provar que, por mais que o amor deixe de estar, o amor segue sendo amor em todas as outras coisas.

o amor sempre é amor. a gente só esquece de ver.

o que levo de você

cigarrette
o gosto do beijo,

o cheiro da pele

de cigarro, cansaço e paz.

o quente do abraço,

do aperto da mão,

do esquentar da orelha,

do carinho na volta do dedão.

a dança,

o canto,

nossa música,

nossos sonhos:

eu achei que ia longe com você,

achei que era você,

achei que continuaria sendo

e te amo como se fosse,

te amo como se fosse pra ser,

te amo como se você fosse pra mim.

pediram pra eu falar de desapego

fazia algum tempo que ninguém me pedia um texto.

na semana passada, uma colega (que eu poderia dizer que é da faculdade, mas, na verdade, é só do bar, mesmo) me falou: você precisa escrever sobre desapego.

aí eu comecei a pensar: putz. desapego. desapego é complicado. desapego é contar pra quem tá lendo que ele não vai ganhar nada continuando enfiado em algo pelo hábito. desapego é desmistificar o amor romântico que tudo suporta — mesmo se o assunto for amizade. desapego é precisar explicar que não adianta de nada insistir em dar murro de ponta de faca só pra provar pra si mesmo que tentou até o fim. falar de desapego é precisar falar que é melhor provar pra si mesmo que só escolheu ficar bem.

aí tá. passou.

ontem a noite, depois de chegar de uma comemoração de aniversário de uma pessoa maravilhosa que conheci há pouquíssimo tempo, voltei a ponderar: qual foi a última coisa da qual eu me desapeguei?

primeiro, achei que tivessem sido dos livros. aí lembrei que também doei e vendi alguns dvds. mas aí lembrei que tinha um cara me dando no saco que eu mantinha contato por ser amigo da família que eu também mandei passear.

e depois lembrei que coloquei um monte de roupa que não servia e tava super socada no fundo do armário na bolsa de doação. e lembrei também que além de tudo isso eu desapeguei do hábito ruim de falar sim por impulso e tenho falado vários nãos. mas aí pensei melhor e meu coração apertou quando eu lembrei de qual tipo de desapego ela tinha pedido pra eu falar.

alguém lembra dessa brincadeira?

ela tinha pedido pra eu escrever sobre aquele desapego que dói, sabe? aquele que a gente tira com a mão. aquele desapego que aparece na nossa vida como se fosse um soco na cara. aquele que é igual era jogar mertiolate na ferida nos anos 90. aquele que significa fazer uma escolha, sabe? ela tava falando de desapegar de algo que nem sempre é ruim, mas muitas vezes acaba ficando e a gente precisa fazer alguma coisa a respeito.

ela tava pedindo pra eu falar que a gente precisa deixar ir pra conseguir ser bem feliz. ela tava falando daquele desapego que a gente precisa ter pra conseguir seguir a vida sem chorar ao ouvir músicas que todo mundo ouve dançando. ela veio me pedir pra escrever sobre o desapego que a gente precisa ter pra voltar à vida com alegria.

o que ela veio me pedir — vocês não imaginam como foi esse pedido — foi pra eu escrever sobre como a gente precisa abrir o peito pra receber o novo, como a gente precisa voltar no b-a-ba do sentimento pra não se deixar cair, como a gente precisa abrir mão pra voltar a respirar em paz.

eu acho que a gente sempre sabe que precisa desapegar das coisas, sabe?

a gente sabe mesmo, o nosso peito sabe, a mente sabe, o coração sabe. é que a angústia fala mais alto e a gente se habitua a ter por perto. mas, olha, eu vou te falar: a gente precisa olhar pra dentro pra lembrar os porquês. entende?

tudo tem a ver com os porquês. você, eu, a gente precisa respirar muito fundo e tentar decifrar de onde veio esse impulso de parar. uma hora a gente precisa parar de tentar e isso vem de dentro.

a gente tem que entender os porquês pra deixar ir.

e, já que você me pediu pra falar de desapego, eu vou falar sem papas na língua: se você acha que deixar ir é uma merda, é porque nunca pensou no absurdo que é se segurar no vento. o tapa dói e você nem entende de onde vem. 

as coisas que eu queria te contar

hoje eu queria te contar de um projeto que eu terminei. ele ficou tão bonito.

Mas eu não tenho mais esse direito.

Ontem eu quis te contar de um projeto que eu tinha começado. Ia ficar tão bonito.

mas eu já não tinha esse direito.

anteontem passei por uma barra, foi tenso, fiquei estressadíssima, os meus cabelos arrepiaram mais que o normal e a minha pele escura enrubesceu.

mas eu não podia te contar, tirei meu direito com a mão e foi horrível precisar ignorar a vontade de fugir pro seu abraço.

na última semana precisei de você. precisei do seu abraço. não precisei: quis. quis muito. não tive.

mas também já não tinha mais o direito de te exigir mais nada. seu abraço enlaçava outros braços.

no último mês precisei de você. precisei do seu beijo, do seu afago, do seu cheiro e do seu carinho.

eu podia te exigir, te implorar, te espernear, te convencer. mas eu escolhi pedir. a negativa dessa resposta me trouxe todas as outras negativas que me dei.

mas hoje, hoje eu queria muito te contar de um projeto que eu terminei. ficou tão bonito.

if that’s all it is, my friends, so let’s keep dancing!

olha, eu não vou escrever um texto hiper motivacional sobre como é importantíssimo manter-se positivo em meio às aflições da vida. primeiro, porque todos os sites de comportamento já estão aí pra isso e não tenho exatamente muito tempo pra perder falando o que todo mundo já diz. segundo, porque ninguém nasceu sabendo tirar leite de pedra, mas a gente se esforça pra isso todo dia.

dito isso, sabemos: pensamento positivo é importante. ponto.

agora, vamos lá, como podemos filtrar coisas boas de uma coisa tão ruim quanto dias ruins? falo assim, no plural e como uma coisa só, porque um dia ruim vez ou outra todo mundo tem. a barra pesa e a batata esquenta quando são vários. quando uma noite após a outra não resolve. quando dá dor de cabeça de raiva. de nervoso. quando você se olha no espelho e fala: que merda. tô um porre.

eu tive uma sequência de dias péssimos nas últimas semanas. com esses dias péssimos, aprendi algumas coisas.

a primeira cabe em meio tweet:

SAP: “você nem sempre pode ser forte, mas você sempre pode ser corajoso”, que é um trecho de doctor who.

depois, descobri que sou emocionalmente instável quando estou brava. nunca soube disso. sempre fui bem bravinha e intolerante com determinadas situações, mas nunca tinha notado como isso afeta todas as minhas relações. ao mesmo tempo em que quero colo, abraço e tapinha nas costas, não suporto o olhar de “ô, judiação…”. o que sobra?

também aprendi que stress não resolve problema. fiquei extremamente estressada, irritada, esbravejei aos quatro cantos toda a minha raiva, escrevi vinte e oito páginas de diário (que, se eu ainda escrevesse com a cor baseada no meu humor, estariam todas em vermelho-ódio) e… o problema continuou lá, intacto, pronto pra me dizer: que cena, hein.

não adianta.

nos dias péssimos, aprendi uma coisa maravilhosa: nunca deixe de ouvir música. ela faz maravilhas. james brown, freddie mercury e fernando anitelli operam milagres cerebrais se forem usados na medida certa.

os dias ruins fazem a gente acreditar que tudo é uma grande bola de decepções e que as coisas vão continuar dando errado, para sempre. e aí você precisa olhar pra vida e falar: MAS NÃO MESMO!

minha forma de fazer isso, hoje, foi dançando i feel good, do james brown, em público, no meio do bar, tomando uma cerveja depois do trabalho.

não resolveu nenhum dos meus problemas. nenhunzinho, nem diminuiu a dose.

mas pelo menos eu dancei.

a paixão que vem depois do amor

eu quero que, de todos os cheiros, gostos, toques, beijos, braços e sentimentos que eu experimentar, os seus sejam os meus preferidos. quero enlaçar nossos dedos de forma que não se soltem mesmo com a distância imensurável de nossos ninhos. ninhos, porque, como mainás, voamos mundo afora em busca de tudo o que nos brilha o olhar — e voltamos sempre à postos e a tempo para casa, mesmo que, para isso, precisemos nos esconder e desprender de em mil e uma coisas.

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e porque você me beija rindo e beija minha bochecha e beija meu pescoço e beija minha boca. e porque você me olha e seu olhar parece um beijo.

e porque eu sei que causei alguma das suas insônias, mas também porque sei que muitas delas tem outras razões que eu queria poder anular.

porque você pode ter estado com várias mulheres e, mesmo assim, quando olha pra mim, eu tenho a certeza de que não olhou pra elas da mesma forma — porque, se tivesse, elas nunca te deixariam ir.

porque você segura minha mão e porque sabe a letra de todas as músicas imbecis que não me saem da memória.

porque você me enlaça nos seus braços, nas suas pernas, me enlaça nos seus olhos, me enlaça nos seus beijos, no seu gosto, no seu sorriso e no seu eu.

porque o tesão que eu sinto é proveniente da vontade que eu tenho de te ter. porque eu quero conhecer e beijar cada milímetro do seu corpo e quero dar pra você tudo o que tiver no meu.

e porque você me abraça daquele jeito que só você sabe. porque você tem em você tudo aquilo que você é — e eu amo tudo o que você é.