não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas

não é todo dia que eu quero comer banana nas coisas. hoje, por exemplo, esse dia frio, esse tempo esquisito, esse sol que não serve pra nada, esse café que gela tão rápido, esse pé que não esquenta nem com meia. qual a chance de aceitar uma panqueca de banana? nenhuma, cara, não combina, não tem nada a ver. banana tem hora. banana cai bem num dia ensolarado, numa ressaca filha da puta, num prato com mais sorvete que banana. aí sim. agora, panqueca? só porque a banana tá ficando preta por fora? sai pra lá. faz outra coisa. bota pra congelar, tem receita de sorvete feito só com banana. deixa no freezer até o verão voltar. agora não. agora a gente toma sopa no pão, se joga nos cobertores e se veste mal. banana não combina com frio. se combinasse, ia ter camisa de manga comprida com estampa de banana. não tem. tem shortinho, tem camisa da riachuelo que já vem com a manga dobrada da fábrica. mas blusa de frio não. porque não orna. banana não orna.

PCP #05 – como você

Fiz um milhão de coisas e ainda nem deu duas da tarde! HOJE EU TÔ BEM. Acordei assim… pro-du-ti-va! Adiantei tanto check que o Todoist ficou com vontade de me dar feliz ano novo! Que dia. Quase, por um segundo, dá pra esquecer a LOUCURA que nos assola nesse país. Ainda bem que existe a arte, eu sempre penso, ainda BEM que existe esse monte de gente genial fazendo coisa linda a partir de tanta coisa merda. Que bom.

Eu poderia citar uma lista de artistas que têm me acompanhado nesses dias dentro do mesmo espaço solitário. Seria longa. Fico contente em poder dizer, no entanto, que quem mais me dá fé na vida são aqueles com quem convivo, aqueles com quem meus dias mais envoltos na rotina se dividem. Afinal, sendo quem sou, não me surpreende que não precise sequer sair de meu grupo para encontrar alguém que consiga conectar os conceitos de ostracismo e cancelamentos.

A banda do cara gente boa do trabalho é o som que bota qualquer um pra se mexer, a composição de um amigo na voz de um país inteiro, o lançamento de uma professora para o resto do mundo. É uma satisfação gigantesca ver que nós, seres humanos, seres falhos, idiotas, errados, propositalmente incorretos, vingativos, vulneráveis, NÓS podemos ser melhores.

Nós, que somos completamente normais, que pagamos nossas contas ou não, que temos paz ou não, que temos vontade de fuder hoje ou não, que temos um espaço no coração ou não, que temos vontade de seguir em frente. Todos nós. Todos nós podemos ser melhores. Todos nós podemos fazer o mundo melhor. Todos nós podemos colocar alguém pra dançar. Todos nós podemos inspirar alguém. Todos nós temos um pedaço de arte possível dentro da gente. Que loucura. Que delícia. Que bom estar vivo. Que bom dançar aqui, onde o quintal é brasileiro.

Botei até na lista, pra amanhã: dançar na sala (eu moro em apartamento, a gente se vira como dá).

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PCP #04 – apesar de você

Antes de qualquer coisa, vamos tirar esse elefante da sala. Não fiz exercícios no feriado. Simplesmente não deu. Tô cansada. Essa semana tá tão arrastada que parece música de Chico. Um laraiá lararaiá que nunca chega lá. Ainda não deu tempo de fazer tudo o que eu precisava ter feito até hoje. ÓBVIO. O recurso de reagendar o prazo das tarefas tem sido muito utilizado. Não porque eu não estou dando conta, mas porque as instabilidades no mundo lá fora fazem as prioridades mudarem o tempo INTEIRO. O que era pra depois vira urgente e, o que era urgente, se mantém sendo igualmente urgente. O dia, invariavelmente, continua tendo a mesma quantidade de horas, o que é SUBSTANCIALMENTE prejudicial para planejamentos. 

Como eu disse, tô cansada. Tá foda. E nem tem live que vá dar conta disso, estou inconsolável. Ontem teve, no PopLoad TV, Manu com a Letrux, uma dupla capaz de criar uma grande rede de tensão sexual virtual entre sapatonas. Imagine só a quantidade de mensagens pra ex. É de parar o coração. E o meu segue aqui, batendo, imbatível. Inabalável. Nada me tira da mente o que preciso fazer, no que preciso pensar, no que poderia estar pensando. EU PODERIA ESTAR PENSANDO, não estou, não consigo. Mas tinha tanta coisa que eu também queria estar fazendo. 

Mas é aquilo: cansada, a gente não consegue fazer muita coisa. Então aceito, vou lá, abro uma cervejinha e vou pensar nos próximos dias. Tenho três projetos simultâneos acontecendo e preciso organizá-los para que todas as entregas estejas boas e consistentes NO DIA ESTIPULADO. Várias informações para analisar, organizar e planejar. A primeira cerveja acabou. A caixa de entrada ainda tinha várias informações para serem processadas. 

Levantei, peguei uma lata, voltei pra cá, comecei a escrever esse texto. Porque, cara, tem uma pandemia global acontecendo lá fora e aqui dentro ESTAMOS TENTANDO MANTER OS PLANOS. Estamos TENTANDO organizar medidas para NÃO MORRER. Não temos sido muito bem sucedidos, eu tô pra dizer. A dança das cadeiras do poder tá ficando sem opções de participantes. Dá medo. E eu aqui, acumulando louça. Com dor na coluna, por causa da cadeira. Irritada, profundamente irritada, com o delay no mundo. 

Estamos todos em pausa. Quase como se estivéssemos tentando seguir, cada um com seu plano, e fomos colocados, por força maior, todos na mesma estrada. Que vai nos levar, sem muita delicadeza, a um espaço de futuro nunca antes habitado. Vamos chegar em um espaço de futuro onde a humanidade vai precisar aceitar que somos todos feitos da mesma coisa. Vamos chegar em um lugar onde precisaremos admitir que não é possível viver da forma como vivíamos antes disso tudo começar. Ele deve existir em algum lugar, esse futuro, e eu me pergunto se a gente VAI DAR CONTA.

Tantos planos frustrados. Chega a doer. E a gente aqui, sabe? A gente aqui, tentando preencher os dias. Com quadradinhos. Com checklists. Com videoconferências longas demais e ninguém NUNCA desliga o CACETE do microfone. Cara, se teu microfone é uma merda, você precisa desligá-lo. Estamos TODOS passando por um momento MUITO DIFÍCIL para o barulho do ruído do seu microfone ficar em cima da voz de alguém que está tentando facilitar o nosso trabalho. Hoje não tem alegria. Deixo pra amanhã. Porque apesar de mim e de você, amanhã há de ser outro dia.

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PCP #03 – como dois e dois

E AGORA AINDA É FERIADO NESTA MERDA. Mas vá pra puta que pariu que NADA pode seguir o planejado nessa vida. Nada. Absolutamente nada. Veja: essa semana JÁ ESTAVA caótica. Já NÃO HAVIA esperança alguma de dar conta de todas as tarefas. A gente sabe, a gente se engana. Tá no Todoist só pra frustração de sexta-feira mostrar que a gente ainda está vivo. Caetano até tentou cantar pra mim: Tudo vai mal, tudo… Tudo mudou não me iludo e, contudo, a mesma porta sem trinco, o mesmo teto…  Mas, Caê, quando é a mesma porta e o mesmo teto, a gente deveria saber o que esperar. 

MAS NÃO. É AÍ QUE TÁ. A gente nunca sabe. Foi preciso decretar FERIADO. Porque as pessoas NÃO TÊM NOÇÃO. As pessoas não conseguem entender que É POSSÍVEL QUE FALIDOS SE RECUPEREM, mas os falecidos SÃO PERMANENTES. Eu sei e ENTENDO que o seu negócio é pequeno e vai ser foda manter o rolê acontecendo, EU SEI, mas as pessoas PRECISAM ESTAR VIVAS para que isso aconteça. Se todo mundo morrer não vai ter ninguém pra comprar o que você tem para vender. A conta é simples. Como dois e dois são CINCO.

Porque, ignorando ESSE DETALHE FÚNEBRE, as coisas estão FORA DE CONTROLE. As entregas de sexta-feira, ficam pra quando? E as de segunda? E pior: as de quarta? As de quinta? Acho nobre a atitude da prefeitura e do estado de São Paulo de recorrer a medidas extremas para tentar diminuir a quantidade de casos diários. Está preocupante. Muito preocupante. Não estou reclamando. Estou perguntando. O que eu FAÇO com essas coisas? Ou melhor: QUANDO eu faço essas coisas? Porque trabalhar no feriado não é uma opção. Tenho trabalhado em todas as outras ocasiões. Mal tenho conseguido tomar banho. 

É fácil ficar sem tomar banho quando você está dentro de casa o tempo todo. Você acorda um dia, toma um banho, faz um café, vive sua vida, trabalha, reclama do chefe, abre uma cerveja, assiste uma live, arruma a coluna, abre um canal do YouTube com exercícios físicos em blocos de 15 minutos, muda de aba pra postar alguma coisa no Twitter, se perde em um vídeo engraçado de uma criança branca fazendo coisas que crianças brancas fazem, retwitta algo falando mal do Bolsonaro, estica o corpo mais uma vez, lembra que deixou a aba de exercícios físicos aberta, assiste ao vídeo tomando cerveja sentada, junta as latas na mesma sacola, deita na cama mexendo no celular e adormece. No dia seguinte, o despertador toca e você vê que alguém te mandou uma mensagem e que nada está como deveria estar. Você pula da cama pra cadeira sem tirar nem a remela do canto do olho e, quando percebe, o dia já passou, você já abriu outro vídeo de exercícios físicos no Youtube e está falando mal do Bolsonaro no Twitter. Você cochila com a remela de ontem nos olhos. E acorda completando umas 45 horas sem banho. E passa um café antes de encarar o chuveiro, sem culpa. 

Não que isso tenha acontecido comigo. Hoje, não, pelo menos. Até porque hoje é feriado. E eu não faço a menor ideia do que vou fazer com tantos blocos em branco. Talvez eu realmente consiga fazer os exercícios hoje? Talvez. Vou colocar na lista de tarefas: fazer o treino de 15′ daquele vídeo. O objetivo é suar, liberar os hormônios que deixam a gente feliz. Essas coisas. Vou tentar. Vou conseguir. Hoje, eu posso. Eu consigo. O próprio Obama encarnado em meu corpo: Yes, we can. Yes, we can! E, amanhã, yes, we did! 

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PCP #02 – bicampeões da fé

Uma coisa importante que todos devem saber sobre mim é que eu sou corinthiana. Isso quer dizer que, religiosamente, rezo todas as noites ao Pai Cássio que está nos céus. Imunizado seja vosso gol. Ontem teve reprise do jogo que trouxe pra Itaquera o segundo troféu do Mundial de Clubes. O ano era 2012, Corinthians x Chelsea no Japão. Nosso time tinha um Guerrero. Ralf também tava em campo, o que deve explicar a devoção de alguns corinthianos por esse jogador, que mais parece um cone, mas segue em campo.

Assim que terminei de assistir o jogo, em puro êxtase, adicionei, em caixa alta, à minha lista de tarefas: VESTIR A CAMISA DO TIMÃO! Agendado pra hoje, às 8h15, hora que estou saindo do banho. Visto a camisa do Timão. Encontro uma playlist incrível de músicas sobre o Corinthians e dou play pra tocar enquanto tomo meu café. Descubro que o Paulo Novaes também canta sua alma alvinegra. Tem que saber respeitar que a gente pôde chegar. Eu sou Corinthians, e grito, EU SOU BICAMPEÃO! A música é mela cueca, mas cheia de verdades. 

Eu adoro de música mela cueca. E, por mela cueca, entenda que falo de músicas de diversos gêneros: MPB, folk, voz e violão, funk melódico… E eu nem sei o que é funk melódico. Mas não tem nome de coisa que dá pra dançar com a mão pra fora da janela do carro? Queria colocar a mão pra fora da janela do carro. Pois no Corinthians é assim: quando parece que é o fim, a gente mostra o que é ser campeão! 

Abro o organizador no meu computador e começo: revisar o calendário, olhar a lista de tarefas, checar o bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Quando é o próximo jogo? Nova tarefa: procurar quando teremos reprises de clássicos. Talvez tenha no Globoplay, ou no Premiere. Meu cunhado me passou a senha, anotei no arquivo de senhas dos outros, dentro da pasta de Senhas e Códigos de Acesso. Tem que ter fé que vai virar, aquela bola vai entrar e a Fiel vai explodir de emoção. Um arrepio me passou pela espinha só de lembrar o grito uníssono da torcida cantando que é sangue no olho, é tapa na oreia, é o jogo da vida E O CORINTHIANS NÃO É BRINCADEIRA!!!!!!! Adicionei outra tarefa: fazer uma lista de jogos disponíveis no Premiere que quero assistir. Em seguida, outra: planejar quando assistir cada jogo. 

Entrei em reunião cantarolando um salve o Corinthians, camisa do Corinthians e uma xícara do Corinthians cheia de café – poderia ser cerveja, mas seria socialmente inaceitável. 

–  Camisa bonita. – me disse algum outro corinthiano, cujo vídeo ainda não tinha sido carregado. Não reconheci a voz. As iniciais eram AM. Poderia ser o André ou o Ângelo.
– Tô com saudade até de sofrer. Rezo pro Cássio toda noite.
– Amém, irmã. – pela resposta, era o André.
– Assistiu o jogo ontem? – tava doida pra comentar, pensei em sugerir um poropopó virtual.
– Não. Tenho dois filhos. Assisti Mundo Bita.
– Todo mundo assiste esse negócio?
– Todo mundo de 0 a 7 anos, sim.
– Idade mental conta?

Silêncio.

– Vai Corinthians, então – eu tentei.
– Mas eu lembro, como se tivesse visto ontem, daquele gol do Guerrero no auge da esperança…
– Dá até palpitação, né?
– Uma vontade de gritar…

Era a hora. Eu abri a boca pra gritar o poropopó. Alguém, que não estava feliz com o diálogo, cortou:

– E aí, pessoal, todo mundo já entrou? Podemos falar da pauta?

Mandei um chat privado pro AM:

– Ele deve ser palmeirense.
– Flamenguista.
– Dor recente. Normal.

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PCP #01 – eu gosto de mulher

PCP. Plano de Contingência de Pandemia. Este relato é, e não há a menor intenção de ser algo além disso, uma cápsula do tempo aberta. Como não é possível prever ou gerenciar os acontecimentos dos próximos dias, semanas, quiçá meses, torcemos para que não anos; como não é possível prever ou gerenciar, vou registrar. 

Coisas impossíveis e improváveis acontecem em pandemias. Você também não deve saber disso – a não ser que você seja a Rainha Elizabeth e, nesse caso, should I be writing with an accent? Penso com certa frequência se, em algum momento, alguém imaginou que estaríamos em 2020, trancados dentro de casa, sofrendo de calor em apartamentos sem varanda, falando por videoconferência uns com os outros e evitando, a qualquer custo, todo e qualquer momento de reflexão, tentando não surtar. 

A parte do isolamento e superocupação para evitar a reflexão é até comum, eu sei, mas o isolamento obrigatório e a superocupação com LIVES, dificilmente. Eu não tenho nada contra as lives. Acho ótimas. Assisti Zeca, Manu Gavassi, Marília Mendonça, Ana Carolina e gritei muito por dentro. Mas a gente precisava mesmo de tantas? Fica difícil pensar. Inclusive no que diz respeito aos horários. 

Os horários são cruciais para o desempenho da live. A live da Manu, às 19h, aconteceu em um bom horário, porque cabia ali embaixo da última reunião. Começou junto da primeira cerveja. Quando a live acabou, eu ainda tinha alguma dignidade. A da Ana Carolina, mi-nha-mi-ga, complicou. Sexta-feira, 21h. A chance da cerveja já ter batido é gigantesca. O expediente acaba às 19h, a primeira cerveja vem uma hora antes. Porque é sexta. E o vírus quer matar todo mundo e eu não vou morrer sem tomar essa cervejinha.

Fui lá, abri uma cerveja, comecei um esquenta alto astral, cantando que se não for por mulher não saio nem do lugar. Continuo trabalhando, fechando os últimos detalhes para começar a próxima semana bem. Mulher de corpo inteiro, não fosse por mulher eu não era roqueiro. Eu não sou, você é? A Ana Carolina não. Grito MULHER PRA PRESIDENTE! Listo todos os detalhes pra ter o final de semana tranquilo. EU-GOS-TO-É-DE-MU-LHER! Abri a segunda cerveja ainda na primeira música. Bom, assim não vou precisar pensar em mais nada. Já anotei que preciso revisar calendário, lista de tarefas, bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Mulher eu já provei. Eu sei que é bom demais, o resto eu não sei. 

Nesse ritmo, quando terminei de dar check em todas as caixinhas do organizador, já estava com as duas pernas em cima da cadeira, abraçando os joelhos e cantando que EU SUBO BEM ALTO PRA GRITAR QUE É AMOR e endossando o trocadilho mais sem-vergonha da música brasileira: e eu vou de escada pra e-le-var a dor. 

Às 21h eu tava bêbada. Dançava com os braços erguidos, andando com a cadeira de rodinhas pela sala. Na TV, um vídeo da Ana Carolina com Angela Ro Ro num improvável clima sensual ao cantarem que gostam de homens e de mulheres – e você, o que prefere? Eu dispenso homens de sobretudo e gosto das mulheres, melhor sem sutiã. Levanto. Danço. Rodopiando, segurando a quarta lata de cerveja. Ana Carolina entra ao vivo. Quando começa a live, já estou completamente entregue à inevitável nostalgia que aparece no primeiro acorde de qualquer música do disco Ana Rita Joana Iracema e Carolina.

Chorei? Chorei. Estou sofrendo, realmente, em minha vida? Não estou sofrendo. Não deveria estar. Pensei: deve ter algo a ver com os astros. Fui buscar. Pois bem: vênus. Retrógrado. Em gêmeos. Honestamente, nem sabia que os planetas ficavam retrógrados EM SIGNOS, mas veja só: ficam. Em Gêmeos. O que significa, em resumo, que o passado vai voltar pra te fazer ver se gosta do caminho que sua vida tomou. Até dia 6 de agosto, diz aqui. A resposta é que eu gosto, SIM, porque PLANEJEI CADA PASSO. Então, imediatamente abro minha agenda. Até dia 10 de junho preciso pensar no que dizer caso eu seja agraciada com o retorno de alguma das pessoas com quem me relacionei. Coloco dois lembretes: dia 10 penso e escrevo, no dia seguinte reviso. Dia 12 tudo estará pronto e, se a solidão pandêmica causar algum lapso de carência no dia dos namorados, estarei preparada. 

Com isso, somado ao meu contato que sempre adianta a data das lives de Marília Mendonça, fico sempre afrente das possíveis discussões. Mal assisti a última, tamanha a comoção de uma ex que insistiu que havia se apaixonado pelo o que havia inventado de mim e, por isso, estava ali de corpo e alma para me conhecer de verdade. Como se eu quisesse. Previsível. Mal precisei ajustar o texto que tinha planejado.

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Esse é o primeiro texto da série Plano de Contingência de Pandemia. 🙂

PCP #00 – O PCP

Essa é a história de uma personagem que mora sozinha, bebe demais e faz muitos planos. Em dez crônicas inspiradas em músicas, conta minúcias dos dias que se repetem quando não se tem espaço. Autoficção e verossimilhança: parece tão real que quase aconteceu. 

Boa leitura! É só clicar aqui para ler todos.

Ou, se preferir: 

Capítulo 1, com a versão da Ana Carolina da música “Eu gosto de mulher”.

Capítulo 2, com uma música do Paulo Novaes sobre o Corinthians, chamada “Bicampeões da Fé”.

Capítulo 3, com a conta errada de Caetano em “Como dois e dois”.

Capítulo 4, com Chico Buarque lembrando a gente que “apesar de você”, amanhã há sempre de ser outro dia.

Capítulo 5, com vários artistas independentes dançando no quintal, como indicado na música “Terreiro”, da banda O Grilo.

Capítulo 6, bebendo Cajuína cristalina em Teresina com Caetano Veloso.

Capítulo 7, com Belchior e Elis mostrando que dói perceber em “Como nossos pais”.

Capítulo 8, entrando no clima com Arlindo Cruz.

Capítulo 9, com máscara na cara e muita coceira ao som de “Malemolência”, da Céu.

Capítulo 10, fechando a série sem vergonha de sofrer com Cazuza em “Down em mim”. 

Nesse link você acessa uma playlist com todas as músicas citadas no PCP.

o poema do futuro por extenso

o futuro sempre é
reescrito por extenso

penso no
futuro
extensivamente
intensificado por mentes
dispostas
esperançosas
criativas
expandidas
pela avalanche
de conteúdo consumido
em completo isolamento

penso
no futuro
extensivamente
intensificado por mentes
exaustas
desgostosas
comprimidas
pela avalanche
de conteúdo consumido
em completo isolamento

talvez seja impossível
diferenciar o que foi feito por quem

talvez seja inviável
tentar

talvez
estejamos todos sujeitos
a respirar os resquícios da
individualidade alheia libertada
em completo isolamento

talvez
enxerguemos
a olho nu
o que há de cru
em todas as pessoas:
medo de morrer
e medo de sobreviver

talvez seja impossível
diferenciar o que foi feito por quem

talvez seja inútil
tentar

poema escrito para o edital de emergência do itaú cultural

 

do lado de lá

a gente sempre quer uma vida extraordinária esperando pela gente logo ali na próxima porta a ser aberta. eu quero, pelo menos. mais que a sorte de um amor tranquilo. e até parece que, um dia, vai rolar. quando a maré está boa, a sensação que dá é que a gente tá indo muito bem e que as coisas vão se resolver. quando não tá, a gente sente que o mundo inteiro vai desabar na nossa cabeça e a gente não vai poder fazer nada pra mudar.

já passei pelas duas coisas muitas vezes. questionei minha sanidade, minha capacidade, minha competência, meu caráter e minhas decisões em inúmeras situações diferentes. geralmente, em decorrência do excesso de confiança aplicada em alguém que, a gente sempre acaba descobrindo, não merecia. por outro lado, me senti segura, confiante, forte, absurdamente capaz, lindíssima: boa companhia, boa de copo, boa de papo e boa de cama, como cantam bruna caram e roberta sá.

tem muita coisa que não dá pra ignorar. a vida, você sabe, dá umas rasteiras na gente meio fora de hora e a gente não tem tempo de raciocinar. age no impulso. fala o que não devia. deixa de falar um tanto. deixa falarem o que não poderia. ouve o que jamais deve ser dito por ninguém: acredita, absorve. acontece. gente sente tudo: gente não pensa muito. deveria. poderia. eu agradeceria.

a gente aprende a relevar. ignorar. deixar lá. um buraco no assoalho, um monte de poeira em cima de um tapete caro. e vai embora. porque o tempo passa e a gente aprende a ir. a gente sai da casa, a gente sai de quem a gente era e vai pra outro lugar com quem a gente descobre que é. com outras pessoas, com outras conversas, contextos, cenários. com outras histórias.

e torce pra que a vida se torne, um pouco de cada vez, extraordinária. torce pra que renda boas histórias. torce pra que sempre tenha alguém que mereça ouvir. e pra ter pique pra descobrir quem.

primeiro de maio

meu trabalho da vida é escrever. sempre foi. até quando eu não trabalhava, escrevia. dia desses, destralhando coisas da Gaveta De Bagunça, achei uma história de seis páginas que escrevi durante as aulas da sexta série. sei disso porque estava escrito: “Fim. (Escrito por Giovanna Marques – nº 14 – 6ªB)”. não era um trabalho pra escola, era uma história que eu queria contar. era de amor.

eu lembro de escrever nas últimas páginas dos cadernos e de acabar invadindo as matérias das aulas do ensino médio. lembro de carregar um caderno a mais na mochila pra escrever o meu livro. lembro de escrever cartas, contos, músicas, textos, histórias.

foi depois da escola que isso virou trabalho: entrei no universo da publicidade por meio do digital. trabalhei em agência, escrevendo todo tipo de conteúdo pra internet, pra todo tipo de marca. ao mesmo tempo, minha tia me mostrou um blog que buscava uma colunista fixa pra falar de cultura. por que não eu? tentei. consegui.

na agência, escrevia post de facebook, fazia ghost writing pra gente c-level que não tinha tempo de escrever, fazia estratégia, planejava campanha, atendia cliente, organizava equipe e bebia muito, muito, muito café e ainda mais cerveja. para o blog, escrevia um texto por semana. pra falar de literatura, de cinema, de peça de teatro, de lançamento musical. fui pra cabine de imprensa, pra lançamento, coletivas, consegui exclusivas, entrevistei nomes conhecidos e entrevistei pessoas cujos nomes deveriam ser conhecidos. conversei com a primeira mulher a dirigir um longa metragem no brasil. assisti, sentada na platéia, o lázaro ramos ensinar, com cautela e educação, uma jornalista branca a fazer questionamentos pertinentes sobre racismo.

alguns anos depois, descobri que a escrita podia me levar a trabalhar com pessoas e marcas muito legais e fui redescobrir minha literatura trabalhando com dois escritores fodas. na minha primeira entrevista, com um deles, saí escrevendo um texto sobre o aviso de proibido fumar no elevador do prédio. na segunda entrevista, com o outro, saí tão inspirada que escrevi dezenas (literalmente) de páginas do meu livro no caminho de volta pra casa.

sempre digo que entre escrever as marcas na minha biografia e deixar a minha escrita na biografia das marcas, escolho fazer os dois. trabalho formalmente criando para marcas porque acredito que, em um mundo capitalista como o nosso, empresas têm um poder de mudança gigantesco. se minhas palavras puderem direcionar o caminho para o bem, estou satisfeita. por hoje e todos os outros dias.