PCP #02 – bicampeões da fé

Uma coisa importante que todos devem saber sobre mim é que eu sou corinthiana. Isso quer dizer que, religiosamente, rezo todas as noites ao Pai Cássio que está nos céus. Imunizado seja vosso gol. Ontem teve reprise do jogo que trouxe pra Itaquera o segundo troféu do Mundial de Clubes. O ano era 2012, Corinthians x Chelsea no Japão. Nosso time tinha um Guerrero. Ralf também tava em campo, o que deve explicar a devoção de alguns corinthianos por esse jogador, que mais parece um cone, mas segue em campo.

Assim que terminei de assistir o jogo, em puro êxtase, adicionei, em caixa alta, à minha lista de tarefas: VESTIR A CAMISA DO TIMÃO! Agendado pra hoje, às 8h15, hora que estou saindo do banho. Visto a camisa do Timão. Encontro uma playlist incrível de músicas sobre o Corinthians e dou play pra tocar enquanto tomo meu café. Descubro que o Paulo Novaes também canta sua alma alvinegra. Tem que saber respeitar que a gente pôde chegar. Eu sou Corinthians, e grito, EU SOU BICAMPEÃO! A música é mela cueca, mas cheia de verdades. 

Eu adoro de música mela cueca. E, por mela cueca, entenda que falo de músicas de diversos gêneros: MPB, folk, voz e violão, funk melódico… E eu nem sei o que é funk melódico. Mas não tem nome de coisa que dá pra dançar com a mão pra fora da janela do carro? Queria colocar a mão pra fora da janela do carro. Pois no Corinthians é assim: quando parece que é o fim, a gente mostra o que é ser campeão! 

Abro o organizador no meu computador e começo: revisar o calendário, olhar a lista de tarefas, checar o bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Quando é o próximo jogo? Nova tarefa: procurar quando teremos reprises de clássicos. Talvez tenha no Globoplay, ou no Premiere. Meu cunhado me passou a senha, anotei no arquivo de senhas dos outros, dentro da pasta de Senhas e Códigos de Acesso. Tem que ter fé que vai virar, aquela bola vai entrar e a Fiel vai explodir de emoção. Um arrepio me passou pela espinha só de lembrar o grito uníssono da torcida cantando que é sangue no olho, é tapa na oreia, é o jogo da vida E O CORINTHIANS NÃO É BRINCADEIRA!!!!!!! Adicionei outra tarefa: fazer uma lista de jogos disponíveis no Premiere que quero assistir. Em seguida, outra: planejar quando assistir cada jogo. 

Entrei em reunião cantarolando um salve o Corinthians, camisa do Corinthians e uma xícara do Corinthians cheia de café – poderia ser cerveja, mas seria socialmente inaceitável. 

–  Camisa bonita. – me disse algum outro corinthiano, cujo vídeo ainda não tinha sido carregado. Não reconheci a voz. As iniciais eram AM. Poderia ser o André ou o Ângelo.
– Tô com saudade até de sofrer. Rezo pro Cássio toda noite.
– Amém, irmã. – pela resposta, era o André.
– Assistiu o jogo ontem? – tava doida pra comentar, pensei em sugerir um poropopó virtual.
– Não. Tenho dois filhos. Assisti Mundo Bita.
– Todo mundo assiste esse negócio?
– Todo mundo de 0 a 7 anos, sim.
– Idade mental conta?

Silêncio.

– Vai Corinthians, então – eu tentei.
– Mas eu lembro, como se tivesse visto ontem, daquele gol do Guerrero no auge da esperança…
– Dá até palpitação, né?
– Uma vontade de gritar…

Era a hora. Eu abri a boca pra gritar o poropopó. Alguém, que não estava feliz com o diálogo, cortou:

– E aí, pessoal, todo mundo já entrou? Podemos falar da pauta?

Mandei um chat privado pro AM:

– Ele deve ser palmeirense.
– Flamenguista.
– Dor recente. Normal.

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PCP #01 – eu gosto de mulher

PCP. Plano de Contingência de Pandemia. Este relato é, e não há a menor intenção de ser algo além disso, uma cápsula do tempo aberta. Como não é possível prever ou gerenciar os acontecimentos dos próximos dias, semanas, quiçá meses, torcemos para que não anos; como não é possível prever ou gerenciar, vou registrar. 

Coisas impossíveis e improváveis acontecem em pandemias. Você também não deve saber disso – a não ser que você seja a Rainha Elizabeth e, nesse caso, should I be writing with an accent? Penso com certa frequência se, em algum momento, alguém imaginou que estaríamos em 2020, trancados dentro de casa, sofrendo de calor em apartamentos sem varanda, falando por videoconferência uns com os outros e evitando, a qualquer custo, todo e qualquer momento de reflexão, tentando não surtar. 

A parte do isolamento e superocupação para evitar a reflexão é até comum, eu sei, mas o isolamento obrigatório e a superocupação com LIVES, dificilmente. Eu não tenho nada contra as lives. Acho ótimas. Assisti Zeca, Manu Gavassi, Marília Mendonça, Ana Carolina e gritei muito por dentro. Mas a gente precisava mesmo de tantas? Fica difícil pensar. Inclusive no que diz respeito aos horários. 

Os horários são cruciais para o desempenho da live. A live da Manu, às 19h, aconteceu em um bom horário, porque cabia ali embaixo da última reunião. Começou junto da primeira cerveja. Quando a live acabou, eu ainda tinha alguma dignidade. A da Ana Carolina, mi-nha-mi-ga, complicou. Sexta-feira, 21h. A chance da cerveja já ter batido é gigantesca. O expediente acaba às 19h, a primeira cerveja vem uma hora antes. Porque é sexta. E o vírus quer matar todo mundo e eu não vou morrer sem tomar essa cervejinha.

Fui lá, abri uma cerveja, comecei um esquenta alto astral, cantando que se não for por mulher não saio nem do lugar. Continuo trabalhando, fechando os últimos detalhes para começar a próxima semana bem. Mulher de corpo inteiro, não fosse por mulher eu não era roqueiro. Eu não sou, você é? A Ana Carolina não. Grito MULHER PRA PRESIDENTE! Listo todos os detalhes pra ter o final de semana tranquilo. EU-GOS-TO-É-DE-MU-LHER! Abri a segunda cerveja ainda na primeira música. Bom, assim não vou precisar pensar em mais nada. Já anotei que preciso revisar calendário, lista de tarefas, bullet journal e enviar a pauta para a equipe. Mulher eu já provei. Eu sei que é bom demais, o resto eu não sei. 

Nesse ritmo, quando terminei de dar check em todas as caixinhas do organizador, já estava com as duas pernas em cima da cadeira, abraçando os joelhos e cantando que EU SUBO BEM ALTO PRA GRITAR QUE É AMOR e endossando o trocadilho mais sem-vergonha da música brasileira: e eu vou de escada pra e-le-var a dor. 

Às 21h eu tava bêbada. Dançava com os braços erguidos, andando com a cadeira de rodinhas pela sala. Na TV, um vídeo da Ana Carolina com Angela Ro Ro num improvável clima sensual ao cantarem que gostam de homens e de mulheres – e você, o que prefere? Eu dispenso homens de sobretudo e gosto das mulheres, melhor sem sutiã. Levanto. Danço. Rodopiando, segurando a quarta lata de cerveja. Ana Carolina entra ao vivo. Quando começa a live, já estou completamente entregue à inevitável nostalgia que aparece no primeiro acorde de qualquer música do disco Ana Rita Joana Iracema e Carolina.

Chorei? Chorei. Estou sofrendo, realmente, em minha vida? Não estou sofrendo. Não deveria estar. Pensei: deve ter algo a ver com os astros. Fui buscar. Pois bem: vênus. Retrógrado. Em gêmeos. Honestamente, nem sabia que os planetas ficavam retrógrados EM SIGNOS, mas veja só: ficam. Em Gêmeos. O que significa, em resumo, que o passado vai voltar pra te fazer ver se gosta do caminho que sua vida tomou. Até dia 6 de agosto, diz aqui. A resposta é que eu gosto, SIM, porque PLANEJEI CADA PASSO. Então, imediatamente abro minha agenda. Até dia 10 de junho preciso pensar no que dizer caso eu seja agraciada com o retorno de alguma das pessoas com quem me relacionei. Coloco dois lembretes: dia 10 penso e escrevo, no dia seguinte reviso. Dia 12 tudo estará pronto e, se a solidão pandêmica causar algum lapso de carência no dia dos namorados, estarei preparada. 

Com isso, somado ao meu contato que sempre adianta a data das lives de Marília Mendonça, fico sempre afrente das possíveis discussões. Mal assisti a última, tamanha a comoção de uma ex que insistiu que havia se apaixonado pelo o que havia inventado de mim e, por isso, estava ali de corpo e alma para me conhecer de verdade. Como se eu quisesse. Previsível. Mal precisei ajustar o texto que tinha planejado.

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Esse é o primeiro texto da série Plano de Contingência de Pandemia. 🙂

PCP #00 – O PCP

Essa é a história de uma personagem que mora sozinha, bebe demais e faz muitos planos. Em dez crônicas inspiradas em músicas, conta minúcias dos dias que se repetem quando não se tem espaço. Autoficção e verossimilhança: parece tão real que quase aconteceu. 

Boa leitura! É só clicar aqui para ler todos.

Ou, se preferir: 

Capítulo 1, com a versão da Ana Carolina da música “Eu gosto de mulher”.

Capítulo 2, com uma música do Paulo Novaes sobre o Corinthians, chamada “Bicampeões da Fé”.

Capítulo 3, com a conta errada de Caetano em “Como dois e dois”.

Capítulo 4, com Chico Buarque lembrando a gente que “apesar de você”, amanhã há sempre de ser outro dia.

Capítulo 5, com vários artistas independentes dançando no quintal, como indicado na música “Terreiro”, da banda O Grilo.

Capítulo 6, bebendo Cajuína cristalina em Teresina com Caetano Veloso.

Capítulo 7, com Belchior e Elis mostrando que dói perceber em “Como nossos pais”.

Capítulo 8, entrando no clima com Arlindo Cruz.

Capítulo 9, com máscara na cara e muita coceira ao som de “Malemolência”, da Céu.

Capítulo 10, fechando a série sem vergonha de sofrer com Cazuza em “Down em mim”. 

Nesse link você acessa uma playlist com todas as músicas citadas no PCP.

o poema do futuro por extenso

o futuro sempre é
reescrito por extenso

penso no
futuro
extensivamente
intensificado por mentes
dispostas
esperançosas
criativas
expandidas
pela avalanche
de conteúdo consumido
em completo isolamento

penso
no futuro
extensivamente
intensificado por mentes
exaustas
desgostosas
comprimidas
pela avalanche
de conteúdo consumido
em completo isolamento

talvez seja impossível
diferenciar o que foi feito por quem

talvez seja inviável
tentar

talvez
estejamos todos sujeitos
a respirar os resquícios da
individualidade alheia libertada
em completo isolamento

talvez
enxerguemos
a olho nu
o que há de cru
em todas as pessoas:
medo de morrer
e medo de sobreviver

talvez seja impossível
diferenciar o que foi feito por quem

talvez seja inútil
tentar

poema escrito para o edital de emergência do itaú cultural

 

do lado de lá

a gente sempre quer uma vida extraordinária esperando pela gente logo ali na próxima porta a ser aberta. eu quero, pelo menos. mais que a sorte de um amor tranquilo. e até parece que, um dia, vai rolar. quando a maré está boa, a sensação que dá é que a gente tá indo muito bem e que as coisas vão se resolver. quando não tá, a gente sente que o mundo inteiro vai desabar na nossa cabeça e a gente não vai poder fazer nada pra mudar.

já passei pelas duas coisas muitas vezes. questionei minha sanidade, minha capacidade, minha competência, meu caráter e minhas decisões em inúmeras situações diferentes. geralmente, em decorrência do excesso de confiança aplicada em alguém que, a gente sempre acaba descobrindo, não merecia. por outro lado, me senti segura, confiante, forte, absurdamente capaz, lindíssima: boa companhia, boa de copo, boa de papo e boa de cama, como cantam bruna caram e roberta sá.

tem muita coisa que não dá pra ignorar. a vida, você sabe, dá umas rasteiras na gente meio fora de hora e a gente não tem tempo de raciocinar. age no impulso. fala o que não devia. deixa de falar um tanto. deixa falarem o que não poderia. ouve o que jamais deve ser dito por ninguém: acredita, absorve. acontece. gente sente tudo: gente não pensa muito. deveria. poderia. eu agradeceria.

a gente aprende a relevar. ignorar. deixar lá. um buraco no assoalho, um monte de poeira em cima de um tapete caro. e vai embora. porque o tempo passa e a gente aprende a ir. a gente sai da casa, a gente sai de quem a gente era e vai pra outro lugar com quem a gente descobre que é. com outras pessoas, com outras conversas, contextos, cenários. com outras histórias.

e torce pra que a vida se torne, um pouco de cada vez, extraordinária. torce pra que renda boas histórias. torce pra que sempre tenha alguém que mereça ouvir. e pra ter pique pra descobrir quem.

primeiro de maio

meu trabalho da vida é escrever. sempre foi. até quando eu não trabalhava, escrevia. dia desses, destralhando coisas da Gaveta De Bagunça, achei uma história de seis páginas que escrevi durante as aulas da sexta série. sei disso porque estava escrito: “Fim. (Escrito por Giovanna Marques – nº 14 – 6ªB)”. não era um trabalho pra escola, era uma história que eu queria contar. era de amor.

eu lembro de escrever nas últimas páginas dos cadernos e de acabar invadindo as matérias das aulas do ensino médio. lembro de carregar um caderno a mais na mochila pra escrever o meu livro. lembro de escrever cartas, contos, músicas, textos, histórias.

foi depois da escola que isso virou trabalho: entrei no universo da publicidade por meio do digital. trabalhei em agência, escrevendo todo tipo de conteúdo pra internet, pra todo tipo de marca. ao mesmo tempo, minha tia me mostrou um blog que buscava uma colunista fixa pra falar de cultura. por que não eu? tentei. consegui.

na agência, escrevia post de facebook, fazia ghost writing pra gente c-level que não tinha tempo de escrever, fazia estratégia, planejava campanha, atendia cliente, organizava equipe e bebia muito, muito, muito café e ainda mais cerveja. para o blog, escrevia um texto por semana. pra falar de literatura, de cinema, de peça de teatro, de lançamento musical. fui pra cabine de imprensa, pra lançamento, coletivas, consegui exclusivas, entrevistei nomes conhecidos e entrevistei pessoas cujos nomes deveriam ser conhecidos. conversei com a primeira mulher a dirigir um longa metragem no brasil. assisti, sentada na platéia, o lázaro ramos ensinar, com cautela e educação, uma jornalista branca a fazer questionamentos pertinentes sobre racismo.

alguns anos depois, descobri que a escrita podia me levar a trabalhar com pessoas e marcas muito legais e fui redescobrir minha literatura trabalhando com dois escritores fodas. na minha primeira entrevista, com um deles, saí escrevendo um texto sobre o aviso de proibido fumar no elevador do prédio. na segunda entrevista, com o outro, saí tão inspirada que escrevi dezenas (literalmente) de páginas do meu livro no caminho de volta pra casa.

sempre digo que entre escrever as marcas na minha biografia e deixar a minha escrita na biografia das marcas, escolho fazer os dois. trabalho formalmente criando para marcas porque acredito que, em um mundo capitalista como o nosso, empresas têm um poder de mudança gigantesco. se minhas palavras puderem direcionar o caminho para o bem, estou satisfeita. por hoje e todos os outros dias.

alma sebosa

mas, porra, é claro que tem uma razão pra eu não ter respondido suas mensagens, por ter silenciado suas postagens no facebook, por não ter dado like no seu parabéns na minha linha do tempo. aliás, eu nem entendo pra quê você ainda tenta falar comigo, sendo que na nossa última conversa eu deixei muito, muito, muito claro que eu não tava nem um pouco afim de manter relações com você. e já faz anos. eu deixei claro que diferença política não é igual time de futebol que a gente ignora e faz piada. e olha que eu já não gosto de me relacionar com gente que não reza pro cássio antes de dormir. a questão aqui, bem, é que diferença política mata gente, diferença política empobrece a alma. a sua é pobre e podre. e você ainda tem coragem de falar de deus. acontece que você me lembra um monte de coisa que eu não suporto. a ideia de você me dá nojo. você me lembra de tudo o que é pequeno, de tudo o que é arrogante, de tudo o que é feio, de tudo que não cresce, não muda e não evolui. você me lembra do que me angustia o peito e me lembra das pessoas que nunca lembram de ninguém porque estão preocupadas com coisas que não têm a menor importância. você é a soma de todas essas pequenezas e, nem assim, consegue crescer. continua sendo pequeno. minúsculo. pensa pequeno, vive pequeno, se limita no que escuta e não explora o que a vida pode ser. é disso que o johnny hooker fala quando canta alma sebosa. e tô pra te dizer que eu fiquei melhor sem você, não apenas sobrevivi. dá até dó. gente pequena não cabe no meu espaço. de você, e esse povo que vem no pacote com você, eu tô bem tranquila. nem passa amanhã.

o processo de todas as coisas

eu sou ruim com o processo de todas as coisas. meu maior pesadelo é a vida acontecer sem chegar a lugar algum.

isso me parece um jeito de explicar, por exemplo, minha fixação pela morte ou minha obsessão pela primeira frase de livros. elvira vigna, com muita sabedoria, começa seu “deixei ele lá e vim” com toda a força do mundo: “meire está ali, de pé na minha frente. sua cara é a única coisa que muda num mundo em que nada muda há muito tempo.”

Deixei ele lá e vim

esse trecho sempre fez todo o sentido do mundo pra mim. menos agora. agora, o mundo inteiro tá mudando o tempo todo. todo dia. de ontem pra hoje já mudou tanto que eu já nem sei mais se eu, se fosse elvira, reconheceria a mudança no rosto de meire.

as coisas estão mudando, a rotina está mudando, a casa já mudou. aqui, na nossa casa, a gente mudou a mesa de lugar. com isso, tudo tem outra cara. a tomada de sempre não tem utilidade. o lugar pra colocar as chaves não é mais o mesmo. e, no mais, o nosso corpo já é outro. a minha mente mudou. e, bom, vai continuar mudando. o tempo todo, todo dia.

e desse processo não dá pra fugir. dá pra tolerar. dá pra tentar levar de outro jeito. dá pra tentar levar com outra cara. dá pra tentar fazer as coisas serem mais leves. dá pra tentar fazer curso, aula online, especialização, yoga, jump, alongamento, ver live. dá pra tentar aflorar a espiritualidade, dá pra jogar tudo pro alto. dá pra fazer tudo, só não dá pra fugir.

e eu, logo eu, que sou ruim com o processo de todas as coisas, decidi nem tentar. decidi permitir esse processo acontecer. com os dias bons, quando eu acredito que vamos todos passar por isso da melhor forma possível, danço na sala de casa, dou um beijo bem gostoso na minha namorada antes de levantar e faço o café dançando. e, também, respeitando os dias ruins, quando não consigo fazer as letras da tela do computador terem sentido, o corpo não aguenta levantar da cama e o café fica fraco.

faz parte do processo. eu precisei aprender. e, se tiver sorte, quem sabe não aprendo a lidar com os outros tantos quando a gente conseguir descobrir onde tudo isso vai dar. porque, por mais irônico que seja, a gente não tem como sair imune dessa. ainda bem.

o ar condicionado e o meu perfil do twitter

estranhamente, acho que esse texto precisa de uma introdução. eu trabalhava em uma empresa onde, vira e mexe, o ar condicionado quebrava. o ar condicionado também não tinha um controle central e, por isso, era mexido todo dia pelas pessoas que, como em todo lugar, brigavam entre si pela temperatura ideal. isso é comum. a questão é que, nesse dia em que esse texto foi escrito, eu perdi o acesso à minha conta do twitter. fiquei inativa por pelo menos catorze meses. a conta já tinha muitos anos de vida, foi criada antes dos meus 13 anos (a razão pela qual eu fui banida durante uma varredura e pente fino do twitter para confirmar a idade dos usuários) e eu tinha muita coisa guardada lá. na época, eu usava a rede social do jeito certo e vivia twittando sobre toda e qualquer coisa. no primeiro dia, tive a ideia de escrever tudo no mesmo texto, como num fluxo de consciência, o que eu postaria no twitter em situações normais. nunca tinha lido, desde que escrevi. gosto do resultado e resolvi dividir. pronto. agora vai.

“o ar condicionado da sala de reunião quebrou e tá muito quente aqui. eu comi muito, muito mais do que deveria. sabe o executivo do boteco da esquina? comi inteiro com duas porções de feijão, uma eu roubei do meu amigo que pediu uma carne de panela e achou que não combinava – eu acho que combina. feijão sempre combina com arroz e outros molhos. até com estrogonofe. desculpa, sociedade. voltei do almoço com tanta comida no estômago que não consegui acender um cigarro na volta pro escritório. cheguei querendo fumar um cigarro. tá muito quente aqui. será que, se eu acender um cigarro aqui, vai pegar fogo em tudo? espero que não. afudê é do caralho. ficou tudo do caralho. depois de tanto tempo de trabalho, muito, muito trabalho, deu tudo certo. afudê. quando respondem kkk pra não bater em você: acho engraçado. kkk. o bruno bandido escreve risadas do mesmo jeito desde 2009. sei disso porque tava lendo os textos dele de 2009. hah. ele ri assim. três letrinhas. acho quase escroto. kkk. alguém conserta o ar condicionado, pelo amor de deus? a vida é uma merda e de vez em quando, quando você vai atravessar a rua, o sinal abre. hoje é dia do escritor e eu terminei de ler o livro do vitor. o martins. tá calor. queria fumar um cigarro. eu gosto do meu isqueiro novo. meu nariz tá muito entupido. esse tempo tá uma merda, tô doente de novo. consertaram o ar condicionado. tô apaixonada de novo pela jade baraldo. queria estar assim com a menina que eu gosto. não apaixonada. apaixonada eu tô.”

um trabalho que não gosto

não gostar do próprio trabalho é um privilégio de muitos. amar o que você faz não é sinônimo de não trabalhar um dia sequer, como dizem por aí. a frase correta deveria ser: “encontre um trabalho que você ama e não fique sem trabalhar um dia sequer”. um burnout aos 22 e três pedidos de demissões depois, preciso dizer que, hoje, sou privilegiada: eu tenho um trabalho que não gosto.

apesar de já ter amado meus colegas de trabalho, de já ter dividido a conta da cerveja com quem me pagava o salário, de já ter chorado bêbada no colo de quem podia me demitir, de já ter ganhado prêmios renomados, de já ter vivido muitos sorrisos em um escritório que eu amava, nada se compara ao prazer de não gostar do próprio trabalho.

o prazer inenarrável de não precisar se apegar aos detalhes, porque aquilo simplesmente não importa. a deliciosa sensação de poder sair no horário sem culpa, porque tudo aquilo o que se refere ao trabalho que você não gosta se torna desnecessário. a maravilha, o prazer, o deleite de se entregar às garras de uma última cerveja tarde demais em dia útil, porque o dia seguinte pela manhã, no trabalho que você não gosta, não importa tanto assim.

existem coisas para as quais ninguém te prepara e, vou dizer, essa é uma delas: ter o trabalho que você não gosta é uma oportunidade de construir pontes sem um cnpj envolvido. poder descobrir o lado bom das pessoas sem se preocupar com o que elas trabalham – afinal, quem tem um trabalho que não gosta, não quer falar dele pra ninguém.

eu, pelo menos, sei que não quero.

quando me perguntam como vai o trabalho, sempre digo: “ah, você sabe como é, né?” e deixo a vida ir acontecendo nas perguntas que se sucedem. quase sempre o assunto é cortado, quase sempre alguém pede pra passar o açúcar, quase sempre a conversa morre.

ninguém quer saber de você que tem um trabalho que você não gosta, todo mundo quer saber daquele cara que enche o peito pra dizer que às 05 da manhã já está lendo e respondendo e-mails. da mulher em uma saia lápis se orgulha das 14h consecutivas que trabalhou ontem. porque estar de corpo, alma e coração é definitivo para o futuro da empresa e que, ah!, ela se orgulha de precisar ir embora do happy hour pra trabalhar porque é assim: quando a gente ama o que faz, não se importa de fazer sacrifícios.

deus me livre.

vou até tomar mais uma cerveja pra garantir que amanhã eu chego atrasada.