mas isso aqui, meu senhor, é uma carta de amor

tem alguma coisa no jeito que cê me olha. cê não me olhava assim antes, não. é bom, agora. antes, meio desconfiado. uma coisa meio um pé atrás, outro também. uma coisa meio não-sei-direito-será-que-devo. uma coisa meio o beijo que cê não me deu no dia que a gente se conheceu. uma coisa meio o beijo que cê não me deu naquele outro dia também. eu não. eu te olhei com uma cara de quem te queria desde o primeiro dia. eu sou assim. não sei se dá pra ser de outro jeito, mas gosto de ser. bem assim. de ter te olhado com cara quem te queria. de ter chegado bem pertinho e quase morrido de vontade, mas ter aceitado que a chuva tava mais forte que a tua vontade de me beijar e te deixar lá, mesmo. foi engraçado pegar na tua mão antes de te beijar. foi quase-bom o tanto que a gente demorou pra dividir a cama. só não foi tão bom porque foi tão bom que podia ter sido antes. eu acho que na real quando te olhei da primeira vez já sabia que ia acontecer alguma coisa. a gente falou muito logo de cara. eu adoro falar muito, já te falei um monte. a gente fala tanto que a gente vai mudando. o assunto. o lugar. o semblante. a vez de quem. é mágico falar tanto te amando o tanto que te amo. é mágico o que você faz em mim. é mágico o meu peito que treme quando cê diz que me ama. quando cê me pede um beijo. meu peito falta sair do peito. pra onde iria, eu fico me perguntando. é que é mágico o gosto do seu beijo. o tanto que me hipnotiza o cheiro do seu pescoço. o tanto que me tira do eixo seu corpo colado no meu. você ressignificou meus dias. entrou na minha vida pedindo muita licença. mas quando cê parou pra me olhar, eu já tinha escancarado a porta da frente.

doze de junho

doze de junho é dia dos namorados e eu queria te desejar uma vida feliz. queria te dizer que faz algum tempo que a gente escolheu estar junto e que, mesmo que a gente não tenha dado nome, sonho com seu sorriso quando consigo dormir em paz. e, nos meus sonhos mais assustadores, quando alguém vem me salvar é sempre você. quando ninguém me salva, é em você que eu penso pra me acalmar quando acordo. e aí eu tô salva.

queria te dizer que desde que te conheci a vida tem sido mais fácil. nem um pouco por causa da vida. totalmente por causa do jeito que você sorri pra mim de manhã. do tamanho do seu cabelo. do formato da sua boca. do gosto do seu beijo. do cheiro do seu pescoço. do beijo que você me dá na nuca. do abraço que é só seu. do que transborda do meu peito quando você chega. e do tanto que eu gosto de te ver chegar.

doze de junho é dia dos namorados e eu queria que você soubesse que a sociedade só criou essa data pra vender mais coisas, mas tem tantos corações espalhados pela cidade que me parece um bom momento pra te dizer que cada um deles me lembra de você. que você criou, ou melhor, nutriu dentro de mim uma coisa tão linda que me dá vontade de cantar. estar com você me faz querer olhar de novo pra vida com um pouco mais de gosto. me dá sempre a sensação de que dá pra ser melhor: eu, as coisas, o mundo. dá mais cor pro cinza que eu vejo todo dia, mais motivação pras noites que eu preciso enfrentar madrugada adentro pra dar conta da vida que, bem, como eu já disse, nunca foi fácil por si só.

é doze de junho e, eu sei, tem muita coisa envolvida, vai além de só você e eu – mas, às vezes, eu acho que nem precisava ir, não. podia ser dez de junho e doze de junho pra gente, sabe? a gente se virou até aqui. e eu queria continuar me virando com você daqui pra frente. e mais e mais pra frente. e se você deixar, eu vou continuar aqui. tentando pisar menos na bola. tentando endireitar meu jeito torto. tentando te fazer dar uma risadinha, pelo menos. te escrevendo poemas. falando de você. decorando o  caminho que suas pintas fazem pelo corpo.

é doze de junho e, eu sei, eu sou cafona. tô aqui inventando mais uma desculpa pra falar de amor.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje. não é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. é uma parada: é mais ou menos como se a cidade inteira – ou a avenida paulista – parassem pra celebrar o orgulho lgbt no mesmo canto durante algumas horas. é a única data do ano que as pessoas não tacam coisas em pessoas no metrô por causa de arco-íris ou do seu tipo de amor. é basicamente o livre direito de circulação de pessoas lgbtq pra cidade. é mais ou menos assim: para aí, a parada é nossa. a cidade inteira, hoje, é nossa.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia. e é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. essa parada é ótima: a gente tá aparecendo. saindo do armário, sabe? pouco a pouco, porque ainda dá medo. é osso de aguentar gente falando na sua orelha, eu admito. é osso de aguentar parente falando que você nunca foi assim, por que agora é?!, como se fosse uma escolha de roupa nova do dia. é osso de aguentar ouvir que é amigo de quem a gente ama do fundo do peito. é osso de aguentar ouvir que a gente é bicho, é verme, é sujeira, é promíscuo. a gente não é nada disso, não, cara. a gente é gente boa demais.
a gente quer dar risada da vida e faz isso todo dia, quando dá. quando não tem um da gente morrendo, tomando lampadada, sendo sequestrado, sendo injustiçado no trabalho, sendo nivelado por baixo porque não deixa seu amor pra lá. a gente dá risada da vida quando consegue andar de mão dada sem ter que ouvir que é bonito demais para. a homofobia é uma merda, puta que pariu, que grandessíssima merda. mas tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje, tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia e, com sorte, vai ter uma parada gay acontecendo dentro de todo mundo um dia pra todo mundo entender que essa parada de ser gay não tem que fazer ninguém parar, não.
aliás, a parada é movimento, dança, é gente que se mexe, gente que quer fazer a roda girar, fazer a vida acontecer sem tanto drama, sem tanta trama, sem precisar criar esquema pra gente poder ser. a gente não quer ser gay – a gente nasceu gostando de gente e tá vivendo aí fazendo o que o peito diz que faz bem. tá bom ou quer mais? vou te contar: vai acontecer uma parada muito gay nos próximos dias quando eu encontrar a mulher que eu descobri que eu amo. e ela é linda, viu? muito, muito, muito linda. e a parada gay que acontece entre a gente tem tanto movimento que me leva mais pra frente do que eu jamais acreditei que pudesse ir. e acontece todo dia.
é uma coisa louca. dá até vontade de cantar daniela: a cor dessa cidade sou eu. quando eu tô com ela, o canto dessa cidade é todo nosso. eu quero movimentar essa parada pra gente poder ser movimento pra todo canto. essa parada que é um negócio tipo treco tipo bagulho tipo trem. tipo tudo isso. juntinho. igual a gente. que gosta de ser junto. juntinho.

armários

eu nem queria sair do armário e me socaram pra fora porque começaram a falar que deus não era legal, porque, olha, veja bem: gente legal não é homofóbica nem segregacionista nem te julga porque você transa antes de assinar meia dúzia de papéis – na real, mesmo, se você for ler a bíblia vai entender que deus era legal sim porque quer que a gente seja feliz de verdade e não faz o menor sentido botar numa necessidade fisiológica o peso da fogueira do inferno, mas, tá, seguimos: me socaram pra fora do armário porque eu não suportaria nem a pau viver dentro daquele lugar escuro e sem cor, daí, bem, foi isso, saí do armário da religião pela porta da frente e, ao invés de viver livre leve solta, soquei todos os meus amigos gays dentro do armário da minha vida e fingi para papai e mamãe que não eram gays coisa nenhuma eram só duas amigas, só dois amigos, ele tava abraçando de pertinho porque é bem carinhoso mesmo, eu juro, não precisa nem questionar duas vezes, mas aí elas se beijaram lá e minha mãe viu umas mensagens e ok, é gay, que que tem, deixa serem felizes, eu não tenho nada a ver com isso: até ter e nossa, como eu tenho a ver com isso e o que é isso que eu estou sentindo?, se ela é uma mulher eu não deveria estar me sentindo assim, tinha que ser diferente, tinha que ser um sentimento de admiração e amizade, mas eu queria mesmo era beijá-la até o dia virar noite e continuar beijando depois que a lua aparecesse pra dar seu brilho pro céu e aí isso pra mim era ser feliz de verdade, porque ela me fazia feliz de verdade, então eu preciso fingir que não e, olha lá, me instalei dentro do armário de novo, mas cansei, não tenho mais idade pra mentir, e saí do armário pela décima sétima vez e caminhei pra fora com o peso do mundo nas costas e agora eu to andando por aí avisando pra todo mundo que perguntar que o beijo que eu quero de manhã vem de outra mulher e ela é a pessoa mais linda do mundo e a porta do armário não cabe mais no meu quarto e na verdade o que eu sinto por ela também é bem maior que aquele espaço e eu explodo o tempo todo porque sinto que se eu me apaixonar só mais um pouquinho por ela meu coração vai triplicar de tamanho e vou precisar de um corpo novo pra colocá-lo: o nando reis fala que tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém e, hoje, fora do armário, talvez eu tenha entendido tudo e queira muito não explodir e só tornar esse amor real e entregá-lo às mãos que seguram as minhas pela rua, em público, sem madeira nenhuma em volta até porque marrom é uma cor morta e ela é a pessoa que mais gosta de cores que eu conheço – espero que tenha sido por isso que ela tenha escolhido ficar comigo: eu gosto das cores todas e meus amigos dizem que eu sou uma das pessoas mais coloridas que eles conhecem e eu quero dar pra ela razão pra enxergar todas as cores que existem nesse mundo.

quando você nasce pra dar certo e não dá

quando você nasce pra dar certo e não dá, sempre tem alguém pra te lembrar o por quê. como se tivesse alguma coisa a ver com não gostar de brincar de boneca. como se fosse culpa de divórcio. ou de más influências. como se tivesse sentido culpar aquela minha amiga. como se tivesse sentido culpar.

ninguém nunca me culpou por trabalhar demais – só meu próprio corpo e meus terapeutas. ninguém nunca procurou em quem colocar a culpa das minhas conquistas profissionais. nunca sequer questionaram se havia uma razão pro meu jeito emoção de lidar com o mundo ao redor: eu sempre cuido pra que a vida seja mais leve. não tem culpa.

mas me culpam por gostar de acender um cigarro de manhã junto com o café. por ter largado cursos que não me faziam bem. por dizer não quando eu não quero. por querer ficar com quem me dá vontade de ficar, não importa onde. como se a gente tivesse escolha, sabe? como se a gente ficasse ponderando o que incomoda mais, só pra incomodar – e a gente pondera o que faz sentir melhor, e faz.

mas, se você nasce pra dar certo, você teoricamente não tem o direito de fazer o que faz sentir melhor. você tem direito de fazer o que tem que ser feito. casar, ter dois filhos, terminar a faculdade, fazer uma especialização, um mestrado, ser phD em alguma coisa. aí você não faz: não quer casar, não quer ter filhos, dane-se o academicismo. a minha pira é outra.

quero realizar: ver as coisas mudando de forma, a vida em movimento, os dias acontecendo um atrás do outro – sem pausas. eu gosto de quem acompanha. quem topa o vinho no copo errado, a cerveja na rua, a exposição no fim do mundo num dia aleatório, ficar junto pra não dormir. gosto de quem fica junto. essa é a minha pira.

e acho que nem tinha que ter medo envolvido nisso aí. nem vergonha. nem pé atrás. boto os dois pés na frente, com medo mesmo. na cara, nem vergonha nem maquiagem. limpa. lavada. indo, sempre. pra onde, eu descubro.

um dia alguém vai me dizer que lembra de um texto que eu escrevi um dia sobre não ter vergonha nem medo e eu vou falar que também lembro. porque eu tenho escrito esse texto a vida inteira. e ele nunca vai estar completo: eu não sou o que nasci pra ser – eu não nasci pra nada, porque eu nasci pro todo. e o todo é coisa demais pra acabar um dia. então tá bem: tragam os ossos do ofício, indiquem os palheiros que eu busco as agulhas, minha cara está pronta pros tapas e eu comprei peroba pra passar na minha cara de pau. deixo que digam, que pensem, que falem. manda a bola, eu rebato no peito. deixa a vida ser o que é. a minha é. sempre vai ser.

“queria tanto que alguém que me amasse por alguma coisa que escrevi”

conheci caio fernando abreu em algum lugar aleatório das estantes das bibliotecas que frequentei no ensino fundamental. eu com certeza não estava procurando por alguém que havia escrito crônicas e contos e romances no século passado e, menos ainda, buscando autores que haviam morrido no ano que nasci. lembro de ainda estar usando uniforme azul de moletom e gorro quando li pela primeira vez as palavras “queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi”. fiquei perpetuamente tocada pela possibilidade de conseguir um amor por algo que não sabia (e ainda não aprendi) como não fazer.

eu queria muito um amor.

caio

na minha cabeça pré-adolescente, conseguir um amor dependia de muitas coisas que eu não sabia fazer direito. um amor exigia uma coleção de vestidos bonitos, com pelo menos um pretinho básico e vários saltos 15. tinha certeza que pra viver um amor era preciso usar maquiagem (o que eu me forcei a fazer, mesmo odiando), alisar os cabelos (o que eu também fiz) e um cartão-fidelidade de uma floricultura. meu futuro amor merecia flores. eu tinha certeza que, pra ter um amor, era preciso cozinhar bem (a única coisa da lista de pré-requisitos que eu sabia fazer), limpar a casa e ser ótima na cama – eu tinha essa preocupação e, naquela época, a única coisa agitada que eu fazia na cama era acordar de pesadelos com a vilã “zula, a menina azul” do castelo rá-tim-bum.

apesar de toda essa meninice de não entender nada sobre o amor (quem entende?), fiquei esperançosa quando conheci caio. primeiro, porque foi um dos primeiros autores que li que não escreviam como quem dá aulas de hermenêutica. eu sentia que podia ter escrito o que lia – e quanta prepotência! segundo, porque seu desejo se tornou o meu: quando o li, já havia começado a escrever. mais ou menos um mês atrás, encontrei um conto que escrevi há mais de dez anos. é péssimo. mas serviu para recordar com clareza como sempre encontrei uma forma de documentar quaisquer que fossem os sentimentos talhados no meu peito. ou então os presos nessa minha mente que nunca poupou esforços pra inventar o que quer que fosse e coubesse em dúzias de palavras ritmadas, repetidas, listadas e agrupadas em frases longas sem pontos finais. certas coisas nunca mudam.

quando conheci caio fernando abreu, uma revolução aconteceu na minha vida: eu tinha, agora, um autor preferido. e ele, em alguma escala, havia vindo junto com a possibilidade de realização de um desejo meu – que fora dele e do qual me apossei. em suma, entrei na biblioteca atrás de um livro e ganhei dois amores. o de caio e o que me amaria por alguma coisa que escrevi. e caio me foi – e é – um amor, daqueles eternos, porque tenho certeza que ele e eu nos encontramos nas vidas passadas que eu nem acredito que tive, mas gosto de fingir que sim, só pela possibilidade de tê-lo visto em alguma delas.

e comecei a mirabolar sobre esse amor. ele se apaixonaria pelas minhas palavras, tão minhas. se apaixonaria ao me ver escrevendo à mão, ou no computador, ou em guardanapos dos restaurantes que frequentaríamos – e eu não estaria vestindo um único pretinho básico, nem salto 15, nem maquiagem e nem estaria de cabelo alisado, porque agora nada disso era necessário já que eu teria um amor que me amaria pelo que eu havia escrito.

esse meu amor, o que me amaria pelas razões certas, me levaria para tomar um café e entenderia completamente quando eu olhasse para o nada com cara de quem acabou de encontrar um romance entre os quadros da decoração. ele aprenderia a mexer na minha cafeteira para fazer café quando o meu acabasse e ouviria atentamente à minha prova de artigos, textos, contos e romances inteiros se preciso fosse. e ganharia todos. esse meu amor se esconderia por entre as entrelinhas dos meus textos sobre são paulo, seria o “você” de todas as longas cartas pra ninguém que eu passaria a escrever depois de muito ouvir adriana calcanhotto num dia meio feio.

na minha cabeça, esse meu amor que me amaria por alguma coisa que eu escrevi seria daqueles brandos que abraçam apertado sem a menor justificativa e discutem sem levantar o tom de voz. que não maltratam o lado de dentro de peito e dão beijos de amor louco sempre que a vontade bate – o amor que eu imaginei era do tipo que apanha da vontade que bate a qualquer hora do dia.

a coisa mais louca dessa vida é que eu nunca esperaria que, para ter um amor desse tipo e que me amaria por uma coisa que eu escrevi, eu precisaria escrever outras coisas. para que o amor que me amaria pelo o que eu escrevi cumprisse todos os requisitos que eu mirabolei – que eram quase uma soma pior que de salto 15, pretinho básico e maquiagem com cabelo alisado -, eu precisaria escrever coisas calmas, de voz baixa, sem exclamações, com mais pontos finais e, talvez, uma quantidade menor de palavrões ou menções à coisas que me são tão importantes tais quais os nuncas e sempres e todos os outros amores que passaram pela minha vida. pra eu ter um amor daqueles eu precisaria ser uma escritora daquelas.

e sendo uma escritora como sou, os amores que me aparecem exclamam. gritam. berram. são doidos e dizem não e dizem sim e depois juntam o não e o sim num meio de caminho que nem eu nem o amor entendemos e seguimos sem nada entender sem vírgulas usar construindo sentenças longas demais. quem vai cumprir? meu desejo se realizou e me amaram e me amam por alguma coisa que escrevi: caio devia ter avisado que o seu amor vem de acordo com o que você cria e, pasme! it’s both a bless and a curse. caio devia ter avisado que ser um escritor que fala o que quer é sempre ser um amor que tem o peito dilacerado e depois se reconstrói com as palavras que despencam de cada um dos ventrículos átrios veias e moléculas sanguíneas que se espalham pelo chão.

não tem poesia em ser amado pelo que se escreveu – no máximo, você cria alguma poesia desse amor: fria, mórbida, sem muita esperança, com palavras muito duras. ou, quem sabe, se você for um escritor como eu, consiga criar uma poesia com esperança de um próximo amor melhor que, talvez, quem sabe, virá num momento em que minhas palavras serão mais brandas e que, talvez, quem sabe, atrairão um amor que caiba na ideia mirabolante da pré-adolescente que, um dia, pegou um livro de caio fernando abreu na mão e decidiu que só acreditaria no amor se ele se apresentasse dizendo que amou alguma coisa que escrevi.

te quero

eu falei que não ia e que, meu deus, não podia, nem por descuido nem por intenção me deixar cair no seu papo sem noção. avisei que não ia me apaixonar, pra você desencanar, pra gente deixar como tá, fazer a página virar, levar tudo como dá.
foi no décimo segundo d’um áudio qualquer que meu peito apertou e eu senti mais que deveria. eu senti mais que deveria quando o tom da sua voz faltou bater no teto tamanha emoção. senti muito, blues, em manhãs seguintes, em noites sem limites, em contas de bar divididas por dois e naquela que você pagou só.
parecia que tinha virado pó tudo que eu tinha dito, que você tinha guardado no bolso minha resistência e me levado caminhando devagar em caminho à inconsciência de me deixar chegar no ponto de considerar te responder sim, te dizer que te quero pra mim, que neguei pra evitar problema, mas que não dá mais nesse esquema e que eu vou precisar da sua ajuda para superar essa bagunça que eu acabei de juntar.
eu disse muito que não ia. repeti. me ignorei, de novo. e fiz.
escrevi cartas, no plural, sem saber onde ia chegar. comi refeições fartas, bebi cervejas geladas, uísques sem nenhum gelo e lidei com suas palavras sem zelo. entendi seu cuidado, te deixei no seu quadrado e superei os dias sem suas gargalhadas. que errada fui eu, sem saber como ficar na hora que te senti encostar no meu ombro, puxar a cadeira, sentar do lado, atrapalhar a passagem. que viagem.
não sei quando te quis, mas te quis: perto, junto, dentro. e vou te dar esse momento.
tento.
mas eu avisei desde o começo, não penso duas vezes antes de falar, sei que pode machucar. ou curar. ou sarar. no meu caso, citar. recitar. enviar. depois de divagar, devagar, sobre você que me diz o que nem condiz. por isso, eu falei que não ia. eu nem podia. Deus nem queria. mas eu quis tanto, a vida fez da paixão um canto que eu não soube abstrair. e acho que a gente não vai dar certo, nossa cama não tem endereço perto e nossa agenda cisma em não se encontrar. eu vou avisar minha cabeça pra tomar tenência e ter a decência de te deixar pra lá. é que eu já pedi antes pra ela não querer você, que o mundo tá cheio até nem ver mais gente pra se ter. a cabeça não me obedece, não tem prece, nem cerveja, nem uísque, nem cachaça que me faça te colocar onde você tinha que ficar. te guardei um lugar no canto da mente, atrás de tanta gente, e você expulsou todo mundo sem gritar, só com seu jeito de encantar e agora tá tão vazio que eu não sei nem como me portar. era pra ser bom, só eu e você, numa mesa qualquer, mas tem outra mulher, num plural que eu não quero colocar pra minha mente não se perturbar. você vai embora em alguma hora e eu prometi que ia ficar – e fico. enquanto você não for, eu fico. depois, quem sabe, te indico pra quem me disser que quer viver uma coisa doida, pra ter sentimento até perder de vista e, quem sabe, fazer graça pra algum turista dessa cidade que, em todos os seus cantos, não esquece você. eu te disse que não ia, mas estabilidade nunca foi meu forte e você deu sorte que eu demorei pra entender que meu desejo era falta e meu anseio era pauta de mais um texto que, num dia chuvoso, num lugar só seu, eu ia escrever pra te dizer que eu disse que ia ser o fim, mas acontece que eu não posso esconder que eu te quero, sim. ai de mim.

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
que passou por mim no metrô
quem me fez o pescoço virar quando na praia eu vi passar
que me tirou o sono depois d’uma madrugada sem fim

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
que me deu a paz num café sem açúcar
me deixou fora do eixo num só beijo
que me cantou canções de paixão sem que eu pudesse ouvir

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
e pra esse amor que eu não consigo dar
pra esse sentimento que eu não consigo deixar
acontecer
crescer
ou, talvez, rebobinar

eu nem sei se tenho peito pra tanto amor
e dou amor pros peitos cheios de amor
e dou amor pras vidas cheias de vida
e dou amor pras vidas que não me querem, amor
dou amor pra quem não devia
enlaço mãos que não podia
divido copos em demasia
e pros amores que se entregam a mim
fica tão pouco
que peço perdão, porque
eu nem sei se tenho peito pra tanto amor,
amor

mas aí, cantam

os bons dias passavam tão longe
que eu já nem reconhecia mais o caminho
quando chegavam
batendo à porta,
pedindo licença,
passando pela sala,
correndo direto pro quarto
sem nem limpar os pés

eu não reconhecia mais
a sensação de ter paz
de não querer voltar atrás
de poder tomar um vinho
de me banhar com carinho
porque você vivia a me tratar
como se eu não merecesse nada mais
como se você não fosse capaz
de respeitar meu coração
que nunca te disse não
que te segurou a mão
o braço
as pernas
os joelhos, feridos
a cabeça
cheia
lotada dessas coisas
que eu nem tinha que lidar

meus amigos
meu terapeuta
dois bêbados num balcão de bar
e um amigo que fiz fumando fugida de você na praça
me disseram
quatro vezes cada um
que eu havia me metido numa cilada
que amor daquele jeito não servia pra nada
que era só um ponto final atrás do outro
uma coletânea infinda de reticências
que nunca tinham
verdadeiramente
mais
nada
a
dizer

eu sabia que não
que não podia aceitar
que eu não podia ser a única a me entregar
que do outro lado precisava ter alguém
que fosse
pelo menos
o mínimo, não pedi um cento,
mas pudera ao menos um vintém
que me servisse pra dormir bem
que prestasse atenção
e não repetisse perguntas
que ouvisse meu som
e não me cansasse com suas dúvidas

mas me acostumo com paixões bandidas
porque elas me destroçam
cansam minha mente
bagunçam meu peito
me fazem gozar da cortina pra dentro
e me fazem gritar da janela pra fora
me estilhaçam a vida
e me destroem inteira

depois que me quebram,
escrevem uma canção,
pegam o violão
e aí, cantam
distraídos
sem muita afinação
mas de forma branda,
quase com o coração
e eu me remonto toda
ao som daquela voz
que já disse tudo que não podia dizer
que gritou o que eu nunca mereci ouvir
que protagonizou meus pesadelos
me fez sangrar por entre os dedos
mas quando estão no tom
remontam meus estilhaços
e me aprisionam em seus compassos
dos quais eu
tentei me desvincular
mas
hoje
sei até recitar

eu nunca

você sempre, eu nunca. quem vira o copo? uma vida baseada em amores rasos que vão embora rápido numa peripécia infinda de tentar envolver qualquer coisa que não tenha nem solução, nem objetivo, nem questionamento, nem consequência pro caso de vir a acabar. a gente se envolve nas coisas pra quê, se nem objetivo têm? pra onde elas vão, afinal?

você sempre vai, eu nunca fico. a gente acaba no mesmo lugar, mas, o copo, quem vira?

eu viro a casaca, jogo no mundo, quero que o mundo se acabe em fel pra eu poder adoçar. você assiste o espetáculo e aplaude no final. se bato o pé no chão e jogo o braço pro céu, você segura minha mão e me beija pra me calar a boca. não dá pra te enfiar em música nenhuma, porque você canta todas e tudo te encaixa bem. eu sou uma coletânea riscada das canções do cazuza que ninguém nunca ouviu. exagerado é pouco e o amor que ele inventa não chega nem perto do amor que a gente criou. e que criação, ein?

moldamos a mão cada uma das curvas de uma estrada de barro, horrível de andar apé, pior ainda pra pneus de má qualidade como os do seu carro – que vive quebrado enfurnado em alguma oficina meia-boca que nunca vai resolver problema nenhum. e a gente anda mesmo assim. você, sem reclamar. eu, listando todos os contras. o único pró é que você tá junto. pra você, a paisagem vale o perrengue. esse copo, mais ainda, por deus, quem será que toma.

você sempre, eu nunca. eu nunca topo nada pré-agendado, detesto essa parada de ir sempre no mesmo lugar e caminho pela vida descobrindo pra onde tô indo a cada passo que dou. você sempre sabe pra onde vai, senta na mesma mesa do mesmo bar, pede a mesma cerveja pro mesmo garçom que já decorou seu gosto, seu rosto e seu cartão. você tava no de sempre, eu tava no de nunca. por acaso, dividimos o balcão. duas pingas, puras, sem limão.

você sempre, eu nunca.

quem vira?