ésse ésse

não é nem que é só cansaço, tem a ver com uma sequência de sentimentos ruins que vão se juntando um em cima do outro e apertando o de baixo e crescendo até que chegue outro que o aperte e cresça e seja esmagado pelo próximo que vai crescer antes de entrar no bolo de coisa ruim que parece que faz esforço pra se adaptar no espaço que tem no meu peito. uma angústia desenfreada que não cabe nas coisas que têm dado certo e ainda menos na vida que já foi tão pior. a sensação infinita de não ser suficiente e o gosto amargo que fica na boca quando eu sinto que tá doendo muito mais do que deveria. podia ser tão simples. era pra ser. eu cheguei lá. mas lá ainda parece tão longe daqui. e eu só continuo andando. o problema é que agora eu já tô cansada demais e tudo dói. eu só quero enfiar o dedo na garganta e vomitar até não sobrar mais estômago nem esôfago nem faringe nem boca e comece a sair o pulmão o coração e quem sabe quando as últimas veias saírem não saia também um ou dois dos sentimentos amontoados que a essa altura já devem ter virado uma coisa só. fica até mais fácil desentender o singular silencioso que só repete assim:

um texto de quem viveu 2017

sentei pra escrever esse texto umas quinze vezes. nunca pareço encontrar as palavras certas: logo eu, que falo tanto, escrevo o tempo todo e sempre tenho um pitaco pra dar. acontece que esse ano foi muito doido. eu comecei de cabelo comprido a viver 2017 e fui cortando. lugares, ocupações, hobbies, julgamentos, pessoas, palavras, medos, hábitos. fui cortando e sobrou só o necessário: quando vejo foto da mesma data do ano passado, não me reconheço. o óculos era outro, o cabelo muito longo, o sorriso menos largo do que deveria. e sempre fui de sorrir largo. mas tem excesso que a gente precisa cortar pra aumentar. tem excesso de medo, de mania – tem excesso de falta de coragem que faz a gente parar por tanto tempo. a gente só percebe que estagnou quando anda de novo.

no último ano, perdi a vontade de fazer cena. perdi a coragem de não me ouvir – que tarefa desafiadora essa de ignorar alguém que nunca te abandona. perdi o medo de perder: elizabeth bishop já tinha avisado que a arte de perder não é nenhum mistério. eu que nunca quis ouvir. perdi o medo e tatuei um monte de coisa que eu amo ver no meu corpo. tudo de uma vez. ouvi que era doida um milhão de vezes. sou. mudei o óculos e o ponto de vista: parei de usar remendos pra enxergar a realidade que tava na minha frente, sabe? aprendi a enxergar as coisas de forma crua e transparente, porque é mais fácil ser feliz quando a gente não se perde nas ilusões que cria porque quer. e cria porque quer ser mais feliz. é quase irônico.

foi nesse ano que eu entendi que cometo erros mil, mas que eles são parte do processo. que tem gente que usa a gente de apoio e que tudo bem, porque a gente faz isso com os outros sem notar, também. aprendi que a vida da gente é mais que a falsa estabilidade de saber pra onde ir amanhã de manhã. fui pra tantos lugares novos amanhã de manhã. falei sim pra umas coisas que até hoje não acredito. conheci gente da melhor qualidade. dancei até o chão, gargalhei altíssimo. atrapalhei várias reuniões, levei tantas outras nas costas. conquistei: clientes, pessoas, amores, inimizades. a gente conquista um monte de coisa sem perceber. tão bom sentir que a gente consegue conquistar gente boa. gente que fala da gente sorrindo, depois.

que delícia conquistar gente que imprime na gente uma vontade de quero mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer ir embora – que delícia ir embora de onde a gente não quer ficar. que delícia ficar onde a gente quer ficar.

fui embora mais cedo de shows, fiquei até a balada acender as luzes. abracei pessoas que me inspiram. ouvi artistas incríveis de pertinho. senti o que é viver a arte à flor da pele. criei tanta coisa boa. criei tanta coisa ruim. cantei e gritei a noite inteira e depois emendei num almoço de família. miei o rolê e dormi até mais tarde. me dei o dia de folga. trabalhei domingos inteiros. pedi o isqueiro emprestado, emprestei isqueiros mil. perdi isqueiros. perdi a hora, a paciência, a noção, a caneta azul, o tine, o rumo e a vontade.

a arte de perder não é nenhum mistério. um ano de perdas e ganhos. perder e ganhar são exercícios de vida. vivi. vivemos. que fique perto quem está disposto. paz e bem à quem não estiver. paz e bem à vida. e um brinde à nós, que somos ótimos. sempre ótimos. e seguimos. sobrevivemos.

graças a deus.

biografia

 

bem,

me pediram uma biografia
explicitar como é que eu ia
ajudar como eu podia
a entender que que tem
na cabeça dessa guria
que ora tá bem
ora, quem diria!
um furacão que ninguém imaginaria
ver bradando aos sete mares
as dores, os erros, os pesares
pintados à mão numa parede branca
um furacão que se personificou
pra vomitar seus defeitos
e organiza-los
entendê-los
encará-los
escrachá-los
um a um
mostrar pro mundo que é sempre tudo
que 8 ou 80 é pouco
que só adianta alguma coisa se tatuar pelo corpo as fraquezas
pra todo mundo ver
que que se foda quem quiser perder seu tempo
falando coisas como “você não vai acreditar!
ela dormiu numa mesa de bilhar,
fumou quatro maços de cigarro antes do dia começar,
trepou com aquela mulher,
e depois cantou uma canção
enquanto fazia cafuné
no rapaz que a interessou!”
vão falar que o decote é profundo demais
que ninguém deveria usar essas palavras antes das dez
que tem crianças aqui
que ela faz poesia porca
que não encanta ninguém, só choca
que arte quem faz são os grandes pintores que usavam azul pra esconder sua dor
e enquanto falam
e falarão
falarão
falarão
eu vou continuar caminhando por aí
com decotes até o umbigo
fumando todos os cigarros que minha vontade permitir
trepando com as mulheres homens and all the freaks in the middle que me fizerem qualquer coisa sentir
e se por acaso eu parar num bar
desses de esquina qualquer
com um cachorro na porta
e dois bêbados num balcão
e um deles me disser
que ouviu falar de mim
vou sentar ao lado deles
encher meu copo de cerveja
e perguntar
“o que dizem agora por aí?”
e deixar que os porcos
loucos
sujos
sem futuro
contem as histórias
que os limpos
sãos
críticos e estáveis
gastaram seu tempo
inventando sobre alguém
que respeita suas vontades
e escreve foda-se com seus defeitos
escrachados numa parede branca
une tudo
molda
e transforma num poema
que um dia eles vão querer citar.

eu não sou a pessoa certa

eu não sou a pessoa certa pra agora — vou chegar no momento errado e você vai dizer “se fosse dez meses atrás…”. eu não sou a pessoa certa pra dez meses atrás, porque era o momento ideal pra você conhecer a sua pessoa certa. eu não sou a pessoa certa pra ser sua amiga: vou falar alto demais, ressaltar os seus erros e não vou passar a mão na sua cabeça quando você se enfiar com aquela mina problema de novo. eu não sou a pessoa certa pra ficar com você, porque eu não vou te mandar mensagem no dia seguinte falando que adorei o papo com um emoji que pisca. ;).

eu não sou a pessoa certa pra andar de mãos dadas com você na rua. minhas mãos suam, eu fico desconfortável e esbarro nas pessoas o tempo inteiro. eu não sou a pessoa certa pra trepar e esquecer, porque às vezes eu não quero esquecer nada, mesmo sem conseguir lembrar seu nome. eu não sou a pessoa certa pra sorrir de manhã com você, porque durmo mal e acordo cedo — fica sempre difícil de sorrir com alguém quando você acorda antes das 5. eu não sou a pessoa certa pra dividir um apê com você, porque eu vou querer tudo no lugar na hora certa e talvez comece a guardar os utensílios que você tá usando pra cozinhar um estrogonofe, que eu nem posso comer, enquanto o frango não tá nem refogado. eu não sou a pessoa certa pra ir jantar com você: sou intolerante à lactose, faço dieta low carb quase sempre e detesto tempero de restaurante chique.

eu não sou a pessoa certa pra ser sua amiga. eu não vou sair da sua vida tão cedo, vou ficar insistindo pra você me dar colo quando eu precisar e vou aparecer na sua casa de ressaca querendo acender um cigarro, comer qualquer coisa e tomar uma cerveja pra rebater a noite. eu não sou a pessoa com quem você vai poder dividir uma cerveja. eu vou querer pedir o balde logo de saída, com uma porção de batata com calabresa pra acompanhar. eu não sou nem a pessoa certa com quem dividir uns litrões, porque eu canso de ficar em pé em algum momento e vou embora. eu não sou a pessoa certa pra você dividir os seus problemas, porque eu vou conseguir te convencer de que foi você quem os criou e, talvez, você entre numa paranoia profunda de que está se sabotando.

fiz isso comigo mesma.

eu não sou a pessoa certa nem pra ficar comigo. mas ninguém é. e se você quiser ficar comigo, ou com qualquer um, vai precisar passar por cima disso tudo. porque você também não é a pessoa certa pra mim e nosso encaixe é amórfico já faz tempo. mas, se você estiver disponível, a gente pode conversar sobre eu não ser a pessoa certa. porque eu não sou. mas, se quiser, a gente pode tentar. só tem que querer muito.

identidade

eu queria ser da balada, da noite, da vodca quase pura pingada de doce e gelo, do som alto com batidas contínuas e do andar tropeçado da madrugada gelada. queria ser dos que dormem sem meia no pé e planejam viagens homéricas para todo final de ano, mas não teve jeito: nasci pro chão batido de barro ao som de voz e violão.

nasci pra boteco com mesa de plástico (quando muito, madeira) e cerveja gelada no tempo que for. nasci pro samba raiz, sendo ensinada que quem não gosta de samba bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou é doente do pé. nasci boa de cabeça e boa de pé, mesmo que, pra dançar, só saiba usar os ombros.photo_2017-10-12_19-26-50

nasci pra viagem de carro no meio do dia, pra ir até o mar e agradecer. vim pra andar até onde dá ouvindo que a vida tem sempre razão, pra lembrar que a melhor qualidade que alguém pode ter é a gratidão. me olho no espelho e sei que tô aqui pra mais do que constar: não sirvo pra ser gesso de parede. nasci pra ser alicerce, concreto, arquiteta e construtora da vida que escolhi ter.

escolhi.

queria ser quem consegue viver esperando que a vida aconteça a qualquer custo, com a plena fé de que o acaso vai proteger quando andar distraído. pudera eu ser quem coloca um casaco pela manhã e, das oito às seis, aperta botão, cumpre tarefa, responde e-mails e, ao final do dia, volta pra casa com sensação de trabalho realizado, porque no fim do mês o salário vem.

o salário vem, mas a vida continua e que vida é essa que você precisa acordar cedo e colocar um casaco pela manhã pra apertar botões das oito às seis?

a vida que escolhi pra mim vai além, porque a pele é muita pra só servir pra sentir frio e ser coberta com casaco. a pele envolve todo o corpo e o corpo precisa sentir.

queria ser quem sente só frio, mas nasci pra sentir tudo. nasci pra sentir na pele frio, calor, arrepio, calafrio, abraço, toque do outro, meu próprio toque. nasci com uma pele que não aceita ser a mesma e, de quando em quando, descama e troca e envelhece e se rejuvenesce sozinha com o uso contínuo da vida como verbo de ação.

não nasci pra batida eletrônica alta nem pra virar madrugada trançando as pernas, porque na madrugada que tentei acabei parada na porta do metrô com um livro do caio fernando abreu que dizia que alguém vinha e o puxava e ao invés de tirá-lo do fundo do poço o afundava ainda mais e quem o puxava era aquele ser icônico e, agora sim, homérico que, assim como esse texto, minhas constantes, minhas verdades e a minha vida, não acaba nem assim nem agora e nem aqui

o feminismo, meu corpo e as regras de outrém

aceitar o próprio corpo é uma roleta russa. tem dia que cai em você e nem o motorista que te chamar de “balofa” pra te dar a passagem fora da faixa vai diminuir seu amor próprio. tem dia que até uma risada quando você entra no ambiente vai parecer ter sido gerada pela sua cara.

ainda mais quando você tá fora do padrão: se você não é branca, se o seu cabelo não é liso, se você não veste 38 e não calça 36, se seu corpo não entende que depilação custa caro e não mantém por duas semaninhas os últimos 70 pilas que você pagou ou se o seu nariz não foi feito pelo dr. Hollywood: I feel you, sistah.

não usar maquiagem já é um avanço. tem dia que a pele acorda pior que a dos adolescentes que precisaram de roacutan (presente!) e a vontade que dá é de jogar ácido sulfúrico pra ver se tira a oleosidade da área T. e o olho, cansado, que pede um corretivo amarelo depois do primer e uma quantidade considerável de um BB Cream qualquer? nem vou começar a falar da boca que com certeza veio da cor errada, porque todo mundo insiste em perguntar se eu tô doente se não tô de batom.

pra piorar, a vida real acontece girando em torno de uma mídia (desculpa aí, parceiros de profissão, mas cês só cagam na tanga) totalmente excludente que reafirma os padrões de beleza inalcançáveis e fazem pelo menos quatro meninas chorarem por anúncio divulgado.

não odiar o próprio corpo é uma guerra. não é falta de entender à quê nossa sociedade nos condiciona, não é falta de desconstrução (#desconstruidona). as mulheres que eu mais admiro dentro do movimento feminista têm problemas em aceitar seus corpos como são. talvez seja uma transição. mas, com certeza, é uma guerra.

é muito bonito quando a gente lê por aí que o corpo feminino é lindo como é, que suas dobras são lindas como são, que seu cabelo é lindo como foi feito, que sua celulite é poesia escrita na pele, que suas estrias são como as ondas no mar. uh! dá até pra acreditar por 1,9 segundos. mas é só olhar pro espelho que a gente volta pra estaca zero e pr’aquele terrível gosto na boca, que diz: “eu nem gosto tanto assim desse reflexo”.

o discurso é maravilhoso e toda feminista sabe recitar (presente, de novo!), mas, no fim do dia, dá pra contar nos dedos de uma mão quem realmente vive o que fala. e a culpa não é nossa, não.

eu, que me considero bonita e tenho a autoestima no lugar, vezenquando me pego pensando em como já fui mais magra, mais bonita, mais ajeitada e nas coisas que posso ter deixado de conquistar porque conquistei os 15kg que me lembram diariamente que larguei a academia umas quatro ou cinco vezes.

vejo mulheres que considero lindas reclamando de pintas pelo corpo, de cicatrizes, de celulites imperceptíveis, de marcas de nascença que parecem ter sido colocadas à mão, de tão exatas. vejo mulheres que considero lindas estragando a própria pele ao entupir os poros do rosto de maquiagem para esconder imperfeições perfeitas.

e pra quê, né? a gente deixa de sorrir pra foto porque evidencia o nariz, deixa de usar regata pra não mostrar o braço, deixa de usar shorts pra não marcar as coxas. a gente deixa de transar pra não mostrar o corpo, deixa de gozar se não apagar a luz. a gente queima a pele pra tirar o pêlo, queima o cabelo pra tirar o cacho — queima o sutiã pra quê?

aliás, sutiãs! a gente machuca e aperta o peito pra ninguém saber o que todo mundo já sabe: mulher tem mamilo.

breaking news.

é engraçado e irritante ao mesmo tempo quando a gente consegue perceber que chegou no nível em que não sabe mais se ama ou odeia o próprio corpo.

eu mesma estacionei nesse estágio. me acho bonita. e, às vezes, também acho que preciso perder esses 15kg pra ontem. me acho atraente. e também acho que ninguém tem razão alguma pra se sentir atraído por mim. não uso maquiagem, não uso sutiã e não deixo de fazer nada por conta do meu corpo. mas vezenquando preciso olhar no espelho e lembrar pela bilionésima vez que não preciso parecer com ninguém, porque eu já me pareço comigo e isso é tudo o que eu preciso ser.

a gente vai sobrevivendo com um discurso maravilhoso de amor próprio que, quando falha, faz a gente cair do cavalo na self-esteem feminist tour e chegar no fim do dia com a cara arrastada no chão, sem maquiagem, sem sutiã, com todas as imperfeições com as quais a gente nasceu, cresceu e foi construindo no corpo ao longo de uma vida toda pairando do nosso lado no fundo do poço. esses dias, a gente, que decorou o discurso e quase se sente culpada por se sentir assim, só espera acabar.

no fim do dia, a gente se odiando ou se amando, aceitando nossa pele como é ou remendando como pode, com a luz acesa ou apagada, todo mundo deita pra dormir e, no dia seguinte, acorda no mesmo corpo que, até agora, cumpriu muito bem seu papel de nos trazer até aqui. alguns dias, com nossa aprovação. outros, com nosso desprezo. sempre, bonito como é.

por hoje, já vale. amanhã a gente vê — ou espera acabar.