ésse ésse

não é nem que é só cansaço, tem a ver com uma sequência de sentimentos ruins que vão se juntando um em cima do outro e apertando o de baixo e crescendo até que chegue outro que o aperte e cresça e seja esmagado pelo próximo que vai crescer antes de entrar no bolo de coisa ruim que parece que faz esforço pra se adaptar no espaço que tem no meu peito. uma angústia desenfreada que não cabe nas coisas que têm dado certo e ainda menos na vida que já foi tão pior. a sensação infinita de não ser suficiente e o gosto amargo que fica na boca quando eu sinto que tá doendo muito mais do que deveria. podia ser tão simples. era pra ser. eu cheguei lá. mas lá ainda parece tão longe daqui. e eu só continuo andando. o problema é que agora eu já tô cansada demais e tudo dói. eu só quero enfiar o dedo na garganta e vomitar até não sobrar mais estômago nem esôfago nem faringe nem boca e comece a sair o pulmão o coração e quem sabe quando as últimas veias saírem não saia também um ou dois dos sentimentos amontoados que a essa altura já devem ter virado uma coisa só. fica até mais fácil desentender o singular silencioso que só repete assim:

no final dessa história alguém vai morrer

no final dessa história alguém vai morrer. mas antes vai passar pelo supermercado e comprar dois pães, manteiga sem sal pra fazer bolo e uma caixa de leite de soja. depois, vai andar com as sacolas todas na mesma mão e vai sentir a pressão do plástico na dobra dos dedos e vai mudar a mão porque vai doer. depois vai parar numa padaria pra comprar um novo maço de cigarros porque esse já está quase acabando e, você sabe, não dá pra ficar sem quando se chega a esse ponto de. depois vai continuar andando e chegar em casa e colocar as coisas em cima da pia de mármore sujo e sentar no sofá. então vai ligar a televisão e balançar os braços pra aliviar a pressão que fica nos dedos depois de carregar sacolas de plástico numa só mão. depois vai levantar do sofá com muita dificuldade porque a coluna vai doer e vai pra cozinha fazer o bolo com a manteiga sem sal e o leite de soja. depois vai pensar consigo mesmo que não faz o menor sentido comprar um leite de soja e uma manteiga comum, sem sal, mas vai fazer o bolo mesmo assim e enquanto estiver misturando a farinha com os ovos o leite de soja e a manteiga comum, sem sal, numa batedeira velha e encardida em cima da pia onde ainda estarão as sacolas amassadas, vai pegar no fundo do bolso o maço de cigarros e colocar um deles entre os lábios sem acender. vai perceber que a batedeira está fora da tomada e vai ficar sugando o filtro vermelho enquanto sente na boca o gosto das oitomilsubstânciastóxicas do cigarro e vai continuar batendo o bolo e vai colocar a massa na forma e ligar o forno e colocar a forma no forno. depois vai até a sala e vai sentar no sofá de novo, agora com o saco de pães, e vai cochilar e acordar com cheiro de fumaça forte e um calor descomunal e aí a coluna vai doer pra levantar de novo e o fogo vai começar a chegar perto demais. depois os pés vão começar a queimar e os chinelos vão derreter e a coluna vai continuar doendo e o fogo vai se espalhar pelo sofá que já estava velho e precisava mesmo ser trocado. a dor nos pés já vai ser insuportável e a coluna não vai deixar sair do lugar – muito menos com as pernas agora queimando como queimam os pedaços de carvão em churrasqueiras de tijolo. e depois as roupas velhas vão pegar fogo. e quando os bombeiros chegarem vão apagar todo o fogo e vão encontrar no forno o resto de um bolo feito com leite de soja e manteiga sem sal que ficou carbonizado e ninguém vai se importar e nem se surpreender. o bolo vai deixar de ser. o cigarro vai estar queimado, em cima da perna. os bombeiros não saberão dizer se estava aceso. e você já sabe o que aconteceu comigo.