à você

à você que também viu o rato atropelado na calçada da rua das olimpíadas. à você que vestiu a melhor roupa para aquele dia. à você que nunca conseguiu acertar a conta. e à você que acerta sempre. à você que ficou cinco minutos para entrar na estação antes de entrar na fila e depois mais cinco antes de chegar na plataforma e esperou cinco trens para entrar em um. à você que não tira a roupa quando chega em casa para não desanimar. à você que não desanima. à você que sabe que nada se constrói sozinho. que aceita o outro. à você que acha tempo para cantar alto na rua. à você que come bala halls preta e deixa o papel grudado dissolver na boca e engasga um pouquinho. à você que almoça no self-service mais barato. à você que arregaça no vr. à você que almoça rapidinho. à você que extrapola o horário de almoço. à você que toma três xícaras de café uma atrás da outra. à você odeia café, mas. à você que lê andando no meio da multidão. à você que beija em público. à você que não gosta. à você que acorda às cinco e meia achando que não merece – e à você que tem certeza. à você que vai dormir com a sensação de dever cumprido e à você que podia ter feito um pouco mais. à você que fica inquieto, à você que pega livros emprestados. à você que ensina e à você que ouve atentamente. à você que tentou colar salompas no pé para ver se diminuía a dor e à você que também descobriu que não adianta. à você que mantém a pose. à você que esculacha. à você que vai acender o cigarro e não acha o isqueiro. à você que empresta o isqueiro. à você que canta. escreve. pinta. dança. sabendo ou não. à você que tenta: principalmente à você. à você que tem dez anos que. à você que quer completar dez anos que. à você que enfia a cabeça no celular para não perder a estação dormindo. à você que inventa histórias para todas as pessoas ao seu lado na plataforma. à você na plataforma. à você de terno, à você de salto, à você de chinelo, pijama e bafo. à você, sem camisa na rua. à você que vive, um recado: você dá conta. e não importa o resultado.

não me siga, eu também estou perdidzzzZzz & um ode aos clichês

“não me siga, eu também estou perdida.”, cê já deve ter ouvido isso, eu aposto. ou lido, em alguma placa, num bar, num restaurante modernoso ou estampado numa caneca numa foto de fundo desfocado d’um instagram de feed organizado. quem tem tempo pra organizar feed? eu mal organizo minha mesa. aliás, fiz isso hoje: ano novo, mesa velha. arrumada, ao menos. voltei de viagem e tinha até um pedaço de calça em cima do meu computador, que estava na cama – não uso computador na cama há anos. agora, tudo sob controle. pedaço de calça no lixo, computador na mesa: cada coisa em seu lugar.

na vida, não posso dizer o mesmo. mas posso repetir clichês. uso e abuso deles e re-repito [neologismo já está permitido em 2018?]: não me siga, eu também estou perdida. e pra onde ir quando não se sabe onde está? parece abstrato, mas é menos complexo do que o diálogo de alice no país das maravilhas. eu estou aqui. na minha mesa, agora organizada, sentada, um tanto atrasada pra um compromisso que marquei não tem nem vinte minutos. marquei sabendo que tinha esse texto pra terminar: marquei sabendo que não chegaria a tempo. marquei. se isso não é coisa de gente perdida, o que é?

aliás, tem coisa mais perdida do que marcar compromissos em horários inviáveis com a falsa ilusão de que chegará em tempo? reunião às 9h num local a mais de 40 minutos de distância: ninguém chega a tempo. café da manhã às 10h na padaria debaixo de casa: não chegarei a tempo – porque é perto, vou me atrasar e sair de casa às 10h15. reunião de trabalho depois do expediente, às 18h30: não é HUMANAMENTE POSSÍVEL chegar a tempo em qualquer lugar entre as 17h30 e 19h00 em são paulo. e, mesmo assim, marcamos. por que? porque somos todos perdidos, oras. quer dizer: eu sou.

já falei? e tem mais: não me segue, não. no instagram, se quiser, pode ser. o feed não é organizado, mas as legendas são engraçadinhas. no twitter, seja bem-vindo. na vida, pelo amor de deus, me perco no caminho de casa. confundi a tijuca e o leblon, uma vez. se me largar no centro da cidade e for muito longe da roosevelt, já esqueço como COMER, tamanho desespero. não me siga.

meus amigos inventaram de me seguir, uma vez. o destino era o bixiga. acabamos numa avenida aleatória, onde todos os comércios estavam fechados e a uma ladeira IMPRATICÁVEL de distância de qualquer local conhecido. me seguiram. pagaram o Uber. é isso que acontece quando me seguem. não me sigam. eu não só estou perdida, como sou.

agora, por exemplo: vou chegar atrasada. não precisava, podia ter marcado meia horinha mais tarde pra dar tempo de, pelo menos, dar um jeito no topete. a única coisa que me consola é que a outra pessoa que vai dividir a mesa comigo também escreve. esperar me inspira. deve inspirá-lo, também. quem sabe, na minha chegada, não exista uma porção de guardanapos com um texto prontinho para ser publicado.

posso chutar? o título será algo perto de “por que insistimos em quem nunca chega na hora?” e, meu caro amigo, eu te respondo desde já: você insiste em mim e me espera, porque eu sou perdida. e não saber onde se está rende ótimas histórias. quer coisa melhor? um dia, te conto a do pedaço de calça em cima do computador. agora não dá, tô atrasada. mas tô chegando. me espera. pede chopp pra dois?

causa mortis

você entra no elevador e tem certeza que todas as mortes do século passado foram ocasionadas pelas pessoas que fumavam em elevadores. o ícone universal que proíbe sigaros em locais fechados, alocado bem na altura dos olhos dos viajantes daquela peça de metal, indica que querem que menos pessoas morram neste século que agora estamos. aí você sai do elevador e acende seu próprio sigaro sem jogar fumaça em ninguém pra morrer sozinho, se for o caso. anda pelas calçadas desniveladas e pensa que algumas das mortes deste século nada têm a ver com os sigaros e sim com tropeços de senhoras de setenta e tantos andando por lugares que seus andadores emperram e seus queixos, já frágeis, dão beijos de amor louco numa pedra fora de lugar in this sidewalk, baby. sidewalk esta preenchida por mulheres e homens carregando seus bebês protegidos do sol com uma manta quente que vai matá-los de hipertermia num futuro próximo. e aí você pensa que as mortes do próximo século serão majoritariamente de bebês protegidos do sol com mantas quentes por mães e pais que tentam evitar e causam. entra pra tomar um café no primeiro estabelecimento que vê e gasta quase vintchy reais num café com pão, entende que, na verdade, os sigaros mataram pouco e as mantas só fazem suar: o que vai matar a próxima geração são os preços exorbitantes dos cafés com pão. aí você anda mais, passa por umas bibocas esquisitas com a sensação de que está no lugar errado, chega no lugar certo, pega o ônibus pra casa e sobe as escadas, porque sua casa não tem elevador e os sigaros poderiam ser acesos sem causar uma ação genocida. entra no chuveiro, toma um banho frio. percebe que nada mata, a gente só morre. a vida acaba mesmo. que loucura. não pode acabar hoje, nem amanhã. você percebe que antes de acabar tem tanta coisa pra fazer. tanta coisa pra confabular sobre a morte. tanta coisa pra confabular sobre a vida, a maior e melhor fábula de todas. e senta. num lugar aberto, pra não matar ninguém. acende um sigaro. viva, enfim. vivíssima. 

tomar cerveja em são paulo e outros caminhos sem volta

eu nunca perco uma oportunidade de tomar cerveja na rua em são paulo. geralmente, me deparo com situações maravilhosas que fazem valer a pena quaisquer cochilos dados no metrô na volta pra casa. já conheci gente incrível em fumódromos diversos. já acabei em lugares diferentes com pessoas que eu jamais imaginei conhecer. já respirei o ar podre do baixo augusta (alguém ainda fala isso?) e o ar tarifado da oscar freire na mesma noite. já me meti a ficar zanzando pelo centro de são paulo pra ver “onde isso dá”. lugar nenhum, se querem saber. na roosevelt, geralmente. se bem ou mal acompanhada, deixo no ar. era de se esperar.

andar por são paulo é uma aventura doida. quem se atreve a sair do trecho baladas-na-augusta-ou-vila-madalena-ou-pinheiros consegue encontrar de tudo. sobretudo, gente. num mesmo final de semana, encontrei andando sem pressa por essa cidade um casal de amigos, uma menina que conheci em 2008 (quando ainda fazíamos fakes no orkut e vivíamos vidas baseadas em ações precedidas por um asterisco), um cara ótimo que eu não via há algum tempo e uma amiga que fazia um ano que não aparecia nem numa janela do whatsapp. fui da zona norte à sul, passei pelo centro e me enfiei na zona oeste em alguma parte do final de semana que, se você me perguntar agora, não vou saber te dizer qual.

tem que ter muita coragem pra viver em são paulo: é tanta coisa pra explorar que você sempre vai acabar encontrando alguém. ou alguma coisa. ou alguém meio coisa. ou uma coisa meio gente, que vai te fazer pensar em algo e te dar um estalo e você vai ter a epifania necessária pra fazer o dia inteiro diferente. e aí você vai pra um lugar que nunca imaginou, numa travessa de uma avenida que nem sabia que existia (mas tem doze bares, um copo sujo e duas baladas) e encontrar um cara que você não vê desde o casamento de 2014. nessa altura, já se divorciou e casou com outra. ou outro.

caminhar por esse buraco te leva a encontrar amores mil e perdê-los todos por entre os dedos, sem dar tempo nem de segurá-los. cê sente tanto gosto que já nem sabe mais o seu. e depois decora tanto o seu que não consegue mais se afeiçoar por gosto nenhum. cê conhece tanta gente nova que sente que tava perdendo tempo de vida e aprende a sorrir pra todo mundo que aparece, porque provavelmente o novo vem acompanhado de uma ótima história. quem vive por aqui aprende a ouvir histórias como ninguém e a construir as suas próprias usando mão-de-obra independente.

se um dia você acabar na zona norte, depois de uma festa que acontecia na zona oeste, pra onde você foi depois de um esquenta na zona sul, pare num boteco qualquer e peça uma cerveja. conhecer são paulo é tão longe de conhecer os lugares-de-sempre que posso te dizer que o maior ponto turístico é o metrô, que te leva pra todo canto. a cidade inteira é uma coisa louca, as regras não existem e não tem ninguém capaz de sair imune a esse caos. ainda mais se for são paulo de verdade, com copo sujo, um certo grau de dificuldade de acesso e um monte de moradores bairristas que nunca vão aprender a deixar a esquerda livre.

eu nunca

você sempre, eu nunca. quem vira o copo? uma vida baseada em amores rasos que vão embora rápido numa peripécia infinda de tentar envolver qualquer coisa que não tenha nem solução, nem objetivo, nem questionamento, nem consequência pro caso de vir a acabar. a gente se envolve nas coisas pra quê, se nem objetivo têm? pra onde elas vão, afinal?

você sempre vai, eu nunca fico. a gente acaba no mesmo lugar, mas, o copo, quem vira?

eu viro a casaca, jogo no mundo, quero que o mundo se acabe em fel pra eu poder adoçar. você assiste o espetáculo e aplaude no final. se bato o pé no chão e jogo o braço pro céu, você segura minha mão e me beija pra me calar a boca. não dá pra te enfiar em música nenhuma, porque você canta todas e tudo te encaixa bem. eu sou uma coletânea riscada das canções do cazuza que ninguém nunca ouviu. exagerado é pouco e o amor que ele inventa não chega nem perto do amor que a gente criou. e que criação, ein?

moldamos a mão cada uma das curvas de uma estrada de barro, horrível de andar apé, pior ainda pra pneus de má qualidade como os do seu carro – que vive quebrado enfurnado em alguma oficina meia-boca que nunca vai resolver problema nenhum. e a gente anda mesmo assim. você, sem reclamar. eu, listando todos os contras. o único pró é que você tá junto. pra você, a paisagem vale o perrengue. esse copo, mais ainda, por deus, quem será que toma.

você sempre, eu nunca. eu nunca topo nada pré-agendado, detesto essa parada de ir sempre no mesmo lugar e caminho pela vida descobrindo pra onde tô indo a cada passo que dou. você sempre sabe pra onde vai, senta na mesma mesa do mesmo bar, pede a mesma cerveja pro mesmo garçom que já decorou seu gosto, seu rosto e seu cartão. você tava no de sempre, eu tava no de nunca. por acaso, dividimos o balcão. duas pingas, puras, sem limão.

você sempre, eu nunca.

quem vira?

pra são paulo – I

talheres

são paulo uma vez me disse
numa manhã dessas quaisquer
quando se acorda no horário,
toma café sem pressa,
se lembra do que precisava se lembrar,
pega o ônibus com o motorista certo,
consegue um apoio para as lombadas
e chega-se no metrô ainda em tempo,
numa dessas manhãs,
são paulo disse que iria me engolir.

de primeira, não entendi.

segui o rumo,
entrei no vagão que me deixa mais perto das escadas,
andei pelos corredores,
peguei os atalhos diários,
subi as escadarias
e desci as mesmas escadarias
no caminho de volta pra casa
depois de deixar escorrer as horas
por entre meus dedos
enquanto, a cada minuto que passava,
eu sentia na flor da pele
o garfo e a faca
na mão da cidade
que pelo menos teve a decência de alertar
o que iria fazer comigo.