sol em escorpião

algo me diz que eu deveria entender os porquês todos
e enumerá-los
que quando o negócio pega fogo
a gente tem que saber
que se tem que ter de novo,
se é pra repetir,
se é pra comer com dez talheres,
tem que entender.

mas não entendo não.

não entendi
desde o primeiro momento.
não entendi como você conseguiu
me comer com os olhos d’um jeito
que até lilly braun duvidaria.

nem consegui sacar
o que tava acontecendo pro corpo todo estremecer num ritmo só.

nem entendi,
nem tentei
o que era que tava acontecendo
com os pelos do meu corpo
que arrepiaram-se todos de uma só vez
e uniram-se os braços,
coxas
e costas
num açoite só de você.

não entendi o que a sua boca fez.

não entendi o poder da língua,
por mais que eu
tantas,
tanto,
tontas.

não entendi o que aconteceu
com o tempo
que não deixou a vontade passar
e com a energia eletrizante
que ainda caminha pelos meus poros
só de imaginar não entender nada disso de novo.

não entendi nada da primeira vez,
entendi menos coisas ainda da segunda
e cada vez que o seu corpo encosta no meu,
por descuido
vontade
apego
hábito
intenção,
me desentendo.

entendo menos você.

entendo menos vontade.

entendo menos.

entendi menos.

não me esforcei.

entreguei. deixei.

preciso ir, mas não quero

o problema é que a distância até a porta
é muito maior que a da tua boca até minha nuca

e essa nuca implora
cê olha e ela nem tem hora
pra arrepiar
e influente que é
envia pro corpo inteiro
o sinal que ir não é ligeiro
e que é melhor aceitar

e quando a boca chega perto
não tem nem que encostar

a mente diz que vai dar merda
que contato sai caro
que se tu não parar, eu paro
mas na real procuro fresta
nas tuas desculpas esfarrapadas
pra rir bem na cara
de quem sabe que é gente enrolada
complicada
que discurso não serve pra nada
que não adianta chamar de amor
meu bem, só se for
mas se chama pelo nome
fica mais difícil de esquecer

é que é gostoso demais
te observar me observar
te decorar pelos cantos do corpo
te levar pra cama de novo
falar que é a última vez
antes da próxima
só pra fechar

mas quando a boca chega perto
não tem nem que encostar
e já quero ficar

e como eu sei que tu não presta
e tu sabe que não vai ter essa
de contar historinha
pra convencer só por mais meia horinha
eu invisto uma hora cheia
ocupo a cama inteira
beijo tua boca logo
me encaixo no teu corpo todo
e deixo o dia continuar

o problema é que a distância até a porta
é muito maior que a da tua boca até minha nuca
e, na nuca, não precisa nem encostar
e aí nem a hora se apressa a passar