ésse ésse

não é nem que é só cansaço, tem a ver com uma sequência de sentimentos ruins que vão se juntando um em cima do outro e apertando o de baixo e crescendo até que chegue outro que o aperte e cresça e seja esmagado pelo próximo que vai crescer antes de entrar no bolo de coisa ruim que parece que faz esforço pra se adaptar no espaço que tem no meu peito. uma angústia desenfreada que não cabe nas coisas que têm dado certo e ainda menos na vida que já foi tão pior. a sensação infinita de não ser suficiente e o gosto amargo que fica na boca quando eu sinto que tá doendo muito mais do que deveria. podia ser tão simples. era pra ser. eu cheguei lá. mas lá ainda parece tão longe daqui. e eu só continuo andando. o problema é que agora eu já tô cansada demais e tudo dói. eu só quero enfiar o dedo na garganta e vomitar até não sobrar mais estômago nem esôfago nem faringe nem boca e comece a sair o pulmão o coração e quem sabe quando as últimas veias saírem não saia também um ou dois dos sentimentos amontoados que a essa altura já devem ter virado uma coisa só. fica até mais fácil desentender o singular silencioso que só repete assim:

o sabonete velho na casa nova

parece quase errado mudar de casa tão do nada que o sabonete ainda tá meio inteiro e é claro que eu não vou jogar fora pelo amor de deus então se liga aí que tô tomando mais banhos que o normal nesses últimos dias na minha casa velha então devo estar mais cheirosa amor vem checar mas então como eu estava dizendo super esquisito isso de mudar de casa do nada tem que colocar a vida na caixa e a gente que trabalha com essas coisas que a gente trabalha sempre fala de pensar fora da caixa será que vale também pra mudança?, as mudanças fora da caixa devem dar um trabalhão é tanto treco né como que eu poderia levar o sabonete sem ter uma caixa onde colocar por exemplo.

mas isso aqui, meu senhor, é uma carta de amor

tem alguma coisa no jeito que cê me olha. cê não me olhava assim antes, não. é bom, agora. antes, meio desconfiado. uma coisa meio um pé atrás, outro também. uma coisa meio não-sei-direito-será-que-devo. uma coisa meio o beijo que cê não me deu no dia que a gente se conheceu. uma coisa meio o beijo que cê não me deu naquele outro dia também. eu não. eu te olhei com uma cara de quem te queria desde o primeiro dia. eu sou assim. não sei se dá pra ser de outro jeito, mas gosto de ser. bem assim. de ter te olhado com cara quem te queria. de ter chegado bem pertinho e quase morrido de vontade, mas ter aceitado que a chuva tava mais forte que a tua vontade de me beijar e te deixar lá, mesmo. foi engraçado pegar na tua mão antes de te beijar. foi quase-bom o tanto que a gente demorou pra dividir a cama. só não foi tão bom porque foi tão bom que podia ter sido antes. eu acho que na real quando te olhei da primeira vez já sabia que ia acontecer alguma coisa. a gente falou muito logo de cara. eu adoro falar muito, já te falei um monte. a gente fala tanto que a gente vai mudando. o assunto. o lugar. o semblante. a vez de quem. é mágico falar tanto te amando o tanto que te amo. é mágico o que você faz em mim. é mágico o meu peito que treme quando cê diz que me ama. quando cê me pede um beijo. meu peito falta sair do peito. pra onde iria, eu fico me perguntando. é que é mágico o gosto do seu beijo. o tanto que me hipnotiza o cheiro do seu pescoço. o tanto que me tira do eixo seu corpo colado no meu. você ressignificou meus dias. entrou na minha vida pedindo muita licença. mas quando cê parou pra me olhar, eu já tinha escancarado a porta da frente.

milly lacombe e quem morreu hoje

terminei de ler “o ano que morri em nova york” essa semana. uma avalanche de informações e sentimentos tomaram conta de mim desde o início dessa história: eu sou sempre a cafona que insiste em falar de amor. milly, então, por deus. o marcinho perde de lavada. o amor é tão bonito, quando bem vivido. e tão sofrido em todo o resto do tempo. os dois extremos convivem muito bem nessa história. história da milly, aliás. que escancarou as portas da frente da própria casa e revirou as gavetas pra falar sobre o que (quase) ninguém sabe e/ou quer falar. falar de amor. de traição. traição da cabeça pra dentro e pra onde isso vai levando a gente. traição dos próprios instintos. do que se sente. do que se é. falou de quando a gente só vai. de quando ir faz a gente descobrir um mundo. doido. novo. terminei de ler “o ano que morri em nova york” e esse foi um daqueles livros que me fizeram rir & chorar & perder: o ponto pra descer, a hora de dormir e a certeza do quê fazer. quem tem certeza? eu não tenho. de quase nada. tinha de mais coisas. mas aí eu li milly. li um monte de milly. e quando eu fechei o livro, descobri que milly tá vivíssima. nessa história, com esse tanto de vida, e risco, e dor, e amor, e perda, e ganho, e mais um pouco de risco, e suor, e muito muito mato, e verdades absolutas ditas por ninguém; quando eu li essa história, quando eu li tudo isso e acordei às quatro e meia pra escrever no dia seguinte, eu quase morri de novo quando descobri que quem tinha morrido tinha sido eu. que doido. já dizia vinicius. morrer e continuar vivendo. delícia. ele disse. eu morri. e tô viva.

como diria Sérgio Vaz

a gente sabe muito bem como funciona. escolhe fingir que não, mas não dá pra fugir: a vida só é o que é. não tem grandes emoções, nem um grande apelo no final: é 1 mais 1 que soma 2 e nenhuma boa fé vai fazer dar 11. aliás, Sérgio Vaz diria: viver é foda. o resto é poesia.

até essa frase que, sem querer, rimou. é só coincidência. não existe uma motivação externa ou qualquer intenção da escritora, que bate nas teclas com um pouco mais de força que o necessário, de fazer soar melhor. a vida não é feita pra soar bem, a vida não é feita pra ter flores nas pedras. adélia odeia olhar pra pedra e ver pedra. adélia, minha querida: é uma pedra. qualquer outra coisa é sorte. coincidência positiva. às vezes, aparece uma flor. às vezes, elas nascem. é a natureza. há quem admire, há quem ignore, há quem escolha poetizar. verbalizo, sempre.

a vida como verbo de ação é o meu ponto de partida. o problema, veja só, é que a gente raramente chega em algum lugar. qualquer que seja. em geral, a gente não sai de onde tá. sobe de cargo, muda de emprego, vai pra mais longe, assiste um show, ouve um som, pinta, escreve, transa, canta, bebe mais que deveria, fuma mais do que deveria, se enfia em buracos que não deveria. e a vida te mantém sempre lá: aqui, a priori. intacta. estática. empática, por escolha, quem quiser. escolhas, coincidências, reticências. a vivência é só o impacto do tanto faz nas ações de quem sempre faz. o resto é poesia. tem que fazer. alguma coisa. qualquer coisa. ou não fazer. mas lidar, sempre lidar. com a vida sendo o que é – e só o que é. o que você está fazendo?

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje

tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje. não é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. é uma parada: é mais ou menos como se a cidade inteira – ou a avenida paulista – parassem pra celebrar o orgulho lgbt no mesmo canto durante algumas horas. é a única data do ano que as pessoas não tacam coisas em pessoas no metrô por causa de arco-íris ou do seu tipo de amor. é basicamente o livre direito de circulação de pessoas lgbtq pra cidade. é mais ou menos assim: para aí, a parada é nossa. a cidade inteira, hoje, é nossa.

tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia. e é uma parada tipo negócio tipo um treco tipo um bagulho tipo um trem. essa parada é ótima: a gente tá aparecendo. saindo do armário, sabe? pouco a pouco, porque ainda dá medo. é osso de aguentar gente falando na sua orelha, eu admito. é osso de aguentar parente falando que você nunca foi assim, por que agora é?!, como se fosse uma escolha de roupa nova do dia. é osso de aguentar ouvir que é amigo de quem a gente ama do fundo do peito. é osso de aguentar ouvir que a gente é bicho, é verme, é sujeira, é promíscuo. a gente não é nada disso, não, cara. a gente é gente boa demais.
a gente quer dar risada da vida e faz isso todo dia, quando dá. quando não tem um da gente morrendo, tomando lampadada, sendo sequestrado, sendo injustiçado no trabalho, sendo nivelado por baixo porque não deixa seu amor pra lá. a gente dá risada da vida quando consegue andar de mão dada sem ter que ouvir que é bonito demais para. a homofobia é uma merda, puta que pariu, que grandessíssima merda. mas tem uma parada gay acontecendo em são paulo hoje, tem uma parada gay acontecendo em são paulo todo dia e, com sorte, vai ter uma parada gay acontecendo dentro de todo mundo um dia pra todo mundo entender que essa parada de ser gay não tem que fazer ninguém parar, não.
aliás, a parada é movimento, dança, é gente que se mexe, gente que quer fazer a roda girar, fazer a vida acontecer sem tanto drama, sem tanta trama, sem precisar criar esquema pra gente poder ser. a gente não quer ser gay – a gente nasceu gostando de gente e tá vivendo aí fazendo o que o peito diz que faz bem. tá bom ou quer mais? vou te contar: vai acontecer uma parada muito gay nos próximos dias quando eu encontrar a mulher que eu descobri que eu amo. e ela é linda, viu? muito, muito, muito linda. e a parada gay que acontece entre a gente tem tanto movimento que me leva mais pra frente do que eu jamais acreditei que pudesse ir. e acontece todo dia.
é uma coisa louca. dá até vontade de cantar daniela: a cor dessa cidade sou eu. quando eu tô com ela, o canto dessa cidade é todo nosso. eu quero movimentar essa parada pra gente poder ser movimento pra todo canto. essa parada que é um negócio tipo treco tipo bagulho tipo trem. tipo tudo isso. juntinho. igual a gente. que gosta de ser junto. juntinho.

armários

eu nem queria sair do armário e me socaram pra fora porque começaram a falar que deus não era legal, porque, olha, veja bem: gente legal não é homofóbica nem segregacionista nem te julga porque você transa antes de assinar meia dúzia de papéis – na real, mesmo, se você for ler a bíblia vai entender que deus era legal sim porque quer que a gente seja feliz de verdade e não faz o menor sentido botar numa necessidade fisiológica o peso da fogueira do inferno, mas, tá, seguimos: me socaram pra fora do armário porque eu não suportaria nem a pau viver dentro daquele lugar escuro e sem cor, daí, bem, foi isso, saí do armário da religião pela porta da frente e, ao invés de viver livre leve solta, soquei todos os meus amigos gays dentro do armário da minha vida e fingi para papai e mamãe que não eram gays coisa nenhuma eram só duas amigas, só dois amigos, ele tava abraçando de pertinho porque é bem carinhoso mesmo, eu juro, não precisa nem questionar duas vezes, mas aí elas se beijaram lá e minha mãe viu umas mensagens e ok, é gay, que que tem, deixa serem felizes, eu não tenho nada a ver com isso: até ter e nossa, como eu tenho a ver com isso e o que é isso que eu estou sentindo?, se ela é uma mulher eu não deveria estar me sentindo assim, tinha que ser diferente, tinha que ser um sentimento de admiração e amizade, mas eu queria mesmo era beijá-la até o dia virar noite e continuar beijando depois que a lua aparecesse pra dar seu brilho pro céu e aí isso pra mim era ser feliz de verdade, porque ela me fazia feliz de verdade, então eu preciso fingir que não e, olha lá, me instalei dentro do armário de novo, mas cansei, não tenho mais idade pra mentir, e saí do armário pela décima sétima vez e caminhei pra fora com o peso do mundo nas costas e agora eu to andando por aí avisando pra todo mundo que perguntar que o beijo que eu quero de manhã vem de outra mulher e ela é a pessoa mais linda do mundo e a porta do armário não cabe mais no meu quarto e na verdade o que eu sinto por ela também é bem maior que aquele espaço e eu explodo o tempo todo porque sinto que se eu me apaixonar só mais um pouquinho por ela meu coração vai triplicar de tamanho e vou precisar de um corpo novo pra colocá-lo: o nando reis fala que tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém e, hoje, fora do armário, talvez eu tenha entendido tudo e queira muito não explodir e só tornar esse amor real e entregá-lo às mãos que seguram as minhas pela rua, em público, sem madeira nenhuma em volta até porque marrom é uma cor morta e ela é a pessoa que mais gosta de cores que eu conheço – espero que tenha sido por isso que ela tenha escolhido ficar comigo: eu gosto das cores todas e meus amigos dizem que eu sou uma das pessoas mais coloridas que eles conhecem e eu quero dar pra ela razão pra enxergar todas as cores que existem nesse mundo.

quando você nasce pra dar certo e não dá

quando você nasce pra dar certo e não dá, sempre tem alguém pra te lembrar o por quê. como se tivesse alguma coisa a ver com não gostar de brincar de boneca. como se fosse culpa de divórcio. ou de más influências. como se tivesse sentido culpar aquela minha amiga. como se tivesse sentido culpar.

ninguém nunca me culpou por trabalhar demais – só meu próprio corpo e meus terapeutas. ninguém nunca procurou em quem colocar a culpa das minhas conquistas profissionais. nunca sequer questionaram se havia uma razão pro meu jeito emoção de lidar com o mundo ao redor: eu sempre cuido pra que a vida seja mais leve. não tem culpa.

mas me culpam por gostar de acender um cigarro de manhã junto com o café. por ter largado cursos que não me faziam bem. por dizer não quando eu não quero. por querer ficar com quem me dá vontade de ficar, não importa onde. como se a gente tivesse escolha, sabe? como se a gente ficasse ponderando o que incomoda mais, só pra incomodar – e a gente pondera o que faz sentir melhor, e faz.

mas, se você nasce pra dar certo, você teoricamente não tem o direito de fazer o que faz sentir melhor. você tem direito de fazer o que tem que ser feito. casar, ter dois filhos, terminar a faculdade, fazer uma especialização, um mestrado, ser phD em alguma coisa. aí você não faz: não quer casar, não quer ter filhos, dane-se o academicismo. a minha pira é outra.

quero realizar: ver as coisas mudando de forma, a vida em movimento, os dias acontecendo um atrás do outro – sem pausas. eu gosto de quem acompanha. quem topa o vinho no copo errado, a cerveja na rua, a exposição no fim do mundo num dia aleatório, ficar junto pra não dormir. gosto de quem fica junto. essa é a minha pira.

e acho que nem tinha que ter medo envolvido nisso aí. nem vergonha. nem pé atrás. boto os dois pés na frente, com medo mesmo. na cara, nem vergonha nem maquiagem. limpa. lavada. indo, sempre. pra onde, eu descubro.

um dia alguém vai me dizer que lembra de um texto que eu escrevi um dia sobre não ter vergonha nem medo e eu vou falar que também lembro. porque eu tenho escrito esse texto a vida inteira. e ele nunca vai estar completo: eu não sou o que nasci pra ser – eu não nasci pra nada, porque eu nasci pro todo. e o todo é coisa demais pra acabar um dia. então tá bem: tragam os ossos do ofício, indiquem os palheiros que eu busco as agulhas, minha cara está pronta pros tapas e eu comprei peroba pra passar na minha cara de pau. deixo que digam, que pensem, que falem. manda a bola, eu rebato no peito. deixa a vida ser o que é. a minha é. sempre vai ser.

à você

à você que também viu o rato atropelado na calçada da rua das olimpíadas. à você que vestiu a melhor roupa para aquele dia. à você que nunca conseguiu acertar a conta. e à você que acerta sempre. à você que ficou cinco minutos para entrar na estação antes de entrar na fila e depois mais cinco antes de chegar na plataforma e esperou cinco trens para entrar em um. à você que não tira a roupa quando chega em casa para não desanimar. à você que não desanima. à você que sabe que nada se constrói sozinho. que aceita o outro. à você que acha tempo para cantar alto na rua. à você que come bala halls preta e deixa o papel grudado dissolver na boca e engasga um pouquinho. à você que almoça no self-service mais barato. à você que arregaça no vr. à você que almoça rapidinho. à você que extrapola o horário de almoço. à você que toma três xícaras de café uma atrás da outra. à você odeia café, mas. à você que lê andando no meio da multidão. à você que beija em público. à você que não gosta. à você que acorda às cinco e meia achando que não merece – e à você que tem certeza. à você que vai dormir com a sensação de dever cumprido e à você que podia ter feito um pouco mais. à você que fica inquieto, à você que pega livros emprestados. à você que ensina e à você que ouve atentamente. à você que tentou colar salompas no pé para ver se diminuía a dor e à você que também descobriu que não adianta. à você que mantém a pose. à você que esculacha. à você que vai acender o cigarro e não acha o isqueiro. à você que empresta o isqueiro. à você que canta. escreve. pinta. dança. sabendo ou não. à você que tenta: principalmente à você. à você que tem dez anos que. à você que quer completar dez anos que. à você que enfia a cabeça no celular para não perder a estação dormindo. à você que inventa histórias para todas as pessoas ao seu lado na plataforma. à você na plataforma. à você de terno, à você de salto, à você de chinelo, pijama e bafo. à você, sem camisa na rua. à você que vive, um recado: você dá conta. e não importa o resultado.

no final dessa história alguém vai morrer

no final dessa história alguém vai morrer. mas antes vai passar pelo supermercado e comprar dois pães, manteiga sem sal pra fazer bolo e uma caixa de leite de soja. depois, vai andar com as sacolas todas na mesma mão e vai sentir a pressão do plástico na dobra dos dedos e vai mudar a mão porque vai doer. depois vai parar numa padaria pra comprar um novo maço de cigarros porque esse já está quase acabando e, você sabe, não dá pra ficar sem quando se chega a esse ponto de. depois vai continuar andando e chegar em casa e colocar as coisas em cima da pia de mármore sujo e sentar no sofá. então vai ligar a televisão e balançar os braços pra aliviar a pressão que fica nos dedos depois de carregar sacolas de plástico numa só mão. depois vai levantar do sofá com muita dificuldade porque a coluna vai doer e vai pra cozinha fazer o bolo com a manteiga sem sal e o leite de soja. depois vai pensar consigo mesmo que não faz o menor sentido comprar um leite de soja e uma manteiga comum, sem sal, mas vai fazer o bolo mesmo assim e enquanto estiver misturando a farinha com os ovos o leite de soja e a manteiga comum, sem sal, numa batedeira velha e encardida em cima da pia onde ainda estarão as sacolas amassadas, vai pegar no fundo do bolso o maço de cigarros e colocar um deles entre os lábios sem acender. vai perceber que a batedeira está fora da tomada e vai ficar sugando o filtro vermelho enquanto sente na boca o gosto das oitomilsubstânciastóxicas do cigarro e vai continuar batendo o bolo e vai colocar a massa na forma e ligar o forno e colocar a forma no forno. depois vai até a sala e vai sentar no sofá de novo, agora com o saco de pães, e vai cochilar e acordar com cheiro de fumaça forte e um calor descomunal e aí a coluna vai doer pra levantar de novo e o fogo vai começar a chegar perto demais. depois os pés vão começar a queimar e os chinelos vão derreter e a coluna vai continuar doendo e o fogo vai se espalhar pelo sofá que já estava velho e precisava mesmo ser trocado. a dor nos pés já vai ser insuportável e a coluna não vai deixar sair do lugar – muito menos com as pernas agora queimando como queimam os pedaços de carvão em churrasqueiras de tijolo. e depois as roupas velhas vão pegar fogo. e quando os bombeiros chegarem vão apagar todo o fogo e vão encontrar no forno o resto de um bolo feito com leite de soja e manteiga sem sal que ficou carbonizado e ninguém vai se importar e nem se surpreender. o bolo vai deixar de ser. o cigarro vai estar queimado, em cima da perna. os bombeiros não saberão dizer se estava aceso. e você já sabe o que aconteceu comigo.