i’m not just a lucky bastard

every time people ask me how did I get “here”, I answer: sweating. literally. sweating in the bus to get to meetings scheduled really far from my office, running out of time but still working hard so i can meet really (really… really!) tight deadlines. eating junk food to go back to work quickly, for days. even weeks. drinking as much coffee as i can without creating a hole in my stomach. it’s hard to get. and listening to pop music so i could dance instead of falling asleep after three days working without having more than 4 hours of sleep. coffee doesn’t help in it at all, if you wanna know.

and now that i’m “here” (where is “here”, i wanna ask, but won’t), everyone tells me i’m just a lucky bastard for getting this job, meeting these people and working for someone with whom i can possibly be in the background of a picture in a magazine cover. but i’m not a lucky bastard. i’m a hardworker and being a hardworker has its price. it’s expensive. it gets you tired. it gets you awake for days. it’s not cool. it’s not cool to be a workaholic. it can’t be cool to drink so much coffee your blood changes color. it can’t be good when you’re not able to be in your cousin’s birthday just to meet an impossible deadline.

my dad always told me i had to keep balance — i never listened. my whole life’s been a succession of days i wake up standing in the limit of the abyss and ready to take another step. and. never. fall. day by day, learning to build more floor below my feet. learning to make the 16 year old girl who started working in her family business proud. because that girl never loved her family business. neither does the woman i’m today. but i love so fucking much everything i conquered. every job interview, every project i finished 4 hours before the deadline after spending the night desperate with no ideas. every awaken night. every day waking up 5am, every coffee, every task list filled with checks. everything that will always be alright.

when you finally understand this — when you finally understand that everything is gonna be alright and that the bad is going to pass as fast as the last good day did, your life gets much more sense. your life gets better because you understand you can’t avoy sadness just to be happy one more day in a row. and you simply deal with sadness the way you deal with happiness: being sad and letting your blood heat and you skin burn. letting tears come and people go. you do all of it because you are strong and you deserve the good days that will come after. you do all of it because you sweat, and don’t because you’re a lucky bastard. you can only be called by that if you don’t do a thing and get stuff. if you sweat, if you try, if you work hard, you’re not lucky. you simply conquered what you worked for. and you deserve it. enjoy.

ode ao rio

ainda tem areia da praia da barra nos meus óculos de sol. é engraçado, porque o rio de janeiro nunca vai embora de você. você volta pra sua cidade, vê o cinza dos prédios, mas, se fechar os olhos, quase sente o bafo quente que se compensa pelo céu e pelo mar. e pelos morros. e pelas mulheres de biquíni almoçando em botecos no leblon. você quase consegue ver os postos das praias no meio das calçadas, quando volta do rio. eu digo que, acredite, é só fechar o olho pra sentir a lata de antárctica gelada suando na mão. ninguém passa imune aos arcos da lapa. nem aos botecos da barrinha. nem às caipirinhas do posto 9. e não passar imune pode ser amor ou ódio – a linha é tênue. eu já tinha ido pra lá e voltado com ódio dos preços do transporte e dos rostos mal humorados de quem não suporta visita de quem não fala chiando, nem usa o “r” com emoção. o rio de janeiro é pra quem vive com emoção. uma experiência de gente grande que absorve a rua e bebe em boteco do centro depois de sentar na mureta da urca com mais gente grande, vinda de todo canto do mundo. o corpo tenta abstrair, mas repete que ele continua lindo sim. o rio, por assim dizer. canta que eu rio porque tô no rio de janeiro. e repensa a ideia de vida da selva de pedra. remonta. revive. dá vontade de ficar, voltar, cuidar, conhecer os idosos que tomam muita cerveja, comem camarão e comemoram cada dia que termina e todos os que começam. dá vontade de mostrar o rio que não dá vontade de ir embora. de guanabara, botafogo e jacarepaguá. é caminho sem volta. o rio faz você se apaixonar ou odiar profundamente. mas você sente, sempre sente. muito. e traz pra casa uma saudade. e areia da praia da barra nos óculos de sol. tem um rio pra todo mundo e um pra cada um. tem o rio dos ciclistas, dos banhistas, dos turistas, das ativistas feministas e dos paraquedistas – é só procurar. conheci um rio pra turco, carioca, baiano, paulistano e até russo que achou ali um lugar. tem um rio pra cada um e eu quero construir o meu – e vou começar com a areia da praia da barra que ainda tá nos meus óculos de sol.
 

a importância da autoconsciência e das coisas que a gente não pode aceitar na cama de casa

tem muita gente por aí aceitando muita coisa que não devia. não preciso ir longe — na real, não preciso chegar nem no quintal de casa. pra ser mais específica, não preciso sair do quarto. deitada comigo, eu mesma trago pra cama, de quando em quando, uma porção de coisas que não deveria. pessoas. projetos. lugares. experiências. cansaços. notícias. pesares.

coisas que poderiam ter ficado lá, de onde nunca deviam ter saído e eu, sendo como sou, insisti em arriscar. trazer. e carregar.

mas a gente precisa lembrar, todo dia antes de levantar da cama, exatamente quem é, o que aceita, à quê veio e exatamente o quê é capaz de mexer com a nossa cabeça. parece muita coisa, mas dá pra separar nos dedos de uma mão sem precisar preenchê-la por completo. geralmente dá pra especificar numa frase. se apertar, numa palavra só.

saber quem eu sou me faz escapar de muita furada. e me faz mergulhar de braçada em outras inúmeras. ser quem sou me trouxe empregos, parceiros de trabalho, amigos que abraçam apertado, experiências maravilhosas e uma porção de histórias pra contar (que eu com certeza vou repetir mil vezes, porque, sendo quem sou, esqueço de tudo).

saber que sou quem sou é o que me faz seguir minhas vontades sem pestanejar e viver a vida deliciosamente, sem mais pisar em ovos. é o que me garante que um “puts, isso foi cagada minha! me desculpa?” não diminui em nada o que sou para quem convive comigo, porque a autoconsciência de ser alguém que vale a pena ter por perto faz com que uma cagada aqui e outra acolá, se bem conversadas e esclarecidas, não são nada perto do monte de coisa boa que eu, sendo quem sou, posso dividir com quem divide a vida comigo.

isso não é umbiguismo: saber quem você é garante que você saiba, também, quais são seus pontos fracos e até onde isso é relevável pra quem tá ali no teu cangote no dia-a-dia. saber quem se é também é entender que a gente precisa ser um pouco mais do que foi ontem pra não parar no tempo. saber quem se é também é deixar de ser.

a gente tem que saber quem é pra evitar de trazer pra cama gente – e coisa – que só vai fazer mais peso na sua cabeça na hora de descansar no travesseiro. a gente precisa saber os pontos altos e baixos da gente pra não se enfiar em beco sem saída e acabar com o travesseiro molhado de choro angustiado numa madrugada qualquer. a gente tem que saber quem é, até onde vai e o que aceita pra não se afogar numa maré que nem sempre é preciso nadar contra.

a gente tem que saber quem é pra poder viver em paz. pra saber que, pelo sim, pelo não, pela boa decisão, pela cagada, pelo mergulho em mar aberto ou pela ducha no chuveiro de casa, a gente faz o que faz por respeito à quem, pela manhã, sempre acorda comigo numa cama que, se tudo der certo, amanhã vai ter uma coisa a menos com o quê dividir espaço.

(em resposta ao poema “eu durmo comigo”, de Angelica Freitas)

não me siga, eu também estou perdidzzzZzz & um ode aos clichês

“não me siga, eu também estou perdida.”, cê já deve ter ouvido isso, eu aposto. ou lido, em alguma placa, num bar, num restaurante modernoso ou estampado numa caneca numa foto de fundo desfocado d’um instagram de feed organizado. quem tem tempo pra organizar feed? eu mal organizo minha mesa. aliás, fiz isso hoje: ano novo, mesa velha. arrumada, ao menos. voltei de viagem e tinha até um pedaço de calça em cima do meu computador, que estava na cama – não uso computador na cama há anos. agora, tudo sob controle. pedaço de calça no lixo, computador na mesa: cada coisa em seu lugar.

na vida, não posso dizer o mesmo. mas posso repetir clichês. uso e abuso deles e re-repito [neologismo já está permitido em 2018?]: não me siga, eu também estou perdida. e pra onde ir quando não se sabe onde está? parece abstrato, mas é menos complexo do que o diálogo de alice no país das maravilhas. eu estou aqui. na minha mesa, agora organizada, sentada, um tanto atrasada pra um compromisso que marquei não tem nem vinte minutos. marquei sabendo que tinha esse texto pra terminar: marquei sabendo que não chegaria a tempo. marquei. se isso não é coisa de gente perdida, o que é?

aliás, tem coisa mais perdida do que marcar compromissos em horários inviáveis com a falsa ilusão de que chegará em tempo? reunião às 9h num local a mais de 40 minutos de distância: ninguém chega a tempo. café da manhã às 10h na padaria debaixo de casa: não chegarei a tempo – porque é perto, vou me atrasar e sair de casa às 10h15. reunião de trabalho depois do expediente, às 18h30: não é HUMANAMENTE POSSÍVEL chegar a tempo em qualquer lugar entre as 17h30 e 19h00 em são paulo. e, mesmo assim, marcamos. por que? porque somos todos perdidos, oras. quer dizer: eu sou.

já falei? e tem mais: não me segue, não. no instagram, se quiser, pode ser. o feed não é organizado, mas as legendas são engraçadinhas. no twitter, seja bem-vindo. na vida, pelo amor de deus, me perco no caminho de casa. confundi a tijuca e o leblon, uma vez. se me largar no centro da cidade e for muito longe da roosevelt, já esqueço como COMER, tamanho desespero. não me siga.

meus amigos inventaram de me seguir, uma vez. o destino era o bixiga. acabamos numa avenida aleatória, onde todos os comércios estavam fechados e a uma ladeira IMPRATICÁVEL de distância de qualquer local conhecido. me seguiram. pagaram o Uber. é isso que acontece quando me seguem. não me sigam. eu não só estou perdida, como sou.

agora, por exemplo: vou chegar atrasada. não precisava, podia ter marcado meia horinha mais tarde pra dar tempo de, pelo menos, dar um jeito no topete. a única coisa que me consola é que a outra pessoa que vai dividir a mesa comigo também escreve. esperar me inspira. deve inspirá-lo, também. quem sabe, na minha chegada, não exista uma porção de guardanapos com um texto prontinho para ser publicado.

posso chutar? o título será algo perto de “por que insistimos em quem nunca chega na hora?” e, meu caro amigo, eu te respondo desde já: você insiste em mim e me espera, porque eu sou perdida. e não saber onde se está rende ótimas histórias. quer coisa melhor? um dia, te conto a do pedaço de calça em cima do computador. agora não dá, tô atrasada. mas tô chegando. me espera. pede chopp pra dois?

um texto de quem viveu 2017

sentei pra escrever esse texto umas quinze vezes. nunca pareço encontrar as palavras certas: logo eu, que falo tanto, escrevo o tempo todo e sempre tenho um pitaco pra dar. acontece que esse ano foi muito doido. eu comecei de cabelo comprido a viver 2017 e fui cortando. lugares, ocupações, hobbies, julgamentos, pessoas, palavras, medos, hábitos. fui cortando e sobrou só o necessário: quando vejo foto da mesma data do ano passado, não me reconheço. o óculos era outro, o cabelo muito longo, o sorriso menos largo do que deveria. e sempre fui de sorrir largo. mas tem excesso que a gente precisa cortar pra aumentar. tem excesso de medo, de mania – tem excesso de falta de coragem que faz a gente parar por tanto tempo. a gente só percebe que estagnou quando anda de novo.

no último ano, perdi a vontade de fazer cena. perdi a coragem de não me ouvir – que tarefa desafiadora essa de ignorar alguém que nunca te abandona. perdi o medo de perder: elizabeth bishop já tinha avisado que a arte de perder não é nenhum mistério. eu que nunca quis ouvir. perdi o medo e tatuei um monte de coisa que eu amo ver no meu corpo. tudo de uma vez. ouvi que era doida um milhão de vezes. sou. mudei o óculos e o ponto de vista: parei de usar remendos pra enxergar a realidade que tava na minha frente, sabe? aprendi a enxergar as coisas de forma crua e transparente, porque é mais fácil ser feliz quando a gente não se perde nas ilusões que cria porque quer. e cria porque quer ser mais feliz. é quase irônico.

foi nesse ano que eu entendi que cometo erros mil, mas que eles são parte do processo. que tem gente que usa a gente de apoio e que tudo bem, porque a gente faz isso com os outros sem notar, também. aprendi que a vida da gente é mais que a falsa estabilidade de saber pra onde ir amanhã de manhã. fui pra tantos lugares novos amanhã de manhã. falei sim pra umas coisas que até hoje não acredito. conheci gente da melhor qualidade. dancei até o chão, gargalhei altíssimo. atrapalhei várias reuniões, levei tantas outras nas costas. conquistei: clientes, pessoas, amores, inimizades. a gente conquista um monte de coisa sem perceber. tão bom sentir que a gente consegue conquistar gente boa. gente que fala da gente sorrindo, depois.

que delícia conquistar gente que imprime na gente uma vontade de quero mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer mais. que delícia conhecer gente que faz a gente querer ir embora – que delícia ir embora de onde a gente não quer ficar. que delícia ficar onde a gente quer ficar.

fui embora mais cedo de shows, fiquei até a balada acender as luzes. abracei pessoas que me inspiram. ouvi artistas incríveis de pertinho. senti o que é viver a arte à flor da pele. criei tanta coisa boa. criei tanta coisa ruim. cantei e gritei a noite inteira e depois emendei num almoço de família. miei o rolê e dormi até mais tarde. me dei o dia de folga. trabalhei domingos inteiros. pedi o isqueiro emprestado, emprestei isqueiros mil. perdi isqueiros. perdi a hora, a paciência, a noção, a caneta azul, o tine, o rumo e a vontade.

a arte de perder não é nenhum mistério. um ano de perdas e ganhos. perder e ganhar são exercícios de vida. vivi. vivemos. que fique perto quem está disposto. paz e bem à quem não estiver. paz e bem à vida. e um brinde à nós, que somos ótimos. sempre ótimos. e seguimos. sobrevivemos.

graças a deus.

causa mortis

você entra no elevador e tem certeza que todas as mortes do século passado foram ocasionadas pelas pessoas que fumavam em elevadores. o ícone universal que proíbe sigaros em locais fechados, alocado bem na altura dos olhos dos viajantes daquela peça de metal, indica que querem que menos pessoas morram neste século que agora estamos. aí você sai do elevador e acende seu próprio sigaro sem jogar fumaça em ninguém pra morrer sozinho, se for o caso. anda pelas calçadas desniveladas e pensa que algumas das mortes deste século nada têm a ver com os sigaros e sim com tropeços de senhoras de setenta e tantos andando por lugares que seus andadores emperram e seus queixos, já frágeis, dão beijos de amor louco numa pedra fora de lugar in this sidewalk, baby. sidewalk esta preenchida por mulheres e homens carregando seus bebês protegidos do sol com uma manta quente que vai matá-los de hipertermia num futuro próximo. e aí você pensa que as mortes do próximo século serão majoritariamente de bebês protegidos do sol com mantas quentes por mães e pais que tentam evitar e causam. entra pra tomar um café no primeiro estabelecimento que vê e gasta quase vintchy reais num café com pão, entende que, na verdade, os sigaros mataram pouco e as mantas só fazem suar: o que vai matar a próxima geração são os preços exorbitantes dos cafés com pão. aí você anda mais, passa por umas bibocas esquisitas com a sensação de que está no lugar errado, chega no lugar certo, pega o ônibus pra casa e sobe as escadas, porque sua casa não tem elevador e os sigaros poderiam ser acesos sem causar uma ação genocida. entra no chuveiro, toma um banho frio. percebe que nada mata, a gente só morre. a vida acaba mesmo. que loucura. não pode acabar hoje, nem amanhã. você percebe que antes de acabar tem tanta coisa pra fazer. tanta coisa pra confabular sobre a morte. tanta coisa pra confabular sobre a vida, a maior e melhor fábula de todas. e senta. num lugar aberto, pra não matar ninguém. acende um sigaro. viva, enfim. vivíssima. 

tomar cerveja em são paulo e outros caminhos sem volta

eu nunca perco uma oportunidade de tomar cerveja na rua em são paulo. geralmente, me deparo com situações maravilhosas que fazem valer a pena quaisquer cochilos dados no metrô na volta pra casa. já conheci gente incrível em fumódromos diversos. já acabei em lugares diferentes com pessoas que eu jamais imaginei conhecer. já respirei o ar podre do baixo augusta (alguém ainda fala isso?) e o ar tarifado da oscar freire na mesma noite. já me meti a ficar zanzando pelo centro de são paulo pra ver “onde isso dá”. lugar nenhum, se querem saber. na roosevelt, geralmente. se bem ou mal acompanhada, deixo no ar. era de se esperar.

andar por são paulo é uma aventura doida. quem se atreve a sair do trecho baladas-na-augusta-ou-vila-madalena-ou-pinheiros consegue encontrar de tudo. sobretudo, gente. num mesmo final de semana, encontrei andando sem pressa por essa cidade um casal de amigos, uma menina que conheci em 2008 (quando ainda fazíamos fakes no orkut e vivíamos vidas baseadas em ações precedidas por um asterisco), um cara ótimo que eu não via há algum tempo e uma amiga que fazia um ano que não aparecia nem numa janela do whatsapp. fui da zona norte à sul, passei pelo centro e me enfiei na zona oeste em alguma parte do final de semana que, se você me perguntar agora, não vou saber te dizer qual.

tem que ter muita coragem pra viver em são paulo: é tanta coisa pra explorar que você sempre vai acabar encontrando alguém. ou alguma coisa. ou alguém meio coisa. ou uma coisa meio gente, que vai te fazer pensar em algo e te dar um estalo e você vai ter a epifania necessária pra fazer o dia inteiro diferente. e aí você vai pra um lugar que nunca imaginou, numa travessa de uma avenida que nem sabia que existia (mas tem doze bares, um copo sujo e duas baladas) e encontrar um cara que você não vê desde o casamento de 2014. nessa altura, já se divorciou e casou com outra. ou outro.

caminhar por esse buraco te leva a encontrar amores mil e perdê-los todos por entre os dedos, sem dar tempo nem de segurá-los. cê sente tanto gosto que já nem sabe mais o seu. e depois decora tanto o seu que não consegue mais se afeiçoar por gosto nenhum. cê conhece tanta gente nova que sente que tava perdendo tempo de vida e aprende a sorrir pra todo mundo que aparece, porque provavelmente o novo vem acompanhado de uma ótima história. quem vive por aqui aprende a ouvir histórias como ninguém e a construir as suas próprias usando mão-de-obra independente.

se um dia você acabar na zona norte, depois de uma festa que acontecia na zona oeste, pra onde você foi depois de um esquenta na zona sul, pare num boteco qualquer e peça uma cerveja. conhecer são paulo é tão longe de conhecer os lugares-de-sempre que posso te dizer que o maior ponto turístico é o metrô, que te leva pra todo canto. a cidade inteira é uma coisa louca, as regras não existem e não tem ninguém capaz de sair imune a esse caos. ainda mais se for são paulo de verdade, com copo sujo, um certo grau de dificuldade de acesso e um monte de moradores bairristas que nunca vão aprender a deixar a esquerda livre.

eu nunca

você sempre, eu nunca. quem vira o copo? uma vida baseada em amores rasos que vão embora rápido numa peripécia infinda de tentar envolver qualquer coisa que não tenha nem solução, nem objetivo, nem questionamento, nem consequência pro caso de vir a acabar. a gente se envolve nas coisas pra quê, se nem objetivo têm? pra onde elas vão, afinal?

você sempre vai, eu nunca fico. a gente acaba no mesmo lugar, mas, o copo, quem vira?

eu viro a casaca, jogo no mundo, quero que o mundo se acabe em fel pra eu poder adoçar. você assiste o espetáculo e aplaude no final. se bato o pé no chão e jogo o braço pro céu, você segura minha mão e me beija pra me calar a boca. não dá pra te enfiar em música nenhuma, porque você canta todas e tudo te encaixa bem. eu sou uma coletânea riscada das canções do cazuza que ninguém nunca ouviu. exagerado é pouco e o amor que ele inventa não chega nem perto do amor que a gente criou. e que criação, ein?

moldamos a mão cada uma das curvas de uma estrada de barro, horrível de andar apé, pior ainda pra pneus de má qualidade como os do seu carro – que vive quebrado enfurnado em alguma oficina meia-boca que nunca vai resolver problema nenhum. e a gente anda mesmo assim. você, sem reclamar. eu, listando todos os contras. o único pró é que você tá junto. pra você, a paisagem vale o perrengue. esse copo, mais ainda, por deus, quem será que toma.

você sempre, eu nunca. eu nunca topo nada pré-agendado, detesto essa parada de ir sempre no mesmo lugar e caminho pela vida descobrindo pra onde tô indo a cada passo que dou. você sempre sabe pra onde vai, senta na mesma mesa do mesmo bar, pede a mesma cerveja pro mesmo garçom que já decorou seu gosto, seu rosto e seu cartão. você tava no de sempre, eu tava no de nunca. por acaso, dividimos o balcão. duas pingas, puras, sem limão.

você sempre, eu nunca.

quem vira?

biografia

 

bem,

me pediram uma biografia
explicitar como é que eu ia
ajudar como eu podia
a entender que que tem
na cabeça dessa guria
que ora tá bem
ora, quem diria!
um furacão que ninguém imaginaria
ver bradando aos sete mares
as dores, os erros, os pesares
pintados à mão numa parede branca
um furacão que se personificou
pra vomitar seus defeitos
e organiza-los
entendê-los
encará-los
escrachá-los
um a um
mostrar pro mundo que é sempre tudo
que 8 ou 80 é pouco
que só adianta alguma coisa se tatuar pelo corpo as fraquezas
pra todo mundo ver
que que se foda quem quiser perder seu tempo
falando coisas como “você não vai acreditar!
ela dormiu numa mesa de bilhar,
fumou quatro maços de cigarro antes do dia começar,
trepou com aquela mulher,
e depois cantou uma canção
enquanto fazia cafuné
no rapaz que a interessou!”
vão falar que o decote é profundo demais
que ninguém deveria usar essas palavras antes das dez
que tem crianças aqui
que ela faz poesia porca
que não encanta ninguém, só choca
que arte quem faz são os grandes pintores que usavam azul pra esconder sua dor
e enquanto falam
e falarão
falarão
falarão
eu vou continuar caminhando por aí
com decotes até o umbigo
fumando todos os cigarros que minha vontade permitir
trepando com as mulheres homens and all the freaks in the middle que me fizerem qualquer coisa sentir
e se por acaso eu parar num bar
desses de esquina qualquer
com um cachorro na porta
e dois bêbados num balcão
e um deles me disser
que ouviu falar de mim
vou sentar ao lado deles
encher meu copo de cerveja
e perguntar
“o que dizem agora por aí?”
e deixar que os porcos
loucos
sujos
sem futuro
contem as histórias
que os limpos
sãos
críticos e estáveis
gastaram seu tempo
inventando sobre alguém
que respeita suas vontades
e escreve foda-se com seus defeitos
escrachados numa parede branca
une tudo
molda
e transforma num poema
que um dia eles vão querer citar.

7×1

milagre ninguém faz. reza braba tem uma porção. garrafa de vinho, de cerveja e de cachaça nunca faltam. nem faltarão, amém. há quem diga que deus proverá – eu não duvido! mas, se a resposta tá no céu, eu vou buscar. nem que seja apé.

problema aparece pra gente resolver: tapa na cara é pra endireitar o rosto, soco na fuça estala o pescoço e pé na bunda te leva em frente. se tudo vem forte e ao mesmo tempo, a gente senta. e aproveita que vinho, cerveja e cachaça nunca faltam. aproveita que tem lugar pra sentar e abre mais uma. aproveita que tem vida pra viver e ri mais alto. aproveita que a arte existe e ouve um som. bom, de preferência. aproveita que a bunda existe e rebola. sozinha, se for o caso.

aproveita que o tempo tá ameno pra usar um moletom confortável. aproveita que a meia feia tá lavada pra vestir e andar sem sapato. aproveita que a pia tá limpa pra não se estressar com isso. aproveita que a pia tá suja pra deixar mais um copo. aproveita o copo limpo pra encher de uísque. aproveita o copo sujo pra empilhar no outro que tá na pia e encaixar certinho, como se tivessem sido feitos pra isso.

se tá uma loucura, a gente aproveita. a gente aproveita o caos pra mandar o mundo a merda. levanta da mesa e vai embora antes do horário; senta na mesa e fica até depois, abre a terceira garrafa de vinho e conta mais uma história. aproveita pra ouvir sobre as mulheres maravilhosas da vida de quem for e as mulheres frouxíssimas de outra vida que perambula por aí e ainda bem que cruzou com a sua. a gente aproveita o clima frio pra dar um beijo quente, aproveita o abraço apertado pra se esconder do vento, aproveita a vista bonita pra se inspirar sem ver passar o tempo.

e se aparece uma pedra no sapato a gente para e tira, se aparece um murro fora de hora a gente abaixa e desvia, se aparece um 7×1 a gente grita gol e se aparece um garçom a gente pede pra descer mais uma.

se a vida quebra em dois, a gente não costura: vai duas vezes mais forte pra briga e deixa o adversário tontinho. a gente usa o melhor de cada metade e pede mais uma pra brindar.

se a vida deixa sozinho, a gente olha pro céu e aproveita pra cantar. sem ter ninguém pra falar, ninguém vai reclamar. a gente aproveita pra ouvir música brega e cortar um pouco mais o cabelo. a gente sacode a poeira e deixa ela baixar.

se a vida mete o pé, a gente chega na voadora. porque eu prometi um dia e vou cumprir todos os outros: se quiser me foder, vai ter que se preparar, porque eu não vivi tudo o que vivi pra desistir por nada mais ou menos. pode vir, mas vem de jeito. porque eu até perco a partida, mas o palanque é meu. e vou dançar até chegar o que for que eu tiver que enfrentar.